domingo, 15 de fevereiro de 2026

OS PINGOS D’ÁGUA DA IGUÁ.

 Iguá, Mitidieri e bolivianização de Sergipe... você achou que a Iguá ia ser igual à Deso? 

À esquerda, cisterna PÚBLICA de Alexandria, Egito; construída por Ptolomeu I, 300 anos antes de Cristo nascer.
À direita, aqueduto Vergine, Roma, Itália, construído pelo Imperador Augusto, em 19, antes do nascimento de Cristo. Público.
Ambos ainda em funcionamento.

República Velha na veia!

Enquanto houve a figura do Imperador, até novembro de 1889, o país não muito andou; mas houve certa contenção dos egos inflados, e sua óbvia descarga como violência barata contra os mais pobres. Quando desaparece a figura do Imperador, a arrogante oligarquia fabrica seus grupos que, como desde a Atenas do século doze antes de Cristo, só houve coesão social na hora de roubar outrem; e enquanto roubavam. Recomeçando, naturalmente, o eterno dissenso na hora da partilha do saque.
E aí o Estado, nos seus três níveis – Município, Estado e União ou Federação – foi reduzido a pouco mais de zero. Foi necessária uma Revolução de 1930, e até um golpe de Estado - o Estado Novo - logo após, para que viéssemos a ter um programa – de Estado – que recolocasse o país mais ou menos ao nível do segundo governo monárquico.
Na República Velha, a decantada iniciativa privada imperou em tudo. E nos colossais abusos.
Se na federação modelo – os Estados Unidos da América – culturalmente formado por pequenos agricultores, que depois cresceram, tanto abusos foram cometidos, imagina numa federação macaqueada, com origem no medieval megalatifúndio, verdadeiros ducados – as capitanias hereditárias - e seus arraigados vícios.
Só para ilustrar, a criação de gado em Itabaiana foi feita por curraleiros; arrendatários das terras, que pertenciam a reinóis (portugueses de Portugal), que nunca pisaram os pés em Sergipe; mas recebiam rendas anuais das terras que o rei tomou dos índios e distribuiu entre eles, os nobres locadores. Vêm daí as apartações, depois vaquejadas.
A água, especialmente no Agreste e Sertão nordestinos sempre foi moeda de opressão política e econômica. 

A cavação do poço artesiano (hoje caixa d´água da Praça João Pessoa) em 1927, acompanhou a abertura da primeira rodovia, a Itabaiana-Laranjeiras. Obras feitas pelo DNOCS.

A criação do DNOCS, pelo presidente Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa, um paraibano, em 1919 veio fazer um pequeno diferencial.
O DNOCS, em verdade, foi o aríete na enorme e indecente muralha do coronelismo, que usava o isolamento de extensas comunidades interioranas (por falta de estradas), e o controle sobre cada pingo d’água, como forma medieval de seus verdadeiros pequenos reinos. Vêm daí também o terno curral eleitoral.

Euclides Paes Mendonça, 1962; e Valmir Costa, em 2024: ambos lutando para que a ingerência política no uso da preciosa água não caísse em mãos adversárias de Itabaiana. Ambos fracassados. Graças a Deus que Valmir não tão tragicamente quanto Euclides, em 8 agosto de 1963. 

Desde a venda da DESO, em setembro de 2024, voltamos a uma situação de insegurança hídrica; e pior que nos anos 1920, antes do DNOCS.
Certamante essa cisterna será capturada pela Iguá. A ideologia do lucro não respeita fronteiras
Até 1920, só o sertanejo, hoje 10,94% da população sergipana, era totalmente escravo do coronel, senhor das terras e das águas. Porém, o agresteiro, hoje 36,57% da mesma população, e principalmente o litorâneo, ou seja 52,48% da população sergipana atual, podia pegar água no rio; abrir uma fonte ou poço artesiano no fundo do quintal; ou construir uma cisterna, para captar água das chuvas. 
Agora, não mais.
Jegue aguadeiro do saudoso Carbureto, na Travessa Paulino Menezes, oitão da Prefeitura Municipal de Itabaiana-SE. Fins da década de 1950. A foto poderá em breve ser considerada subversiva, por inspirar concorrência à Iguá. Ilegal.
Houve recuo estratégico, relativo às cobranças pela água de poços artesianos, particulares, obviamente. Mas eles voltarão à carga; e não só contra os ricos e médios dos poços; mas especialmente dos pobres, sem voz. É para tirar até as tripas. Os gritos de euforia dos "investidores" merecem.
Em breve até um tonel para captar água das chuvas pode ser proibido; ou só com licença – e pagamento – a Iguá.
Pior: o que ocorre em Sergipe é um teste. Para ser aplicado no país inteiro.
E só deixarão para o governo quando rasparem o tacho. Levarem tudo, e só restar o bagaço.
Agnus Dei que tollis peccata mundi, miserere nobis!

A população do agreste e sertão sergipano aumentou proporcionalmente com o advento da tecnologia do abastecimento, entre 1890 e 1960. Porém, com a entrega do serviço público a grupos especulativos poderemos voltar a ser uma população de retirantes.
E então, adeus à escola natural de comércio como a que houve lugar em Itabaiana, com o adolescente-empresário José Carlos Machado vendendo água fria da cisterna de sua casa para os garotos da moringa, como o saudoso Abrahão Crispim, matar a sede dos feirantes, revendendo copos e copos.
Ao fundo, uma das barragens de Itabaiana - Jacaracica I - que certamente está na mira da Iguá, como todo pingo d'água que caia do céu, pra virar gritos de euforia na bolsa de valores, e números na remuneração de seus especuladores, digo, investidores. Graços aos nossos políticos, liderados pelo governador, obviamente.