terça-feira, 21 de julho de 2026

ALEA JACTA EST, OU... A SORTE ESTÁ LANÇADA.

 

Ontem, pela noite, foi oficializada a candidatura ao governo do Estado, de Valmir dos Santos Costa.

É a sua segunda tentativa. A primeira foi abortada pelo pessoal da Justiça, pouco antes do primeiro turno, quando teve surpreendente votação, com o candidato que seria depois eleito, ficando em terceiro lugar.

A navalha, típica da República Velha, continua afiada. Resta saber se ousarão usá-la, ou não.

Valmir é o segundo itabaianense aspirante à cadeira máxima do executivo sergipano desde 1590, quando Sergipe nasceu. Traz ele, na sua chapa, justo o primeiro, Eduardo Amorim, que concorreu com Jackson Barreto, em 2014, agora candidato ao retorno ao Senado. Se vitorioso, será o primeiro eleito de Itabaiana, e com uma característica, um político do estado; e não somente da capital, como tem se apresentado todos os mandatários-mores, mesmo identificados com municípios do interior onde nasceram.

Valmir dos Santos Costa nasceu no povoado Pé do Veado, povoado que deu também a figura de Albino Silva da Fonseca, (1909 – 1992), empreendedor, fundador da primeira emissora privada de rádio, a Rádio Liberdade de Sergipe, AM, e entre outros empreendimentos, o homem que inaugurou a avicultura moderna no estado.

Depois de caminhar por dois mandatos de vereador (1989-1996), Valmir viveu a experiência de uma candidatura a vice-prefeito, heroica, observadas as condições da época; retornando ao velho parlamento serrano a partir de 2001, dele somente saindo para candidatura, agora vitoriosa, de 2012, sendo reeleito em 2016. Foi substituído pelo fiel escudeiro, Adailton Rezende de Souza, no quadriênio 2021-2024, retornando ao executivo municipal depois de garfado na eleição pra governador, em 2022, em 2025, licenciado e passando a batuta ao outro fiel escudeiro, José Paes dos Santos, Zequinha da Verdura. Agora, Valmir é franco concorrente ao cargo máximo no quadriênio 2027-2030.

A vetusta Câmara Municipal de Itabaiana - a escola de política desde 20 de outubro de 1697: escola onde Valmir se formou em política e administração de haveres da "Res Publica", tal como no SPQR latino.

Valmir de Francisquinho é político em tempo integral. Desde sua experiência com presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Estadual Murilo Braga, de Itabaiana, que o preparou para o seu primeiro mandato de vereador.

Leal, uma raridade na política; empreendedor nato, intrépido qual Euclides Paes Mendonça, sem, contudo, a agressividade que caracterizou a política da época; Euclides em particular. Administrador político; ou um político administrador.

À esquerda, "santinho" da campanha eleitoral de 1988. À direita, cópia do hebdomadário, Jornal de Itabaiana, do saudoso José Queiroz da Costa, nº 2, 08/01/1989, p.8, edição sobre a posse dos eleitos na Câmara Municipal de Itabaiana, em 1º de janeiro, oito dias antes.
Se deixarem, Sergipe poderá voltar a sonhar como em 1982.
A sorte está lançada. No original, em latim, “alea jacta est”.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

AS CONDENADAS

 

Assoberba-se a solitária e altaneira árvore, sem a consciência de que está condenada à morte em breve. Do mesmo modo, a escola, ao fundo, depois de mais de meio século de alegrias e laboratório de sonhos. É o progresso.

A concorrência entre os políticos pode beneficiar largamente o norte do município de Itabaiana.

A antiquíssima estrada do Canindé, pela também velha Caenda, ao menos no que toca aos seis quilômetros, da cidade até o povoado Pé do Veado, está a ganhar asfalto, com aquele povoado, e entorno, finalmente tomando ares urbanos, sem perder a sua característica de centro agrícola.

O núcleo principal do povoado está uma gracinha.

Num claro ato de competição eleitoral, a oposição, perfilada ao Governo do Estado, ora usa a força deste para medir forças, e está em franco progresso o asfaltamento dos três quilômetros e meio, da ligação do sobredito povoado, à rodovia estadual, SE-170, pela antológica estrada dos tropeiros, conhecida como Estrada da Mariquinha.

Ao percorrer ambos os trechos, encontrei na Estrada da Mariquinha, já no povoado Terra Vermelha, algo que mexeu comigo: uma soberba e frondosa árvores “empatando” o progresso. E um laboratório de sonhos a caminho da ruína: a Escola Municipal Manoel Francisco da Costa.
O zelo, o caprichar nos desenhos, a esperança da continuidade, baldaram-se frente a realidade de um mundo celeremente em transformação. Que pena!
Em primeiro, a velha unidade escolar municipal do povoado Terra Vermelha, construída na administração Vicente Machado Menezes (1967-1970), desde fins do ano passado fechada, já com o mato bem alto: somente seis crianças se matricularam nela no início do período letivo de 2026. 
É a dura e triste realidade. Dá para marejar os olhos todo aquele denodo das últimas mestras, jogado fora, pela cruel realidade da revolução silenciosa da queda de natalidade, obviamente que combinada com migrações, problemas de seguranças e outros; mas o fato é que aquela gritaria infantil foi calando, calando, e agora só resta, por enquanto, o maquinário barulhento trabalhando a estrada.
Escola não é apenas um lugar de aprender a ler. Por isso dói a cada prédio escolar que vai abaixo. Quantos gritos de alegria! Quantos expectativas, sonhos, essas paredes devem ter testemunhado.
E estrada, insofismavelmente, já condenou a mais altaneira das árvores ao redor. A qualquer momento virá execução da condenada. “As chaminés do progresso não podem parar”, como dizem Roberto e Erasmo Carlos, na canção “O Progresso”. Tomara que não seja mais uma estrada inacabada como a decantada Itabaiana-Itaporanga d’Ajuda (de fato, São Cristóvão)

Ciclo esgotado

Há cerca de 25 anos que algo me preocupa, em Itabaiana; em Sergipe e em todo o Brasil: vai faltar gente jovem pra cuidar dos jovens de hoje... amanhã, quando forem velhos.
Em Itabaiana o número de nascimentos desabou de mais de três mil por ano, na década de 1980, quando a população era de 64 mil, para 1.315 em 2024. Relativamente, em torno de 20 por cento daquela natalidade, levando-se em conta que a população atual anda pelos 110 mil no município.
Unidade municipal criada em 20 de outubro de 1697, ou seja, emancipada, Itabaiana, como de resto, o Brasil, salvo raras exceções teve alfabetização zero até o século XIX, não havendo registros por nós conhecidos, antes da década de 1830, com Sergipe e o próprio Brasil independente.
Mas o Estado-Novo, que sob o ponto de vista político deixou más lembranças, foi fundamental para consolidar as intenções revolucionárias contra um Brasil ainda feudal.
E é aqui que aparecem figuras como Anísio Teixeira, Murilo Braga e outros, reprogramando o país. Um programa agressivo para romper com quatro séculos de atraso. O Nacional-Desenvolventismo começando do começo: a Educação.
O regime interventorial em Sergipe, finalmente conseguiu a primeira unidade educacional de Itabaiana, o Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, inaugurado, já em funcionamento, em 4 de abril de 1937. Mas, a torrente educacional viria a partir de 1957, com as primeiras mestras formadas a partir do Colégio Estadual Murilo Braga, então Escola Normal Rural (a cidade acabava na rótula da Avenida Airton Teles).
Na década de 1940, as escolas “de pé pau” (espaços domésticos, adaptados, salas apertadas, onde aprendiam no máximo 20 alunos) se multiplicaram. Mas na década de 1950 vieram as Escolas Rurais, subsidiadas pela União e dirigidas pelos Estados.
Entre 1940 e 1990 foi preciso muito investir em Educação. Em Itabaiana, especialmente.
Em 1940, num total de 30.176 habitantes (menos de quatro mil na cidade) somente 4.728 (15,7%) se declaravam alfabetizados, em geral, a maioria mal assinava o nome. Pra votar.  Naquele Censo, o IBGE encontrou em Itabaiana, 9.754 (32,3%), ou seja, aproximadamente um, em cada três habitantes, tinha menos de dez anos; 6.993 (23,8%) tinham entre 10 e menos de 20 anos. Presumivelmente a metade em idade escolar.
Em 1940, 84,3% eram analfabetos totais.
Um salto no tempo e, com a Constituição de 1988, e a municipalização do Ensino Fundamental, relativamente fartos recursos começaram a serem alocados aos municípios, multiplicando-se as unidades municipais.
Foram décadas de investimentos em educação. E de repente, descobrimos que temos que reprogramar tudo.
Há dez anos que a clientela não aumenta, e, com o aumento da melhoria econômica geral, pipocaram escolas privadas, as mais variadas, que levam preciosa quantidade de alunos. 
Desde 2015, não nascem mais de 1.350 bebês ao ano em Itabaiana.
Mas o drama é maior na zona rural.
Em 1940, de cada cem habitantes do município, 85 moravam na zona rural.
Em 2010, já eram menos de 20; e, mesmo ainda não dispondo dos números do IBGE-2022, esses valores não devem terem muito modificado. Outrossim, a permanência de em torno de 20 na chamada zona rural mais deve-se a aglomerados urbanos ali surgido, quais inexistem na zona norte do município.
Há certa apreensão na Secretaria Municipal de Educação de que no próximo período letivo, mais umas cinco unidades tenham que serem fechadas por falta de aluno.
Mais espaços lúdicos, vividos por gerações, portanto, correm o risco de desaparecer.
É o tempo e seus compassos.



domingo, 19 de julho de 2026

A VELHA ESTRADA PARA SIMÃO DIAS.

 

Hoje, irreconhecível e ignorada, é uma das vias históricas de Itabaiana, na sua ligação com o sertão baiano, e, principalmente, com o lugar colonizado pelo primeiro itabaianense e sergipano, Simão Dias, o mameluco ou francês.
Foto: Avenida Maria Alves do Amorim, Maria Carreiro, Bairro Riacho Doce
 (Fotograma Air Drone, Helinho, 2024)

De fato, as velhas estradas: a primeira, a do vaqueiro Simão Dias Francês; e a segunda, para a cidade de Simão Dias.

Quando o primeiro sergipano e itabaianense, Simão Dias, o mameluco ou francês, chispou da Cova da Onça, levando seu gado para as Matas do Caiçá, provavelmente o fez pelos povoados Brito Velho e a Gameleira, saindo da grande estrada real para Salvador, depois deste último, quebrando à esquerda, pelo que viria a ser séculos mais tarde, a cidade de São Domingos, e daí atravessando o rio Vaza-Barris, rumando para seu destino. 

À direita, extrato do mapa holandês de 1646, mostrando a primeira ligação interiorana, entre a Bahia e Pernambuco, passando por Itabaiana, e por cujo ramal, até a atual São Domingos, Simão Dias Francês transitou, e a seu gado, em fins de 1640. À direita, extrato do mapa de Porsuit Gonnet, de 1825, ainda o mesmo trajeto.

Essa ligação se manteve até pelo menos 1825, conforme assinalado em mapa daquele ano. Porém, a criação da Comarca de Itabaiana, em 9 de julho de 1859, reatou pra valer, ao menos por breves tempos, a velha ligação ancestral da vila de Itabaiana com a novíssima vila de Simão Dias (foi emancipada em 15/03/1850)que dela, inicialmente fez parte, até 1890, quando então foi criada a comarca própria. Não mais pelo Campo do Brito e a Gameleira, e o que viria depois a ser São Domingos; mas pela Tapera do Sobrado, hoje a sudeste da cidade de Macambira, e Cruz das Almas. E, no atual município de Itabaiana, pelo Bairro Riacho Doce e povoado de Roncador e Taperinha.

Por essa estrada, por décadas, desde Itabaiana, transitou o estafeta dos Correios, levando e trazendo cartas. Do mesmo modo, usando a mesma, a Justiça se fez presente em Simão Dias, até a criação de sua própria comarca, em 1890. À margem da estrada, à direita, a frente do pequeno cemitério do povoado Taperinha.

Mas, a criação da comarca de Simão Dias; bem como as mudanças no trânsito postal dos Correios, desativaram por completo a ligação, e na atualidade, somente o trajeto entre Itabaiana e o rio Jacoca é identificável.

Recentemente seu início na cidade serrana ganhou bela, porém curta avenida, somente até a zona urbanizada do Bairro Riacho Doce.

Em 1995: ainda traços visíveis da estrada, já sofrendo urbanização, e hoje transformada em bonita avenida, no agora Bairro Riacho Doce.