segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Transgenia

A gente vai contra a corrente até não poder resistir
Na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva e carrega a roseira prá lá.

Francisco Buarque de Holanda - Roda Viva

O termo é novo, mas o mal que o invoca é antigo, e pior, volta e meia ele está de volta; recorrente.
Desta vez é porque tem pepino – talvez uma roça deles - com cheiro de castanha torrando no ar.

Off line (sem linha; ou desligado).

Considero-me com autoridade para falar sobre o assunto a seguir por estar atualmente meio desligado dos circuitos formadores e informadores das notícias em Itabaiana.
Ontem, às dezesseis horas houve a abertura dos Primeiros Jogos do Interior aqui no Presidente Médici. Apesar de residir bem pertinho, eu lá não fui. Quando me veio a curiosidade pelo som do serviço de alto-falantes que chegou nitidamente à minha casa, fui à internet e encontrei notas em dois dos portais da cidade. Releases da Secretaria de Estado que cuida do desporto.
Acredito que não houve essas freqüências todas, apesar de estar Itabaiana sem muita atração de lazer que se possa classificá-la como uma cidade. Quase igual aos tempos de Guilhermino Bezerra quando ganhou o status de cidade apenas para promover os dois irmãos professores do dito deputado estadual.
Eu acho que faltou comunicação.
O evento reuniu boa parte dos municípios sergipanos e, por se tratar de algo envolvendo as maiores autoridades do Estado e do Município - além de outros – era esperada uma promoção publicitária bem mais marcante. Que chamasse a atenção deste desatento escriba, inclusive.
Ao contrário dos shows abertos na Praça de Eventos, ao lado, não percebi nenhuma movimentação de pessoas pelas ruas em direção ao Estádio Presidente Médici.
Ora, a publicidade é uma obrigação constitucional e não há crime algum em exercitá-la. O que é crime é usá-la para outras finalidades que não a promoção do interesse público.
Talvez tenha havido excesso de zelo dos responsáveis pela publicidade governamental do Estado, todavia, é preciso que entendam que ao balcão de negócios em que se transformou a informação noticiosa, especialmente nos últimos trinta anos não há alternativa; a não ser dançar conforme a música. Obviamente que mantendo o cuidado de não cair na zona do umbral.
E, pra ser direto, não adianta incensar o caminho com assessores bem relacionados sem, contudo portar um cheque à mão. Em verdade este último item conta enormemente mais que o primeiro. De fato, é o que conta.
Se bem usado o último item acima fará milagres. Fará com que muita gente – até mesmo do tipo que se acha o máximo – “amoleça” o coração e “abraçar a causa”.
Coisa de profissional. Dizem.
Detalhe: não abuse. Recentemente os que governavam assim o fizeram, mas esqueceram do principal, aquém do alcance dos sabujos. A prova é a presença dos que agora governam no governo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Republicanos

A turma da Direita nacional se péla de medo do Zé. Dizem eles: “o Zé é guerrilheiro”. Não com respeito, obviamente, já que este pessoal só conhece o temor; fruto do medo. E não o respeito, fruto da admiração das qualidades alheias. E, claro, existem muitas mentes avançadas no mundo político, inclusive na Direita; porém, infelizmente a maior parte é de saqueadores.
Pois bem, “o Zé é guerrilheiro”!
A que diabos de guerrilha se refere a turma do egoísmo exacerbado?
O Zé é guerrilheiro porque antes de ser um político é um republicano. Aquilo a que tanto se referem vários personagens do umbral como “homem público”, mas que de fato nada entendem ou querem entender do que seja um homem público, já que são pessoas que têm o olho maior que o planeta, porém, só enxerga o próprio umbigo. E, portanto, são pessoas incapazes de entender a grandeza de um projeto que atinja o máximo de pessoas em detrimento de um projeto egoísta, extremamente pessoal, e que quando bem sucedido o será em termos e breve; e logo em seguida, dadas as circunstancias que normalmente cercam esses projetos, os poucos que dele se beneficiaram buscam dele se desvencilhar; pular do barco antes que ele afunde. Até os descendentes de seu maior beneficiário tudo fará futuramente para negar-lhe o parentesco familiar. É nisso que dão os projetos pessoais; extremamente pessoais. Um mar de choro e ranger de dentes.
“O Zé é guerrilheiro” porque em nome de um projeto imensamente maior é capaz de dar-se ao sacrifício como todos os apóstolos de qualquer credo. Coisa que a imensa maioria, ou tem medo; ou quer dar uma de gato e viver limpo sem tomar banho.
Uma ideologia não pode sobreviver comandada por “especiais” preconceituosos, burocráticos, patrimonialistas – mesmo que no sentido de titulações acadêmicas; e muito menos por quem só enxerga vantagismo em tudo o que, obviamente, acaba por levar-lhe à torpe idéia da “farinha pouca; meu pirão primeiro”. Ideologia é coisa de homem – ou mulher – de espírito público, mesmo quem seja alguém invisível social ou politicamente. Gente que trabalha pela maioria; e não para bandos e muito menos e pior, apenas para si.
Nem todos têm a coragem de ser “o guerrilheiro”. É compreensível. Todavia, é necessário que quem assim não tiver condições de seguir; quem não estiver preparado para a guerra, que peça substituição. Ou pelo menos não plante bravatas. Não destrua os sonhos de quem ainda sonha sonhar.
O PT de Itabaiana têm tudo a ver com o Partidão, o Partido Comunista Brasileiro, a maior agremiação de socialistas de vitrine que o Ocidente conheceu. Basta lembrar o que é o PPS atual, herdeiro direto do velho Partidão.
O PT de Itabaiana começou como todo o PT do Brasil, sem uma definição de caminhos, porém com objetivo certo: tomar o poder pela via democrática e implantar um regime republicano onde o povo, do qual o próprio partido veio, tivesse vez e não apenas como sempre aconteceu onde as pessoas do povo, quando muito, eram promovidas a capitão-do-mato. Aqui, entretanto, o partido tem um grande vício de origem. Enquanto em quase todo o Brasil e especialmente em São Paulo - o núcleo – o partido foi uma feliz combinação de intelectuais e técnicos de alto nível (sem frescuras) com estudantes secundaristas e universitários, cimentados pela massa da turma do “Macacão azul”, o operariado, em Itabaiana, apenas uns poucos gatos pingados com parte intelectual e técnica (com muita frescura, inclusive) e estudantes. Faltou o povo. Caiu naquilo a que mais o grande Raymundo Faoro sempre advertiu contra: na democracia sem povo.
O resultado é que tem sido um constante exercício de vaidades em cima de tão pouco que, se a natureza do eleitorado itabaianense já é refratária a idéias realmente novas, aqui se torna pior ainda. Acreditar em quem?
E não me venha com cantilenas de que isso é discussão democrática. Discussão democrática intra-partidária se faz dentro do diretório, esteja ele reunido onde estiver. Não no meio da rua.
A quem interessar possa, o signatário aqui foi o primeiro presidente (pós
período provisório) do Diretório do Partido dos Trabalhadores em Itabaiana no
biênio 1982/1983.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Versos instigantes para acres dias

Quem perdeu
O trem da história por querer
Saiu do juízo sem saber
Foi mais um covarde a se esconder
Diante de um novo mundo

Quem souber
Dizer a exata explicação
Me diz como pode acontecer
Um simples canalha mata um rei
Em menos de um segundo

GUEDES, Beto. Canção do novo mundo

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Um típico caso de falta de importância.

Hoje pela manhã ouvi pela enésima vez no ano – de vários outros que o antecedeu – o carro de som passar anunciando mais um obituário.
É coisa de lugar de terceiro mundo e bota terceiro nisso, contudo, ao lado dos mausoléus suntuosos que se faz no mundo ibero-americano, e, sejamos justos em mais alguns do mundo mediterrâneo de onde herdamos quase todas as nossas tradições ditas civilizadas, é mais uma forma de demonstrar quem é o bom do pedaço; quem pode mais. Mesmo depois de morto.
É algo meio grotesco, às seis e às vezes até às cinco da manhã acordar um montão de gente que nada tem a ver com a “fama” do ilustre defunto. Todavia, é cultura; mesmo que não erudita ou das mais louváveis. Não adianta espernear.
O fato em si, entretanto, traz uma inquietante constatação para mim que de vez em quando ameaço entrar na área de publicidade: a de que as quatro emissoras de rádio da cidade de nada valem quando se quer anunciar pra valer qualquer coisa.
O obituário publicado surgiu nos jornais, naturalmente e, em Sergipe, ele foi passado para o rádio pela Rádio Cultura nos seus primeiros tempos, início da década de sessenta deste século próximo passado. Como a Rádio Princesa da Serra – a primeira inaugurada em Itabaiana – copiou em boa parte o estilo da Cultura ocorreu que já nos seus primeiros dias o obituário estava incorporado à sua programação extraordinária. Daí para o carro de som foi um pulo. O problema – das emissoras – é que, como apenas o carro de som se consolidou como veiculo exclusivo para esse tipo de evento, isso demonstra claramente que as pessoas não confiam no rádio como forma de fazer chegar mais longe e com eficiência o seu recado. E como fica a publicidade?
Alertai-vos, companheiros radialistas! A responsabilidade pelo sucesso ou insucesso é vossa.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Nada de novo sob o sol

A pesquisa da J Folha Pesquisas Ltda (veja aqui no blog de Edivanildo Santana) divulgada pelo ex-deputado Zé Milton de Zé de Dona é de uma obviedade estonteante. Como diria o velho Salomão lá na Judéia: “Não há nada de novo sob o sol”. A candidata Maria Mendonça continua na faixa dos vinte a trinta por cento; Luciano Bispo na faixa dos trinta a quarenta e os demais números, bem, como dito, dentro da obviedade.
Desde 1992 quando se tornou comum o uso de pesquisas de opinião por aqui – para os certames municipais – que esta tem sido a regra. Inclusive quando Luciano recuperou o fôlego em 2000 e quando seu candidato não o teve suficiente em 2004. Ou até mesmo quando o próprio Luciano disparou em 1996.
O problema na consolidação destes números é que sempre falta combinar com o povo na hora H. Esperava-se ao final da campanha em 2004 algo como um mínimo de 2.500 votos pra Zezinho Queiroz. Deu magros de 733. E pra onde foram os “votos de Zezinho”? Os “simpatizantes” da candidatura de Zezinho migraram, conforme suas consciências ou conveniências pra Maria e Carlinhos da Atlética.
Voltando um pouco no tempo, em 1992. José Queiroz – o pai – era imbatível. A emissora Rádio Princesa da Serra inteiramente em suas mãos, dinheiro, status de ex-deputado, apenas tirado da reeleição por manobra palaciana, etc. etc. Começou disparado na frente. Quando começou a cair, a atual prefeita, então candidata pela primeira vez viu a chance de um passeio. Tomaram de goleada. Ambos. Enfim, pra onde irão os alegados 7,1 de Zé Milton e os nada desprezíveis 28,8 por cento de indecisos? Ou seja, um em cada três eleitores de Itabaiana? Estamos falando de mais de vinte mil votos.
A rejeição alegada de 31,5 por cento de Maria também é perfeitamente normal. Anormal é que Luciano tenha menos de 25 por cento que á faixa histórica dos que nunca votaram, não votam e nunca votarão em Luciano (coisas de interior, mesmo).
Pode parecer surpreendente o fato de a Prefeita, com o poder na mão aparecer com menos de dois terços das intenções de voto de Luciano, todavia é preciso lembrar que não há medida alguma de quando da reeleição de Luciano para comparação, e, nas eleições vencidas por João de Zé de Dona – quando Queiroz foi desbancado para longínquo terceiro lugar – em meados de 1992, José Queiroz ainda era o favorito. E Queiroz era o favorito porque o então volumoso eleitorado contra os Teles de Mendonça não queria Maria; Luciano não era candidato e se houvesse a reeleição e ele tivesse então se candidatado teria sido derrotado. As máquinas (em vários sentidos) salvaram a liderança de Luciano.
A derrota em 2006 pode ser consolidada agora. A vitória, só na última semana.
Quanto aos 7,1 espontâneo pra Zé Milton... É muito, não?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A função social de FHC. E outros.

Excelente a matéria de Luiz Carlos Azenha (clique aqui para ler), publicada ontem, 15 de outubro em seu blog. Não há como não tecer de imediato uma relação com o que se abateu sobre Itabaiana depois da confirmação da onda de mudanças abortada em 1994 com o golpe político do Real, mas reiniciada vigorosamente em 2002 com a primeira eleição de Lula à Presidência da República.
No plano nacional a própria mídia grande, inteiramente anti-petista passou a reverberar o chavão “viúvas de FHC”, no sentido de identificar os afoitos e desesperados que perderam a boquinha com o fim do mandarinato tucano em Brasília. Aqui em Itabaiana, ao susto do mesmo 2002 somou-se a confirmação de 2004 e reafirmação de 2006. Pronto. Caiu um véu de fumo negro digno de comparação a mais tétrica das imagens do Apocalipse.
Desarticulou tudo. A auto-estima de muita gente foi ao fundo do poço. Coisa séria, mesmo.
O sentimento que ora se vê na nação, em Sergipe e mesmo em Itabaiana por parcela ponderável e influente da sociedade é preocupante, pois mostra claramente que mantemos a maldita tradição do excessivo apego ao cargo público, eletivo ou não, como forma de ganhar dinheiro. Em verdade, se este apego se desse entre os degraus intermediários da sociedade, tudo bem; mas o pior é que ele ocorre nas pontas do sistema, especialmente com ricos empresários. O Brasil é um dos poucos países grande do mundo em que rico concorre a eleição pra ficar ainda mais rico; pra ganhar dinheiro. O Bushinho e seus falcões devem ter-se espelhado em nós. O sinônimo dessa adesão interesseira ao extremo é sonegação, concussão, corrupção, roubo. Quero deixar bem claro que não tenho nada contra empresário entrar na política, especialmente do nível de riqueza do nosso empresariado itabaianense, todavia, é preciso que fique bem claro: não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo; e a política é um sacerdócio, apesar de insistentemente, e quase sempre na sua totalidade ser invadida por certos sacerdotes com odores sulfúreos. O empresário grande, pela própria natureza da sua posição social já é um governo ou peça dele.
Quando falo de tradição é que esta remonta as origens da chegada da civilização ao Brasil quando levas de funcionários, todos judeus e desterrados para cá, aproveitavam pra roubar o rei. Aliás, uma implacável forma de vingança.
Mas, voltando ao assunto chave, a perda de mordomias e às vezes até de colocações honestas – apesar de conseguidas na xepa – derrubou a auto-estima de muita gente e é aí que entra a necessidade da liderança. Do FHC local.
Faz algum tempo num grupo político de Itabaiana se discutia sobre as agruras por que o grupo então passava, quando um dos membros, de grande influência no mesmo fez a seguinte observação: “Nós já estamos como nossa vida arrumada, vamos cair fora e deixar essa droga (o termo foi outro) pra lá”. De imediato a liderança maior olhou para a dita liderança menor e indagou: “E como nos vamos olhar nos olhos de nossos amigos que nos acompanharam por todos esses anos?”. A solução imediatista, e egoísta do desabafante morreu ali.
Sempre há luz ao fim do túnel.