sexta-feira, 17 de julho de 2026

BOIMÉS, UMA HISTÓRIA APAGADA.

O desaparecimento em meados da década de 1990, do cemitério do “Boi Mel”, pode ter sido mais um capítulo, no apagamento dos boimés entre nós.

Há até 30 anos atrás houve aqui um lugar de descanso eterno.
Talvez, quando trabalhei no balcão da agência de Correios, em 1979, não tenho certeza, li um nome de um povoado muito curioso do município de Itabaiana, “Boi Mel”.
Passaram-se três décadas, e aí, conheço o povoado; vejo-o numa coleção de mapas de campo da extinta SUCAM (Ultima foto), enfim, e logo a seguir, o conheço pessoalmente, ao tentar garimpar dados sobre outro nome emblemático em Itabaiana: a Fazenda Grande.
Na primeira década deste século XXI, tive leve contato indireto com os estudos da professora Beatriz de Góis Dantas, onde os índios boimés existiram aldeados na Missão do Carmo, hoje cidade de Japaratuba, além de umas poucas referências na coleção do Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; como também em algumas transcrições em outra coleção da mesma Biblioteca, a dos Documentos Históricos. E é a partir de 2003, que as minhas suspeitas da possível correlação entre boimés e o povoado Boi Mel ganham força.
Quem eram os indígenas presentes em Itabaiana, quando a área foi invadida por portugueses, vaqueiros e milhares de cabeça de gado?
Ninguém anotou nada, exceto as cartas concedendo sesmarias.
Missionários jesuítas, padrão Anchieta-Nóbrega, do século XVI, não houve. As demais ordens só cuidavam dos assuntos estritamente espirituais; salvo algum interesse mais material. E o governo, pouco presente, seguindo a lógica do colonizador, que veio pra limpar a terra de nativos, não anotou praticamente nada; especialmente aquilo moralmente condenável, como expulsar um povo que viveu milênios na terra, pra fazer fortuna criando gado, ou plantando cana.
Somente quase um século depois, o governo português, pressionado pelo Vaticano, contratou as várias ordens religiosas, especialmente capuchinhos, carmelitas e jesuítas para tentar salvar o que restava de indígenas, geralmente aldeando-os, logo, prendendo-os em local estranho, com pouca caça e pesca, e insistindo para os nativos se convertessem ao duro trabalho de agricultor. Como escravos.
Sermão do Frei Antônio da Piedade, na novíssima Santo Amaro das Brotas, em 1700. O frei, era então o responsável pelos Boimés na Missão do Carmo, hoje cidade de Japaratuba.

É assim que surge a Missão do Carmo, em 1696, comandada pelo Frei Antônio da Piedade, e nela sendo recolhido o que sobrou de boimés.

Vislumbre serrano

Riacho Canabrava, outrora banhos memoráveis da sociedade serrana; hoje convertido em esgoto de metade da cidade. Limite do povoado Boi Mel.

Em 1941, Sebrão, o sobrinho, publicou Taba Matüapoan, um conto, meio lenda, onde não fica claro como coletadas as informações; mas aponta as margens do riacho Canabrava, limites da antiga Fazenda Grande, como local onde teria havido importante reunião, em incógnitas eras, onde a tribo dos boimés teria amaldiçoado a tribo dos matapoanes. Ora, o referido povoado “Boi Mel” tem início justo à margem direita do atualmente poluidíssimo riacho Canabrava.
Capela de São Cristóvão, antes da (de)reforma, construída em eras incógnitas, no Tabuleiro dos Caboclos, há dois quilômetros do "Boi mel". No detalhe, um selo de ordem missionária.
O atual frenético e populoso Bairro São Cristóvão foi, até o ano de 1900, denominado o Tabuleiro dos Caboclos. E, caboclo, é o nome popular para mestiço de preto com indígena. Possui uma capela, de data desconhecida de construção, já usada pelo padre Vicente Valentim da Cunha como um simbolismo republicano do nascente século XX, exorcizando a denominação anterior, com a mudança de onomástica para Cruzeiro de Século.
Montagem: à esquerda, mapa de campo (trabalho) da SUCAM/MS, de 1988, mostra o povoado e a localização de cemitério; à direita, fotos de satélite: 2002; 2010 e 2024, mostra o local do antigo cemitério, em frente à estrada para o Lagamar, e entre o tanque e a estrada principal, a estrada velha do Bom Jardim. Talvez anulado para sempre mais um vestígio de uma das tribos que teria ocupado essas terras antes do colonizador português.

No município de Itabaiana, somente o cemitério de Santo Antônio e Almas, privado, da Irmandade das Almas, goza de documentação desde o seu início: 1913. Os demais, todos a beira de estradas principais, há suspeitas de que tenham sido criados pelos indígenas, ou por capitães do mato, para sepultar presas mortas durante o transporte. Deles, como o dos Mundés, que está associado a outra lenda, catalogada por Sebrão, o sobrinho.
O extinto cemitério dos boimés pode estar nessa lista. Ter sido criado pelos nativos, muito antes dos colonos; a seguir, por esses aproveitado para sepultar seus escravos e indigentes em geral; até chegar aos nossos tempos em que ricos e importantes não mais obrigatoriamente são sepultados nas capelas ou catedrais.
O fato é que seu desaparecimento em meados da década de 1990, pode ser mais um capítulo, no apagamento dos boimés entre nós.

Anais e Documentos Históricos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, vols. vários;
CABRAL. Eduardo Carvalho. Japaratuba, da Origem ao Século XIX. Ed. Triunfo. Aracaju. 2007;
SOBRINHO, Sebrão. Fragmentos de Histórias Municipais e Outras Histórias. Ed. Inst. Luciano Barreto, Aracaju, 2003. Organizado por CARVALHO. Vladimir Souza.