sexta-feira, 25 de julho de 2025

É PRECISO ASSUMIR O PRÓPRIO PASSADO.

 

O boi é sinônimo de bem, de riqueza, há tempos; especialmente no mundo de língua portuguesa, ele é a rês. A coisa. O bem, em bom latim falando.

Em 1534, Martim Afonso de Souza já introduzia alguns animais em São Vicente-SP, mas foi no Nordeste, especialmente no entorno do entreposto marítimo português, hoje denominado de Salvador, que a criação ganhou folego com o protegido de Tomé de Souza, Garcia d’Ávila, a partir de 1650.

A criação, sob risco de confisco estrangeiro, pirata ou corsário, à beira da praia, não muito evoluiu, até 1590.  Mas depois de 1590, os rebanhos encontraram as condições perfeitas para se reproduzirem, mesmo não estando tão distantes do mar: a serrania denominada Itabaiana.

O Lugar

A serrania, em redor de Itabaiana, a fez o primeiro grande centro pecuarista brasileiro, e irradiador para o resto do Brasil
 
Itabaiana é um conjunto de serras baixas, resultante de enorme vulcão do período Arqueano, cuja forma gera um curral natural, como sobredito, não tão distante do mar; mas o suficiente para se tornar o primeiro centro pecuarista, e logo a seguir, disseminador da pecuária pelo Brasil.
Qualquer gênero de aboio, nascido nos campos do norte da África e transportado para a velha Ibéria, teve sua reprodução e evolução aqui. Os primeiros curtumes; as iniciais vestes encouradas sertanejas, arreios, as apartações. Apartações que desportivamente deram origem às vaquejadas.

Assim começaram as vaquejadas.

Os criadores raramente eram também donos da terra. Em geral, eram arrendatários, pagando todos os anos, em parte do gado, as suas dívidas. Por isso eram chamados de curraleiros.
Também, todos os anos, fiscais provenientes de Salvador vinham cobrar as fintas, ou seja, impostos do gado. Mesmo que hipotética e legalmente São Cristóvão fosse a responsável por essa tarefa. 
Era hora de juntar o gado. Fazer a apartação. Ver quanto sobrava para quem efetivamente trabalhou. E começava os tropeis dentro do mato para juntar reses dispersas, e depois dividir.

Cultura vaqueira

Ao nascer da década de 1980, a cidade voltou a reviver a cultura vaqueira. Com o então desconhecimento histórico, uma mera festa, quando de fato representou muito mais. À direita, ruínas da Igreja Velha, o mais antigo símbolo do Ciclo do Gado no Brasil.

Mesmo tendo deixado de ser um centro pecuarista há mais de três séculos, a cultura vaqueira sobrevive por aqui, e basta que alguém se proponha a administrar um evento, ele logo toma fôlego, surpreendendo. 
Assim foi, quando em 1979, o saudoso radialista, Djalma Teixeira Lobo promoveu grande vaquejada, estimulando o surgimento de outras pelo estado. E desde então, tem alguém relembrando aquele sucesso.
De fato, já passou da hora de Itabaiana se assumir como terra mãe da pecuária brasileira, com centro permanente de comemorações e memória, da apaixonante arte de criar gado, e toda a mística cultural que isso envolve.