sábado, 21 de fevereiro de 2026

O TRIÂNGULO DA ECOLOGIA, DA FÉ E DA HISTÓRIA.

 
Borba Gato, Calabar, ciclo do ouro, cidades mineiras, Jacobina... que tem isso a ver com a serra de Itabaiana?

Sempre pesadão, meticuloso, burocrático, limitado por um enorme cipoal de leis, além de sempre tratar a agenda administrativa de modo político, o poder público, em qualquer época, tem sido, na maioria das vezes, refratário às novidades não imediatistas, eleitoreiras, reais ou imaginárias, desde que a res publica do SPQR (Senatus Populus Que Romanum) criou o ethos da construção pública, onde os melhores exemplos ainda podem ser vistos na Europa e até África, os enormes aquedutos.

Há duas décadas que tenho batido na tecla: é preciso glorificar a história de Sergipe, e em particular a de Itabaiana, trazendo a lume o que só aqui ocorreu. Coisa nossa. Que só nós temos. E isso só será feito com uma revisão enriquecedora da nossa história, acrescentando-lhe fatos ocultados ou esquecidos, mas de relevância na compreensão do porquê de sermos sergipanos.

Fato sempre minimizado ou esquecido na historiografia sergipana é que Sergipe foi uma província protomineral, que, no entanto, não se confirmou, enquanto se criou gado. A primeira produção pecuária na história do Brasil. Por coincidência, na Itabaiana (a região; o domo). A serra da lenda da prata, que durou exatos cem anos.

O poder dos símbolos.

Simbolismo, no imaginário humano é tudo! Monumentos não são meros trambolhos; em que pese serem tratados como tal, pelos néscios. É identidade tornada física. Visível. Palpável. 

De fato foi uma visão de Ciriaco Pizzicolli, no porto de Ancona, em 1421, que resultaria no Renascimento, quase cem anos depois. Renascimento que nos trouxe até aqui, a essa exuberância atual, cultural e econômica.

Hoje, como entusiasta, torcedor... aficionado pelo tema, recebi do amigo Ancelmo Rocha, da Associação Sergipana de Peregrinos a notícia que na colina onde houve o embate final, que fixou em Sergipe, e em Itabaiana, em particular, a Lenda da Prata no Brasil, será construído um marco histórico, em memória da prisão do neto de Caramuru, Melchior Dias Moreia ou Caramuru, no dia 16 de julho de 1619, pelo Governador-Geral, D. Luís de Souza, 1º Conde do Prado, há 407 anos, a se completar no próximo 16 de julho, obviamente.

"(...)fui à  serra de Itabaiana, dez leguas ao sertão da cidade, chegados ali, nos levou a meia ladeira de um outeiro, semeado de seixos e pedras brancas," Relato do governador, sobre a viagem e os motivos de ter prendido Melchior Dias Moreia.

O local, comporá, com a Ermida de Santa Dulce dos Pobres, e o Parque dos Falcões, que dispensa apresentações, mais uma opção de visitação, aqueles que demandam o citado Parque, e aos peregrinos, seja nas jornadas mais longas, como o Caminho de Santa Dulce, desde a Maternidade São José, lugar do primeiro milagre da Santa, até seu santuário, na capital baiana (460 quilômetros), às curtas, com a que tem lugar localmente, na primeira semana de agosto.

O marco consistirá em algo real, perene, não efêmero, da grandeza histórica Sergipe, e especialmente itabaianense.

De parabéns o Ancelmo Rocha, assim como todos que a ele venham se somar nesse empreendimento cultural.

O monumento, pelos dados históricos, deverá ocorrer dentro da área do Parque Nacional da Serra de Itabaiana.

Em frente.

Extrato do mapa Praefectura de Ciriji cum Itapuama, vel Seregipe DelRei. Trilha dos aventureiros da prata, seguiu as pegadas de Melchior Dias Moreia, em 1619.

Em tempo: 
Depois da viagem malograda, em 1619, outra expedição veio em busca da prata, em 1628. Como guia dela, Domingos Fernandes Calabar, que ficou estigmatizado na História do Brasil como o traidor, sendo garroteado (pescoço estrangulado por corda), em 1637, em Porto Calvo-AL, dois dias antes dos holandeses de Mauricio de Nassau por lá passar, rumo a Sergipe, especialmente atrás do gado e da prata de Itabaiana.
Em 1674, a última expedição em busca de prata, veio comandada por D. Rodrigo de Castelo Branco, com ordens de fundar uma cidade em Itabaiana. Se encontrasse a prata, claro. Prata não houve, mas foi criada a paróquia de Santo Antônio, cuja matriz deu origem à cidade, em 30 de outubro de 1675.
D. Rodrigo foi embora para o sul, por conta dos rumores de prata também em Paranaguá-PR, e ao passar por São Paulo se apropriou, em nome do rei, dos minérios encontrados por Fernão Dias Paes Leme, já morto, e cujas gemas estavam com a sua família. Por isso, entrou em dissenso com o genro de Fernão Dias, Manuel Borba Gato, que o matou. 
A condição de D. Rodrigo era quase de um vice-rei. Borba Gato, compreendendo a gravidade do que tinha feito se internou nos sertões em 1682. E encontrou o ouro de Minas Gerais, 15 anos depois.