domingo, 29 de março de 2026

SEPULTADO MAIS UM MONUMENTO HISTÓRICO DE ITABAIANA.

 

Ironicamente, por remoção completa, caíram os últimos tijolos do cemitério dos crentes, nessa sexta-feira, dia 27 de março, deixando o chão onde se assentou limpo de qualquer vestígio de um símbolo sagrado para humanidade, qual seja, o seu último descanso, ao menos desde que o primeiro faraó se eternizou em sua tumba, acompanhado de texto mágico, prometendo sua ressureição, há cerca de cinco a seis mil anos.

A construção, há décadas em ruínas, era também o último símbolo de uma era socioeconômica gigante na história serrana: A Era do Algodão.

Nos escapa quando foi vendido para empreendedores pela congregação presbiteriana. Porém, em 1995 já estava abandonado, Aí, derrubaram a capelinha; logo a seguir se convertendo em lixeira. Hoje pedaço de terra tão valorizado, foi limpado para nova destinação, ficando apenas na memória, pelas imagens recolhidas. Os corpos lá sepultados? Ora, os mortos; quem liga pra eles, né?

Mesmo tardiamente, mas, como a capela da Igreja Presbiteriana, inaugurada em dezembro de 1939, e derrubada 2019, o Cemitério Presbiteriano, que nos escapa o ano de construção, e que teve o seu fim final nesta semana, era um raro símbolo do nascimento da nova Itabaiana que começou com as feiras de algodão de 1863. Ali, a bicentenária pequenina vila deixou de ser o lugar da paróquia, da Câmara de Vereadores se reunindo de ano em ano; dos cartórios, onde registrava terras e escravos, e dos enforcamentos, para ser também a feira dos sábados e assim dar o seu primeiro respiro na finalidade de hoje ser o que é, prometendo ser bem mais, futuramente.

A belíssima e singela capela, na esquina das ruas Sete de Setembo com Barão do Rio Branco, marco na cidade, desde dezembro de 1939, tombou, literalmente, em 2019. Oitenta anos depois.

O protestantismo na serra.

Foi a cultura do algodão e a influência inglesa, por seu imenso parque fabril, que em 1885 trouxe o primeiro credo protestante para as Caraíbas, e dali, se espalhando muito lenta, mas firmemente, até a construção, em 1939, da primeira igreja protestante em solo serrano, na Rua Sete de Setembro, na cidade, onde sobreviveria por exatos 80 anos.
O cemiteriozinho e a capela presbiteriana, símbolo do pluralismo religioso entre nós, com o vapor de Joãozinho Tavares (Fábrica de Beneficiamento São Luiz) eram os símbolos que ainda sobreviviam até o presente século XXI.
Vale das serras da Itabaiana, com a Estrada dos Entradistas do século XVII (dos Sertões do Jeremoabo-BA), ao descer da baixa serra do Pinhão, tendo em primeiro plano o povoado Caraíbas, que com o povoado Flechas, abrigou a primeira fase do grande projeto de expansão da cotonicultura de D. Pedro II, resultante da crise no mercado mundial do algodão, provocada pela Guerra de Secessão americana, de 1861-1864.

O vapor despareceu em 2009; a capela em 2019; e o cemitério que vive em decadência a aproximadamente cinco décadas desapareceu para sempre na última sexta-feira, 27.
Ao menos em termos de lembrança física, estão enterrados pra sempre dois momentos na construção da Itabaiana atual: a Era do Algodão e a chegada do protestantismo.
Memórias apagadas da Era do Algodão. 
O Vapor de Joãozinho Tavares, ou Fábrica de Beneficiar de Algodão 
São Luiz: logo após a inauguração, em 1939; fechado, em 2007; e o terreno limpo em 2009... pra evitar aventuras do governador Marcelo Déda, em transformá-lo em centro de memória??? (Terreno passou quase quatro anos servindo de estacionamento, até ser reconstruído).




segunda-feira, 23 de março de 2026

ITABAIANA - 25 ANOS NA INTERNET. 4ª e última parte

 

4ª e Última Parte: 
A luta silenciosa e solitária


Resumo da rescisão contratual, em 30 de junho de 2004

No dia 26 de março de 2001, Itabaiana era exposta ao mundo pela internet. Mais que uma ideia, um engrandecimento ao meu lugar, foi também pura provocação; quase desesperada, para ver se alguém, com poder de resolver – público ou privado - mordia a isca e trazia um provedor, ao menos nos livrando do caro e indigesto DDD (Discagem Direta à Distância), da concessionária de telefone.

Depois de já três anos de resmungões, sugestões, apresentações... restou isso: provocar.

Antes mesmo de entrar na rede, já em 1998 eu sugeria à Comunicação Municipal, à Educação, à Assessoria do Prefeito e até ao próprio, com quem iniciei breve conversa sobre o assunto, mais brevíssima, porque educadamente, Sua Excelência me deixou falando sozinho e se mandou.

Ao entrar na rede em 1999, vislumbrei, não a exuberância irracional, da atualidade (parafraseando Alan Greenspan, em 1998); mas a metade já era um absurdo de bom para aquela passagem de século.

Ninguém me ouviu.

Naquele fim de 1999 eu decidi tirar leite de pedra.

E eu tinha ferramentas em casa, que sequer suspeitava.

À esquerda, cópia da página principal, de 28 de agosto de 2001, quando ansiosamente aguardava o Itnet ir ao ar, postergado até o 7 de Setembro pela Telemar, então a concessionária de telefone (fixo). Gentilmente capturada nos bancos de dados por Jamisson Machado, e a nós ofertada, quando completamos o terceiro ano.
À direita, meu filho, Uriel Marx, ainda tomando aulas e já desenvolvendo os primeiros passos de programação, responsável direto pelo meu êxito.

Em 2001, a internet era uma criança: sem ladrões; cheio de sugestões de criatividade em uma enormidade de publicações, inclusive programa de criação de sites. Apesar dos computadores ainda terem preços proibitivos, mesmo já tendo desabado dos (pasmem!) R$ 5.586,00 de 1994, em preços de hoje... R$ 64.843,74. (anúncio à esquerda).

Meu filho primogênito, Uriel Marx dava trabalho o tempo inteiro na escola de informática básica. Era uma reclamação por semana: "Uriel está descontrolado; indisciplinado, querendo passar a frente dos outros". 

Eu ouvia, mas confesso sem muita aptidão para o censurar. Até que percebi o porquê: ele estava adiantadíssimo no conhecimento da linguagem, como programação. 

Sempre fui pela manutenção da ordem; desde que não trave a inteligência. As boas e excelentes ideias.

Confessei-lhe certas dificuldades em alocar o material numa página virtual, fazer um sítio ou site.

Ele me falou que como fazer e fez. E, a quatro mãos – conhecimento geral, mais conhecimento técnico – em 26 de março de 2001, pus Itabaiana para todo o mundo ver. Literalmente.

Melhor: comecei a remotamente colocar itabaianenses mais curiosos em contato com sua terra, muito antes de existirem as redes sociais.

Porém o melhor estava por vir: Despertei dois interessados de peso, quais sejam, o presidente da CDL-Itabaiana, Edivaldo Francisco da Cunha; e o ainda mini empreendedor Jâmisson Machado.

Qual não foi minha surpresa, três meses depois, ao descobrir no escritório da CDL local, um equipamento, que, muito além das necessidades comunicacionais da entidade, já era uma amostra do que viria depois.

E, um mês depois, a revelação pelo próprio Jâmisson Machado, um “atirado”, meio inconsequente, no entender do meio, mesmo do mais moderno empresariado; um deslumbrado com a tecnologia. Na calada, Jâmisson, como é da natureza dos negócios, ainda garotão, havia queimado o parco patrimônio que tinha para se lançar na aventura de fundar o Itnet.

Confesso que me custou muito argumento, dissuadir o presidente da CDL, convencendo-o a hibernar, depois abortar o projeto da instituição, naturalmente mais pesada que uma entidade privada, e ver no que daria o voo solo do Itnet.

Bem, para quem reside em Sergipe, especialmente em Itabaiana já sabe do resultado: sucesso total! O Itnet é hoje, seguramente, senão o maior, mas entre os dois maiores genuinamente sergipano.

Em junho de 2002, data dessa foto de baixa resolução, e nove meses depois de ir ao ar, o Itnet se constituía num santuário para a galera dos novos tempos que estavam se descortinando. 

Sem tino empresarial, e sem tempo de administrar meu site; e com a consolidação do Itnet, a presença de provedores concorrentes, que logo, finalmente apareceram; e novas formas de acesso à rede, em junho de 2004, três anos depois, arrumei os trens e caí na estrada em busca de outros horizontes.
Meu PC, (fundo real removido) em junho de 2004, com a última imagem do site "Portal Itabaiana", ou Itabaiana.inf.br.
A consolidação de Itabaiana na internet, portanto, veio seis meses depois, em 7 de setembro do mesmo 2001, com o primeiro chiadinho da conexão, de um provedor local, simbolicamente locado num andar superior, na esquina das ruas Jackson de Figueiredo com General José Calazans, esse, um itabaianense, um construtor, do Exército brasileiro de um século atrás; e ao fundo do primeiro prédio escolar da cidade, o Guilhermino Bezerra.
Provocado pelo primeiro portal de Itabaiana para o mundo, o Itabaiana.inf.br, que faz 25 anos nesse 26 de março de 2026, quando entrou no ar.
Um quarto de século. Bodas de Prata.
Pausa para uma devida homenagem a dois grandes da internet: Shaun Fanny, criador do Napster, primeiro site de trocas de músicas pela internet; e ao criador do mp3, Karlheinz Brandenburg.
Antes que tudo virasse um reles... negócio.

Leia partes anteriores:
1ª Parte (Clique)
2ª Parte (Clique)
3ª Parte (Clique)

domingo, 22 de março de 2026

ITABAIANA - 25 ANOS NA INTERNET. Parte 3

 

3ª Parte: 
1996 - Meu primeiro computador

Em 1996, trabalhando com marketing eleitoral, nível interior (o faz-de-tudo), atendi as sugestões de um amigo, Milton Sobral, que então, de olho num aparelho mais novo, me ofereceu o que anteriormente havia comprado, um dos poucos moderníssimos, com Windows NT e processador Intel 386 e super HD de 500Mb... pra mim, o ideal. O preço? Bem, como de segunda mão, R$ 1.420,00 atuais. Um novo, ali, com o básico, apesar da queda das tarifas ainda sairia, em preços de hoje, por uns oito mil reais. E top, "de marca", não sairia por menos de 17 mil.
Início de uma caminhada, que quatro anos depois deu no primeiro site da história de Itabaiana.
Em destaque, o meu garoto de então 12 anos, Uriel Marx, programador inicial dessa aventura, com o primeiro computador, que seria posta no ar em 26 de março de 2001.
Seis meses depois, finalmente a provocação, absorvida por Jâmisson Machado surtiu efeito: entrou no ar o provedor Itnet, que no Sergipe atual dispensa apresentações, definitavamente nos conectando ao mundo.
 
A internet era ainda um boato para o futuro. Nada mais.
Em janeiro de 1997, ao criar a arte para o Bloco Tchan desfilar na Micarana de abril daquele ano, além de me convencer da necessidade de uma máquina mais potente, também tinha o problema de programas gráficos rodarem muito melhores, e que o velho 386 não aguentava.
A arte para o Bloco Tchan, local, criada em janeiro de 1997, no PC, I386, para desfile na Micarana (micareme), de abril do mesmo ano.
(Agradecimento pelo fotograma ao jornalista Luciano Correia, em primeiro plano, tomando sua latinha e envergando o manto sagrado da folia, naquele ano).

Ao fim do ano comprei minha primeira máquina na caixa. Zero km. Não um "de marca"; mas um genérico, montado na Jamsoft Informática. Aproximadamente 8 mil reais, em valores atualizados.
A internet já zoava cada vez mais perto; mas nada que me tirasse o sono.
Em 1998, a internet se popularizou na capital. Mais ainda: começou a migrar para o interior. Salvo engano, Estância, Lagarto e Propriá receberam terminais. Itabaiana, não.
Como a internet era por conexão discada, competindo pela linha do telefone fixo, esperava-se que o então maior provedor do serviço no estado, ao menos colocasse Itabaiana ao mesmo nível das demais. Afinal, já tínhamos um excelente padrão econômico, com o número de linhas quase igual à soma das três cidades agraciadas; A Justiça e o Fisco estavam rapidamente entrando no modo “on line”, o que significava uma excelente e potencial clientela.
Porém a rede continuou distante.
Em 26 de março de 2001, meu sonho de compartilhar conhecimento começou a se concretizar. Senão uma Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (esq); mas algo mais modesto, inclusive tendo nela apoio.
Em 2002 eu havia mudado a denominação para Portal Itabaiana, numa tentativa de facilitar a busca. A internet ali ainda era uma criança, ávida de novidades, porém inocente (pintura no muro do velho Colégio Estadual Murilo Braga).

A partir de 1999, percebendo que havia outros interesses para não se efetivar um provedor local, sem DDD, e incapaz de sonhar, eu próprio, de o fazer, passei a usar meus contatos na cidade, e tentar estimular que alguém nos trouxesse o serviço, via instituição, especialmente o Executivo Municipal. Nada. Todo mundo surdo.
Até outubro de 1999, meu encantamento era pelo que lia; mas naquele mês, tomei coragem, assinei um provedor paulista, com filial em Aracaju, e tive o meu primeiro acesso à rede. E o que vi, me encantou. Muito além do que pensara. E um futuro promissor pela frente. 
Ainda era muito restrito e o trânsito via rede telefônica era de em geral 56kbps; e a base de dados acessáveis, uma pequena fração do que hoje. Mas eu me perdi no meio deles e nunca mais me achei longe, ao menos do que acho de importância.


Leia também:
Parte 1 (clique)
Parte 2 (clique)

...continua amanhã, a última parte.

sábado, 21 de março de 2026

ITABAIANA - 25 ANOS NA INTERNET. Parte 2

 

2ª Parte: 
O atraso brasileiro

Somente em 1989, o Brasil, enfim, teve um sistema, uma coluna vertebral, ou backbone, a sustentar sua internet.
Aquilo que houve nos Estados Unidos, 30 anos antes. 
Totalmente uma extensão da internet americana, que, por ser a poderosa proprietária é dona do Protocolo de Internet, ou IP, sem o qual é impossível entrar na internet. 
Mas, em 1º de maio de 1995, veio a abertura ao uso comercial no Brasil. Não logo disseminou-se devido a minúscula quantidade de terminais - computadores - existentes.
Evolução dos computadores:
Até 1980, os computadores eram imensos; empresariais ou institucionais. Mas na década de 1980, tudo se precipitou, e em 1985 já estávamos com máquinas pessoais, e muito mais eficientes.
Atraso na implantação rede de fibra ótica, e uso ainda exclusivo da linha telefônica, bem como capacidade técnica, incluindo a de software; bem como os preços dos aparelhos pessoais, na casa dos atuais 21 mil reais (US$ 4.000) no Brasil, frearam qualquer avanço mais rápido. Somente em Aracaju começou a funcionar um sistema "pra rico" curioso, em 1996. Porém, em 1995, havia sido lançado o Windows 95, plataforma que revolucionou a linguagem computacional, popularizando-a, e cujo modelo, com as mudanças de praxe para agregar valor, ainda hoje se mantém. E os aparelhos estavam com preços desabando, depois de quedas na origem, e fim das barreiras tarifárias: em 1997, eu já comprei o meu zerado por cerca de um mil dólares, ou, cinco mil e trezentos reais atuais.

Extrato de uma revista especializada, de novembro de 1996, quando a internet estava chegando em Sergipe, traz os preços praticados na aquisição de um computador pessoal: R$ 1.963,00 (o mais barato), corrigido para hoje, pelo IGP-M/FGV: R$ 17.305,84. Isso mesmo: dezessete mil e trezentos e cinco reais, e oitenta e quatro centavos.


...continua amanhã.

sexta-feira, 20 de março de 2026

ITABAIANA - 25 ANOS NA INTERNET.

1ª Parte: 

Internet – Um Produto da Guerra Fria

Em 1945, os Estados Unidos torraram e até evaporaram quase um quarto de milhão de japoneses, nos dias 6 e 9 de agosto, em duas cidades, com a explosão de duas bombas atômicas.
Em cima: explosão atômica sobre Nagasaki. 60 mil mortos imediatos, alguns literalmente evaporados; (mais 70 mil, depois de muito sofrimento).
Embaixo: Primeiro teste russo soviético, quatro anos e vinte dias depois.
Há tórridas discussões se aquele extremo de violência teria sido necessário, para abreviar a guerra, como a mídia ocidental, brasileira, inclusive, sempre a serviço do anglo americanismo espalhou. De fato, e encarando a realidade, foi um alerta à Rússia, então União Soviética: “agora que as potências europeias acabaram, o mundo é nosso”.
Mas os soviéticos surpreenderam; e, em 1949, explodiram a sua bomba. Pior, assombravam os super autoconfiantes americanos, ao passar por suas cabeças o Sputinik, em 1958, o primeiro satélite artificial da história. O Estado americano entrou em pânico. O inimigo podia agora vê-los de forma inalcançável, quando e onde quisesse. 
Montagem fotográfica: Central telefônica moderna brasileiro, anos 1990; e réplica do Sputnik, russo soviético, primeiro satélite artificial a orbitar a Terra, em 4 de outubro de 1957. Em 12 de abril de 1961, o primeiro homem, Iuri Gagarin, a 315 quilômetros de altura exclamava a frase: "Meu Deus, a Terra é azul!" 

E aí a corrida tecnológica da guerra foi apressada. 
E enquanto, em 12 de abril de 1961, Dia do Descobrimento da América, o soviético Iuri Alexeievitch Gagarin, exclamou, de uma altura de 315 km, "Meu Deus , a Terra é azul", os Estados Unidos, que já tinham o domínio da narrativa, pelo domínio total da mídia mundial (Hollywood & Cia), voltou-se aos velhos experimentos de Graham Bell, conectando computadores já existentes, usando as linhas telefônicas. A intrarrede, ou rede interna; hoje, popularmente, internet.
E, de universidade em universidade, e outros pontos estratégicos, onde foi havendo um computador, houve um quase secreto terminal da rede.
Em 1970, o governo americano se sentiu seguro, o suficiente, para liberar a rede para entes privados especiais. Já que o computador pessoal só viria uma década depois.

...continua amanhã.



sábado, 7 de março de 2026

PRIMEIRO PASSO.

 É caminhando que o caminho aparece (Rumi)

10º45'03"65 “S”; 37º22'44"06 “W”. Altitude, 285,98 m.
No Caa-ndu (mata rala, com poucas árvores), a presente colina, ao pé da serra, e sua vastidão de seixos calcáreos, um pouco parecido com o entorno de Cerro Rico, no Potosi, Bolívia, atraiu aventureiros até que viesse a torrente de ouro da Jacobina, e principalmente de Minas Gerais. No singelo pedaço de pau enfiado numa base de pedra, uma ideia tão sólida quanto a própria rocha: um marco para a história do Brasil; de Sergipe; e óbvio, de Itabaiana.

Hoje pela tarde fui ao Caa-ndu, ou Gandu II, povoado daqui de Itabaiana-SE, vizinhança do Parque dos Falcões. Acompanhando o desbravador Ancelmo Rocha, da Associação Sergipana de peregrinos.

Objetivo? Plantar pequenina semente, referente a um drama na história do Brasil, de quatro séculos, mais precisamente, quatrocentos e seis anos, sete meses e dezoito dias, hoje, 7 de março de 2026. No dia 16 de julho de 1619, esteve nessa colina o que seria hoje presidente da República, ou seja, o governador-geral do Brasil colônia, D. Luiz de Souza.

Veio ele acompanhado dos governadores das capitanias de Pernambuco, mais rica; e da Bahia, que também concentrava o Governo-Geral do Brasil.

Por indicação de Melchior Dias Moreia, neto de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, e sua esposa Catarina Paraguaçu.

Melchior achou uma mina de prata; mas sabedor dos riscos que corria, nunca disse a ninguém onde se encontrava, esperando compensações pela mesma, além de garantias de sua segurança.

À pressão do governador-geral, D. Luiz de Souza, o trouxe a essa colina cheia de pedras brancas, tendo sido preso aqui por ter conduzido D. Luiz de Souza a um fiasco.

Aqui vieram depois várias outras expedições, inclusive os holandeses, que grafaram um lindo mapa, encomendado por Mauricio de Nassau.

Sob a guarda dos falconídeos do Parque dos Falcões, ao alto, à direita, Ancelmo Rocha marca o local onde em breve haverá um marco, dessa vez histórico, a complementar o tour que hoje já conta com a  ermida de Santa Dulce e o referido parque, referência mundial, especialmente visitado por todo o país.

A visita de hoje foi simbólica. Lutar-se-á, desde já, pela construção de um marco nesse local, para que esse capítulo da História do Brasil nunca mais seja relegado a quinto plano, ou esquecido; quase completamente desconhecido. (Mais aqui:)

O gesto pode ter sido uma pequena caminhada para nós; mas será um gigantesco salto para a história de Itabaiana, de Sergipe, a confirmar o nosso lugar na História do Brasil.

E será parte do triângulo de referenciais turísticos, hoje já contando com a ermida de Santa Dulce dos Pobres, no vértice religioso; o super conceituado nacionalmente vértice ecológico, o Parque dos Falcões; e agora, o vértice histórico: a origem da Lenda da Prata de Itabaiana. Os primeiro e o último, dentro do Parque Nacional da Serra de Itabaiana.

Leia mais sobre o assunto:

Aqui

Aqui.

Aqui

8 DE MARÇO: FIM DO MATA ESCURA

Lampião diz que é valente;

É mentira, é corredor

Correu “da” Mata Escura

Que a poeira alevantou (Volta Seca)

Coreto na Praça Fausto Cardoso (foto cortesia: Juarez), em montagem com o poeta-cangaceiro Antônio Dias, o Volta Seca, depois de cumprir pena pelos anos de cangaço; e figura simbolizando o enforcamento de Mata Escura, em 8 de março de 1847. Poucos metros adiante da igreja matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana-SE.

O Tanque da Pedreira, que ficava na quadra em frente à Praça João Pereira, “saída das Candeias”, segundo amigos, garotos em fins da década de 1950, início da de 1960, em cuja foi aterrado, tinha “a forca”.

Não uma forca; mas uma estrutura para pegar água no tanque, de relativa profundidade, confundida pela molecada, possivelmente pelas histórias orais que ainda abundavam no imaginário popular, sobre os enforcamentos havidos na pequena cidade, onde os mais rumorosos casos, e com registro, foram do mascate João Gomes; e, oito meses antes, o de Mata Escura, Antônio José Dias, enforcado na Praça Fausto Cardoso, em 8 de março de 1847, amanhã, domingo, fazem 179 anos.

Se desconhece o objetivo oficial da abertura da Pedreira, que gerou o Tanque, e que deu nome a uma rua, estrada de acesso a ele (circulo em amarelo); mas ele existiu até início dos anos 1960, e sua estrutura de coletar água na parte mais profunda, gerou o imaginário da forca, existente algumas vezes na Praça da Matriz, hoje Fausto Cardoso. Nos anos de aterramento do Tanque, vizinho surgiu a Praça General João Pereira.

Menos de um ano, depois de negada a clemência do Imperador D. Pedro II, ao bandido Mata Escura, foi a vez do inocente, como se provaria depois, o mascate João Gomes.
Mata Escura, bandido das matas da Santa Rosa de Lima e do atual Malhador, até o boqueirão da Sarafina e Zanguê, infernizava a vida do pessoal da região mais rica de Itabaiana, de então; e trazia perigo e desassossego constante aos mascates itabaianenses que demandavam as ricas feiras dos engenhos, especialmente, Maruim e Laranjeiras.
Deve ter ficado na memória viva da região, pois, quando, de brincadeira, mas cismava de enfrentar Lampião nas reuniões do bando, Antônio dos Santos, o Volta Seca, nascido no Saco Torto, e criado entre aquele povoado e Itabaiana(*), se referia ao chefão do cangaço como nos versos iniciais, acima, para chamar o chefe de frouxo.
Foto de Walmir Almeida, de 1986 (acervo Robério Santos), mostrando a testada da serra grande e seu limite ao norte, assim como as matas transseranas do Malhador e Santa Rosa de Lima, habitat de Mata Escura, há 180 anos.
 



(*)Volta Seca, antes de matar aos 12 anos  o cunhado, abusador da sua irmã, e embrenhar-se no cangaço, foi menino de recado de Francisco Tavares de Jesus, pai, entre outros, de José Araújo Tavares – o saudoso Zeca Araújo; e D. Ieda Tavares Silveira, no sítio suburbano do Canto Escuro, hoje a região do CTP.

Leituras:

MENEZES, Wanderlei de Oliveira. Festa, Farinha e Forca: a pena de morte na província de Sergipe. Monografia – UFS-São Cristóvão-SE, 2008). 

SOUZA, José Crispim de, O Serrano, nº 250, p5, 12/11/1977).

SANTOS, Robério. As quatro Vidas de Volta Seca. Infographics, Aracaju, 2017.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O TRIÂNGULO DA ECOLOGIA, DA FÉ E DA HISTÓRIA.

 
Borba Gato, Calabar, ciclo do ouro, cidades mineiras, Jacobina... que tem isso a ver com a serra de Itabaiana?

Sempre pesadão, meticuloso, burocrático, limitado por um enorme cipoal de leis, além de sempre tratar a agenda administrativa de modo político, o poder público, em qualquer época, tem sido, na maioria das vezes, refratário às novidades não imediatistas, eleitoreiras, reais ou imaginárias, desde que a res publica do SPQR (Senatus Populus Que Romanum) criou o ethos da construção pública, onde os melhores exemplos ainda podem ser vistos na Europa e até África, os enormes aquedutos.

Há duas décadas que tenho batido na tecla: é preciso glorificar a história de Sergipe, e em particular a de Itabaiana, trazendo a lume o que só aqui ocorreu. Coisa nossa. Que só nós temos. E isso só será feito com uma revisão enriquecedora da nossa história, acrescentando-lhe fatos ocultados ou esquecidos, mas de relevância na compreensão do porquê de sermos sergipanos.

Fato sempre minimizado ou esquecido na historiografia sergipana é que Sergipe foi uma província protomineral, que, no entanto, não se confirmou, enquanto se criou gado. A primeira produção pecuária na história do Brasil. Por coincidência, na Itabaiana (a região; o domo). A serra da lenda da prata, que durou exatos cem anos.

O poder dos símbolos.

Simbolismo, no imaginário humano é tudo! Monumentos não são meros trambolhos; em que pese serem tratados como tal, pelos néscios. É identidade tornada física. Visível. Palpável. 

De fato foi uma visão de Ciriaco Pizzicolli, no porto de Ancona, em 1421, que resultaria no Renascimento, quase cem anos depois. Renascimento que nos trouxe até aqui, a essa exuberância atual, cultural e econômica.

Hoje, como entusiasta, torcedor... aficionado pelo tema, recebi do amigo Ancelmo Rocha, da Associação Sergipana de Peregrinos a notícia que na colina onde houve o embate final, que fixou em Sergipe, e em Itabaiana, em particular, a Lenda da Prata no Brasil, será construído um marco histórico, em memória da prisão do neto de Caramuru, Melchior Dias Moreia ou Caramuru, no dia 16 de julho de 1619, pelo Governador-Geral, D. Luís de Souza, 1º Conde do Prado, há 407 anos, a se completar no próximo 16 de julho, obviamente.

"(...)fui à  serra de Itabaiana, dez leguas ao sertão da cidade, chegados ali, nos levou a meia ladeira de um outeiro, semeado de seixos e pedras brancas," Relato do governador, sobre a viagem e os motivos de ter prendido Melchior Dias Moreia.

O local, comporá, com a Ermida de Santa Dulce dos Pobres, e o Parque dos Falcões, que dispensa apresentações, mais uma opção de visitação, aqueles que demandam o citado Parque, e aos peregrinos, seja nas jornadas mais longas, como o Caminho de Santa Dulce, desde a Maternidade São José, lugar do primeiro milagre da Santa, até seu santuário, na capital baiana (460 quilômetros), às curtas, com a que tem lugar localmente, na primeira semana de agosto.

O marco consistirá em algo real, perene, não efêmero, da grandeza histórica Sergipe, e especialmente itabaianense.

De parabéns o Ancelmo Rocha, assim como todos que a ele venham se somar nesse empreendimento cultural.

O monumento, pelos dados históricos, deverá ocorrer dentro da área do Parque Nacional da Serra de Itabaiana.

Em frente.

Extrato do mapa Praefectura de Ciriji cum Itapuama, vel Seregipe DelRei. Trilha dos aventureiros da prata, seguiu as pegadas de Melchior Dias Moreia, em 1619.

Em tempo: 
Depois da viagem malograda, em 1619, outra expedição veio em busca da prata, em 1628. Como guia dela, Domingos Fernandes Calabar, que ficou estigmatizado na História do Brasil como o traidor, sendo garroteado (pescoço estrangulado por corda), em 1637, em Porto Calvo-AL, dois dias antes dos holandeses de Mauricio de Nassau por lá passar, rumo a Sergipe, especialmente atrás do gado e da prata de Itabaiana.
Em 1674, a última expedição em busca de prata, veio comandada por D. Rodrigo de Castelo Branco, com ordens de fundar uma cidade em Itabaiana. Se encontrasse a prata, claro. Prata não houve, mas foi criada a paróquia de Santo Antônio, cuja matriz deu origem à cidade, em 30 de outubro de 1675.
D. Rodrigo foi embora para o sul, por conta dos rumores de prata também em Paranaguá-PR, e ao passar por São Paulo se apropriou, em nome do rei, dos minérios encontrados por Fernão Dias Paes Leme, já morto, e cujas gemas estavam com a sua família. Por isso, entrou em dissenso com o genro de Fernão Dias, Manuel Borba Gato, que o matou. 
A condição de D. Rodrigo era quase de um vice-rei. Borba Gato, compreendendo a gravidade do que tinha feito se internou nos sertões em 1682. E encontrou o ouro de Minas Gerais, 15 anos depois. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

E COMEÇA O ANO REAL.

 

“Só depois do carnaval!” Quem já não ouviu isso?

Nesse ano de 2026, ao menos do ponto de vista cultural, em que pese já ter havido um “esquenta” no último 18 de janeiro, mas, culturalmente, e ao nível de Itabaiana, a Secretaria Municipal de Cultura promove a 2ª Feirinha Cultural de Itabaiana, domingo, nesse 22 de fevereiro - fim da ressaca carnavalesca - uma espécie de abertura oficial para o ano socioeconômico de 2026. Ao menos no campo cultural.

Mais uma vez teremos milhares de livros usados; discos, em CD e vinil; revistas, gibis, cartazes, panfletos, enfim, todo o tipo de material grafado, do mais elementar ao de processos digitais, apesar de ainda em mídia física.

E aí, palhinhas da música, folclore, artesanato, e gravuras em geral, desde o grafite à pintura a óleo ou aquarela, enfim: cultura. Cabe tudo da cultura.

No 18 de janeiro último, a turma só foi embora "no lixo". Às doze horas. Movimento surpreendente.

Nem que vaca tussa, não adianta; em geral, o brasileiro, no seu íntimo, tem isso como um axioma: o Brasil só passa a funcionar normalmente no novo ano, depois das miniférias coletivas, que começam na sexta, à noite, emendando ao sábado, domingo, segunda e terça-feira à noite. São 96 horas, ou quatro dias. 

O carnaval. Para os cinco por cento de brincantes, ou os meros noventa e cinco por cento ou mais de feriantes.

Cidades ficam vazias; praias e chácaras, cheias. E onde tem a muvuca, claro. Cidades que ganham até 20% a mais de população transitória.

Sem patrão reclamando de empregado preguiçoso, que “não quer trabalhar”; empregado empoderado por estar, muitas vezes, no espaço “de igual para o igual”, com o patrão; autoridades relaxando rígidas regras... é carnaval.

Mas o rescaldo, de fato, vai até o domingo seguinte. Na primeira segunda-feira, pós-carnaval, tudo volta ao seu normal.

A Feirinha Cultural, mais uma vez será na Praça João Pessoa, em torno do monumento à Apolo 11 (em frente ao Supermercado Nunes Peixoto) dia 22 de fevereiro, das 8 às 12 horas.

Não tem como errar o local:
Monumento à Apolo 11, Praça João Pessoa, antigo cruzamento da estradas coloniais, Estrada das Entradas aos Sertão de Jeremoabo com a Salvador-Olinda pelo interior, ou Estradas das Boiadas. Em frente ao Supermercado Nunes Peixoto.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

MATAPOAN NA HISTÓRIA

 

Ontem fui à terra do último bravo a cair, à meia noite de 31 de dezembro de 1589, na dura Conquista de Sergipe: o cacique Baepeba. 

Nunca lembrado pelos historiadores sergipanos, mas as cartas dos jesuítas, sobre o desfecho da malfadada missão de São Tomé, teve o mesmo como protagonista, em 1575. E todos mathiapoones pagaram o preço de serem tecnologicamente tão atrasados: comprova a carta de sesmaria de Brás de Abreu, de 15 de maio de 1623, 33 anos depois. 

Mas o sangue deles, dos poucos que ficaram, ainda corre em muitas veias itabaianenses. Através das indiazinhas criadas por brancos.

Um capítulo de história de Sergipe, e em particular, de Itabaiana, ao chegar na Matapoan.

Mais recentemente, em 1932, à frente dessa pequena e aconchegante capela passou a primeira rodovia com destino ao sertão, em substituição a velha Estrada das Entradas aos Sertões de Jeremoabo, hoje localmente conhecida como Estrada das Flechas ou Caraíbas. Foi por vinte anos - até 1952 e a BR-235 - a grande via, especialmente a Frei Paulo e Carira, também servindo a Ribeirópolis.

À frente da capela está sendo construída pelo Município uma praça condizente com a história do lugar e sua capela.

E, ao menos num trecho de 450 metros pelo velho leito da rodovia, com óbvia ligação com BR-235, também a Prefeitura já preparou o leito para receber asfalto.

Baepeba aprovaria.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

OS PINGOS D’ÁGUA DA IGUÁ.

 Iguá, Mitidieri e bolivianização de Sergipe... você achou que a Iguá ia ser igual à Deso? 

À esquerda, cisterna PÚBLICA de Alexandria, Egito; construída por Ptolomeu I, 300 anos antes de Cristo nascer.
À direita, aqueduto Vergine, Roma, Itália, construído pelo Imperador Augusto, em 19, antes do nascimento de Cristo. Público.
Ambos ainda em funcionamento.

República Velha na veia!

Enquanto houve a figura do Imperador, até novembro de 1889, o país não muito andou; mas houve certa contenção dos egos inflados, e sua óbvia descarga como violência barata contra os mais pobres. Quando desaparece a figura do Imperador, a arrogante oligarquia fabrica seus grupos que, como desde a Atenas do século doze antes de Cristo, só houve coesão social na hora de roubar outrem; e enquanto roubavam. Recomeçando, naturalmente, o eterno dissenso na hora da partilha do saque.
E aí o Estado, nos seus três níveis – Município, Estado e União ou Federação – foi reduzido a pouco mais de zero. Foi necessária uma Revolução de 1930, e até um golpe de Estado - o Estado Novo - logo após, para que viéssemos a ter um programa – de Estado – que recolocasse o país mais ou menos ao nível do segundo governo monárquico.
Na República Velha, a decantada iniciativa privada imperou em tudo. E nos colossais abusos.
Se na federação modelo – os Estados Unidos da América – culturalmente formado por pequenos agricultores, que depois cresceram, tanto abusos foram cometidos, imagina numa federação macaqueada, com origem no medieval megalatifúndio, verdadeiros ducados – as capitanias hereditárias - e seus arraigados vícios.
Só para ilustrar, a criação de gado em Itabaiana foi feita por curraleiros; arrendatários das terras, que pertenciam a reinóis (portugueses de Portugal), que nunca pisaram os pés em Sergipe; mas recebiam rendas anuais das terras que o rei tomou dos índios e distribuiu entre eles, os nobres locadores. Vêm daí as apartações, depois vaquejadas.
A água, especialmente no Agreste e Sertão nordestinos sempre foi moeda de opressão política e econômica. 

A cavação do poço artesiano (hoje caixa d´água da Praça João Pessoa) em 1927, acompanhou a abertura da primeira rodovia, a Itabaiana-Laranjeiras. Obras feitas pelo DNOCS.

A criação do DNOCS, pelo presidente Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa, um paraibano, em 1919 veio fazer um pequeno diferencial.
O DNOCS, em verdade, foi o aríete na enorme e indecente muralha do coronelismo, que usava o isolamento de extensas comunidades interioranas (por falta de estradas), e o controle sobre cada pingo d’água, como forma medieval de seus verdadeiros pequenos reinos. Vêm daí também o terno curral eleitoral.

Euclides Paes Mendonça, 1962; e Valmir Costa, em 2024: ambos lutando para que a ingerência política no uso da preciosa água não caísse em mãos adversárias de Itabaiana. Ambos fracassados. Graças a Deus que Valmir não tão tragicamente quanto Euclides, em 8 agosto de 1963. 

Desde a venda da DESO, em setembro de 2024, voltamos a uma situação de insegurança hídrica; e pior que nos anos 1920, antes do DNOCS.
Certamante essa cisterna será capturada pela Iguá. A ideologia do lucro não respeita fronteiras
Até 1920, só o sertanejo, hoje 10,94% da população sergipana, era totalmente escravo do coronel, senhor das terras e das águas. Porém, o agresteiro, hoje 36,57% da mesma população, e principalmente o litorâneo, ou seja 52,48% da população sergipana atual, podia pegar água no rio; abrir uma fonte ou poço artesiano no fundo do quintal; ou construir uma cisterna, para captar água das chuvas. 
Agora, não mais.
Jegue aguadeiro do saudoso Carbureto, na Travessa Paulino Menezes, oitão da Prefeitura Municipal de Itabaiana-SE. Fins da década de 1950. A foto poderá em breve ser considerada subversiva, por inspirar concorrência à Iguá. Ilegal.
Houve recuo estratégico, relativo às cobranças pela água de poços artesianos, particulares, obviamente. Mas eles voltarão à carga; e não só contra os ricos e médios dos poços; mas especialmente dos pobres, sem voz. É para tirar até as tripas. Os gritos de euforia dos "investidores" merecem.
Em breve até um tonel para captar água das chuvas pode ser proibido; ou só com licença – e pagamento – a Iguá.
Pior: o que ocorre em Sergipe é um teste. Para ser aplicado no país inteiro.
E só deixarão para o governo quando rasparem o tacho. Levarem tudo, e só restar o bagaço.
Agnus Dei que tollis peccata mundi, miserere nobis!

A população do agreste e sertão sergipano aumentou proporcionalmente com o advento da tecnologia do abastecimento, entre 1890 e 1960. Porém, com a entrega do serviço público a grupos especulativos poderemos voltar a ser uma população de retirantes.
E então, adeus à escola natural de comércio como a que houve lugar em Itabaiana, com o adolescente-empresário José Carlos Machado vendendo água fria da cisterna de sua casa para os garotos da moringa, como o saudoso Abrahão Crispim, matar a sede dos feirantes, revendendo copos e copos.
Ao fundo, uma das barragens de Itabaiana - Jacaracica I - que certamente está na mira da Iguá, como todo pingo d'água que caia do céu, pra virar gritos de euforia na bolsa de valores, e números na remuneração de seus especuladores, digo, investidores. Graços aos nossos políticos, liderados pelo governador, obviamente.



domingo, 25 de janeiro de 2026

MOMENTOS ADOLESCENTES

 

Alguns povos ainda tratam a escrita e literatura como coisas sagradas. A magia de tornar eterno um pensamento. Magicamente entendido por outras pessoas, a milhares de quilômetros de distância; ou  milhares de anos depois.

Hoje pela tarde recebi um convite, para mim, inusitado: participar de uma roda de conversa sobre literatura, máxime, feminina e itabaianense.

E lá me fui atendendo à provocação do amigo e ativista cultural Adelmo Torres.

Curiosamente – não sei se por intenção premeditada – no canto noroeste da Praça Fausto Cardoso, em frente à futura sede da Academia Itabaianense de Letras, que já foi sede da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição; e ao lado do monumento mais importante do município, e que, verdade seja dita, ninguém dá a mínima por ele e o seu significado: a Emancipação de Itabaiana. comemorada em data errada, 191 anos mais recente.

Mas deixa os vícios históricos pra lá.

Senti-me aquele adolescente de 1976 ou 1980. Sem obviamente aquelas voltinhas que dava na mesma velha praça.

O papo aqui foi de gente séria. Focada. E com os adolescentes de todas as idades presentes, com espírito adolescente, obviamente, rolou história de Itabaiana; trechos literários e a crítica de gente que entende, hoje, somente sobre a despretensiosa grande obra da minha amiga Maria do Carmo Xavier Costa, que arrancou elogios da assembleia presente, pela leveza, objetividade, e ao mesmo tempo sensibilidade, deitadas no seu trabalho.


O grupo

O Clube de Leitura Maria Thetis Nunes existe há seis anos, segundo suas fundadoras - todas mulheres com foco apenas na literatura feminina – e que costumeiramente reúnem-se no mesmo espaço, sempre que possível, a ponto de já terem ganho um mascote, de olho nos carinhos que sempre recebe; e em alguma guloseima que possa entrar no seu cardápio, claro.
Enquanto a Júlia Ferreira lê o expediente, "Caramelo", sorridente e completamente à vontade, no meio da reunião, espera, de um carinho a mais, a, quem sabe, algo para o paladar.

Particularmente eu desconhecia o Clube completamente; até a última Bienal – a VII – de outubro próximo passado, quando o amigo e confrade Antônio Francisco de Jesus, o Saracura, me passou a relação de todos os grupos sergipanos envolvidos com literatura.

Qual não foi o meu espanto ao me deparar com o Clube, o qual não tinha a menor noção de existir, porém desde então, tenho tido algum contato com Júlia Ferreira, e Luara Oliveira. E para minha surpresa, duas outras amigas, a Luzinete e a Marcelle Sacramento também fazem parte do grupo. Tô em casa!

Que o grupo cresça e se multiplique; para que a arte de eternizar pensamentos, grafando-os, assim como decodificá-los, resista a torrente de ignorância que infelizmente a tecnologia superior atual está rapidamente instituindo.

sábado, 24 de janeiro de 2026

DE SUCESSÕES.

 

A República Velha, e seus terríveis vícios, voltou com força. Sem nunca ter saído de fato. Da primeira vez ela derrubou o Sergipe ao penúltimo lugar dos estados brasileiros...

Um lugar vai bem quando tem sucessões equilibradas no seu governo.

Nada mais nefasto do que a estabilidade total; nada mais aterrador que a instabilidade total.

A primeira, leva inexoravelmente aos vícios; donde o menos danoso é a preguiça. No segundo caso - da instabilidade - só a bandidagem prospera num clima de comoção total.

Entramos em mais um ano nervoso, com todo mundo de olho nos cofres da viúva, nos níveis, estaduais e federal.

Domesticamente, a nós, itabaianenses, interessam a Presidência da República e o Governo do Estado. Quem manejará as verbas, os investimentos. E, obviamente, conduzirá a máquina pelos próximos quatro anos, após janeiro vindouro. Seja em Aracaju; seja em Brasília. 

Em Brasília, permanece a incerteza, com um presidente enfraquecido, porém o único político que restou de pé, a dar algum sentido a uma nação dividida ao meio; e uma oposição supostamente caótica, porém coordenada pelo Departamento de Estado americano e seus soldados da Faria Lima e tentáculos na mídia grande e estamento, em geral. (Será que um dia esse país ainda será independente???)

Em Aracaju, caminhamos para mais um pleito estressante, onde o estado profundo - o que realmente manda, apesar de caótico, "Mateus, primeiro os teus" - ditará mais uma vitória do candidato "confiável", o atual governador, reconduzindo-o ao cargo, com o natural comprometimento total, engessado pelos retrógrados, que deixa morrendo de inveja os então presidentes do Estado, na República Velha, que em duas décadas derrubaram Sergipe do nono estado mais rico para vigésimo segundo no Brasil.

A torcida é por milagres.

Muito mais em Sergipe que no país.

Valmir Costa, em Sergipe, foi o único político com musculatura suficiente que sobrou nesse moinho de moer lideranças políticas. Mas Sergipe profundo o obsta, trava, a qualquer custo. Os motivos? Ora, inventa-se! Como certa vez afirmou o saudoso Raymundo Faoro: “(...) até pelo prazer de confirmar a profecia”.(*)

A prefeita da Capital, segundo maior poder no estado, não vai. E o governador está livre para viver alegremente sua prisão, num estado que moeu gente do naipe de José Rollemberg Leite, João Alves Filho, triturou ao pó, Marcelo Déda, e até Augusto Franco e seu filho, Albano, penaram nas mãos da velha máquina sergipana de destruir futuros.

Mas... política é como nuvem: a cada segundo, um formato diferente.

Barco pra frente.



(*) Em dezembro de 1992, depois de cabeçadas, mas principalmente ter desagradado Roberto Marinho, dono da Globo, Fernando Collor estava para ser empichado num Congresso, de anjos, comparado ao atual. O grande jurista Raymundo Faoro, na  IstoÉ, 1212, de 23 de dezembro, página 21, no artigo A semana final, ao analisar a tragédia humana por suas formas de governo em especial o regime republicano, termina com o seguinte período: 

“Uma eleição congressual significa constituir um poder por força de uma representação constitucionalmente viciada. De qualquer modo, já que a previsão existe, em abstrato, fatalmente ocupará as fantasias dos conspiradores de sempre. Sobretudo se o governo falhar; se não falhar procurar-se-á fazer-lhe com que falhe, até pelo prazer de confirmar a profecia”.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A MORTE DO ORELHÃO.

 

Cena da excelente publicidade da agência DPZ, São Paulo, de 1980. Intitulada A MORTE DO ORELHÃO, alertava para a necessidade de conservar o patrimônio público. Não depredar. 

O anúncio, pela Antel, na última terça-feira, de retirada total dos outrora tão úteis telefones públicos, os orelhões – onde ainda existem - desperta memórias nas gerações mais antigas, e marca mais um corte temporal, na era do uso da tecnologia em solo nacional; e, no caso do orelhão da tecnologia nacional mesmo. O nosso jeitinho brasileiro, surpreendentemente barato, útil, e de certa forma, acolhedor. Cálido.

"Apenas 3 minutos". E a ficha (a local) caía e a ligação ia pro espaço, sem nem mesmo pedir a música; ou dar outro recado.

E a música popular, do radialista paulista dos anos 1970-80, Barros de Alencar, Apenas Três Minutos, ficará completamente sem sentido para as futuras gerações.

O telefone público foi inventado nos grandes centros tecnológicos, e no Brasil, demorou muito a se popularizar.

Em Itabaiana, o telefone de fato, só passou a ser rotina em 1978. Apesar de inaugurado em 29 de janeiro de 1930. Em 1933 já há reclamações de não funcionamento. O que se manteve por mais 45 anos, arrancando ácidas críticas do jornal O Serrano, a partir de sua criação, em 1968.

E, coincidentemente é em 1978 que também surgem os primeiros orelhões, o que contribuiu para a primeira febre de trotes, já que por ligação automática, sem intermediários; como também para turbinar as participações populares pelo então 422-1746, na então novíssima Rádio Princesa da Serra.

Desde então, o orelhão passou a ser parte do nosso cotidiano.

Chu Ming da Silveira, a arquiteta inventora de algo revolucionário, que aguentou por 60 anos, fazendo parte da rotina brasileira. À direita, um dos últimos na cidade de Itabaiana, em 2002, em frente à Escola Benedito Figueiredo, Conjunto José Luiz Conceição. A comodidade do celular liquidou tudo.

Escapa-me, contudo, quando o último por aqui deixou de existir. Destes, vi um em frente à Escola Municipal Benedito Figueiredo, em 25 de dezembro de 2002. Desde lá, à medida que se popularizaram os celulares, desapareceram por completo.

Em 1970, Itabaiana tinha telefone desde 1930. Mas não funcionava. Todos particulares, exceto um de uso público, abrigado numa casa. Até 1978. (Pontos no mapa).

Atualmente, segundo a Anatel, somente um município dentro das serras, na grande Itabaiana, possui um único aparelho em funcionamento: Macambira. No próprio município de Itabaiana, nada. E dos municípios sergipanos, somente entre os mais extensos, no Agreste, e principalmente no Sertão, é possível ainda se encontrar algum. Típico de local com cobertura ruim ou zero, da telefonia celular.

E a morte definitiva do velho orelhão, de tantas chamadas aflitas, apaixonadas, e até pra encher saco, de vez em quando, foi decretada.

E lá se vai mais um símbolo da nação real; que tanto imperou na segunda metade do século próximo passado.