terça-feira, 19 de abril de 2016

Dez anos de histórias contadas

Completo hoje, um projeto imaginado há dez anos, com a publicação on line de toda a coleção de documentários sobre a História de minha cidade que produzi. Em cinco capítulos, com cinco temas diferenciados, porém entrelaçados, um modo de contar a bela história da minha terra, suponho eu, de forma menos cansativa.
O projeto nasceu logo depois das eleições de 2004, quando então fui candidato a vereador, única e exclusivamente com a intenção de espalhar o resumo de todas as pesquisas que até então fizera, para todas as pessoas em minha cidade, e não apenas aos doutos; geralmente limitados por conveniências mercadológicas e acadêmicas, e até preconceitos. Não fui eleito, obviamente, mas os frutos daquela estratégia ainda hoje estão sendo colhidos, e melhor: não somente por mim.
Originalmente, sem recursos pra contratar profissionais e material, vali-me de extratos de vídeos, fotografias, gráficos e desenhos, e, exceto aos vídeos, parte deles por mim próprio produzidos artesanalmente. Tudo aqui é artesanal; logo, não esperem, pois, muita qualidade artística e gráfica. Arriscaria a dizer, contudo, que a qualidade informativa foi a melhor que pude obter, e que tudo está lastreado em documentos, quase sempre fontes primárias.
Ao produzir o primeiro deles, intitulado HISTÓRIAS DOS TEMPOS DOS VAQUEIROS, minha intenção era publicar no nascente Youtube, o que foi feito, todavia me senti da obrigação de realizar uma cópia em disco, DVD, para o meu amigo e colaborador, professor José Taurino Duarte. Taurino me convenceu que poderíamos fazer uma excelente distribuição, inclusive cobrando pela cópia como forma de financiar todo o projeto. Inicialmente relutei, mas, como disse, convenci-me. Foram distribuídas por volta de 1.300 cópias. Se foram vistas, não sei; mas no meu controle, nestes dez anos, foi esse o número daquela primeira cópia. 
O projeto era publicar todos os cinco episódios em 2007, porém, só em 2008 é mais dois volumes: o segundo e o terceiro. E ai veio o problema de orçamento e de logística: pra fazer os dois últimos era imperativo que eu colhesse material bem além de Itabaiana, o que somente pude fazer em 2011, numa viagem que fiz até a Baixada Santista, circulando pelos caminhos trilhados pelo nosso povo, seja no êxodo para o sul do país; seja em suas viagens comerciais, a levar produtos locais e trazer outros de lá. Em 2013, finalmente saiu o quarto e, em fins de 2014, o quinto e último. Somente agora, contudo, é que consegui publicá-los como originalmente pensado, para que fique disponível a qualquer pessoa no mundo.
Há muitas pessoas a quem quero agradecer pela ajuda na execução desse projeto, contudo, vou me limitar aqui apenas a dois, que foram fundamentalíssimos: o sobre dito professor José Taurino Duarte, estimulador e distribuidor da reprodução em cópia física, e um cliente mui especial que, ao adquirir um exemplar do primeiro volume, e promover sessões de assistência em pleno Palácio do Governo, foi fundamental para que essa ideia ganhasse a devida credibilidade. Meu muitíssimo obrigado ao saudoso companheiro governador Marcelo Déda Chagas pela ajuda completamente desprovida de intenções prévias. Do melhor tipo que há. 
E é em sua memória que dedico aqui toda esta coleção, agora disponível para o mundo.

Itabaiana, 19 de abril de 2016.

José de Almeida Bispo
Publicitário, radialista, pesquisador, documentarista
Membro da Academia Itabaianense de Letras, cadeira 27, patronesse Maria Thétis Nunes.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Civilidade! Civilidade!

No último fim de semana o GoogleEarth atualizou a fotografia por satélite do sítio urbano de Itabaiana com a fotografia encomendada em abril pela Ethos Incorporadora. É assustador o crescimento; o espraiamento da cidade: quase vinte por cento, contando com os loteamentos semi ou totalmente construídos, em apenas dez anos. Outra constatação: a planta da cidade perdeu o formato triangular que perdurava desde a década de 50, quando iniciou-se sua fase de maciça expansão, depois de dois séculos e meio de estagnação.
A outra constatação é que... nossa laje de concreto continua a se expandir: as quadras da cidade de Itabaiana tem muito menos verde que as da capital do estado, Aracaju; ou de outros sítios urbanos sergipanos menores, como Estância e Lagarto. Como resultado? Calor abrasador. A cidade não dispõe - ao menos que seja do meu conhecimento - de um estudo sobre variação de temperatura; mas, com segurança, vem se tornando sufocantemente mais quente, com a crônica falta de verde no espaço público e o fim dos grandes quintais cheios de fruteiras de até vinte e cinco anos atrás. Pra piorar, todo mundo corre pro ar condicionado, que, resfria o ambiente imediato, mas sob o custo de gastos e custos estratosféricos de energia elétrica e adição de mais calor ao ar que circula pela cidade.

Aqui, o comparativo, entre 2006 e hoje, 03/02/2016.


E aqui, o comparativo entre quatro cidades: Itabaiana, Lagarto, que, apesar da cidade ter um um sítio urbano de metade de Itabaiana (o município inteiro é três vezes maior e pouco mais populoso), é a cidade do interior que mais se assemelha a Itabaiana; Aracaju, capital de Sergipe e São Paulo, a maior cidade da América do Sul e uma das maiores do mundo.
Os quadriláteros medem respectivamente mil por mil metros de sítio urbano e, por eles, se vê que São Paulo, A SELVA DE CONCRETO, tem muito mais verde do Aracaju, que tem mais do que Lagarto, que tem bem mais do que Itabaiana. Pior: como o sítio urbano de Lagarto tem metade do tamanho do de Itabaiana, as consequências da impermeabilização se faz faz sentir bem amena; ao nível do que era Itabaiana há justos 25 anos.
Imagens de Itabaiana gentilmente cedidas por Edson Passos, mediante Milton Sobral (2006) e Robério Santos (2015). De Lagarto, Aracaju e São Paulo, diretamente do GoogleEarth.



(Título retirado dos lamentos em pregação do pároco Domingos de Melo Rezende, que do púlpito da Matriz de Santo Antônio e Almas protestava, à sua maneira, em fins de 1888, contra a esperteza do deputado provincial Guilhermino Bezerra, de conseguir mudar o status da sede municipal, de Vila de Itabaiana para Cidade de Itabaiana, apenas no intuito de elevar os salários de seus dois parentes professores).

domingo, 20 de dezembro de 2015

21 de dezembro de 1821: Uma data esquecida.


No dia 21 de dezembro de 1821, reuniu-se o Câmara Municipal de Itabaiana, sob a presidência do Capitão de Infantaria das Ordenanças da Vila de Santo Antônio da Itabaiana, cavaleiro da Ordem de Cristo e senhor do Engenho Penha, José Matheus da Graça Leite Sampaio pra deliberar sobre carta do Senado da Câmara da Cidade da Bahia, ou Salvador, que intimava as câmaras da Cidade de São Cristóvão de Sergipe d’Elrei e às demais câmaras municipais dos outros cinco municípios então existentes em Sergipe, Itabaiana, Lagarto, Neópolis, Santa Luzia do Itanhy e Santo amaro das Brotas, a irem a Salvador para lá, oficialmente confirmarem um governador fantoche, indicado pela Bahia, enquanto os baianos manipulam a política para anular a Independência de Sergipe conseguida por decreto do Rei D. João VI, de 20 de julho do ano anterior, 1820. A rebelião da Câmara Municipal de Itabaiana foi comunicada oficialmente às demais em 27 de fevereiro de 1822. Talvez por já ter conhecimento da decisão do Príncipe Regente, tomada em 9 de janeiro, de desobedecer às cortes de Lisboa, à qual os baianos estavam ligados, as demais câmaras não se rebelaram oficialmente, mas também ninguém foi a Salvador eleger o governador fantoche.
O primeiro governador de Sergipe emancipado, Carlos César Burlamaqui, empossado em fevereiro de 1721, foi deposto com menos de um mês de governo pelos baianos, antes mesmo da partida do rei de volta para Portugal, em 25 de abril de 1821. O momento era de grande instabilidade política, criada a partir da cidade do Porto, em Portugal, e com seu mais forte eco no Brasil na sua cidade mais antiga, rica e tradicional, atapetada de comerciantes portugueses em constante trânsito entre metrópole e colônia, ou na Bahia representados por prepostos. E, a Câmara de Salvador, que desde 1º de janeiro de 1590, jamais considerou Sergipe além de parte do seu domínio com o nome de “o Sertão do Urubu de Baixo”, ou resumidamente de “Sertão de Baixo”, e que nunca dera trégua aos governos sergipanos, com a condescendência do governo colonial, ressalve-se, não estava conformada com o Decreto de D. João VI, que lhe tirou um terço das rendas gerais com impostos, como se vê no artigo 4º do documento dirigido por José Antônio Fernandes ao nomeado Carlos Cezar Burlamaqui: “4º - As finanças estão imediatamente debaixo da administração e fiscalização da junta da real fazenda da capitania da Bahia, e o ouvidor da comarca, que também é o juiz dos feitos em Sergipe, a seu cargo a pequena administração da fazenda e despesas extremamente precisas, que se fazem por mandatos seus, e é o rendimento anual das rendas reais, segundo também a estimativa que julgo mais verossímil pela informação que ali adquiri e de que não tenho lembrança, ali arrecadadas.” (Informações sobre a Província de Sergipe em 1821. Revista do IGHB, Tomo LV, Parte I p.258. Rio de Janeiro, 1892).
Sergipe começou no dia 1º de janeiro de 1590, depois de Cristóvão de Barros vencer os índios liderados pelo último grande cacique, Mbaepeba, na noite de 31 de dezembro de 1589 para o dito 1º de janeiro de 1590, no entorno da Serra do Pico, na Itabaiana. Nunca foi encontrado documento algum neste sentido, mas tudo leva a crer que por orientação secreta da Corte de Felipe II d’Espanha, então governando também Portugal e suas colônias, criou Cristóvão de Barros nas belas, ventiladas e bem visualizadas colinas entre a foz do Rio do Sal e o riacho Maracaju, as bases para uma futura cidade: a Cidade de Sergipe de El-rei, e consequente capitania, desmembrada da Bahia, portanto. A sede da cidade sofreu duas mudanças, estabelecendo-se, finalmente na difícil Barra do Rio Vaza-Barris, às margens de um braço de rio conhecido como Paramopama, e hoje é a bela e histórica São Cristóvão.
Sergipe só existe como produto de estratégia de Estado e seus acidentes. Tão logo invadida, a área foi repartida entre o monte de cristãos-novos que chegavam à Bahia aos borbotões, alguns "convertidos na mesma Bahia, conforme observa o francês Pyrard de Laval, em 1610, tocada pelo medo da Inquisição espanhola, cuja Espanha agora também dominava Portugal, bem como de descendentes dos anteriores que vieram com Tomé de Souza, onde o mais notável foi Garcia de Ávila, logo convertido numa espécie de príncipe, a administrar todas as terras desde Salvador até o Rio Real. Mas, desta forma, identidade sergipana teria sido solapada facilmente pela Bahia; porém, a invasão holandesa em Pernambuco, acidentalmente, acabou por consolidar a identidade sergipana. Mesmo tendo os holandeses, sob Maurício de Nassau, invadido Sergipe, em 1637, parcela considerável dos pernambucanos que atravessaram o Rio São Francisco logo se estabeleceram em definitivo na capitania, quebrando a hegemonia baiana, e preparando a sergipanidade. Por longos quinze anos as guerrilhas de Felipe Camarão, e principalmente a de Henrique Dias, fixaram-se em Sergipe como quartel general. E, quando retornaram a Pernambuco, Sergipe tinha perdido mais da metade de sua suposta identidade com a Bahia.
Depois da expulsão dos holandeses de Sergipe, em 1645, fato ocorrido também depois da Restauração do governo português, de dezembro de 1640, a Bahia voltou a mandar em Sergipe. A capitania fora criada pela Espanha. Estranhamente, porque, do ponto de vista da estratégia de governo colonial se não justificava tal status de governo para a área. De onde vem a suspeita de que a capitania foi criada, e sob notável sigilo, possivelmente prevendo a confirmação das tais minas de prata de Melchior Dias Moreia, que ficariam depois na lenda como estando em Itabaiana, mas também e suspeitosamente na Jacobina, onde de fato, um século depois foi encontrado e explorado ouro. Daí que todos os mapas do Brasil do século XVII traz Sergipe indo além da Jacobina, tendo o São Francisco como limite norte e oeste, e, ora o Rio Inhambupe, ora o Paraguaçu, e raramente o Real, ao sul. A partir de 1650, intensificam-se as intromissões da Câmara de Salvador na Câmara de São Cristóvão, que culminou em 1656 com a Rebelião dos Curraleiros, de epicentro na Itabaiana, que sequer povoação típica de vila tinha. Outra rebelião, abafada, em 1671, e de cuja poucos documentos existem, também teve o mesmo caráter.
As intervenções eram frequentes, e quase sempre desrespeitosas; acintosas até. O governo colonial, na Cidade da Bahia, ora arbitrava em favor dos sergipanos; mas à menor pressão baiana contornava sua própria decisão, às vezes passando por cima de ordens régias. Os capitães-mores eram manietados; os ouvidores viviam sob pressão da Câmara de Salvador e da Relação, quando esta passou a funcionar, também em Salvador. Na prática, Sergipe não existia como capitania. Como forma de contornar o problema legal da estranha condição de capitania sob outra capitania, criou-se as capitanias-mores municipais, caducadas depois de 1760, como forma de esvaziar as capitanias originais, onde, claro, somente a capitania da Bahia era a que tinha a ganhar. Em 1724, com a criação da comarca da Jacobina, diretamente pela capitania da Bahia, e não por Sergipe, como deveria ser, o próprio Sertão de Baixo, que corresponde ao estado atualmente, começou a ser convertido numa mera comarca, com a da Jacobina sendo usada para abraçar todo o atual sertão baiano à margem direita do São Francisco, incluindo o norte de Minas Gerais, até o Jequitinhonha. E, em 1760, Sergipe tinha se reconvertido num mero Sertão de Baixo.
Em 1801 o porto de Salvador acusou Sergipe como origem de um oitavo do seu movimento, e, já por volta de 1760, um terço dos tributos arrecadados pela Bahia eram provenientes de Sergipe; um terço do Recôncavo, exceto ao sul do Paraguaçu, incluindo a Cachoeira; e um terço das demais capitanias agregadas: Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo e Jacobina, além da própria Cachoeira. Mas Sergipe quase nada lucrou disso. Uma rápida visita às hoje cidades do Recôncavo baiano e se irá notar o zelo com suas vilas, não somente na farta documentação de correspondência com elas, como na própria feição da administração pública, praticamente todas com casas de câmara e cadeia, robustas igrejas e até outras estruturas, típicas do desenvolvimento daqueles tempos. Em Sergipe, nem mesmo a cidade de São Cristóvão foi agraciada a contento com esse tipo de edificação. Conforme o Informe supra citado de José Antônio Fernandes, nem casa para o governador e para o ouvidor existiam em São Cristóvão em 1821; muito menos em suas vilas de Itabaiana, Lagarto, Neópolis, Santa Luzia do Itanhy ou Santo Amaro. Nem mesmo a mais “baiana” de todas, Santa Luzia, cujo capitão em 1820 se insurgiu contra a Emancipação de Sergipe, por ter fartos interesses em manter a dependência da Bahia, conforme nos revela Maria Thétis Nunes, foi beneficiada com as estruturas vistas na Cachoeira, Santo Amaro, Jaquaripe ou Nazaré, e um pouco menos em Camamu, Boipeba e Cairu. As câmaras sergipanas viviam de pedir meios pra construírem o elementar numa sede municipal dos tempos coloniais, além da matriz: Casa de Câmara e Cadeia. Sem sucesso. Mesmo benefícios menos dispendiosos, como cursos de primeiras letras, além de São Cristóvão, insatisfatoriamente, teve a Santa Luzia, e somente ao fim do século XVIII. Vale ressaltar que a fidelidade de Santa Luzia à Bahia também custou o desenvolvimento da povoação desenvolvida a partir do acampamento guerrilheiro de Henrique Dias, contra os holandeses, nas décadas de 1630 e 1640, a Estância do Rio Real (também chamada de Estância do Piauitinga), que por volta de 1710 já era maior e mais desenvolvida que a estagnada vila da Santa Luzia, mas se manteve como seu distrito até 1832, quando se emancipou e substituiu a velha Santa Luzia como sede municipal.
Por volta de 1780, futuras poderosas famílias do estado começaram a se formar, algumas delas já perceptíveis desde o início do século, como os Pimentel, que através de Albano do Prado Pimentel se instalou na Itabaiana, no engenho Santa Rosa, que deu origem à cidade, mas que de fato sua história começa com a chegada de José de Barros Pimentel em Santo Amaro na década de 1720, quando “foi casar á Sergipe d'El-rei com D. Joanna Martins, filha do Sargento Manoel Martins Brandão, Cavalleiro da Ordem de Christo, senhor do engenho Sedro brasil, e de sua mulher D. Maria” (Nobiliarchia pernambucana, por Antônio José Victorino da Fonseca. IN Anais da Biblioteca Nacional, vol. 47, p.104). Do cruzamento da família Pimentel com a família João Gonçalves Franco, no início do século XIX viria a se formar uma das mais tradicionais e talvez a mais rica família sergipana de hoje, a Pimentel Franco. Também de João Gonçalves Franco, senhor do Serra Negra e que adquiriu o Engenho São José na Itabaiana em 1787, saíram os Maciel, da mesma forma, de grande poderio no estado. Mas, no meio dessas também apareceu o neopolitano José Matheus da Graça Sampaio, em cujo ramo também se encontram uma linha dos Machado, e que veio herdar os bens e obrigações, incluindo as religiosas de um seu tio, residente na Itabaiana, mais precisamente onde hoje é o município de Riachuelo. Não veio pra brincadeiras. Logo ao chegar, fez fortunas, amigos, poder e consequente inimigos. Um perfeito “coroné” de vertente moderna. Conta Sebrão, o Sobrinho, que tinha um filho nos sertões de Tacaratu, Pernambuco, de onde agendava rapidamente um exército de jagunços para sua defesa ou como força de dissuasão na complicada política coronelista de Sergipe, desde priscas eras. O fato é que granjeou multidões de bajuladores, dezenas, talvez centenas de admiradores, e muitos... muitos inimigos! Que não tinham a menor vergonha na cara de conspirarem contra a Independência de Sergipe abertamente. Foi da liderança da Câmara Municipal de Itabaiana que Leite Sampaio venceu todas as barreiras e, com o apoio na Câmara Municipal de São Cristóvão e na de Lagarto, o Lagarto que sempre presente, ombro a ombro com Itabaiana, nos grandes e engrandecedores momentos históricos de Sergipe, que conseguiu arrancar o Decreto de D. João VI, e em seguida, mesmo se preparando para o pior, rebelar-se em definitivo contra as imposições de Salvador em 21 de dezembro de 1821.
As peças se moveram no xadrez. Recapitulando, em janeiro de 1822 D. Pedro I fincou pé: “Fico”! Em setembro rompeu definitivamente com as cortes de Lisboa e os baianos nacionalistas tiveram que pegar em armas pra não continuarem como mero enclave colonial. Em 2 de julho de 1823, finalmente a Independência do Brasil se completou, e o primeiro Imperador do Brasil confirmou, a seguir, o Decreto do seu pai, de 20 de julho de 1820, tornando Sergipe, em definitivo e politicamente independente da Bahia. Como na política nada se revolve por quebra geral de acordos, mesmo que impositivos, somente na década de 1840 é que finalmente Sergipe pode completar sua Independência com a cobrança de impostos passando a ser feita toda na alfândega da então província.
A Câmara Municipal de Itabaiana, acredito, não tem hoje a menor noção de sua importância histórica na formação de nosso querido Sergipe.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

20 anos sem o Kizomba – justa homenagem a Ivan Andrade

Neste sábado, 14, colegas radialistas da Rádio Capital do Agreste estarão fazendo seu programa sabático, Caravana Capital, na Praça Chiara Lubich, onde, à noite, como tradicionalmente ocorre todos os dias 14 de cada mês haverá mais apresentações culturais, essa, já uma tradição criada pelo empreendedor incorporador Edson Passos.
O trabalho dos colegas da Capital de Agreste se reveste de especialidade por homenagear o meu saudoso amigo Ivan Andrade. Muito bem merecida homenagem. Muito bem merecida!
Ivan representou uma virada cultural em Itabaiana, que, se não ainda consolidou-se, mas mudou completamente o jeitão de ser da cidade. No final dos anos 80, foi a lufada de ar que precisávamos pra dotar nossas noites de algo alegre e de qualidade impecável. 
Itabaiana sempre foi a terra do trabalho. E continua sendo. Famílias inteiras envolvidas no comércio, ou nos sítios, a produzir insumos para o comércio agregar valor. Gente que só se via na Semana Santa, Festa de Santo Antônio, e, furtivamente no Natal ou Ano Novo; nunca nas duas datas, porque, feirantes ou caminhoneiros que eram - ou ainda sejam - não tinham tempo para o lazer social. Mas a cidade cresceu; suas atividades econômicas se multiplicaram; surgiu a classe dos estudantes, dos prestadores de serviços, incluindo o próprio comércio local. Festas foram feitas; mas eram esporádicas e poucos concorridas. Até que chegaram os anos 90.
Em 1983, depois de perder a eleição para prefeito, Luciano Bispo de Lima pegou a Associação Atlética em estado de morbidez profunda e transformou-a num clube vivaz, assim se mantendo por quase vinte anos. E, o primeiro ato para agitar foi o estabelecimento de uma seresta às sextas-feiras, que começava aí pelas vinte e duas horas e ia até às duas ou três da manhã. Teve seu tempo. Cinco anos depois já tinha desvanecido e ficaram apenas os mega-bailes, um ou dois por mês.
Em 1986, com a onda do axé cada vez mais se avolumando, durante a campanha política ensaiou-se, por inciativa do também saudoso Chiquinho (José Francisco de Mendonça), irmão da deputada Maria Viera Mendonça, a vinda de grupos baianos de axé. A praça encheu, mas, desacostumada, uma plateia meio que envergonhada balançou os pezinhos, mas sem sair do lugar, mesmo diante da energia do Chiclete com Banana. O mesmo grupo voltaria em 1988, por ocasião da celebração da elevação do status da sede do Município à condição de cidade, porém, o público continuou na mesma. Mas em 1989, se os grandes eventos continuaram inexistentes ou pouco participativos, com a sociedade se concentrando apenas nas procissões, Sete de Setembro e nos comícios, quando em campanha política, surgiu o Kizomba. Um bar meio mal localizado, no início da Rua Barão do Rio Branco, quase no oitão de uma igreja, a Presbiteriana; pequeno, mas sob a direção de... Ivan Andrade. Dono de um repertório formidável que alcançava praticamente toda a MPB, em especial o segmento nordestino – o cabra era PhD em Geraldo Azevedo – e uma canhota excepcional a dedilhar as cordas de seu violão. Logo o bar tornou-se o “point” da galera jovem e de gosto mais refinado, por mais de cinco anos a fio. Infelizmente a inveja doentia abreviou aqueles que foram dias bem interessantes, ficando a minha e subsequente gerações órfãs de algo de qualidade e endereço definido. 
A iniciativa do grupo de colegas da Capital do Agreste, pois, reveste-se de simbolismo maior, ao realizar a dita homenagem, justo no local onde renasce o cultivo da cultura e arte com elevado nível de sofisticação, portanto de qualidade. Parabéns aos colegas!
O título deste pequeno artigo seria somente “Ivan Andrade”. Mas, em reconhecimento ao registro feito pelo itnet há exatos dez anos, tomo-lhe emprestado o título do artigo escrito por Jamysson Machado e o parafraseio como acima.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Toco, prodoco!

Na virada do século XIX pro XX o mundo andava de cabeça pra baixo por aqui.
Houve o fim oficial da escravidão; em que pese ainda hoje, um século depois, serem claros os sinais de sua presença, isso não satisfez ninguém: escravos se sentiam traídos e abandonados; nem escravos eram; muito menos tinham cruzado a linha da ignomínia para a da dignidade porque, tinham sido literalmente abandonados. Sem nada, jogados no mundo. E seus antigos donos, óbvio, se sentiam traídos pelo governo que simbolicamente rompera com aquele mundinho desgraçado de que tanto gostavam.
Como reflexo do que já era esperado – o fim da escravidão – a elite escravagista, à frente cafeicultores paulistas e remanescentes fluminenses promoveram o golpe da República, num modo que se tornaria padrão: o de alugar as Forças Armadas para executarem o serviço sujo. O fim do rei era o fim das esperanças pro populacho que, mesmo sendo um ser quase mítico, de tão distante, mas sempre existia a esperança “que o rei” ia fazer justiça. Iria enquadrar os bandos ensandecidos de patrões trogloditas, pouco importando o fato de serem ou não estudados. Abandonados em todo por todos os modos, muitos buscaram se agarrar a algum naco de esperança, por mais fantasiosa que fosse, como o Arraial de Canudos. Mas, este também fora trucidado pelas mesmas forças que tinham deposto o Imperador. Não sobrou pedra sobre pedra.
Fim de século, para o universo e todas as criaturas vivas não inteligentes, segundo a inteligência humana, não é nada! Inexiste. Mas, para a mentalidade humana, a simbologia tem um poder imenso, e fins de séculos sempre querem dizer algo fantástico. Mesmo que ele seja desencontrado entre as várias culturas. Chineses comemoram em certo dia e ano; muçulmanos em outros, indús e, claro, cristãos, diferentes de todos eles. Para culturas mais primitivas, simplesmente inexistem; mas, para a arrogância dos cristãos – mesmo não cristã, obviamente - têm um peso fundamental. O caldo cultural de fim de mundo engrossou, a partir de 1895.
No povoado Cajaíba, onde tem origem parte da minha família existia uma família de brocos. Assim eram considerados por serem pessoas humildes, muito tolas, sem muito discernimento; quase primitivas. Mas religiosas. Ouviam tudo que era pregador, especialmente os populares, porque estes falavam em português – os padres só rezavam em latim. Numa quente tarde de verão de 1899, fim de semana, logo antes do sábado de feira “na vila” de Itabaiana, o patriarca puxou conversa com a esposa sobre o fim do mundo que estava próximo. Verão seco, com inverno anterior tendo pouco produzido em sua pequenina roça, restou-lhes apenas uma galinha e uns dois “litros” de feijão branco na dispensa, de semente, para plantar quatro ou cinco meses depois, se finalmente as chuvas desses o ar da graça. O papo “profundo” sobre o fim de mundo... evoluiu. Então, chegaram a uma conclusão: comer logo a galinha e o feijão, porque, quando o fim do mundo viesse estariam todos de barriga cheia. Não sei o que isso tem de vantajoso, mas pra eles havia vantagens, sim. Mas aí surgiu uma dúvida: e se o mundo não acabasse? O clima de dúvida ficou insuportável, como toda dúvida. Essa maldita coisa que culturas várias tem-lhe dados nomes como diabo, demônio ou satã, entre outras. Então, o que fazer? Ora, consultar o mestre Fulano, “que pega nas papelamas do céu. O que ele disser, é a verdade”. O mestre Fulano, o intelectual do povoado - por isso é que pegava nas papelamas do céu – Conhecia muito bem a família; mas, claro, não lhes conhecia o drama que viviam naquela tarde. Ao ser consultado se o fim do mundo estava próximo, talvez até em tom de brincadeira foi logo asseverando.
A galinha estava choca, deitada num canto do pequeno telheiro da casa. Mas caia na faca assim mesmo. Horas mais tarde, os curiosos que já sabiam da consulta feita ao “oráculo” do povoado apareceram pra visitar o casal e lá estavam eles, comendo até se empanturrarem, derramando lágrimas de tristeza “pela despedida”, e também pelo prejuízo de perder os últimos bens que tinham em casa, fora os tostões que, naturalmente, seriam deixados pra qualquer santo, mesmo depois de o mundo acabar. Enquanto comiam, iam recitando algo inventando naquele momento: “Toco, prodoco; feijão branco, galinha choca. Amanhã vamos estar na glória de Deus”. E repetiram, e repetiram, até acabar o último grão de feijão e pedaço da galinha.
No dia seguinte, doentes pela comilança excessiva, esperaram o fim do mundo que não veio. Mais um dia, uma semana, meses... o galo cantou na primeira madrugada de 1901, e nada de o mundo se acabar. Para ele acabou-se em 1907, numa “congestão”, nome genérico para doenças de que se não conhecia. Cinco anos depois o mundo também acabou pra ela, que morreu “de repente”. Possivelmente um infarto.
Ao observar a politicagem com altas doses de tentativa de extorsão ao governo, promovida pela mídia nacional, e consequentes reações positivas de agentes econômicos, especialmente no meio empresarial, vem-me sempre à mente histórias como esta; passada ao meu pai pelo seu pai, meu avô, nascido em 1888 e falecido em 1969. E a sabedoria popular: “É dos bestas que se valem os sabidos”.  Quanto mais tolos angustiados com o clima de fim de mundo decretado pela imprensa brasileira e mídia em geral, desde 2002, frise-se, mais rios de dinheiro os espertalhões vão ganharem em cima do desespero dos tolos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A propaganda é alma do negócio

"Se somente um dólar eu tivesse, eu investiria em propaganda." 
Henry Ford

Entre 1941 e 1945, Manoel Francisco Teles comandou o Município de Itabaiana, praticamente sozinho; sem ameaças. Antônio Dultra, velho e adoentado, faleceria em 1944; o Coronel Sebrão, um dos donos de Itabaiana por quatro décadas, também velho, adoentado e sem mandato, faleceria em 1946; Otoniel Dórea (O Dorinha), deixara a política depois de perder a Prefeitura pra Silvio Teixeira em 1936, falecendo em 1950; Silvio Teixeira, literalmente abandonou o cargo de prefeito biônico (mandato prorrogado palacianamente), e Esperidião Noronha, o mais longevo deles a morrer, em 1956, além de não ser um líder aguerrido, nem tinha mandato nenhum nem cofre público nenhum, à sua disposição. Manoel Teles estava sozinho.
O prefeito Manoel Teles Juntou dinheiro por quatro anos; quando a oposição udenista descobriu a dinheirama, num golpe tomou-lhe o poder, queimando todo o dinheiro em apenas um ano de administração de Etelvino Mendonça, que ficou com a fama de benfeitor, trabalhador; e Manoel Teles de preguiçoso. Em 1947, primeiras eleições depois do Estado Novo, Manoel Teles elegeu seu sobrinho, Jason Correia, contra um aventureiro, pequeno comerciante, com menos de dez anos de chegado da roça: Euclides Paes Mendonça. Foi a administração municipal onde mais se inaugurou obras, proporcionalmente falando, até hoje. Todas de grande vulto. Além das promessas mais que reais de mais duas, uma delas que mudaria o destino da cidade de Itabaiana: a BR-235. A outra foi o Açude da Macela.
Mas... nas eleições de 1950, seu adversário na de 1947 levou o troféu. Houve suspeitas e casos mais que escandalosamente comprováveis de roubo na eleição, com padre e juiz, praticamente brandindo suas cruz ou martelo contra Manoel Teles. Mas Manoel Teles tinha o governo do Estado, do seu PSD, tão matreiro quanto a turma da UDN, que foi eleito; e tinha um portfólio de obras, suas ou do Estado supostamente indicações suas que até hoje ninguém chegou nem perto, em termos proporcionais. Se bem posicionado em popularidade, nenhum ladrão teria a ousadia de lhe roubar os votos. Mas, com a popularidade em frangalhos, não só tiveram, como lhe roubaram. Descaradamente. E ficou por isso mesmo. Caberia a Euclides Paes Mendonça ficar com a fama. Barulhento, mascate perfeito, Euclides transformava qualquer nuvenzinha mínima numa tempestade. Mesmo nas investidas que deu e quebrou a cara, como a construção do aeroporto de Itabaiana, nunca ninguém ousou questionar se não teria sido pura armação de sua parte; nunca! As estradas que fez no município foram de fato recuperações das feitas por Manoel Teles com recursos federais entre 1945 e 1947, e executadas pelo Estado, governado pelo seu PSD; As ruas que abriu, a maioria delas somente se confirmaria vinte e cinco anos depois e algumas simplesmente desapareceram pelas administrações posteriores; mas não dormiu no ponto no momento de adquirir três novas unidades estaduais de ensino, uma delas que somente se confirmaria seis anos após sua morte, e, principalmente: fazer intensa propaganda delas. Não somente delas: Euclides era uma máquina de propaganda ambulante. Euclides cavalgou a onda de repulsa ao governo Vargas e aliados, convertendo todos os benefícios federais em marketing seu. E, claro, enquanto a UDN nacional bloqueava o governo Vargas o tempo inteiro na justiça pra não faz nada, Euclides deu um jeitinho em Sergipe pra fazer o Açude da Macela com “sobras de cimento” do Açude das Três Barras do município de Graccho Cardoso. Superfaturavam lá, e traziam o excedente pra cá, já que oficialmente a obra estaria bloqueada. Mas era do interesse de Euclides.
Não basta ser a mulher do César; tem que parecer a mulher do César.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Manias de mentirosos. E danosos.


Massudo, completo, o livro A República Velha em Itabaiana, de Vladimir Souza Carvalho (Fundação Oviedo Teixeira, Aracaju, 2001), nos dá uma excelente dimensão de onde adveio a fama de cidade violenta que Itabaiana granjeou em Sergipe, antes que realmente e de fato se tornasse, como recentemente, em 2013, e seus estratosféricos 110 assassinatos. É que com a inauguração do telégrafo em 1896, o coronel Sebrão, chefe peba; e Batista Itajay, chefe cabaú, por 15 anos ininterruptos não saíram da agência postal a postarem telegramas, cada vez mais de conteúdos dramáticos, para os jornais peba ou cabaú, da capital, que sempre maximizava, carregava nas tintas, com tantos tiroteios, mortos e espandongados em Itabaiana, “pelas violências da oposição” (ou situação), e que no estado, quem lia aquilo tinha medo até de olhar pro lado da serra de Itabaiana; quanto mais pôr os pés nesta terra “tão violenta”.
O Cinform de hoje, segunda-feira, 31 de agosto é pródigo em, de certa forma, repetir o padrão de falar mal de Itabaiana fingindo defender interesses da cidade. E isso não é de graça. Alguém acionou o semanário aracajuano e o guiou à tal matéria. Nem a li, por que há tempos que não compro jornais; e, com esse tipo de manchete, sinto-me desencorajado ainda mais em ler o conteúdo: “COM MAIS DE CEM ANOS, ÁRVORES SÃO DECEPADAS”. Ora, a abertura da Avenida Otoniel Dórea, onde se encontravam a ditas árvores é de 1953, na passagem da Rodovia BR-235, em sua primeira versão junto à cidade, hoje completamente dentro dela e conhecida pelos nomes de Avenida Manoel Francisco Teles/Engenheiro Carlos Reis, a depender do setor.  As árvores, como se vê no excelente trabalho em filme feito pro Governo do Estado em 1961, por Valmir Almeida, foram plantadas naquele ano. De 1961. Porém, um detalhe: foram trocadas na gestão de Vicente Machado Meneses, 1967-1970, pelas algarobeiras - que agora foram cortadas - já que havia um modismo em arborização urbana em relação a esta espécie importada, acho que dos desertos andinos. Um lugar muito seco e, obviamente, com pouca água disponível, logo as algarobeiras invadiram as avenidas, praças e até pastagens em Itabaiana. As tais árvores agora cortadas pela Prefeitura, portanto, são de 1968; e não de 1915, como sugere o semanário. Logo, com 47, e não o 100 anos ali alegados. Claro, quem assina a matéria, além de não ser contemporâneo a todo o processo deve ter sido conduzido por informações falsas. Daí a minha pergunta: Ganha-se o quê com esse tipo de sensacionalismo, QUE NÃO CONVENCE A NINGUÉM? Do contrário, o que tenho ouvido de piadas estado afora, por conta do auto engrandecimento, sempre exagerado, de Itabaiana, não é pouco. Na maioria das vezes as críticas são infundadas, já que contra informações concretas, reais, realmente engrandecedoras de nossa gente. Mas aí, vem o politiqueiro e bota tudo a perder com esse tipo de “vantagem”.