quarta-feira, 19 de agosto de 2026

UMA HOMENAGEM À NEGRITUDE ITABAIANENSE.

Já houve tempo, não faz muito tempo, que a tradição oral da cidade de Itabaiana era a de que, em Itabaiana nunca houve pretos nem indígenas. 

Mas, lentamente se vai consertando os equívocos.

A solenidade na noite desta quarta-feira, 19, na Câmara Municipal de Itabaiana - 47ª mais antiga casa legislativa brasileira e 2ª sergipana – que concedeu título de cidadania ao poeta, ator e ativista causa negra, Severo José dos Santos, o Severo de Acelino, foi mais um capítulo na imersão em um tema que foi ignorado e esquecido por muito tempo na sociedade itabaianense.

O referido título foi uma proposta do edil João Cândido Sobrinho.

Mesmo que no primeiro Censo feito pelo IBGE, em 1940, a proporção de brancos no município sem mais as áreas ricas em engenhos, tenha se revelado alta, todavia, nos recenseamentos provinciais, anteriores, não era o que ocorria. O último Censo de 2022, guarda-lhe certa semelhança, no que se refere aos pardos.
Documentação ultimamente levantada nos arquivos, contudo, desdiz essa cultura de branquitude quase total. O que é natural, sendo Itabaiana a região mais antiga de Sergipe, ao lado de São Cristóvão e Lagarto; primeira produção pecuária para exportação de carne e couro do Brasil; e também contendo o segundo mais antigo povoado do estado, depois da cidade de São Cristóvão, por, em cujo povoado se abrigar a segunda paróquia na história do mesmo estado.
O desconhecimento, contudo, da incipiente classe alfabetizada, em relação a história do município, até a primeira escola de verdade, o Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, levou muita gente boa a duvidar da “Velha Loba”, como a ela frequentemente se referia o historiador Sebrão Sobrinho.
Os documentos, ora vindos à tona, nestes tempos de informação total – apesar de igual desinformação – tem nos munido de instrumentos para avaliação mais precisa da nossa história.

A cidade de Itabaiana foi fundada na rota dos entradistas, aos sertões de Jeremoabo, em resumo, os populares e odiados capitães do mato, onde o mais notório dele foi Fernão Carrilho. Logo, está ligada ao drama da escravidão desde o seu nascimento. Fugas, quilombos, capturas.

A rotina do capturado era terrivelmente desumana.

O original município de Itabaiana, do rio Cotinguiba ao riacho Cansanção, entre os rios Sergipe e Vaza-Barris, foi, em si, local de vários esconderijos de escravos fugitivos.

Caenda, hoje nos municípios de São Miguel do Aleixo e Ribeirópolis; Ribeira, em Itabaiana; mais tardiamente, Mocambo, em Frei Paulo, são registros precisos de atividade quilombola, contudo, várias localidades dentro da atual do município de Itabaiana, como os povoados Barro Preto, Taboca, e especialmente no Tabuleiro dos Caboclos, este, de possível associação de pretos e índios (caboclo é o termo popular para os miscigenados das duas raças), foram notoriamente ambientes de pequenas concentrações de pretos. De fato, Mocambos. Já que marginalizados, mas forros.

Porém a Itabaiana, além da cidade, originalmente se iniciava no rio Cotinguiba, e numa linha deste ao rio Sergipe, e ao Vaza-Barris, e chegou a ter a maior população escrava, nas décadas de 1860 e 1870. 95% de serras abaixo, nos atuais municípios de Malhador, Santa Rosa de Lima, Riachuelo, Areia Branca, Itaporanga d’Ajuda (margem esquerda do Vaza-Barris) e Campo do Brito.

Extrato do mapa Carta Corográfica de Sergipe, por João Bloem, 1844, quando a fronteira açucareira estava começando a se ampliar na Cotinguiba itabaianense.
E é esse território que gera João Mulungu, herói sergipano da causa negra.
Dentro das serras, nasceu e cresceu outro, que se tornou expoente, nacionalmente, Quintino de Lacerda, major, primeiro vereador negro da História do Brasil, chegando a presidente da Câmara Municipal de Santos-SP, sendo, primeiro protetor de seus irmãos de cor, no quilombo do Jabaquara, em sua propriedade; e também artífice político do fim da escravidão no Brasil.
E a essa presença, é que resume essa homenagem, de fato, a solenidade desta quarta-feira, dia 19, Dia do Historiador, a um expoente da luta, em busca de igualdade daqueles que um dia foi lhes negada até a presença de alma, o Sr. Severo José dos Santos.
Em 1877, já em franca venda de braços itabaianenses para os cafezais paulistas (Quintino de Lacerda foi vendido em 1875), mesmo assim Itabaiana ainda tinha a maior população escrava de Sergipe.

Boas vindas ao novo itabaianense!

quinta-feira, 30 de julho de 2026

ORQUESTRA SILENCIADA

Há mais de uma semana que eles não mais coaxaram.

A festa emudeceu.

O palco? Um pequenino sítio que ainda resta, entre as ruas São Luiz e Vera Cândida de Santana, cujas retificações, sepultaram um pequenino trecho da quatrocentona estrada colonial, Salvador-Olinda, a do sertão. Passando, naturalmente por Itabaiana.

Traços da quatrocentona estrada (em vermelho), ainda visíveis na fotografia aérea de Walmir Almeida, de 1986. Em verde a localização atual do "palco" em questão.
E a depressão restante no terreno criou uma espécie de lagoinha seca, mas em que todo os invernos, brotam sapos, caçotes, jias e outras modalidades de rãs, que quando em tempos bons, coaxam e coaxam, revivendo a orquestra da natureza, que a humanidade cada vez mais sepulta.

Porém. neste ano, mesmo sem alteração física no seu meio, por intervenção humana, a orquestra anda devagar.

O local referido, paraíso da saparia, e de ouvidos que com seu cantar se delicia, entre as ruas São Luiz, acima; e Vera Cândida, em baixo. Bairro Club.

Em abril, só veio chover por aqui no finzinho do mês.

Em maio, continuou o iniciado em abril, parando completamente por uns quinze dias; dando um pequeno agrado em junho, depois do Santo Antônio, e só voltando a chover, também no finalzinho do mês e início desse que ora termina. Nesse, choveu bem no dia 16, e menos no dia 17. Hoje, 30 de mês, só uma ameaça a cada semana. Ameaça, mesmo.

Aí a turma da maravilhosa orquestra não aguentou: guardou os instrumentos para dias melhores.

Uma pena: serve de atração especial toda vez que vou ao estúdio de pilates, especialíssimo porque é o único da cidade com visão para a história – ao menos para mim – contida no fiapo de estrada acima citada, com coqueiral a farfalhar suas palmas preguiçosamente, infundindo calma e bem-estar, enquanto as instrutoras capricham em seu afazer de desbastar a ferrugem de articulações viciadas e cansadas, operando milagres. 

Sem a orquestra ranária, fica faltando um pedaço.

E sobram, de certo modo preocupações, já que o consumo de água explodiu na últimos 30 anos, e as nossas barragens construídas nos governos pós-redemocratização – João Alves Filho e Antônio Carlos Valadares – sequer estão sangrando como de outros anos.

Em 2019, mesmo com a barragem sangrando por algum tempo, chegamos ao fim do ano em situação crítica de abastecimento, com suspensão da irrigação. Itabaiana continua no semiárido; apesar de toda tecnologia hoje disponível.



quarta-feira, 29 de julho de 2026

PEREGRINAÇÃO DE SANTA DULCE, 2026

"Coisa que pra mode ver, o cristão tem que andar a pé" 

(Estrada do Canindé - Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

No próximo domingo, 2 de agosto, tem início mais uma esplêndida jornada, de fé, oração e ecologia. De enlevo. (Leia também aqui. Clique.)

Trata-se de mais uma jornada, na maior parte, de um seleto e pequeno grupo; mas que iniciará irmanada com ruidosa e festiva multidão, acima de cinco mil caminhantes, na primeira etapa do tramo sergipano. Os 13 quilômetros do marco zero, oitão da Maternidade São José, até a ermida de Santa Dulce dos Pobres, vizinha a outro ponto emblemático, que é o Parque dos Falcões; e próximo de outro ponto, ainda inexplorado, mas de grande peso na História do Brasil: o local da prisão de Melchior Dias Moreia, e consequente nascimento da Lenda da Prata, em 16 de julho de 1619 (mais aqui).

Saída da estrada principal, no povoado Serra; e entrada numa secundária, sob o olhar da imagem de Santa Paulina.

A saída está marcada para as seis da manhã, com previsão de chegada às nove, a seguir, na sobredita e bendita ermida.

Essa primeira etapa é de inteira responsabilidade da Casa de Santa Dulce, com amplo apoio do Executivo municipal; de empresas, da mídia, impressa e eletrônica e deve repetir, com algum ganho, obviamente, as que já ocorreram nos anos anteriores.

Em foto de 2023, o apoio logístico do Município, com a segurança da SMTT e Guarda Municipal, coorganizando a saída com a comissão da Casa Santa Dulce.

A primeira e mais concorrida etapa será encerrada com Santa Missa às 9h, presidida por Dom Josafá Menezes, Arcebispo Metropolitano de Aracaju.

Em foto de 2025, um mesmo momento em duas posições: passando pelo riacho do Cedro, atual limite entre a cidade e o povoado Lagamar, com a cidade, ao fundo; e com a cidade deixada para trás.

Sinalização impecável: Na própria trilha; e na própria BR-235, acessos, e ao mesmo tempo escape. 

Completando a jornada

Deixada a massa de peregrinos, ao fim da primeira etapa, na ermida, os com destino a Salvador terminam de subir a serra, entrando no município de Areia Branca, a partir da capelinha em cima da serra. Sempre tocando em frente.

Concluída a primeira etapa, com a celebração da Santa Missa, já à meia serra, na ermida de Santa Dulce dos Pobres, os peregrinos da grande jornada até Salvador, agora sob a coordenação da Associação Sergipana de Peregrinos, seguirão adiante, descortinando o belo horizonte de cima da montanha sagrada sergipana, até Areia Branca, depois Laranjeiras, enfim, seguindo pelos próximos 15 a 21 dias, em belíssimas paisagens, com praias maravilhosas, campinas exuberantes, belas colinas, e abundantes pontos turísticos, em Sergipe e na Bahia, até o Santuário de Santa Dulce, em Salvador.

Flagrante da jornada inaugural completa, em 2022, no local onde a Irmã Dulce demonstrou sua santidade futura, ao recolher enfermos extremamente necessitados.



terça-feira, 21 de julho de 2026

ALEA JACTA EST, OU... A SORTE ESTÁ LANÇADA.

 

Ontem, pela noite, foi oficializada a candidatura ao governo do Estado, de Valmir dos Santos Costa.

É a sua segunda tentativa. A primeira foi abortada pelo pessoal da Justiça, pouco antes do primeiro turno, quando teve surpreendente votação, com o candidato que seria depois eleito, ficando em terceiro lugar.

A navalha, típica da República Velha, continua afiada. Resta saber se ousarão usá-la, ou não.

Valmir é o segundo itabaianense aspirante à cadeira máxima do executivo sergipano desde 1590, quando Sergipe nasceu. Traz ele, na sua chapa, justo o primeiro, Eduardo Amorim, que concorreu com Jackson Barreto, em 2014, agora candidato ao retorno ao Senado. Se vitorioso, será o primeiro eleito de Itabaiana, e com uma característica, um político do estado; e não somente da capital, como tem se apresentado todos os mandatários-mores, mesmo identificados com municípios do interior onde nasceram.

Valmir dos Santos Costa nasceu no povoado Pé do Veado, povoado que deu também a figura de Albino Silva da Fonseca, (1909 – 1992), empreendedor, fundador da primeira emissora privada de rádio, a Rádio Liberdade de Sergipe, AM, e entre outros empreendimentos, o homem que inaugurou a avicultura moderna no estado.

Depois de caminhar por dois mandatos de vereador (1989-1996), Valmir viveu a experiência de uma candidatura a vice-prefeito, heroica, observadas as condições da época; retornando ao velho parlamento serrano a partir de 2001, dele somente saindo para candidatura, agora vitoriosa, de 2012, sendo reeleito em 2016. Foi substituído pelo fiel escudeiro, Adailton Rezende de Souza, no quadriênio 2021-2024, retornando ao executivo municipal depois de garfado na eleição pra governador, em 2022, em 2025, licenciado e passando a batuta ao outro fiel escudeiro, José Paes dos Santos, Zequinha da Verdura. Agora, Valmir é franco concorrente ao cargo máximo no quadriênio 2027-2030.

A vetusta Câmara Municipal de Itabaiana - a escola de política desde 20 de outubro de 1697: escola onde Valmir se formou em política e administração de haveres da "Res Publica", tal como no SPQR latino.

Valmir de Francisquinho é político em tempo integral. Desde sua experiência com presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Estadual Murilo Braga, de Itabaiana, que o preparou para o seu primeiro mandato de vereador.

Leal, uma raridade na política; empreendedor nato, intrépido qual Euclides Paes Mendonça, sem, contudo, a agressividade que caracterizou a política da época; Euclides em particular. Administrador político; ou um político administrador.

À esquerda, "santinho" da campanha eleitoral de 1988. À direita, cópia do hebdomadário, Jornal de Itabaiana, do saudoso José Queiroz da Costa, nº 2, 08/01/1989, p.8, edição sobre a posse dos eleitos na Câmara Municipal de Itabaiana, em 1º de janeiro, oito dias antes.
Se deixarem, Sergipe poderá voltar a sonhar como em 1982.
A sorte está lançada. No original, em latim, “alea jacta est”.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

AS CONDENADAS

 

Assoberba-se a solitária e altaneira árvore, sem a consciência de que está condenada à morte em breve. Do mesmo modo, a escola, ao fundo, depois de mais de meio século de alegrias e laboratório de sonhos. É o progresso.

A concorrência entre os políticos pode beneficiar largamente o norte do município de Itabaiana.

A antiquíssima estrada do Canindé, pela também velha Caenda, ao menos no que toca aos seis quilômetros, da cidade até o povoado Pé do Veado, está a ganhar asfalto, com aquele povoado, e entorno, finalmente tomando ares urbanos, sem perder a sua característica de centro agrícola.

O núcleo principal do povoado está uma gracinha.

Num claro ato de competição eleitoral, a oposição, perfilada ao Governo do Estado, ora usa a força deste para medir forças, e está em franco progresso o asfaltamento dos três quilômetros e meio, da ligação do sobredito povoado, à rodovia estadual, SE-170, pela antológica estrada dos tropeiros, conhecida como Estrada da Mariquinha.

Ao percorrer ambos os trechos, encontrei na Estrada da Mariquinha, já no povoado Terra Vermelha, algo que mexeu comigo: uma soberba e frondosa árvores “empatando” o progresso. E um laboratório de sonhos a caminho da ruína: a Escola Municipal Manoel Francisco da Costa.
O zelo, o caprichar nos desenhos, a esperança da continuidade, baldaram-se frente a realidade de um mundo celeremente em transformação. Que pena!
Em primeiro, a velha unidade escolar municipal do povoado Terra Vermelha, construída na administração Vicente Machado Menezes (1967-1970), desde fins do ano passado fechada, já com o mato bem alto: somente seis crianças se matricularam nela no início do período letivo de 2026. 
É a dura e triste realidade. Dá para marejar os olhos todo aquele denodo das últimas mestras, jogado fora, pela cruel realidade da revolução silenciosa da queda de natalidade, obviamente que combinada com migrações, problemas de seguranças e outros; mas o fato é que aquela gritaria infantil foi calando, calando, e agora só resta, por enquanto, o maquinário barulhento trabalhando a estrada.
Escola não é apenas um lugar de aprender a ler. Por isso dói a cada prédio escolar que vai abaixo. Quantos gritos de alegria! Quantos expectativas, sonhos, essas paredes devem ter testemunhado.
E estrada, insofismavelmente, já condenou a mais altaneira das árvores ao redor. A qualquer momento virá execução da condenada. “As chaminés do progresso não podem parar”, como dizem Roberto e Erasmo Carlos, na canção “O Progresso”. Tomara que não seja mais uma estrada inacabada como a decantada Itabaiana-Itaporanga d’Ajuda (de fato, São Cristóvão)

Ciclo esgotado

Há cerca de 25 anos que algo me preocupa, em Itabaiana; em Sergipe e em todo o Brasil: vai faltar gente jovem pra cuidar dos jovens de hoje... amanhã, quando forem velhos.
Em Itabaiana o número de nascimentos desabou de mais de três mil por ano, na década de 1980, quando a população era de 64 mil, para 1.315 em 2024. Relativamente, em torno de 20 por cento daquela natalidade, levando-se em conta que a população atual anda pelos 110 mil no município.
Unidade municipal criada em 20 de outubro de 1697, ou seja, emancipada, Itabaiana, como de resto, o Brasil, salvo raras exceções teve alfabetização zero até o século XIX, não havendo registros por nós conhecidos, antes da década de 1830, com Sergipe e o próprio Brasil independente.
Mas o Estado-Novo, que sob o ponto de vista político deixou más lembranças, foi fundamental para consolidar as intenções revolucionárias contra um Brasil ainda feudal.
E é aqui que aparecem figuras como Anísio Teixeira, Murilo Braga e outros, reprogramando o país. Um programa agressivo para romper com quatro séculos de atraso. O Nacional-Desenvolventismo começando do começo: a Educação.
O regime interventorial em Sergipe, finalmente conseguiu a primeira unidade educacional de Itabaiana, o Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, inaugurado, já em funcionamento, em 4 de abril de 1937. Mas, a torrente educacional viria a partir de 1957, com as primeiras mestras formadas a partir do Colégio Estadual Murilo Braga, então Escola Normal Rural (a cidade acabava na rótula da Avenida Airton Teles).
Na década de 1940, as escolas “de pé pau” (espaços domésticos, adaptados, salas apertadas, onde aprendiam no máximo 20 alunos) se multiplicaram. Mas na década de 1950 vieram as Escolas Rurais, subsidiadas pela União e dirigidas pelos Estados.
Entre 1940 e 1990 foi preciso muito investir em Educação. Em Itabaiana, especialmente.
Em 1940, num total de 30.176 habitantes (menos de quatro mil na cidade) somente 4.728 (15,7%) se declaravam alfabetizados, em geral, a maioria mal assinava o nome. Pra votar.  Naquele Censo, o IBGE encontrou em Itabaiana, 9.754 (32,3%), ou seja, aproximadamente um, em cada três habitantes, tinha menos de dez anos; 6.993 (23,8%) tinham entre 10 e menos de 20 anos. Presumivelmente a metade em idade escolar.
Em 1940, 84,3% eram analfabetos totais.
Um salto no tempo e, com a Constituição de 1988, e a municipalização do Ensino Fundamental, relativamente fartos recursos começaram a serem alocados aos municípios, multiplicando-se as unidades municipais.
Foram décadas de investimentos em educação. E de repente, descobrimos que temos que reprogramar tudo.
Há dez anos que a clientela não aumenta, e, com o aumento da melhoria econômica geral, pipocaram escolas privadas, as mais variadas, que levam preciosa quantidade de alunos. 
Desde 2015, não nascem mais de 1.350 bebês ao ano em Itabaiana.
Mas o drama é maior na zona rural.
Em 1940, de cada cem habitantes do município, 85 moravam na zona rural.
Em 2010, já eram menos de 20; e, mesmo ainda não dispondo dos números do IBGE-2022, esses valores não devem terem muito modificado. Outrossim, a permanência de em torno de 20 na chamada zona rural mais deve-se a aglomerados urbanos ali surgido, quais inexistem na zona norte do município.
Há certa apreensão na Secretaria Municipal de Educação de que no próximo período letivo, mais umas cinco unidades tenham que serem fechadas por falta de aluno.
Mais espaços lúdicos, vividos por gerações, portanto, correm o risco de desaparecer.
É o tempo e seus compassos.



domingo, 19 de julho de 2026

A VELHA ESTRADA PARA SIMÃO DIAS.

 

Hoje, irreconhecível e ignorada, é uma das vias históricas de Itabaiana, na sua ligação com o sertão baiano, e, principalmente, com o lugar colonizado pelo primeiro itabaianense e sergipano, Simão Dias, o mameluco ou francês.
Foto: Avenida Maria Alves do Amorim, Maria Carreiro, Bairro Riacho Doce
 (Fotograma Air Drone, Helinho, 2024)

De fato, as velhas estradas: a primeira, a do vaqueiro Simão Dias Francês; e a segunda, para a cidade de Simão Dias.

Quando o primeiro sergipano e itabaianense, Simão Dias, o mameluco ou francês, chispou da Cova da Onça, levando seu gado para as Matas do Caiçá, provavelmente o fez pelos povoados Brito Velho e a Gameleira, saindo da grande estrada real para Salvador, depois deste último, quebrando à esquerda, pelo que viria a ser séculos mais tarde, a cidade de São Domingos, e daí atravessando o rio Vaza-Barris, rumando para seu destino. 

À direita, extrato do mapa holandês de 1646, mostrando a primeira ligação interiorana, entre a Bahia e Pernambuco, passando por Itabaiana, e por cujo ramal, até a atual São Domingos, Simão Dias Francês transitou, e a seu gado, em fins de 1640. À direita, extrato do mapa de Porsuit Gonnet, de 1825, ainda o mesmo trajeto.

Essa ligação se manteve até pelo menos 1825, conforme assinalado em mapa daquele ano. Porém, a criação da Comarca de Itabaiana, em 9 de julho de 1859, reatou pra valer, ao menos por breves tempos, a velha ligação ancestral da vila de Itabaiana com a novíssima vila de Simão Dias (foi emancipada em 15/03/1850)que dela, inicialmente fez parte, até 1890, quando então foi criada a comarca própria. Não mais pelo Campo do Brito e a Gameleira, e o que viria depois a ser São Domingos; mas pela Tapera do Sobrado, hoje a sudeste da cidade de Macambira, e Cruz das Almas. E, no atual município de Itabaiana, pelo Bairro Riacho Doce e povoado de Roncador e Taperinha.

Por essa estrada, por décadas, desde Itabaiana, transitou o estafeta dos Correios, levando e trazendo cartas. Do mesmo modo, usando a mesma, a Justiça se fez presente em Simão Dias, até a criação de sua própria comarca, em 1890. À margem da estrada, à direita, a frente do pequeno cemitério do povoado Taperinha.

Mas, a criação da comarca de Simão Dias; bem como as mudanças no trânsito postal dos Correios, desativaram por completo a ligação, e na atualidade, somente o trajeto entre Itabaiana e o rio Jacoca é identificável.

Recentemente seu início na cidade serrana ganhou bela, porém curta avenida, somente até a zona urbanizada do Bairro Riacho Doce.

Em 1995: ainda traços visíveis da estrada, já sofrendo urbanização, e hoje transformada em bonita avenida, no agora Bairro Riacho Doce.






sexta-feira, 17 de julho de 2026

BOIMÉS, UMA HISTÓRIA APAGADA.

O desaparecimento em meados da década de 1990, do cemitério do “Boi Mel”, pode ter sido mais um capítulo, no apagamento dos boimés entre nós.

Há até 30 anos atrás houve aqui um lugar de descanso eterno.
Talvez, quando trabalhei no balcão da agência de Correios, em 1979, não tenho certeza, li um nome de um povoado muito curioso do município de Itabaiana, “Boi Mel”.
Passaram-se três décadas, e aí, conheço o povoado; vejo-o numa coleção de mapas de campo da extinta SUCAM (Ultima foto), enfim, e logo a seguir, o conheço pessoalmente, ao tentar garimpar dados sobre outro nome emblemático em Itabaiana: a Fazenda Grande.
Na primeira década deste século XXI, tive leve contato indireto com os estudos da professora Beatriz de Góis Dantas, onde os índios boimés existiram aldeados na Missão do Carmo, hoje cidade de Japaratuba, além de umas poucas referências na coleção do Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; como também em algumas transcrições em outra coleção da mesma Biblioteca, a dos Documentos Históricos. E é a partir de 2003, que as minhas suspeitas da possível correlação entre boimés e o povoado Boi Mel ganham força.
Quem eram os indígenas presentes em Itabaiana, quando a área foi invadida por portugueses, vaqueiros e milhares de cabeça de gado?
Ninguém anotou nada, exceto as cartas concedendo sesmarias.
Missionários jesuítas, padrão Anchieta-Nóbrega, do século XVI, não houve. As demais ordens só cuidavam dos assuntos estritamente espirituais; salvo algum interesse mais material. E o governo, pouco presente, seguindo a lógica do colonizador, que veio pra limpar a terra de nativos, não anotou praticamente nada; especialmente aquilo moralmente condenável, como expulsar um povo que viveu milênios na terra, pra fazer fortuna criando gado, ou plantando cana.
Somente quase um século depois, o governo português, pressionado pelo Vaticano, contratou as várias ordens religiosas, especialmente capuchinhos, carmelitas e jesuítas para tentar salvar o que restava de indígenas, geralmente aldeando-os, logo, prendendo-os em local estranho, com pouca caça e pesca, e insistindo para os nativos se convertessem ao duro trabalho de agricultor. Como escravos.
Sermão do Frei Antônio da Piedade, na novíssima Santo Amaro das Brotas, em 1700. O frei, era então o responsável pelos Boimés na Missão do Carmo, hoje cidade de Japaratuba.

É assim que surge a Missão do Carmo, em 1696, comandada pelo Frei Antônio da Piedade, e nela sendo recolhido o que sobrou de boimés.

Vislumbre serrano

Riacho Canabrava, outrora banhos memoráveis da sociedade serrana; hoje convertido em esgoto de metade da cidade. Limite do povoado Boi Mel.

Em 1941, Sebrão, o sobrinho, publicou Taba Matüapoan, um conto, meio lenda, onde não fica claro como coletadas as informações; mas aponta as margens do riacho Canabrava, limites da antiga Fazenda Grande, como local onde teria havido importante reunião, em incógnitas eras, onde a tribo dos boimés teria amaldiçoado a tribo dos matapoanes. Ora, o referido povoado “Boi Mel” tem início justo à margem direita do atualmente poluidíssimo riacho Canabrava.
Capela de São Cristóvão, antes da (de)reforma, construída em eras incógnitas, no Tabuleiro dos Caboclos, há dois quilômetros do "Boi mel". No detalhe, um selo de ordem missionária.
O atual frenético e populoso Bairro São Cristóvão foi, até o ano de 1900, denominado o Tabuleiro dos Caboclos. E, caboclo, é o nome popular para mestiço de preto com indígena. Possui uma capela, de data desconhecida de construção, já usada pelo padre Vicente Valentim da Cunha como um simbolismo republicano do nascente século XX, exorcizando a denominação anterior, com a mudança de onomástica para Cruzeiro de Século.
Montagem: à esquerda, mapa de campo (trabalho) da SUCAM/MS, de 1988, mostra o povoado e a localização de cemitério; à direita, fotos de satélite: 2002; 2010 e 2024, mostra o local do antigo cemitério, em frente à estrada para o Lagamar, e entre o tanque e a estrada principal, a estrada velha do Bom Jardim. Talvez anulado para sempre mais um vestígio de uma das tribos que teria ocupado essas terras antes do colonizador português.

No município de Itabaiana, somente o cemitério de Santo Antônio e Almas, privado, da Irmandade das Almas, goza de documentação desde o seu início: 1913. Os demais, todos a beira de estradas principais, há suspeitas de que tenham sido criados pelos indígenas, ou por capitães do mato, para sepultar presas mortas durante o transporte. Deles, como o dos Mundés, que está associado a outra lenda, catalogada por Sebrão, o sobrinho.
O extinto cemitério dos boimés pode estar nessa lista. Ter sido criado pelos nativos, muito antes dos colonos; a seguir, por esses aproveitado para sepultar seus escravos e indigentes em geral; até chegar aos nossos tempos em que ricos e importantes não mais obrigatoriamente são sepultados nas capelas ou catedrais.
O fato é que seu desaparecimento em meados da década de 1990, pode ser mais um capítulo, no apagamento dos boimés entre nós.

Anais e Documentos Históricos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, vols. vários;
CABRAL. Eduardo Carvalho. Japaratuba, da Origem ao Século XIX. Ed. Triunfo. Aracaju. 2007;
SOBRINHO, Sebrão. Fragmentos de Histórias Municipais e Outras Histórias. Ed. Inst. Luciano Barreto, Aracaju, 2003. Organizado por CARVALHO. Vladimir Souza.