sexta-feira, 22 de maio de 2026

O HERÓI NACIONAL DE ITABAIANA.

 

Num dia qualquer, de 1874, um escravo seguiu, provavelmente portando uma canga no pescoço, e acorrentado, rumo a sua sina miserável, ditada por outros. Ao desconhecido. E se tornou o maior personagem da história de Itabaiana

Ele nasceu como qualquer escravo: com o nome de Quintino; mas sem sobrenome.

Escravo era um "bicho de trabalho"; como boi, burro, cavalo, jegue. Apenas mais sofisticado.

Havia até homéricas e bem-intencionadas discussões, se preto tinha alma. E não foram poucos os piedosos assistentes assíduos de missas que se apiedaram do seu escravo de estimação não a ter.

Bem, mas Quintino, uma raridade, inteligente, sábio, além de aprender a ler, e ser escravo, mais pra ganho, do que pra enxada, deu sorte que em 1874, além da impiedosa seca nordestina, que no Ceará, matou 300 mil, e em Sergipe causou muitos danos, essa, por outro lado, lhe foi compensada pela cafeicultura paulista, que então necessitava de infinitos braços.

Só que escravos eram bens de produção. Sem eles, nada funcionava, como bem observou Manoel Bomfim, que ainda os alcançou.

O governo de Sergipe, desde a década de 1840, impôs severas restrições à venda de escravos.(*)

Em 1874, só podia ser vendido, se criminoso bárbaro. Ou ladrão.

As Flechas (acima, o pequeno e importantíssimo cemitério do povoado), hoje pouco mais de dois quilômetros e meio do complexo Santa Mônica (Bairro Macela), era o ponto de partida para uma vasta área de plantio do algodão, que ia do povoado, ao então povoado de Mãe Carira (abaixo). E foi nas Flechas, onde nasceu Quintino, em 8 de junho de 1839,em crise, no ano de 1874, como todo o Nordeste, Sergipe, e naturalmente Itabaiana, causada pela terrível seca, de 1870, a 1878.

Quintino "roubou" Antônio dos Santos Leite; e por isso deu adeus ao povoado Flechas, cruzando a então minúscula cidade, e pegando a estrada real de Laranjeiras até o porto, talvez o dos Barcos, hoje Riachuelo. Enfim, oito anos depois era uma espécie de filho adotivo do megaempresário da exportação no porto de Santos-SP, Antônio Lacerda Franco. Na mesma liberal Santos, tornou-se herdeiro do seu patrono, adquirindo musculatura para agir na política santista, onde chegou à presidência do Conselho Municipal, hoje Câmara Municipal.

Quintino de Lacerda. Na galeria dos ex-presidentes da décima mais antiga Câmara de Vereadores na História do Brasil: a de Santos de Brás Cubas.

Abolicionista prático, fundou o quilombo de Jabaquara, onde hoje estão, a Santa Casa de Santos; e os estádios do Santos Futebol Club e da Portuguesa Santista. Ali recolheu e protegeu multidões de escravos, sendo por isso reconhecido nacionalmente. Foi apoio fundamental ao general-presidente Floriano Peixoto, quando contra esse foi intentado um golpe, através da Marinha. Lacerda defendeu a veia aorta da economia brasileira, o porto de Santos, sendo depois condecorado com o posto honorário de major de Exército.

Enfim, um herói. Sem discusseiras e identitarismos fúteis e inconsequentes.


Quintino de Lacerda, um herói itabaianense.

A primeira semana de junho, em que pese a barulheira - sempre bem-vinda - em torno do Trezenário de Santo Antônio - o dono da cidade de Santo Antônio de Itabaiana - e da sua faceta cultural mais popular, chamativa, a Festa do Caminhoneiro, oficialmente pode ser a Semana da Consciência Negra, já que aprovado em Lei, a municipal, de número 965, de 20 de setembro de 2001, o dia 8, nascimento de Quintino, como dia consagrado a supradita Consciência Negra, no âmbito municipal.

Curiosamente, a política coronelista da cidade, na República Velha, retirou o poético nome de Rua das Flores, substituindo-o pela do general-presidente Floriano Peixoto. Porém, a ampliação da Rua da Jaqueira, depois denominada de Manuel Garangau, ao cruzar a Avenida Ivo de Carvalho, ganhou o nome do nosso (itabaianense) herói nacional: Quintino de Lacerda.

Exatamente ao lado; paralela, uma à outra.

Rua Quintino de Lacerda, desde os fundos do CTP.

(*)

RELATÓRIO com que foi aberta a 1ª Sessão da Undécima Legislatura da Assembleia Provincial de Sergipe, no dia 2 de julho de 1856, pelo Exmo. Sr. Presidente, Dr. Salvador Correia de Sá e Benevides. Bahia, na Tipografia de Carlos Poggetti, Rua do Corpo Santo, 47. 1856. Página 49. Et

RELATÓRIO com que o Exmo. Sr. Dr. José Martins Fontes, 1º vice-presidente da Província abriu a 2ª Sessão da 21ª Legislatura da Assembleia Provincial no dia 6 de março de 1877. Sergipe, Tipografia do Jornal do Aracaju, 1877. Página 108.


terça-feira, 19 de maio de 2026

CEM ANOS DO PRIMEIRO "CADERNO".

 

Lousa de ardósia para escrever. Há cem anos na família.

O menino era fraquinho, mirrado; e desenvolveu uma chaga na face direita que lhe marcou, como cicatriz, até o fim da vida. 

Vendo sua situação, sua tia de cortesia, professora no povoado Urubutinga, município de Lagarto, mais próximo desta cidade, com quem ela tinha mais laços, pediu à concunhada para levá-lo a passar por lá pelos próximos seis meses. Pedido aceito, porque D. Evangelista já andava desesperada pelo fato de nada curar aquela ferida, que só fazia crescer. 

Do povoado Mangabeira, onde vivia, para Itabaiana são 15 quilômetros pela velha Estrada dos Entradistas, trecho conhecido como Estrada de São Cristóvão (depois Itaporanga), e, ainda por cima, sua região havia sido desmembrada, e composta com o então novo município do Campo do Brito, com quem ficou, até 1933. Já o povoado Urubutinga, ficava apenas a cinco quilômetros da matriz de Nossa Senhora da Piedade, aos pés de qual nasceu e cresceu a cidade de Lagarto.

O menino, Alexandre Frutuoso Bispo, que veio a ser o meu pai aos quarenta e cinco de idade, então, tinha 12 anos. 1926.

Curioso, despertou na tia de cortesia o interesse de ensinar-lhe a “ler, escrever e contar”.

De volta à Mangabeira, semialfabetizado, às escondidas – meu avô então detestava quem sabia ler, exceto as autoridades – deu continuidade, aprendendo, especialmente aritmética, com seu Martim de Cuta (Martinho Bispo dos Santos), casado com sua prima Maria, pelo lado materno.

E foi seu Martim de Cuta quem lhe conseguiu a “pedra de escrever”, ainda em fins de 1926, especialmente para as inúmeras operações aritméticas.

Daí pra frente foi só aproveitar a inovações tecnológicas.

domingo, 17 de maio de 2026

DEVANEIOS TOLOS A ME TORTURAR.

Projeto pensado em janeiro de 2012. Nunca pôde chegar a quem decide.

O belo verso do Zé Ramalho da Paraíba (Chão de Giz) me remete a ideias, tidas e mortas, antes mesmo que alguém viesse tentar; parafraseando outra belíssima canção, a do grupo Os Originais do Samba, do saudoso Mussum, Esperanças Perdidas.

Uma das ideias, já vem sendo executada: a instalação de câmeras de segurança.

Mas há pouco tempo.

Em 16 de janeiro de 2012, depois da selvageria ter atingido em Itabaiana, 54 cadáveres em 2011, doze vezes os cinco a cada 100 mil habitantes, tido como normal pela Organização Mundial da Saúde; e quase o dobro do ano anterior de 2010, voltei a romanticamente pensar na possibilidade de reação da sociedade, com o ressurgimento do natimorto Conselho Municipal de Segurança. 

Uma das medidas urgentes seria a instalação de câmeras, a princípio no centro, como forma de inibir a criminalidade. 

Nada!

Comentários da ideia, e respectiva prospecção resultaram, quando muito, num lamento.

E, naquele ano eleitoral, como vem ocorrendo desde 1986, o número de assassinatos bateu outro recorde: 70 casos.

Dado preocupante.

Desde 1989, ano subsequente às eleições municipais, que um fenômeno, no mínimo curioso, vem ocorrendo em Itabaiana: o aumento exponencial de assassinatos em ano eleitoral, ou subsequente.
Às vezes, a espiral de violência ocorre no mesmo ano da eleição. Foram os casos de 1996; das eleições gerais de 2002; 2006; e das municipais de 2008; 2012; e 2016.
Às vezes, os “pagamentos” ficam para o ano seguinte. Foi assim em 1993, 1999 e 2019.
Isso acende um alerta para a possibilidade de compra expressiva de votos; e, sua possível cobrança pela não realização. Banditização da política.
E, bandido não cobra na justiça, não é?