domingo, 3 de agosto de 2025

MILAGRE DE SANTA DULCE

 

Chegada da imagem de Santa Dulce dos Pobres, conduzida por milhares de peregrinos, à pequena ermida - à direita - sob a sombra dos paredões rochosos da velha serra de Itabaiana da lenda da prata, do carneiro de ouro, etc., etc..

Hoje, realizou-se a peregrinação local, rumo à ermida serrana da Santa, ereta ao sudoeste da serra, limites do Parque Nacional da Serra de Itabaiana, cuja vizinhança nobre é o franciscano Parque dos Falcões. Sucesso. Mais vez.

Logística impecável; ambiente humano dos melhores, mas o que mais chamou a atenção é que desde a quinta-feira à noite que São Pedro vem carregando na mão, e em todo o Sergipe, nas serras em particular, as chuvas se intensificaram, ao ponto de ameaçar a própria peregrinação, se não influindo pelo seu adiamento, mas pela sensível redução de público. Qual nada! Não apenas se manteve, como sofreu sensível aumento, em relação a do ano passado.


350 anos: Santo Antônio, o acompanhante ilustre.

Neste ano, Santo Antônio se fez presente. Ele, de quem Santa Dulce foi devota; que foi a primeira denominação da cidade; cuja paróquia, deu origem à mesma, há 350 anos.

Neste ano, a imagem da Santa ganhou, como acompanhante, Santo Antônio. Que foi da devoção da Irmã Dulce dos Pobres, desde que a jovem Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes se definiu em sua vocação religiosa.
Mas não é somente isso. Santo Antônio da Itabaiana é o nome original da cidade em que Santa Dulce fez o seu primeiro milagre, o que levou o Vaticano a proceder a sua canonização.
Santo Antônio de Itabaiana, antes mesmo de sua paróquia, foi o primeiro grande fornecedor de gado aos ancestrais da irmã Dulce; e, a cidade de Santo Antônio, está fazendo 350 anos – o Sétimo Jubileu de Ouro – de fundada, com a óbvia fundação da sua paróquia, no próximo dia 30 de outubro.
Nada mais natural que acompanhar Santa Dulce nesse belíssimo cortejo à pequena, humilde e graciosa ermida da serra. Feita, segundo o estilo Santa Dulce: simples, terna, ativa. Funcional.

Matando Saudades

Particularmente, estive tentado a me somar aos desistentes, caso São Pedro mantivesse suas copiosas nuvens a nos regar.
Para o meu bem – e do meu parceiro de aventura, Juarez Ferreira de Góis – o dia, com esparsas garoinhas, se mostrou muito mais que amigável que o esperado: belíssimo.
O sol veio na medida e constância, certas; as estradas, enlameadas, mas transitáveis; apesar do aguaceiro dos dias anteriores. E, voltar a sentir aquele cheiro de mata agreste – a Caa-ndu, que deu origem ao nome do povoado: Gandu – recentemente molhada... não tem preço.
Os pés de alecrim-de-serra, verdinhos, a cada toque ou sobraçada, liberando aquele cheiro inebriante... coisa para Chico de Assis nenhum botar defeito. Com direito a Irmão Vento, em modo brisa, a tudo a me trazer, de graça, os aromas com que vivi na infância.
Mesmo ainda em recuperação motora, por AVC sofrido há seis anos, ainda arrisquei os últimos dos 13 quilômetros, em acentuada subida, feitos a pés. Estimulado, claro, pela vigilante SMTT e Polícia Militar, a interditar trânsito de veículos nos últimos 1.500 metros. Risos. 
Que venha agosto de 2026.
Chegada. Cercada de verde vegetação agreste que me recorda a infância e seus aromas de mato.
De camisa listrada o óculos escuros, na foto, meu ex-chefe, amigo, e excelente fotógrafo, Juarez.


sexta-feira, 25 de julho de 2025

É PRECISO ASSUMIR O PRÓPRIO PASSADO.

 

O boi é sinônimo de bem, de riqueza, há tempos; especialmente no mundo de língua portuguesa, ele é a rês. A coisa. O bem, em bom latim falando.

Em 1534, Martim Afonso de Souza já introduzia alguns animais em São Vicente-SP, mas foi no Nordeste, especialmente no entorno do entreposto marítimo português, hoje denominado de Salvador, que a criação ganhou folego com o protegido de Tomé de Souza, Garcia d’Ávila, a partir de 1650.

A criação, sob risco de confisco estrangeiro, pirata ou corsário, à beira da praia, não muito evoluiu, até 1590.  Mas depois de 1590, os rebanhos encontraram as condições perfeitas para se reproduzirem, mesmo não estando tão distantes do mar: a serrania denominada Itabaiana.

O Lugar

A serrania, em redor de Itabaiana, a fez o primeiro grande centro pecuarista brasileiro, e irradiador para o resto do Brasil
 
Itabaiana é um conjunto de serras baixas, resultante de enorme vulcão do período Arqueano, cuja forma gera um curral natural, como sobredito, não tão distante do mar; mas o suficiente para se tornar o primeiro centro pecuarista, e logo a seguir, disseminador da pecuária pelo Brasil.
Qualquer gênero de aboio, nascido nos campos do norte da África e transportado para a velha Ibéria, teve sua reprodução e evolução aqui. Os primeiros curtumes; as iniciais vestes encouradas sertanejas, arreios, as apartações. Apartações que desportivamente deram origem às vaquejadas.

Assim começaram as vaquejadas.

Os criadores raramente eram também donos da terra. Em geral, eram arrendatários, pagando todos os anos, em parte do gado, as suas dívidas. Por isso eram chamados de curraleiros.
Também, todos os anos, fiscais provenientes de Salvador vinham cobrar as fintas, ou seja, impostos do gado. Mesmo que hipotética e legalmente São Cristóvão fosse a responsável por essa tarefa. 
Era hora de juntar o gado. Fazer a apartação. Ver quanto sobrava para quem efetivamente trabalhou. E começava os tropeis dentro do mato para juntar reses dispersas, e depois dividir.

Cultura vaqueira

Ao nascer da década de 1980, a cidade voltou a reviver a cultura vaqueira. Com o então desconhecimento histórico, uma mera festa, quando de fato representou muito mais. À direita, ruínas da Igreja Velha, o mais antigo símbolo do Ciclo do Gado no Brasil.

Mesmo tendo deixado de ser um centro pecuarista há mais de três séculos, a cultura vaqueira sobrevive por aqui, e basta que alguém se proponha a administrar um evento, ele logo toma fôlego, surpreendendo. 
Assim foi, quando em 1979, o saudoso radialista, Djalma Teixeira Lobo promoveu grande vaquejada, estimulando o surgimento de outras pelo estado. E desde então, tem alguém relembrando aquele sucesso.
De fato, já passou da hora de Itabaiana se assumir como terra mãe da pecuária brasileira, com centro permanente de comemorações e memória, da apaixonante arte de criar gado, e toda a mística cultural que isso envolve.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

ACADEMIA ITABAIANENSE DE LETRAS - SEDE EM ANDAMENTO

Logo da 7ª Bienal, à esquerda; e equipe visitante ao histórico prédio, que será reformado e cedido pelo Executivo Municipal por tempo ainda indeterminado, para sede da Academia Itabaianense de Letras. Da esquerda para direita; Marcos Lima; Tamires, da equipe da Comunicação; secretário de Cultura, Antônio Samarone; José Oliveira; José de Almeida Bispo; presidente da Academia, Vladimir Souza Carvalho; secretário de Comunicação, Edilson Carvalho Silva Júnior; jornalista Grazy Freitas; e arquiteto Gabriel Franco.

Hoje, 23 de julho de 2025, mais um capítulo na Cultura itabaianense, com a visita do arquiteto Gabriel Franco, responsável pelo projeto arquitetônico, que norteará a Prefeitura Municipal de Itabaiana na reforma do velho prédio, número 42, da Praça Fausto Cardoso, que já sediou a Filarmônica Nossa Senhora da Conceição; depois o Fórum Maurício Graccho Cardoso; e por fim algumas secretarias municipais. O prédio, reformado, servirá de sede à Academia Itabaianense de Letras.

O prédio verde e azul, já foi sede musical, fórum de justiça e secretaria. Nestes 350 anos de Itabaiana, ser reformado e transformado em sede acadêmica.

O prédio, ainda um sobrado, em 1930 e pertencendo a particulares. Há quase um século.


terça-feira, 8 de julho de 2025

O OITO DE JULHO

 

Quando a corte portuguesa se transferiu de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808, encontrou um Brasil de vícios arraigados, de violência silenciosa, no exercício da administração, e suas consequentes monumentais injustiças.

O então príncipe regente, D. João, futuro João VI, encontrou uma realidade onde, um terço de todos os impostos cobrados e recebidos por Salvador, era proveniente de Sergipe. Que nada recebia de volta, sob qualquer benefício. Isso continuou.

Quatro células básicas, três delas antagônicas entre si, deram origem ao Brasil: O Maranhão, pouco influente; Pernambuco, Bahia e São Paulo. Tudo o mais, em maior ou menor intensidade foi avassalado por essas. Especialmente Sergipe. Provincianismo na veia.

Por outro lado, a ordem de Felipe II, de criar Sergipe em 1590 – por isso o nome de Sergipe D’EL REY - além de nunca ser encontrada – suspeita-se que a Câmara de Salvador a descartou – beira a total falta de lógica. Por que criar mais uma onerosa unidade administrativa, se já existia outra, poderosa e bem próxima?

Como assuntos de riqueza mineral sempre foram tratados com muito cuidado e sigilo, somente os boatos de mina de prata, no território original da futura capitania, justificaria todo esse cuidado do então plenipotenciário monarca espanhol.

Felipe II faleceu em 1598, sem encontrar prata em Sergipe; até mesmo porque, já nadava na prata de Potosi, hoje Bolivia. Deixou o governo sob seu filho, Felipe III, e seu ministro, o Duque de Lerma (Francisco de Sandoval y Rojas), de quem o povo espanhol depois cantou: “Pra não morrer enforcado, o grande ladrão da Espanha se vestiu de encarnado”. Virou bispo do Igreja. Se livrou da forca.

Mas os nascentes baianos nunca engoliram uma capitania, tirada da “sua” capitania, que já consideravam um reino a parte.

Os impostos, religiosamente sempre foram cobrados, em Sergipe, pela Bahia, sem nada de benefícios.

As vilas, municípios interioranos criados por ordem de Portugal, que retomou o controle em 1640, e a própria cidade de São Cristóvão de Sergipe d’El Rei, eram de uma miséria só.

A matriz de Nossa Senhora da Vitória, um puxadinho da homônima, na capital baiana, só veio ser terminada, em “pedra e cal”, mais de um século depois; e a de São Gonçalo, construída antes de 1630, nunca foi aproveitada. Envelheceu e caiu de abandono em fins do século XIX.

Em 1650, a penúria de São Cristóvão e descrita em soneto do “Boca do Inferno”, Gregório de Matos. (Veja ao fim).

Percebe-se uma estratégia, supostamente pensada para Sergipe não dar certo. 

Estrategicamente, seguindo o corrente, à época, a capital deveria ter sido criada onde é hoje Santo Amaro das Brotas. Cristóvão de Barros preferiu Aracaju, que depois migrou duas vezes até parar em São Cristóvão. Pedra que muito se muda, não cria limo.

Estância, depois da expulsão holandesa de Sergipe, e esvaziamento do povoado, com a saída das forças de Henrique Dias, poderia substituir a então miserável São Cristóvão e seus casebres de palha. Não somente foi desencorajada a isso, como até a vila, meio século depois, foi para a matriz de Santa Luzia, essa, por sua vez um puxadinho de Santo Amaro da Ibipitanga, hoje em Lauro de Freitas, na Grande Salvador.

Santa Luzia do Itanhy, por sua vez, foi asfixiada por Salvador com o poderio do município de Abadia se estendendo até onde hoje estão os municípios de Cristinápolis, Indiaroba e Umbaúba.

Lagarto, e especialmente Itabaiana, além de serem interioranas, e sem rios navegáveis, sempre foram mantidas com discreta, mas firme vigilância. 

E São Cristóvão, proibida de cobrar impostos e de administrar, além da mera execução de ordens emanadas da Câmara Municipal de Salvador. E obviamente, das ordens da Corte e do governo colonial

Enfim, de 1590 a 1820, Sergipe alimentou a Bahia, “com que fornecem a esta cidade (Salvador e Recôncavo), que sem elas não pode subsistir”, com farinha de Santa Luzia, cereais de outros municípios e carne de Itabaiana, depois também Lagarto, Simão Dias e Tobias Barreto. E com os suculentos impostos, cobrados, mesmo enquanto Sergipe permaneceu “quase” uma capitania independente, até meados dos setecentos.

A vinda da Corte para o Rio de Janeiro mudou a história. A presença do rei fez com que a elite local tentasse uma aproximação direta, mormente na figura do historicamente injustiçado, José Mateus da Graça Leite Sampaio, que, tornando-se Cavaleiro de Cristo, chegou a antessala real, e mesmo perseguido pelos agentes de Salvador em Sergipe, logrou do rei a decisão de quebrar o poderio baiano, aliado dos inconfidentes do Porto, em Portugal, obviamente. E mesmo sob a pressão inglesa, exercida pelos bocós colonialistas do Porto, obviamente pelos ingleses manipulados; e retornando a Portugal, o seu decreto de 8 de julho de 1820, teria a confirmação por seu filho, feito imperador do Brasil, em 1822.

Extrato do mapa Carte du Bresil et d'une partie des pays adjacents, BRUE, Adrien Hubert (1826)

E Sergipe cresceria velozmente até 1900, quando novamente caiu sob outro provincianismo, desta feita o paulista e sua República, de onde até hoje é dependente. E, apesar dos laivos do pós-Estado Novo, nunca mais voltou a ter a grandeza que teve no Segundo Império.

Vida que segue.

Por enquanto, comemoremos nossa segunda maior data, já que a maior, o nascimento, nesta fase histórica, é o 1º de janeiro de 1590.

Foi fácil tomar quase todo o Sergipe: os senhores de engenho, em sua esmagadora maioria, só se interessavam pelo próprio umbigo.


São Cristóvão de Sergipe d'El-rei, por Gregório de Matos, 

meados do século XVII


Três dúzias de casebres remendados, 

Seis becos, de mentrastos entupidos, 

Quinze soldados, rotos e despidos, 

Doze porcos na praça bem criados. 

  

Dois conventos, seis frades, três letrados, 

Um juiz, com bigodes, sem ouvidos, 

Três presos de piolhos carcomidos, 

Por comer dois meirinhos esfaimados. 

  

As damas com sapatos de baeta, 

Palmilha de tamanca como frade, 

Saia de chita, cinta de raqueta. 

  

O feijão, que só faz ventosidade 

Farinha de pipoca, pão que greta, 

De Sergipe d'El-Rei esta é a cidade. 


quinta-feira, 26 de junho de 2025

DANDO A VOLTA POR CIMA


Nessa sexta-feira, 27, às 19 horas e 30 minutos, em solenidade no Plenário Olímpio Arcanjo de Santana, na tricentenária Câmara de Vereadores de Itabaiana, a Academia Itabaianense de Letras empossa sua sétima diretoria, na qual traz de volta o acadêmico, juiz de Direito e desembargador aposentado, Vladimir Souza Carvalho, para a respectiva presidência.

É, de fato, uma espécie de renascimento pleno da instituição; uma retomada, mais de dois anos depois de uma pandemia, que também deixou a Academia Itabaianense de Letras de luto, qual seja, com a perda de um dos seus membros, pelo mal abatido (Luiz Eduardo Magalhães); assim como do apoio, arrimo máximo de um outro (o confrade José Marcondes) , a sua saudosa esposa. Sem esquecer do sufoco de outros, que uma, ou mais vezes estiveram sob perigo, real e imediato.

No período, foi a Academia segurada tenazmente, de todas as formas, pela presidente que sai, a valorosíssima acadêmica, historiadora e professora, Josevanda Franco e sua equipe, que, a despeito das vicissitudes do momento em que assumiu, e seu natural impacto, tirou leite de pedra para manter a integridade da instituição de pé. Passados os dois anos de sufoco e todo o seu rescaldo, Josevanda, ativíssima nas várias entidades a que serve, ausenta-se da diretoria - mas não da instituição - deixando seu legado de resistência, digno do sangue matapoan, que tem, honrando o mais famoso ancestral daquela tribo de tão pouca história grafada, mas, de existência marcante: o cacique Mbaepeba.

O retorno de Vladimir Souza Carvalho vem acompanhado de duas novas participações na diretoria, até agora ausentes, quais sejam os escritores e ativistas culturais, Walter Pinheiro Noronha, que carrega nos sobrenomes o peso de duas gigantescas e importantes famílias Itabaianenses; e José Augusto Machado, Baldok, também membro de outra importantíssima família, cronista, memorialista, no popular, um nato contador de histórias. Completando, permanece a escritora, professora Inês Rezende de Jesus na secretaria, e modestamente, esse escriba, dessa vez, também honrosamente como vice-presidente.


A Academia no ano 350 de Itabaiana.

A ideia é um retorno pleno das atividades acadêmicas, intra e extra institucional, com os concursos literários; interação com outras instituições afins; e, acima de tudo, a realização da 7ª Bienal, em toda a sua plenitude e grandeza, desta vez apoiado pelo Executivo Municipal, já agendada para os dias 23, 24, 25 e 26 de outubro. Será um “esquenta”, a grande comemoração do nascimento simultâneo da Paróquia de Santo Antônio e Almas, e consequentemente da cidade de Itabaiana, de fato iniciada pela Secretaria Municipal de Educação, e Sete de Setembro. Que fechará com chave de ouro pela citada paróquia, no exato dia 30 de outubro, a Data Magna.

Vamos lá. Botar pra rodar.

O tempo não para, como disse o Cazuza, usado como bordão pelo saudoso José Francisco de Andrade, o radialista Francis de Andrade, ou Zé de Brió.


domingo, 1 de junho de 2025

350 ANOS: A ESCOLA ENTRA EM CAMPO NA COMEMORAÇÃO.

 

Na última sexta-feira, 30 de maio, uma reunião deixou a mim, e deve ter deixado os historiadores itabaianenses e demais cultuadores da itabaianidade satisfeitos, mesmo a maioria, dela não tendo participado. É que a batalha de um guerreiro só, travada desde 30 de outubro, próximo passado, de 2024, pelo pároco Marcos Rogério Vieira, da paróquia-mãe, a de Santo Antônio e Almas, finalmente repercute na municipalidade que vai entrar com tudo na comemoração. A reunião, da qual honrosamente participei foi para traçar diretrizes com vistas à Educação do município, que tematizará o sempre grandioso Sete de Setembro.


O pároco, Padre Marcos Rogério Vieira, timoneiro no zelo pela história da segunda mais antiga paróquia de Sergipe, desde outubro passado, ao abrir o ano do sétimo Jubileu de Ouro da Paróquia de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. (Em colagem com a antológica foto da matriz, de Miguel Teixeira, de mais um século, colorizada por Robério Santos).

Os temas expostos no Sete de Setembro têm poder transformador, por ser este a vitrine do que repercute, repercutiu ou repercutirá no meio educacional da cidade, além da rotina curricular. O tempero. A cereja do bolo. O que de fato acaba se irradiando à toda a sociedade, presente e vindoura, com suas lembranças e seu patrimônio cultural.

A Educação, ao menos a do município, passa agora a tratar da data magna, o nascimento da cidade de Itabaiana, com a fundação da Paróquia de Santo Antônio e Almas, como tema escolar; e exporá isso em pleno desfile do Sete de Setembro, que dessa vez não passará batido como em 1975, onde só ficou a memória do Terceiro Congresso Eucarístico.

Os preparativos vão continuar. Agora é só esperar a magnanimidade do desfile por seus envolvidos diretos – mestres, administradores, e alunos – e indireto: o público e sua reação.

Vou estar na arquibancada.

Fazendo História
Da esquerda para direita: Tati, Carlos; Leila; o Secretário Éder; José de Almeida Bispo; Diego Procópio; Wanderlei Menezes, buscando enriquecer a História de Itabaiana, usando a vitrine educacional do Sete de Setembro como desde 1938; e carregando a bandeira valentemente içada pelo Padre Marcos Rogério Vieira, já em fase despedida para a Paróquia de Nossa Senhora das Dores dos Enforcados.


quinta-feira, 29 de maio de 2025

NOS 350 ANOS, SANTO ANTÔNIO DE VOLTA

 

Domingo, 1° de junho, será realizada mais uma Caminhada de Santo Antônio, o fujão, uma forma de manter viva essa lenda, qual origem se perde nos tempos, sobre os dramas que envolvem a fundação da cidade de Itabaiana.

A caminhada, que tem sido das ruínas da Igreja Velha para a matriz de Santo Antônio e Almas, dessa vez terá o percurso invertido: vamos pegar o Santo na quixabeira simbólica e devolvê-lo à capela original. Claro que ele voltará. Coisa de santos poderosos.

A logística de transporte e demais apoio já está acertada; tudo pronto. Tudo preparado. 

E os fiéis, os curiosos e os andarilhos contumazes de canelas afiadas.

Neste ano, no dia 30 de outubro, faz 350 anos de fundada a Paróquia de Santo Antônio e Almas, que marca a fundação da cidade.

Diz a lenda, para os que ainda não a conhecem, que o santo, entronizado na capela da Igreja Velha, antes de invasão holandesa, em 1637, fugiu constantemente de lá, vindo parar no galho de uma quixabeira, onde foi construída e hoje está, a Matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana.

Que, com a transferência definitiva, em 30 de outubro de 1675, há 350 anos, nasceu a cidade de Itabaiana.

Comemorada este ano.

Extrato de mapa holandês, publicado em 1646.
A equipe de topógrafos de Georg Marcgraf e Conrad Golliat, do governo holandês de Maurício de Nassau, depois da conquista, encontrou a igreja de Santo Antônio, perto do Jacaracica. Poximo, a fazenda de Simão Dias, o Francês.



Ancelmo Rocha, timoneiro e organizador, desde a primeira. 

A Prefeitura Municipal vem fornecendo apoio logístico, através das secretarias de Cultura e do Turismo, também concorrendo a firme participação da Igreja, mediante as duas paróquias envolvidas; e a imprensa local, indistintamente.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

EU VOU


Lançamento nessa próxima quarta-feira, as 19 horas, na CDL-Itabaiana, do livro de contos Crônicas da Minha Infância, promete enriquecer um pouco mais a história serrana recente.

Trata-se do 21° livro do magistrado, contista, romancista, historiador e folclorista, Vladimir Souza Carvalho, ex-juiz estadual e depois federal, e agora desembargador federal aposentado, apresentando, de forma leve e despretensiosa, sua história pessoal; porém, naturalmente ambientada numa Itabaiana das décadas de 50 e 60, despertando para o progresso, depois de então quase três séculos de adormecimento. Logo, a real cara de Itabaiana na retomada de sua grandeza histórica, na própria história da formação do nosso pequeno Sergipe.

Não tenho conhecimento do conteúdo. Já que não fui ao lançamento, na sexta-feira passada, na Escariz da Av Jorge Amado, na capital; porém, intuo, que, além da prosa leve, o Mestre, mais uma vez traga um caudal de lembranças da nossa então pequena urbe em frenética ebulição. Em todos os sentidos. Vividas de per si.

Quarta-feira, estarei na fila dos autógrafos, papeando com os amigos.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

80 ANOS DE UMA GRANDE COMEMORAÇÃO


Amanhã faz 80 anos da presente foto dessa multidão. 

Foi em 13 de maio de 1945, um domingo. Um simbólico dia da aparição de Fátima para o enorme rebanho católico. Mas não só isso, mesmo isso tudo tendo a ver.

Em 9 de maio, quatro dias antes, o que restou do exército alemão, assinou a rendição incondicional diante dos soviéticos, depois de ter mergulhado a Europa - e o mundo - na mais sangrenta, destrutiva e mortífera guerra que o mesmo jamais vira.

Itabaiana, não ficou incólume na guerra. Aliás, um seu filho ficou entre as primeiras vítimas brasileiras, a dos navios covardemente abatidos pelos submarinos alemães. A canificina começou em águas sergipanas, e que inflamou o país; e que por isso esteve, a partir de 1942, em estado de guerra, apesar de aparentemente tão distante do teatro de horrores.

A guerra, ao se iniciar, sempre divide a humanidade. Medrosos, prudentes, racionais, de um lado; e uma massa estúpida, inconsequente, que sempre vê o evento macabro como um brinquedo de pega-pega... e de lucro. Até aparecerem as montanhas de defuntos e espandongados.

Contudo, ao entrar o ano de 1945, mesmo aqueles que não foram diretamente afetados, e entre os vencedores, estavam exaustos; e os perdedores, desesperados. Enfim, todos cansados da letal estupidez coletiva, que sempre esteve presente na história.

Às alvíssaras de esperança; e à convocação do Padre Eraldo Barbosa, a Praça se encheu naquele domingo, trazendo um laivo de alívio.

Caras reconhecidas, na foto, como dos músicos da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, eternizados pela câmera de João Teixeira Lobo, o Seu Joãozinho Retratista, demonstram muito bem o peso simbólico daquele momento.

À frente da multidão, postada entre o coreto da Praça Fausto Cardoso e a matriz de Santo Antônio e Almas, músicos da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição; reconhecível por este cronista, o maestro Antônio Silva (1), e logo à frente seu filho, o popular Nilo Base (2)

Logo, logo, a cidade também receberia seus filhos sobreviventes dos campos italianos, que foram vingar, entre outros, Diógenes Lima Carvalho, maquinista do navio auxiliar VITAL DE OLIVEIRA, afundado na costa do Rio de Janeiro, depois daquele fatídico agosto de 1942, em Sergipe(*).

No grupo de fotos, dois dos vazos afundados na costa sergipana, e que incendiaram o país por uma resposta; enterro das vítimas fatais; e três dos nossos heróis pracinhas ceboleiros, o primeiro, à esquerda, Seu João carteiro ou do cinema; a quem conheci pessoalmente.


(*)Sic Luiz Antônio Barreto, Os náufragos, uma história sangrenta no mar de Sergipe. Republicado no sítio “Coisas de Socorro”, Quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012)


quarta-feira, 7 de maio de 2025

33 ANOS DE FEIRA DO CAMINHÃO.

Nesta quinta-feira, 08, à noite, o Prefeito Valmir Costa, com sua equipe lançará a programação, que deverá, se muito, sofrer alguns ajustes, para a próxima Feira do Caminhão.

Promete ser mais uma grande festa, provavelmente ainda melhor que as passadas.

Nestes 350 anos de fundação, Itabaiana, a Capital Nacional do Caminhão(*), e seus despretensiosos heróis redentores dessa terra multissecular merecem.


A 1ª Feira do Caminhão

A primeira edição foi realizada no Calçadão da Avenida Dr. Airton Teles, à época o espaço de shows, cada vez mais barulhentos, ao lado de uma casa de Saúde, a Maternidade São José, local do primeiro milagre de Santa Dulce dos Pobres.

Declino de tecer comentários sobre o sucesso comercial da Feira, por desconhecimento integral de seus resultados; mas foi um assombro; especialmente pela ousadia de trazer a recentemente denominada Rainha dos Caminhoneiros, Sula Miranda, que estourara nas paradas musicais em todo o país, em fins de 1986, com um mega sucesso dedicado ao caminhoneiro: Caminhoneiro do Amor.

Neste ano de 2025, 33 anos depois, informou-me o Secretário de Cultura, Antônio Samarone, Sula estará, mais uma vez, presente, assinalando seu prestígio às gerações e gerações de guerreiros da estrada.


As procissões dos motoristas.

À esquerda parte da fotografia de José Paulo de Oliveira (Paulinho de Doça), do recem renomeado Bairro São Cristóvão e sua antiquíssima capela. E à direita, o cartazete de João de Balbino, líder pioneiro da festa, e já passando o bastão ao então jovem Rolopeu, nove anos depois da festa criada, e tendo São Cristóvão como padroeiro.

Começou por São Cristóvão, o padroeiro dos viajantes, portanto, também dos motoristas. Na campanha política de 1958, Euclides Paes Mendonça era candidato ao retorno à Prefeitura e seu partido, através do Prefeito Serapião Antônio de Góis criou uma espetacular campanha de marketing envolvendo a categoria profissional mais promissora da época: os motoristas.

Para isso transformou o velho Tabuleiro dos Caboclos em Bairro São Cristóvão, inclusive com denominação de sua capela, de tempos imemoriais, e a festa católica, com procissão e outros atos religiosos, tudo isso coordenado por João de Melo Rezende, o João de Balbino, que, mesmo depois de se mudar para a capital ainda permaneceu no comando, até sua passagem para Antônio Francisco de Jesus, o antológico Rolopeu.

Em 1975 a Paróquia mudou o patrocínio do novenário, tirando as famílias tradicionais, e passando estes para as categorias profissionais. Por ser a dos motoristas a mais vistosa, mais rica e prestigiosa categoria, ficou com a última noite de patrocínio desde então. Rolopeu, na organização.

Em 1976, diante da proximidade das duas festas – Trezena de Santo Antonio em 12 de junho, e São Cristóvão em fins de julho – Santo Antônio ganhou prioridade, mesmo continuando São Cristóvão sendo o padroeiro. Foi ali a reduzida última vez. Desde então, é sempre no dia 12 de junho o momento máximo.


Quando nasceu e Feira do Caminhão.

Calçadão da Avenida Airton Teles, palco da 1ª Feira do Caminhão, na festa de Santo Antônio de 1992. Sublimado, anotações da reunião em que fiquei ciente da programação da 1ª Feira.
Foi um período estressante para mim. Secretário do partido que acabaria elegendo o sucessor,  e consolidador da liderança política de Luciano Bispo, em término de primeiro mandato, o tempo andava muito encurtado pra mim, entre as obrigações com o meu ganha-pão; as atribuições sociais, meu pré-escritório de marketing (que acabou, morrendo na praia); e ainda me envolvi e envolvi outros, de certo modo e especialmente meu saudoso amigo-irmão, Josenildo Pereira de Souza, na solução de uma problema que parecia insolúvel, qual seja, o impasse entre a teimosia do também saudoso amigo e patrão na Rádio Princesa da Serra, José Queiroz da Costa, de um lado; e do outro, o citado prefeito, que, apesar de uma boa administração não andava bem das pernas, politicamente. Carecia de algo revigorante para fazer o seu sucessor e despontar para a gloriosa carreira que despontou. Detalhe: enfrentaríamos a máquina poderosa de Francisco Teles de Mendonça, o saudoso líder Chico de Miguel, ferida, mas longe ser abatida. E a genialidade política do velho líder trazia uma novidade: Chico resolveu candidatar a sua filha, a educadora Maria Vieira de Mendonça ao cargo de prefeito. Seria a primeira mulher a administrar o município, em seus já 295 anos de existência. Não ali, mas acabou sendo depois, em 2004.

O partido em formação (PDC, Partido da Democrata Cristão, inspirado nos alemães); as forças em composição, e as inúmeras reuniões, quando necessárias, a discutir tudo, e, obviamente fechar questão.

O bunker era a então casa do próprio candidato, João Alves dos Santos, o João de Zé de Dona, o segundo andar da Rua Boanerges Pinheiro, 995.

E o foco do mês de maio de 1992, foi a Trezena dos Motoristas, do dia 12 de junho, a seguir, coadministrada pelo Município, ou seja pelo prefeito – e seu candidato - primeiro teste de fogo da campanha.

Sugestões vão, sugestões vêm, e, numa reunião da segunda quinzena de maio, alguém falou em algum tipo de exposição, outro, de desfile diferenciado do já promovido desde 1975, na procissão; por fim também se falou em feira. Até ali eu era quase que o único marketeiro da ainda pré-campanha, claro, ouvindo todos os pitaqueiros. Ao pronunciarem a feira eu assenti com veemência, colhendo também o assentimento do pré-candidato, do também assessor Moacir Santana, e do próprio prefeito, além dos demais. Desde então, ficou grande demais para mim. Saí do controle, que, logo depois o perderia de toda a campanha. E, na reunião de 8 de junho já foi anunciada toda a programação, inclusive a presença de Sula Miranda.
Exemplo também foi o que correu à minha revelia, porém com toda a minha aprovação, a ideia nascida na Ala Jovem, da realização da carreata mirim. 
E o modelo veio até hoje, praticamente sem mudanças; salvo as pontuais, desde as atividades da 1ª Feira do Caminhão de Itabaiana.


(*) Lei Federal 13.044 de 20/11/2014


segunda-feira, 5 de maio de 2025

CHRONOS NÃO PERDOA...

 

Mais um amigo cumpre seu tempo – breve - e se vai: faleceu Valfrando Gomes da Mota, popular Nem de Abdon, meu amigo e comparsa de rock e demais estilos musicais que a minha geração teve o privilégio de com eles se deliciar.

Que a flecha do tempo não para; isso está mais que consagrado. Porém, como diz meu também amigo, Dr. João de Oliveira, o João de Benício, a gente docemente se engana, os jovens sem na morte pensar; ou se desespera - os maduros e velhos - com a certeza de que a hora, cada vez mais próxima, vai chegar.

E, enquanto isso, inundamos nosso conhecido vale de lágrimas com nossas dúvidas, mesmo que sobre as certezas.

Conheci Nem, por acaso, 1980, com minha estreia de discotecário-programador na velha Rádio Princesa da Serra. Nem de Abdon, queria trocar vinis, coletâneas "da Parada", por raridades da MPB e de rock, especialmente country, em duplicidade (a emissora tinha dois), ou descartáveis, por estar muito acima da média da audiência da emissora. Negócio da China, já que as coletâneas, em geral eram de temas de novelas, da Som Livre (Sistema Globo) que não distribuía gratuitamente às emissoras. Sucesso garantido, quando já não estourando nas paradas. Juarez Ferreira de Góis, meu chefe, autorizou

Foi empatia imediata. Com pequenas - e às vezes profundas - diferenças, ali fizemos amizade, que adormeceu nos últimos trinta anos, já com ambos casados e pais de família, como quase todos demais do grupo que veio depois; mas aquele tipo de amizade, focada, máxime na música, onde a cada vez mais raro encontro, vinha uma resenha acerca de novas obras, novos artistas, e toda a plêiade dos veteranos, que embalaram nossas vidas, "na alegria e na tristeza", enfim, na vida vivida, arrisco, esplendorosamente.

Vai com Deus, amigo; é tudo posso dizer agora.

E, se lá existir essa cópia daqui, como insinuam, vai preparando um novo Arizona(*), porque, já foram outros, antes de você, e até eu por lá chegarei, entre agora e mais uns cinquenta anos, não sei; mas que irei, irei.

Adeus, sujeito!


(*) Arizona era o apelido da tenda de Nem, onde trabalhava, pondo fotos e gravuras em quadros para vender, na Rua São Paulo, aqui em Itabaiana-SE. O nome pegou porque até o sábado, ao meio dia, era lugar de trabalho, de negócios; apesar de já se ensaiar um Jimmy Hendrix, Bob Dylan, Belchior, Alceu Valença, Heart, Creedence, Dire Strais, Quinteto Violado, Xangai, etc., etc., e etc.; mas no sábado à tarde, e domingos e feriados... de clássico a rock pauleira, rolava tudo. regado a cerveja, claro. E só juntava marmanjo. Por isso Arizona: "Onde os homens se encontram", como na propaganda do cigarro de mesmo nome, da Souza Cruz.


sábado, 19 de abril de 2025

ARCO DE CULTURA E FÉ

 

O Auto da Paixão, começou como uma iniciativa para reviver um povoado estagnado; de onde todo mundo que podia – ou precisava – ir, ia embora: a minha velha Mangabeira, onde nasci e vivi até os cinco de idade, atual região sul, do atual município de Itabaiana.

Para ilustrar, em 1975, a SUCAM encontrou no povoado 195 residências, assim divididas: na Mangabeira de Baixo, entre o riacho do Chico José e o rio das Pedras, 22 unidades; na Mangabeira de Cima, onde se encontra desde 1950, a formação urbana, 138, dispersas em sítios; e 35 concentradas em torno da Praça, hoje denominada Alexandre Frutuoso Bispo, o fundador da mesma.

Aproximadamente 600 habitantes. Em 2005, no entanto, varredura do PCE-Programa de Combate à Esquistossomose, da Secretaria Municipal de Saúde de Itabaiana, e Ministério da Saúde, localizou 462 habitantes.

Insegurança; concentração de melhorias na cidade, e a natural busca por elas, completa o quadro de abandono da zona rural, não somente na Mangabeira; mas em todo o município, que passou de 84% da população municipal rural, em 1940, para 17%, em 1991, numa inversão completa.

Em 1990, segundo o anunciado durante o evento, na última quinta-feira, 18, veio a primeira apresentação. Amadorismo total.

Claro. É um espetáculo amador. Atores, diretores, contrarregras... somente sonoplastas e iluminadores, providencial ajuda do Poder Público municipal, são profissionais.

São pessoas, em esmagadora maioria, que passam o ano inteiro labutando em seus sítios, para ao fim da quaresma, mesmo com o veteranismo da maioria dos componentes, se prepararem para o grande dia. De fato, a grande noite.

O evento ganhou tal projeção natural que, fruto dos novos tempos, a Administração Municipal viu ali um motivo de mão dupla – benefício com contrapartida do reconhecimento – o que é natural; e em 2009 entrou no Orçamento da União, recursos para a construção do conjunto urbanístico, com anfiteatro, cujas obras se iniciaram em 2010. Todavia, a obra empacou; e só foi destravada pela administração municipal seguinte, que a concluiu, em 2014.

Porém, salvo raras exceções, são 35 anos de apresentação, todas as noites de Quinta-Feira Maior, como dito, com várias inclusões de novos artistas e defecções de outros, mas que em torno de 50% permanece desde o começo.

O espetáculo da última quinta, 17, manteve a linearidade própria de um drama, que está prestes a completar 2000 anos. Belo, muito bem executado; tradicional. E casa cheia. Como sempre.

Cena final: Cristo ascende aos céus na Mangabeira.

Efeito multiplicador

Malhada, ou malhador, como local de plantação é um termo antigo. Ao menos nos Açores já era praticada, antes mesmo do Descobrimento do Brasil por Portugal. Consistia numa área pré-determinada, em que se deixava o gado pernoitar por vários dias. Daí o nome malhada, pelo aspecto que adquiria após a saída do gado, e deixando, obviamente, coalhado de excrementos – fezes, e uratos da urina - vitais para fertilizar a terra para o plantio.

A Malhada Velha, após o riacho do Cipó (Çanguê em tupi), na franja sul das terras do primeiro itabaianense e sergipano de sangue europeu, Simão Dias, o francês ou mameluco – a Cova da Onça ou Jacaracica, hoje parte de Moita Bonita – certamente, guarda esses predicativos.

A efervescência cultural serrana, pós-BIENAL 2011; e o estímulo de um exemplo que deu certo - a Mangabeira - moradores do antiquíssimo povoado da Malhada Velha começaram também uma apresentação, que se manteve no mesmo formato, até o ano passado, e agora sofre uma radical transformação com a entrada da força da grana – e, ressalte-se, da boa vontade em bem aplicá-la – e o espetáculo acaba de mudar do tradicional, amador, na raça, para dar passos rápidos à profissionalização.

Ontem ocorreu a primeira apresentação em novo modelo. Eu não fui ver. Cansado de duas: a da Mangabeira, na quinta-feira, à noite; e a do Tabuleiro do Chico, da sexta-feira, às sete da manhã, minhas condições físicas de diabético me levam à contenção de qualquer arroubo. Ficou para o próximo ano. Mas já percebi os traços profissionalizantes, a partir da prévia cobertura da imprensa; e dos vídeos do tradicionalmente efêmero Instagram (belas imagens instantâneas, que quando se busca novamente, “já era”).


O Tabuleiro do Chico

No oeste do município, antípoda à Malhada Velha, está o Tabuleiro do Chico. De denominação recente, do último século. Inexiste no censo eleitoral de 1875, porém, por volta de 1930 já era assim conhecido, conforme informações da família Capitulino.

Recentemente, a comunidade religiosa do povoado, tradicionalíssima, como a vizinha Matapoã, resolveu seguir a Mangabeira e a Malhada Velha.

Ontem, Sexta-Santa, 18 de abril fui lá ver, pela primeira vez. 

Fiquei encantado!

A fórmula é a mesma que se repete, e repete, mundo afora; mas, o esforço amador, a energia, o denodo, aplicação, não fica nada a dever aos meus conterrâneos mangabeirenses; bem como a paixão com que o fazem. Perfeito!

Cenário simples, com alguns melhoramentos; adaptabilidade; coordenação exemplar. Estão de parabéns os tabuleirenses. Como diria meu pai, Alexandre Frutuoso Bispo: “Que Deus os conservem assim!”

Parabéns!

Cristo ascende aos céus, na última cena, no Tabuleiro do Chico.
.

Tradição quebrada.

Um dia tudo e todos morrem. É a lei da vida: nascer, crescer, se reproduzir e morrer; e a Apresentação “do Campo” (estádio Presidente Médici, renomeado para Etelvino Mendonça), haverá de parar um dia; porém, causou um certo vazio no peito a ausência das multidões acorrendo ao Estádio para o último ato da Sexta-Santa, em Itabaiana.

O evento, criado pelas franciscanas, Irmã Caridade e Irmã Luciana Quaresma, dando direção espiritual à JUC-Juventude Unida a Cristo, da Paróquia de Santo Antônio e Almas, e abraçado pelo pároco de então, Monsenhor Mário de Oliveira Reis, na Sexta-Santa de 1977, e por todos os demais que o sucederam, apenas em três ou quatro oportunidades, teve breve solução de continuidade.

Mas neste ano se integrou ao projeto Malhada Velha II, a nova fase, deixando de ser executado.

De certo modo, a paróquia, que crava 350 anos de fundada, no próximo 30 de outubro, uma data magna, se ressente do tamanho da responsabilidade e das transformações do tempo, com encolhimento no quadro de paroquianos, seja por divisão de área de abrangência, seja por influências outras. 

A Paróquia, que foi criada há 350 anos atrás, com 3.500 quilômetros quadrados, do rio Cotinguiba ao Cansanção; do Sergipe ao Vaza-Barris, hoje se resume ao Centro da cidade: menos 1,8 km².

Atualmente, para realizar qualquer evento sofre as consequências com a exiguidade de obreiros. Até a instituição-mãe da cidade – a Irmandade das Almas – mais velha dez anos que a própria paróquia, teve de sofrer modificações no seu tradicional quadro de membros, tradicionalmente masculino, com o ingresso de mulheres para continuar a existir. Além de encolhimento natural, há cerca de cem anos deixou de trazer vantagens imediatas dela participar.

E assim, tomara que não, mas aquele esforço, daquela eletrizante geração de jovens, na qual me incluo, a fornecer mão-de-obra às sacras intenções das citadas irmãs missionárias, baldam-se aqui.

Irmã Caridade (in memorian), e Irmã Luciana Quaresma, criadoras junto à JUC da Paróquia de Santo Antônio e Almas, da Via-Sacra do Estádio, em 1977.

Epílogo

Todavia, o tradicional espírito religioso itabaianense, popularmente manifestado na Mangabeira por D. Maria Evangelista dos Santos e seu filho, Alexandre Frutuoso Bispo, com uma providencial mão de D. Zefinha de Gerino (Josefa da Cruz Santos, casada com Angelino Martins Santos), em 1949, e lá mesmo revigorado em 1990, com o Auto da Paixão, continua firme; e, o que é mais salutar: multiplicador.
O apoio oficial, especialmente do Poder Público do Município, através da Prefeitura e suas secretarias, sempre fará toda a diferença.



terça-feira, 8 de abril de 2025

E CAI UM GUERREIRO DAS SERRAS DE ONDE OS RIOS VÊM.


Vitimado por longa enfermidade, que se agravou ao longo dos anos, falece nesta terça-feira, 8 de abril, tricentésimo quinquagésimo ano do nascimento da cidade de Itabaiana, um dos baluartes da armada serrana que, ao lhe ser facultada a possibilidade de avançar, fez das tripas coração e avançou. 

O odontólogo José Valde dos Anjos conquistou, homericamente sua ascensão, mediante o estudo, graças a existência de boas escolas públicas, e uma mãe - do próprio - dedicadíssima, que conseguiu o impensável: fazer um filho de pobre virar doutor. E, obvio, sua própria inteligência e determinação.

Zé Valde foi o garoto prodígio que, com o seu exemplo, encorajou uma multidão silenciosa de pataqueiros, feirantes, sapateiros e outras atividades, em geral de mera sobrevivência, a acreditar, focar, ser objetiva. E conquistar uma direção diferente para a própria vida.

Fez o Ginasial, hoje da quinta a oitava série, no Colégio Estadual Murilo Braga, turma de 1966, conseguindo, aos trancos e barrancos cursar o Colegial ou Científico – dois primeiros anos em Salvador, com inestimável ajuda de D. Sinhá, viúva de Euclides Paes Mendonça – concluindo no Atheneu em Aracaju, já em meio à nata de Itabaiana e a nobreza aracajuana. Ali prosseguiu, até colar grau em 17 de dezembro de 1974. Um feito gigantesco para sua condição sócio-financeira.

Jamais perdeu o jeitão moleque do Beco Novo. Amigueiro, farrista. Popular.

Dos quatros inseparáveis amigos, especialmernte na farra, agora três, Ze Valde (primeira da esquerda), Zé Elson e Robson Porto, à direita, já na eternidade.


Foi candidato a vice-prefeito em 1992, e não eleito, na chapa com José Teles de Mendonça, Zé de Chico, sem, no entanto, nenhum estremecimento nas amizades com os amigos do partido oposto e vencedor; isso numa época em que Itabaiana ainda ficava em pé de guerra a cada quatro anos, nas contendas eleitorais municipais.

Enfim, vai-se mais um meu amigo. Mas ficam as lembranças da sua existência prolífica e exemplar para as futuras gerações. 

A essência itabaianense.

Mais sobre Zé Valde, aqui. Clique!


domingo, 2 de março de 2025

EU FALEI FARAÓ. EGITO Ê(*).

 

Em artigo deste domingo, o médico, atual secretário de Cultura de Itabaiana, Antônio Samarone de Santana, aborda, com propriedade, um aspecto do carnaval no Brasil: um superferiado para 99 por cento, enquanto o 1 por cento se esgoela em avenidas, ruas e vielas, país afora.

É interessante: o São João, inventado pelos jesuítas no afã de atrair a indiada aos cultos e à civilidade, mesmo sendo originalmente uma festa nacional, porém, ao ser estigmatizada de “nordestina”, perdeu o brilho no sul maravilha, ao sul do paralelo 20; e jamais foi içada ao status do carnaval, que nunca atingiu mais do um por cento já dito.

Pegadinhas segregacionistas à parte, como diz o Samarone, o carnaval é, sim, uma festa pra poucos. Porém, para o país, sem decretar feriado, por quatro e até cinco dias, já que seus efeitos começam na sexta-feira, e só vão terminar na quarta-feira, ao meio-dia.

Afinal, este é um país eternamente protocapitalista, desde os holandeses em Pernambuco (os holandeses foram os inventores do capitalismo), e dominado pela cultura bancária (é só ver as filas). E os bandos, digo, bancos (desculpem a contaminação com o boquirroto Berthold Brechter), só abrem ao meio-dia da Quarta-Feira de Cinzas.

E voltamos ao início da civilização.

No Egito dos faraós, o ano foi medido com precisão espantosa, para algo feito há cinco mil anos atrás: 365 dias.

Eles criaram as três (e não quatro) estações; os dozes meses de três semanas de dez dias.

Mas o ano, propriamente, era contado pelos dias comuns, que era 360 dias. Tecnicamente havia mais cinco, perfazendo 365; mas que não eram computados, porque em festa aos deuses Osíris, Ísis, Set, Néftis e Hórus; os deuses mais importantes naquela terra encharcada de deuses.

No Brasil, nós reinventamos os cinco dias “que não contam”.

Não é preciso sambar, pular, ou participar de orgias e bacanais. É um superferiado não oficial, e pronto.

O comércio, sempre diligente em fazer seus comerciários trabalharem em jornadas de até dez horas, fecha, ovinamente; indústrias, também. Até certos serviços... até os bancos, os bancos! Esqueça-os no carnaval: está todo mundo celebrando Osíris, Ísis, Set, Néftis e Hórus.


(*) Título inspirado em “Faraó, divindade do Egito, por Banda Mel”.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

ECOTURISMO NA SERRA

 

Neste ano, de 350º aniversário da cidade, as coisas estão acontecendo.

Deve estar desembarcando amanhã na Serra, ou seja, em Itabaiana, uma turma, a partir da capital baiana, porém com origem diversa, para passar o carnaval por aqui, no Agreste.

E talvez aproveite, para dar uma caçada no Carneiro de Ouro. Nunca sabe, né?

Pouco a pouco a cidade vai ganhando contornos de centro turístico, em busca das riquezas naturais existentes; do patrimônio cultural imaterial, inclusive o rico patrimônio histórico, ainda pela maioria ignorado; e pelo grande futuro que promete em matéria de turismo religioso.

A cidade, conjuntamente com outros municípios dela originado, tem o único parque ecológico em Sergipe, o Parque Nacional da Serra de Itabaiana. Na franja sudoeste dele, uma preciosidade nacional, que é o Parque dos Falcões.

Junto ao Parque do Falcões, foi recentemente ereta uma pequena estátua de Santa Dulce dos Pobres, à margem da primeira etapa do Caminho de Santa Dulce, Itabaiana-Salvador. Nas colinas abaixo, está um lugar de grande significado histórico, na construção do Brasil, especialmente antes do encontro de ouro em Minas Gerais. É o local da prisão de Melchior Dias Moreia, neto de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, em 16 de julho de 1619, por não ter entregado a mina de prata que descobriu, três décadas antes. A prisão foi efetuada pelo próprio governador-geral, D. Luís de Souza.

Na franja sudoeste da Itabaiana Grande, limite do Parque Nacional da Serra de Itabaiana; a 200 metros de Santa Dulce e 500, de local histórico e nascimento da lenda da prata (v. Paulo Setubal)... eis o Parque dos Falcões (a sede foi reformada recentemente, depois da foto).

Na fronteira sul do município ficam, do lado itabaianense, o povoado Ribeira, e vizinho, já no município de Campo do Brito, as Pias de Ribeira. 

Trata-se de um conjunto de piscinas naturais, cavadas durando milhões de anos, na pedra calcárea, pela corrente do rio das Pedras, que ali formou mais um dos boqueirões entre as serras, que denominam o lugar, Domo de Itabaiana, ou, simplesmente, Itabaiana.

É, desde prisca eras visitado para relaxantes banhos. Quando a corrente está plena, geralmente no inverno, ainda se pode visualizar poderosa cachoeira, no limite do trecho das piscinas.

Saboroso banho, inclusive da História. E "Coisas que pra um cristão ver, tem que andar a pé".

São atrativos, na zona rural, ainda pouco conhecidos, mas que prometem para o futuro: a área em torno da Serra do Pico, local da última batalha na Conquista de Sergipe; as ruínas da Igreja Velha, seis quilômetros a leste da cidade; e locais de origem de algumas lendas, como a Lagoa do Forno, lendariamente, originada das lágrimas do cacique Panema, arrependido depois de cometer feminicídio contra sua lindíssima Mbuçarãe; e o povoado Boimé ou Boimel, local da assembleia íncola, de condenação à maldição da tribo matapoan.

Na cidade, temos o local do milagre que canonizou Santa Dulce: a Maternidade São José; e a setecentista igreja matriz, de arquitetura iluminista e racional, da fase pombalina. É aconselhável uma visita a todas as outras das Sete Maravilhas da cidade: Feira, Colégio Estadual Murilo Braga, Filarmônica Nossa Senhora da Conceição.

Mas as atrações que moverão o grupo que chega amanhã, vão além do município de Itabaiana, e da própria grande Itabaiana, o que inclui seus municípios filhos.

Em resumo: 

- Estão previstas trilhas para o Parque Nacional da Serra de Itabaiana, e Parque dos Falcões;

- Para a cachoeira de Macambira, e a Pedra das Araras, na vertente oeste da serra da Miaba;

- Para a paradisíaca orla Pôr-do-sol, ao extremo sul da capital, Aracaju, e sua vizinha, a historicamente tão significativa Coroa do Goré;

- Para a cachoeira do Saboeiro, já em terras lagartenses;

- E finalizando com a trilha para os Poções ou Pias de Ribeira, já no município de Campo do Brito, porém, decerto passando pela bucolíssima Ribeira; e com visão privilegiada para um dos primeiros locais colonizados de Sergipe.

Como costumo dizer, em Itabaiana, portas, janelas, portões, cancelas, porteiras, passadiços, colchetes e, principalmente: os braços estarão sempre abertos. Escancarados. Tanto que às vezes pode até soar deseducação; mas é puro passional acolhimento.

Que sejam bem-vindos e voltem sempre.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

DE ROUPA NOVA

 

E, nos 350 anos da cidade fundada, sua Centenária Prefeitura muda de cara. De novo.

A Alcaidaria de Itabaiana, hoje Prefeitura, foi formalmente criada pelo rei D. Pedro, O Pacífico, de Portugal, em 16 de junho de 1700, ao nomear o primeiro prefeito, cargo então chamado de alcaide, em João da Costa Feio.

Começou mal: João da Costa Feio preferiu outro cargo em Portugal. Tiveram que nomear outro depois.

Em meados do século XVIII, com as reformas do Marquês de Pombal - em todo o império - acabou-se o cargo de alcaide. A administração municipal ficou com o presidente do Conselho Municipal, invariavelmente, também presidente da Câmara de Vereadores.

A assim se passaram mais de 150 anos, no Brasil, agora independente, até o fim da monarquia, no reinado do Imperador, D Pedro II.

Com a República, e sua primeira Constituição, renasceu a separação dos poderes, ficando o Poder Executivo Municipal, independente do Poder Legislativo, a Câmara de Vereadores.

Criou-se a figura novamente do Intendente, à época; denominado prefeito, pela Revolução de 1930.

Em 1890, inexistia prédio da Prefeitura. No local da atual ficava e pequeno Mercado Municipal. Em 1913, foi inaugurada a "Intendência"; reformada em 1924; desmanchada e reconstruída com feições mais modestas, em 1965. Até hoje.

Mas o prédio da Intendência – a Prefeitura - só viria a ser construído em 1913, quase vinte anos depois.

E, desde 1913, o hoje centenário prédio, sofreu duas reformas radicais: a de 1924; e a de 1965, que o deixou no formato atual.

Em 2005, contudo, começou e festival de cores, já ensaiado em outros próprios municipais, desde 1997. E a cada administração, o prédio tem recebido nova demão de pintura, em geral, conforme o partido no poder.

Mas dessa vez, o Poder Executivo inovou: saem as cores partidárias; entram os cinza e grafite; conferindo certa seriedade e classe ao conjunto.

Roupa nova; nova fase.

A primeira mudança de cor foi na administração Maria Mendonça. O retorno de Luciano Bispo, em 2009, imprimiu-lhe novas cores; substituídas, a seguir, por Valmir Costa, e mantidas por Adailton Rezende. Agora, no retorno de Valmir, toma a feição da primeira foto deste artigo.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

MUNDOS EM TRANSFORMAÇÃO

 

100.3 Liberdade FM fora do ar. O último suspiro do empreendedorismo começado por Albino Silva?

Na semana passada eu li uma matéria no portal 93, mais uma, sobre a agonia da radiofonia, no caso, a marca Liberdade de Sergipe; melhor, o que dela restou, a Liberdade FM.

A FM, informam os aplicativos para rádio na internet, ora consultados, está fora do ar. Provavelmente sem retorno.

Em mim, causa certa tristeza, apesar de ser missa cantada: só sobreviverão produtores e emissores de conteúdo estribado em fundos públicos, sejam eles estatais ou privados. De governos ou instituições. Impressos, em áudio ou vídeo. Os tempos de financiamento privado acabaram para esses segmentos.

Mas, no caso da Liberdade, a coisa pega um pouco mais.

A Liberdade AM, em que pese politicamente, ser parte de um projeto de poder, que desaguou no golpe e regime de 1964, também foi ela de enorme importância para Sergipe, especialmente no terceiro quartel do século XX.

Para começar, quando foi alcançada pelo próprio veneno que ajudara a fabricar – a censura ditatorial - a emissora foi uma trincheira em defesa da cultura nordestina, chegando a atrair para Aracaju nomes como Dominguinhos, Anastácia, Clemilda, Gerson Filho, a prata da casa Jose Vaqueiro, e outros figurões voaram nas ondas da Rádio Liberdade de Sergipe, mormente quando só existia ela e a Difusora, hoje Aperipê.

O advento da Liberdade FM em meados dos 80 coroou a obra. A emissora veio com um estilo classe A, tanto na linha musical, MPB, pop nacional e internacional, e até boas arranhadas na música clássica. Dava gosto de ouvir. A quem de fato ouve música.

Confesso meu divórcio do rádio – não somente da clássica Liberdade FM – à medida que se diversificaram os meios, especialmente a internet; mas dói-me saber que mais uma ilha de excelência fechou as portas.

Isso faz-me lembrar do que escreveu Humberto de Campos, por ocasião da morte de João Ribeiro: “Cai um jequitibá do Nordeste; qual marmeleiro será plantado em seu lugar?”

E tem também o danado do bairrismo. Mesmo que tenha a emissora, há bastante tempo saído da ligação direta com Itabaiana.

A marca Rádio Liberdade foi ao ar em 7 de setembro de 1953, forçando a Difusora, do Governo, a correr atrás. Pelas mãos de um ceboleiro: Albino Silva.

Albino Silva da Fonseca nasceu em Itabaiana, em 05 de março de 1909 e faleceu em Aracaju, em 19 de junho de 1992, aos 83 anos.

Empresário inovador, acabou sendo pioneiro em vários setores da economia sergipana, fundando as primeiras fábricas de biscoitos e de macarrão; a primeira granja do estado, o gás engarrafado em Sergipe, e água mineral. Foi um dos construtores da respeitabilidade itabaianense no comércio, acompanhando Gentil Barbosa, os irmãos Paes Mendonça e Oviedo Teixeira, entre outros.

O fim da Rádio Liberdade, conquanto que deixe a sensação de ter lutado o bom combate, deixa um gostinho amargo de saudade, e da constatação que eterno, só a eternidade.