sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A incansável luta do ser

Na última quarta-feira, 29, participei de uma reunião aqui em minha cidade, com pessoas conhecidas, figuras carimbadas, como se usa no jargão popular, na arte de ter esperanças e correr atrás da consecução de seus sonhos. Estes, na maioria, tem de serem abandonados, devido aos muros intransponíveis, que costumam erguerem-se diante das ideias humanas; mas, de vez em quando, dão certos; e, a cada tentativa com solução vitoriosa, esta compensa todos os esforços baldados em lutas outras. A reunião em pauta foi sobre o estabelecimento de uma recém-criada ong, a MÃOS AMIGAS DE NOSSA SENHORA DE NAZARÉ, uma ideia da Irmã Luciana Correa Quaresma; mais uma dela, entre nós. Trata-se de uma instituição com vistas a promover a pessoa humana, através de estímulos variados, especialmente a educação profissional, ressocialização, enfim, inclusão.
A Irmã Luciana Quaresma está com quase 77 de idade. Com vinte a menos, a maioria das pessoas sonha apenas com uma só coisa: aposentar-se; e viver aquilo que acha ser vida de rico, ou seja: nada fazer. Apenas curtir. Pelo currículo dela, bem que poderia se dar ao luxo de aderir a esse tipo de vida, sem prejuízo algum à sua biografia. Começou a trabalhar aos nove de idade em sua cidade natal, Arouca, região do Porto, norte de Portugal, e nunca mais parou. Entrou numa congregação de irmãs franciscanas pra fazer o que todas costumam fazer; mas nunca se contentou em apenas administrar, muito menos em viver uma vida religiosa comum. Seu currículo é fantástico. Seu grande último investimento foi numa comunidade, à época paupérrima, numa espécie de invasão, hoje o populoso bairro de Teotônio Vilela, nos Ilhéus de São Jorge, sul da Bahia, onde fez aquilo que poderia ser sua despedida para a aposentadoria. Quase foi, porque, com um espírito que faz inveja a muitos jovens, cá está ela, mais uma vez, dedicada a criar mais uma instituição, para com ela operar mais trabalhos de formiguinha, na busca de levantar caídos, habituais ou não, por este nosso velho vale de lágrimas. Repito: poderia muito bem se dar por satisfeita; mas o espírito de luta, de trabalho, não cessa. Há hoje na cidade, e em quase todo o país, uma plêiade de instituições e pessoas a prestar assistência, numa rede de seguridade que faz inveja a muitos países ricos. São pessoas, que, de alguma forma, dedicam-se no servir. Mas são diferentes no modo de agir como age Irmã Luciana. É louvável o trabalho de asilos a deficientes, idosos, a assistência em geral, sem esquecer os bem vindos programas assistenciais do Governo. Mas, em geral, todos administram recursos líquidos e certos. Asilos, em geral, trabalham com aposentadorias ou pensões dos seus internos ou mesmo externos, pagas pela Previdência Social. Não se trata de um paraíso; mas, ao menos no quesito finanças, não tem do que reclamar. O trabalho da Irmã Luciana é diferente. É promoção humana na sua forma mais elementar possível. Pegar o caído, o desesperado, o indiferente, porque miserável crônico, o que absolutamente nada tem, e buscar, através de atos simples, como aprender um ofício, um caminho de soerguimento na luta pela vida. Despertar. Induzir a dar o primeiro passo. Óbvio que neste caminho ela abraça todos os recursos, pedagógicos ou financeiros, desde dar alimento a quem tem fome a encaminhar até a aposentadoria ou outro modo de recepção de benefícios por parte do poder público; desde a doação em forma de serviços prestados por um humilde servente de pedreiro, à verba que o parlamentar venha alocar em nome de sua instituição; mas, a única condicionante que realmente tem importado no seu trabalho é a existência da matéria prima: o necessitado de ajuda. Os meios? Corre-se atrás. Daí em diante, vem as demais condicionantes no executar desse árduo trabalho, como a exigência firme do beneficiado não desistir; a firme vigilância para não deixar-lhe desviar do caminho; e, claro, certo nível de exigência por resultados.
A ong está fundada e já em atividade. E sua inspiradora impaciente porque ainda não abriu nenhum curso profissionalizante; ainda não conseguiu se organizar pra ajudar alguém a ter seu cantinho, sua casa, trabalho que atualmente está mais facilitado pelas políticas públicas existentes, mas, que, se não houver quem bem conduza, não acontece. Enfim, depois de quase 50 anos de experiência em promover vidas, e o natural reconhecimento sobre tempo de plantio e maturação de ideias, percebe-se nela, aquele vigor adolescente de quem quer tudo e agora. Aos 77.  Recentemente ganhou um terreno da Prefeitura para construir sua sede; mas não tem um centavo em caixa pra isso. De fato, a reunião da última quarta foi para que a arquiteta, que está a desenvolver o projeto da construção, o apresentasse. Mas, em se tratando da Irmã Luciana, é natural que dela se espere atropelar alguns processos para logo meter a mão na massa. Ir ao foco da necessidade. Nasceu pra isso. Ser assim. E que ninguém a tente segurar; convencê-la de que já fez o suficiente; de que agora isso ou aquilo. É da natureza dela. E onde houver gente necessitando, pedindo ou não, ela irá intervir.
Que Deus a ajude em mais essa jornada!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Bateu saudades!


Pra mim, garotão de meus oito anos, vir à cidade aos sábados, dia de feira livre, era um momento mágico. Em cima dos paus-de-arara, já que marinete naqueles tempos, em que já chamavam de ônibus, eram raras, caras; coisa de rico. Não importava se o pau-de-arara era o do vizinho Wilson de Feliciano, ou de Dúi, Zé Palá, Mané da Onça, Toínho sete dedos, ou mesmo Bandeirola. Tempos depois alguns destes foram substituídos por Neemias, irmão de Wilson, e por Jadiel, este, ainda mais vizinho.
A cidade encantava. Logo à chegada, o pomposo Colégio Estadual Murilo Braga, onde eu suspirava de vontade de nele estudar. Não via a hora de terminar o Primário pra realizar este sonho. Em seguida, o Hospital Regional Dr. Rodrigues Dória, bem de frente à Praça da Bandeira, e ali pertinho, o badalado posto de saúde do SESP. À medida que o caminhão mais adentrava o Centro, iam se sucedendo: o Grupo Escolar Guilhermino Bezerra; a Praça João Pessoa, e, nela, o Cine Santo Antônio. Daí, então, era descer do caminhão ali mesmo, na Praça, andar uns cem metros e entrar na feira com suas tradicionais barracas a vender de um tudo; seus cantadores, emboladores, vendedores de livretos de cordel que, claro, tinha que anunciá-los, recitando alguns versos de forma típica, trovadores com suas violas, vendedores de garrafadas, pílulas e pomadas que curavam tudo, até "aquela doença" (a expressão era seguida de benzimentos e se referia ao câncer); pedintes criativos, muitos deles malandros profissionais; bandinhas de forró, microcircos de rumbeiras, obviamente escondidos do público, em geral por providencial empanada; um mundo lúdico, em que pese carregado da realidade daqueles tempos.
Eu sempre vinha com a minha mãe. Que sempre dava um jeitinho de arranjar um tempo para ir até a Matriz de Santo Antônio; no mínimo, fazer uma oração. No trajeto, entre a feira e a Matriz, pela Rua da Vitória, há tempos rebatizada de General Siqueira, porém, ainda reconhecida pelo antigo nome, também passávamos pela Rua 13 de Maio, logo, em frente ao Cine Teny, que já fora Popular, e tempos depois retornaria a esta denominação, assim permanecendo até sua morte derradeira. Aí vinha a Prefeitura, a majestosa Praça Fausto Cardoso, que sempre resistiu, gloriosamente, às tentativas de deixá-la feia, e por fim a Matriz. A tudo meus olhos de moleque curioso se fixavam. E, claro, não poderia deixar de notar as várias tabuletas colocadas em várias esquinas movimentadas, anunciando o filme da noite, em geral, no Cine Santo Antônio. Ah, que vontade eu tinha de ver aquilo! O pessoal que chegava de São Paulo e de Salvador sempre falava na televisão, uma espécie de rádio onde as pessoas apareciam como se numa fotografia, em movimento, claro. Minha mãe sempre me falava de uns pouquíssimos filmes que tinha assistido no cinema, tentando me passar a ideia de como era. Reclamava apenas dos olhos ardendo, coisa que somente anos depois vim saber-lhe os motivos: a readaptação do olho à visão do movimento virtual das imagens; aos vinte e cinco quadros por segundo, que nos dá a sensação de movimento real, mas que de certa forma o olho não treinado sente. Observando fotografias de minha cidade daquela época, nas quais, aspectos, como as tabuletas aparecem, este filme percorre a mente, enchendo-me de saudade daqueles tempos, hoje tão simples.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Bons ventos sobre a Igreja Velha.

Por volta de 1620, curraleiros – criadores de gado arrendatários – construíram a Igreja Velha. Eram tempos complicados, aqueles. A Inquisição acabara de passar por Sergipe, e em particular por Itabaiana, levando muitos cristãos-novos que haviam fugido para cá, das fogueiras em Espanha e Portugal; e ainda mais, o arrogante Império Espanhol que havia engolido o império português, quarenta anos antes, nem estava aí pros destinos dos colonos aportados no Brasil, exceto os endinheirados e acusados de heresia, para os queimar, e, obviamente, tomar-lhes o que tinham. Para se construir e oficializar uma igreja, seja capela ou basílica, até o advento da República em 1889, era preciso o aval do Papa, através do Bispo; e do Rei através de seu preposto. Os curraleiros construíram a Igreja Velha e já foram trombando com o padre de São Cristóvão de Sergipe d’El-Rey, então único em todo o Sergipe. Péssimo sinal. Como resultado, a Igreja Velha nunca foi reconhecida pela Igreja Católica, em que pese ter sido usada por esta, até pelo menos a construção da atual matriz de Santo Antônio e Almas onde hoje se encontra, origem da cidade de Itabaiana. 
A Igreja Velha, registrada pelos holandeses que chegaram a Itabaiana em 1637, resistiu ao tempo e hoje o que resta são apenas ruínas de suas paredes. Mas existe. Único testemunho de uma era na colonização brasileira, o chamado Ciclo do Gado. Depois dela, o símbolo mais antigo dessa era, é o forte dos Ávila, no litoral norte baiano, este, porém, de depois de 1705, quase um século depois da Igreja Velha.
Hoje, 17 de outubro, pela noite, antes do início da solenidade de instalação da II Bienal do Livro 2013, nos corredores da Câmara Municipal de Itabaiana, onde ocorreu o evento, tive o prazer de conversar com o prefeito municipal, Sr. Valmir dos Santos Costa, que me notificou já haver indenizado o dono do terreno onde está assentada a Igreja Velha, sendo o terreno, desde já, e, portanto, as ruínas, propriedade do Município. Ao menos esta parte está pronta. Mas não pode parar por aí. É preciso que o processo de tombamento pelo Patrimônio Histórico da União, seja através do IPHAN, seja através de outra instituição, avance; e que as agências governamentais que trabalham neste sentido agilizem este processo para que efetivemos essa relíquia nacional, como tal. De qualquer forma, mais longe já estivemos. E vamos em frente!

sábado, 12 de outubro de 2013

Lembranças infantis

Criei-me, como quase todos os meus vizinhos presentes e adjacentes, como um menino pobre. Mas pobreza nunca foi sinônimo de tristeza e infelicidade. Ao contrário de miséria; desespero. E, diante de nosso mundo de crianças pobres, a escola e sua tabuada movida a palmatória, os rituais sociais das rezas, sejam de vida ou morte; do dia a dia nas malhadas, e, claro, da diversão, porque ninguém é de ferro. E a diversão dos meninos, disparadamente era a bola. O joguinho de futebol na clareira do pasto de alguém – de fato, espaços dentro das matas de cerrados, tão comuns em nossa região - na encruzilhada das estradas vicinais, no pátio da escola, e até nos campos de peladas dos adultos. E aqui que entra um fato que me marcou.
Idos de 1971, povoado Forno, município de Itabaiana, próximo à estrada real Simão Dias-Laranjeiras – de fato, um atalho desta, em invernos mais rigorosos – uma bodega, das tantas que houve até bem pouco tempo atrás. A mesma foi montada inicialmente por alguém de quem não me ficou o nome, e logo vendida ao ex-vereador Olímpio Arcanjo de Santana, que nela operou por uns cinco anos. Olímpio Arcanjo de Santana é o nome que denomina o Plenário da Câmara Municipal de Itabaiana. Até recente e reconhecidamente na documentação, o mais presente vereador da trissecular casa legislativa, com oito mandatos, só agora sendo igualado por outro de geração mais nova. Mas, na época desse episódio, a bodega já pertencia a Seu Angelino Salgueiro, que tinha esse nome de Salgueiro por vir daquelas bandas dos sertões pernambucanos. Um sábado à tarde, qualquer, estávamos em  doze ou quatorze molecotes, traçando uma bolinha mixuruca, no campinho feito na encruzilhada defronte da bodega, aí por volta das quatro da tarde. Como linhas? Os limites das estradas, feitos por valados. Como traves? As indefectíveis “japonesas”, sandálias de borracha, ainda recentemente por aqui aparecidas, cuja marca mais famosa ficou as “havaianas”. A todo o momento tínhamos que parar porque, estrada, movimentada, sempre havia alguém por ali passando, cortando nossos lances geniais. Era convencionado entre as partes: assim que aparecia alguém de passagem, jogava-se a bola para o lado; e a cobrança do lateral, óbvio, era de quem jogou, porque por um ato de grandeza. De repente, naquele dia irrompeu cruzando através da estrada secundária o João, nome não fictício, mas que não aditarei sobrenome, já que o mesmo ficou mal na história. Montado num burrico, coincidentemente, antes que o víssemos e naturalmente parássemos a bola, a mesma foi chutada, justo em sua direção. O animal se espantou, obviamente, e se esquivou da bola, causando um susto em seu montador; e em nós, que tínhamos a noção da responsabilidade num eventual dano. Mas foi só o esquivar. O João era dessas figuras pouco afeitas à nobreza de caráter. Do tipo que, como cães vira latas, correm ganindo à menor pisada mais firme do chão, mas que, quando vê pessoas supostamente fracas, desprotegidas, gosta de posar de valentão. Desceu do animal, pegou nossa bolinha mixuruca e com uma faca peixeira trazida com bainha, na própria cintura, cortou a bola em quatro ou seis pedaços proferindo meio mundo de imprecações contra o nosso grupo. Seu Angelino, baixinho, franzino, de vista já um pouco enfraquecida, sentado numa cadeira de balanço no telheiro da bodega, viu tudo. Levantou-se calmamente, caminhando lentamente, como era de seu feitio, veio ter com o João, que estava uma arara. Já havia cortado a bola e continuava uma arara.
- João, o que foi que houve? – perguntou ele.
De imediato o João parou com a brabeza, se recompôs e respondeu:
- Bem, Seu Angelino, é que esses moleques aqui – não mais chamou ninguém de safado como estava a fazer – quase me derrubaram jogando a bola propositalmente em cima do burro pra isso!
Seu Angelino só disse:
- João, eu estava sentado ali na frente e vi tudo. Pague a bola dos meninos e acabou! 
Disse isso, e deu meia volta, sequer respondendo a outras indagações do João. Este, meteu a mão no bolso, perguntou quanto era uma bola nova, e, claro, demos o preço de uma bem melhor; pagou o valor, montou em seu burrico e foi embora.
Seu Angelino faleceu oito anos depois, de leucemia, sem nunca ter dado um tiro ou um tapa em ninguém; nem também recebido. Também não me consta que tenha travado nenhuma discussão litigiosa com ninguém. E eu, que já tinha lições e mais lições do meu pai, da mesma estirpe de Seu Angelino, seu amigo, fiquei com a exata noção do que realmente é autoridade.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Em nome da Eunomia

Bem, hoje pela manhã, Antônio Francisco de Jesus, o nosso Saracura, me ligou, como previamente acertado, para que eu comparecesse à Secretaria de Cultura e seus anexos, para gravação de uma entrevista com vistas à produção do programa Terra Serigy, da TV Sergipe, canal 4, de Aracaju, sobre a II Bienal do livro, tão esperada para os próximos dias 17, 18 e 19 do corrente, aqui em Itabaiana. E lá me fui. Chegando ao térreo das novas instalações, os contatos como de praxe com os que lá já estavam, o Carlos Mendonça, o próprio Saracura, Pascoal, a secretária Rose Mary das Chagas Machado, a Maria Jose, Ludmilla, a talentosíssima museóloga, Jamisson Machado do Itnet, a equipe de reportagem, enfim, um monte de gente boa. E a professora Rose Mary, gentilmente me foi mostrar as novas instalações, onde está agora funcionando a própria Secretaria e seus anexos como a Biblioteca Florival Oliveira, o Museu e outros... gostei! Tudo muito bem arrumado; a localização, em que pese próximo a uma grande fonte de poeira, tem acesso muito bom e seu referencial, já que de frente pro canto sudeste do cemitério de Santo Antônio e Almas... não tem como errar.  Em suma: as instalações são boas. Todavia, a minha preocupação permanece porque, sem prédio próprio, tanto biblioteca, quanto museu, correm seríssimo risco nas respectivas conservações. Eu acho que está na hora de a sociedade itabaianense resolver de uma vez por todas que quer preservar sua cultura com seriedade. Tem de prover os espaços e recursos necessários para esta tão necessária atividade de manutenção da identidade. Na última reunião do grupo Itabaiana Grande, ainda com a participação do saudoso Luiz Antônio Barreto, foi levantada a questão de transformar o grande símbolo da Educação de Itabaiana, o prédio do Guilhermino Bezerra, numa casa de Cultura, abrigando ali, justo essas instituições que necessitam de solidez, perenidade, estabilidade, como museus e bibliotecas. A Secretaria de Cultura é apenas uma instituição administrativa que pode mudar de lugar a bel-prazer; mas o museu e a biblioteca, não! E tem de ser uma instituição centralizada na cidade, porque, quanto mais perto do povo, melhor. E o Centro da cidade, foi, é, e sempre será, o Centro. Para onde tudo converge. Por mais que se inventem modismos como shoppings, centros administrativos longínquos, etc., mas o Centro sempre será o Centro. Quando ele não mais existir, não será apenas ele que deixou de existir; mas a própria cidade, porque sua alma, o Centro, acabou. Pois bem, fica, portanto, o meu apelo às autoridades do Município e do Estado, para que resolvam esse problema, a meu ver, da melhor maneira possível: o Estado pondo o prédio do Guilhermino Bezerra à disposição da Secretaria Municipal de Cultura por tempo indeterminado, até que exista a necessidade de abrigar as instituições em questão; e esta, o aproveitando para ali alocar o museu e a biblioteca. Esperemos pelo milagre dos políticos abrindo mãos de suas vaidades e interesses pessoais em nome do bem maior. É difícil, mas não é impossível, certo, senhores  Jackson Barreto de Lima, Luciano Bispo de Lima, Valmir dos Santos Costa, José Teles de Mendonça, Maria Vieira Mendonça e Edvan Amorim?

sábado, 24 de agosto de 2013

Dedé de Pepeu.

Antes de ontem tomei um susto: no Facebook, uma amiga postou algo sugerindo algum problema com Ariano Suassuna. Aguçou minha curiosidade e, à minha pergunta sobre o que teria ocorrido, uma segunda amiga falou que ele tivera um infarto, mas que já estava tudo bem, fora de perigo, etc.. Aí, lembrei que na semana anterior o Carlos Mendonça havia me ligado alertando que o Suassuna estava no especial da TV Senado. Seria um pecado imperdoável perder. E lá fui eu me plantar diante da TV e nem vi o tempo passar, óbvio. Aí o Suassuna falou sobre as virtudes da mentira; a boa mentira, aquela que não faz mal a ninguém; apenas diverte e excita a fantasia porque, naturalmente, uma mentira fantástica. Lembrei de Seu Dedé de Pepeu, de quem nunca lhe soube o verdadeiro. 
Seu Dedé, que alcancei residindo no povoado Forno, próximo de onde morávamos, eu e minha família, tinha histórias do arco da velha. Era uma diversão, qualquer reunião social naquelas paragens e que tinha a sorte de contar com sua presença. Pantaleão, famoso personagem do inesquecível Chico Anizio perdia feio pra ele. Certa feita ele contou uma que, ao me recontarem, grudou-me na mente e nunca esqueci. Seu Dedé era sitiante e, como praticamente todo sitiante pobre da Itabaiana interior, também um mascate. Vendedor de seus produtos de feira em feira. Era tradicional uma linha que fazia, parece que imitando meu bisavô, sempre pela linha paterna, José Bomfim de Góis, que compreendia as feirinhas dos povoado Jenipapo e Urubutinga, e a própria feira do Lagarto, cidade em cujo município estão os dois povoados. Certa feita, numa sentinela, uma dessas mulheres curiosas começou a encher-lhe de perguntas sobre suas viagens e aí Seu Dedé saiu com a pérola a seguir. Certa vez vinha ele do Jenipapo, e, ao se aproximar do Rio Vaza-Barris lhe apareceu tanta mutuca, mas tanta mutuca que, segundo ele, ao matar a todas e guarda-las nos caçuás vazios, encheu todos os seis que trazia nas três burrinhas que também eram seu ganha pão. E o que fez das mutucas? Quis saber a curiosíssima senhora. Aí ele explicou que, depois de ter passado por tanto sufoco, não deixou por barato. Transportou-as até o sítio e aproveitou pra usá-las como fertilizante numa plantação de mandioca. Mas isso era pouco pra tanta curiosidade e, claro, a mulher queria mais. Ela quis saber se a mandioca fora produtiva. Aí o Seu Dedé resolveu finalizar com chave de ouro. Contou ele que um ano depois teve um dor de cabeça daquelas com um das burrinhas que desapareceu sem deixar rastro. Amarrada num bamburral na malhada e, simplesmente desapareceu. E aí, toca ele a procura-la e a procura-la; quando já se sentia desanimado ouviu um relincho e, claro, reconheceu de pronto: “minha burrinha!” Mas, onde? A busca agora se tornou frenética. Procurou por toda a pequena malhada e nada; aí, de repente a burrinha resolveu relinchar novamente. Mas... o relincho parecia vir de debaixo do chão? Como pode? Continuou sua busca servindo-se dos relinchos da burrinha até que descobriu o segredo: a coitadinha se soltara da corda a que estivera amarrada e foi em busca do mandiocal. Lá chegando encontrou uma raiz de mandioca e começou a comê-la; tanto comeu que se perdeu dentro da raiz e ficou sem saber dela sair... estava lá dentro a pobrezinha, já há dois dias. Claro, a mulher ficou um pouco duvidosa, mas, bom mentiroso não deixa dúvidas. Mesmo que sobrem algumas, vem logo algo como as respostas do Chicó, de Suassuna: “Não sei! Só sei que foi assim!”

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Por pessoa de satisfação na companhia da Itabaiana.

“Peço que tanto que Vossa Mercê receber esta me proponha na dita Companhia de Itabanhana pessoas que nella morem e dignas de se lhes mandar passar Patente, porque sou informado haver naquelle districto algumas de satisfação e desde logo hei por reformado o dito Luiz Pereira. Guarde Deus a Vossa Mercê. Bahia e julho, 22 de 1673. Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça.”ff 67. Carta que se escreveo ao Capitão mor de Sergipe del Rei, João Munhos para por pessoa de satisfação na Companhia da Itabanhana. De 22 de julho [1673]
Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, volume 05, p.17. Rio de Janeiro, 1878-1879.

Itabaiana é livre, porque livre é a alma de seu povo. Escrevi isso recentemente na Revista Perfil, deste agosto em curso, e replico aqui. Não é um lugar pra se deixar à toa. A mesma liberdade que produz progresso também produz excesso. Que não é saudável para nenhuma sociedade e deve ser tolhido, aparado, e conduzidas as suas energias unicamente para o progresso. A Justiça é o ponto chave de uma civilização. Foi isso que deu à República de Roma sua chance de se tornar imperial. O que infelizmente também a levou a corromper-se mortalmente, mas aí já é outra história. O fato é que a Segurança, por si só, pode represar os instintos selvagens de retorno ao primitivismo que cada um de nós carregamos; mas jamais produzirá efeitos duradouros porque não educante; não convencedor; não justo, como é o caso da Justiça. Juntos, porém, Justiça e Segurança levam inexoravelmente à Eunomia e à saúde do convívio social.
Ontem, dia 22, mais uma vez uma saraivada de prisões envolvendo graúdos de Itabaiana foi perpetrada. Excelente: a Polícia agiu. Cumpriu com sua parte no processo civilizatório. O problema é o porquê de ter chegado a este ponto; e não ser a primeira vez. Aliás, tem sido recorrente esses processos, em que pese insatisfatórios, porque é como se não estivessem recolocando as cousas em seus devidos lugares. Meras ações punitivas pontuais.
Em meados do século XVII, mais precisamente em 05 de novembro de 1656, uma rebelião contra a cobrança de impostos – extorsiva, diga-se - teve ligar em Sergipe com epicentro em Itabaiana. Somente quinze anos depois é foi completamente debelada; o que na prática destruiu o processo de colonização iniciado depois de primeiro de janeiro de 1590. Foi necessário um exército de paulistas, depois chamados pomposamente de bandeirantes, que pôs quase todo mundo à fuga, e a outros matou e espandongou. Num lugar de espírito tão liberal como o nosso, os cuidados devem ser redobrados. É como aquele garoto levado, hiperativo, inteligentíssimo que, sem bem guiado, será um grande cientista, um grande artista, ou mesmo empresário ou político, elementos tão carentes à sociedade humana; se mal conduzido, seja por repressão excessiva, seja por desleixo, se tornará um frustrado perigoso, no primeiro caso; ou um feroz criminoso, no segundo. Cronicamente temos tido o desleixo das autoridades policiais e judiciais. Vê-se isso no período colonial, no período monárquico, na anarquia da República Velha, e quase nada mudou desde então. Salvo lapsos momentâneos, sempre há carência de policiamento e, a Justiça, segue o padrão nacional. Num lugar onde energia e criatividade são o que não falta. Mesmo que não concorde com a verdadeira história de Rui Barbosa, mas o mesmo foi lancinante, perfeito, no seguinte pensamento “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra E A TER VERGONHA DE SER HONESTO.” É a que tem sido levado vários cidadãos itabaianenses que não mal usam a energia e a criatividade de que dispõem.
Passemos, pois, ao próximo Ato!