Hoje, 21 de Abril, celebra-se, com justiça, o martírio do alferes Joaquim José da Silva Xavier, como mártir da Independência do Brasil.
Em verdade foi o sacrificado maior, entre os envolvidos na conjuração anti-imposto, de fins do século XVIII, que envolvia muita gente poderosa, a maioria escapada sem sequer um arranhão.
Quanto ao alferes, funcionário público, da segurança, que completava a renda arrancando dentes – daí o apelido, Tiradentes – ele pagaria por alta traição à Coroa portuguesa, tendo castigo exemplar, em 21 de abril de 1792.
Quanto ao rigor da pena, Tiradentes deu o azar de a Revolução Francesa ter explodido exatamente quando da sua prisão, 1789. Oito meses depois, o rei Luiz XVI teve a cabeça cortada, num festival de selvageria que só teria fim com a chegada de Napoleão Bonaparte ao poder francês.
A rebeldia dentro de um império onde o sol quase não punha.
Em 1789, o Império Português, da Macau, na China, ao Brasil, continuava a decair, ser ultrapassado por outros, como a já poderosíssima Inglaterra, fato iniciado com a morte em batalha de D. Sebastião, no distante 1578.
As medidas de Pombal, construtor da atual Matriz de Santo Antônio e Almas, deram leve alívio à Coroa; porém, insuficiente para restabelecer toda a magnitude de meados do século XVI, quando Lisboa era a capital da civilização europeia. O grande mercado.
No extenso Brasil, vez por outra, uma rebeliãozinha. Na maioria das vezes brigas do coronelismo local, algumas, com envolvimento e natural intervenção direta de Lisboa.
O Inconfidente Manuel Pestana de Brito
A primeira delas (dobrem as línguas, os despeitados. Vão estudar os documentos, de fato)... a primeira delas ocorreu em Sergipe, com epicentro nos campos de criação de gado, ainda concentrados em Itabaiana.
Manuel Pestana de Brito, oficial na guerra de reconquista em Pernambuco, contra os holandeses, foi o primeiro governador de Sergipe nomeado diretamente por Lisboa, sem a intervenção da Câmara de Vereadores de Salvador, em 9 de março de 1654.
A realidade, a rotina administrativa, porém, era outra: Quem efetivamente mandava era a Bahia, que, não aceitou o novo governante.
Sergipe era a dispensa baiana. Até 1823, mesmo a dependência tendo caído muito, mas quem alimentava o recôncavo baiano era Sergipe. E em 1650, era farinha da bacia do Real-Piauí; e carne do entre rios, Sergipe e Vaza-Barris. Itabaiana.
Para completar a renda de governador, o capitão-mor Pestana de Brito arrendou terras na Itabaiana; tornou-se curraleiro. Criador de gado em terra arrendada. E foi proibido por Salvador de cobrar impostos para a Capitania de Sergipe.
São Cristóvão ainda estava em frangalhos.
Nunca tinha tido uma arquitetura decente. Era uma vila de casebres. Assim bem o narra Gregório de Matos em seu soneto, sobre Sergipe d'El-rei. Sequer a igreja matriz era de alvenaria; e a fuga do comandante Bagnuolo, em 1637, havia incendiado tudo. Em 1655, ao assumir o governo, Pestana de Brito não tinha cidade; e, sem impostos, não tinha como construir uma.
Pestana de Brito resolveu encrencar. Possivelmente, num ato desesperado, para tentar uma definição de Lisboa, uniu-se à vaqueirama descontente.
Em Itabaiana, onde vivia, em sua fazenda, havia mais um descontentamento: a capela de Santo Antônio, próxima do rio Jacaracica, hoje em ruínas, uma hercúlea realização, para rudes criadores, feita entre 1620 e 1617, quando os holandeses a encontraram já pronta, continuava sendo desprezada pelas autoridades centrais. Nunca foi reconhecida.
No dia 5 de novembro de 1656, a vaqueirama invadiu São Cristóvão, soltou presos, prendeu alguns soltos, e depois debandou, frente à força mandada pela Bahia.
Contra os impostos baianos e outros abusos.
O que se seguiu foram dezenas de processados e apenados sem provas; a nascente sociedade sergipana desmoronou.
De Pestana de Brito nada mais foi encontrado. Desapareceu. Se morto, degredado, condenado às galés... nada! Pode ter tido um destino qual o de Tiradentes; porém é possível que, como natural da metrópole, tenha sido levado preso para lá, e lá morrido. Sumiu.
Com efeito, é a primeira manifestação colonial de rebeldia social e política na História do Brasil. Documentada. Mesmo que historiadores importantes a tenham ignorado até o momento.
