domingo, 29 de maio de 2022

RETORNO DE SUCESSO

 

Acima, três dos cinco empossados; abaixo, geral na duas fotos, demonstrando em primeiro plano, à direita, a representante de Margarete Brito, e a galeria da Câmara lotada, incluindo membros fardados de verde do MOCMAP

Sexta-feira última, 27, teve lugar, como sempre no Plenário Olímpio Arcanjo de Santana, da vetusta Câmara Municipal de Itabaiana a primeira reunião solene da Academia Itabaianense de Letras, depois de mais de dois anos de inação devido a pandemia que, entre os milhares de entes queridos – até ontem, 28, no estado, seis mil, trezentos e quarenta e oito e no país, seiscentos e sessenta e seis e trezentos noventa e uma vítimas fatais – duas diretamente ligadas à Academia, quais sejam o queridíssimo confrade Luiz Eduardo Magalhães, ocupante da cadeira 22, patrocinada pelo padre itabaianense, em vias de beatificação pelo Vaticano, o memorialista José Gumercindo dos Santos; e também a gentilíssima, saudosa Sandra Marcondes, esposa do confrade José Marcondes, este ocupante da cadeira 20, patrocinada pelo padre e filósofo, José Araújo Mendonça. Duas perdas lastimáveis, também no seio do nosso sodalício.
Bem, mas sexta-feira, 27, foi dia de recolocar o pé na estrada; até mesmo em memória dos que nos deixaram.
Foi dia de apresentarmos mais uma etapa no crescimento da arcádia serrana. Depois de algumas convocações e imediato adiamento devido às reações dos números da pandemia e consequentes riscos, trouxe-se cinco novos membros, quais sejam os acadêmicos-correspondentes; aqueles que diretamente nos representarão – a Academia e a cultura itabaianense como um todo – por onde estiverem lotados. Os itabaianenses natos, José Oliveira Benjamim, Jorge Roberto Costa Passos e Wellington Mendes Filho, e os colaterais, Margarete Brito e José Pereira da Silva.
E aproveitou-se para comemorar o nono aniversário da Academia, mesmo que tardiamente; a data oficial, 1º de fevereiro, foi uma convocação que teve que ser adiada por recrudescimento da peste.

Maria Pereira, primeira à direita, então diretora do Colégio Estadual Murilo Braga e sua então equipe de auxiliares. Junto dela a hoje acadêmica Tereza Cristina, ocupante da cadeira 29 da Academia. À direita, Antônio Francisco de Jesus - Saracura - no penúltimo sábado, 21, prestigiando grande evento da Academia Gloriense de Letras e à nossa parceira especial, professora Rosa Maria Vieira de Santana, líder do grupo um do Movimento Cultura Maria Pereira, então homenageada, expõe camiseta do referido grupo
 

 

A noite trouxe mais novidade. Além da presença do primeiro grupo do MOCMAP – Movimento Cultural Maria Pereira, já de reconhecimento estadual, a incansável líder do grupo, professora rosa Maria Vieira de Santana apresentou-nos mais outros componentes, que comporão os outros quatro grupos, incluindo mais duas professoras – o terceiro estava em outra nobre missão educacional - que liderarão oficialmente depois de julho, quando forem empossados os seus respectivos grupos, quiçá já com o quinto e último, com o quadro de 30 membros ao todo que homenageiam personagens da nossa cultura, não contemplados em outras posições na Academia, a saber: Álvaro Fonseca Oliveira; Antônia Andrade (dona Tota); Armindo Guaraná; Artur Moura Pereira (padre); Maria Auxiliadora Graça Leite(irmã); Carlos Augusto Mesquita Moura; Elias Andrade; Eraldo Barbosa (padre); Eulina Nunes; Filomeno Andrade; Francisco da Silva Lobo (padre); Francisco Vilobaldo de Oliveira (Chico do Cantagalo); Gabriel Andrade; Guilhermino Amâncio Bezerra; João de Deus Teixeira; João de Matos; João Rocha Sobrinho; Joaquim Fraga Lima; José Bezerra dos Santos; José de Andrade Sucupira; Josefa Esteves de Freitas (Dona Bebé); José Mesquita da Silveira; José Luiz da Conceição; Melchiades José de Souza; Manoel Garangau; Ormeil Câmara de Oliveira (doutor); Pedro Garcia Moreno; Quintino de Lacerda; Serapião Antônio de Góis.
O MOCMAP é o fermento da continuidade, da perenização. Daí a feliz lembrança de uma das maiores educadoras da história serrana: Grupo Cultural MARIA PEREIRA. 

























Bem, mas à noite, como já dito foi também de comemoração ao nono aniversário da Academia Itabaianense de Letras. E ninguém mais apropriado para falar sobre esse momento em particular, bem como o fantástico momento literário-cultural estadual que todo o Sergipe vive neste momento que Domingos Pascoal de Melo.
 O atual momento foi ansiado e gestado pelo saudoso grande Luiz Antônio Barreto, desde seu adentrar-se nas letras na primeira explosão que teve lugar ao fins do 60, início dos 70, coincidentemente com a criação da Universidade Federal de Sergipe quando a política deu lugar à discussões mais amenas. No início da segunda década deste século, já desprovido das naturais amarras do serviço público, naturalmente pesado, burocrático, tão logo saiu do secretariado da Cultura do Estado que Luiz Antônio resolveu fazer o que sempre quis faz. Nas palavras do próprio Pascoal, sexta, à noite “descobrir os saberes do povo, do interior”, ao contrário do lugar comum que sempre foi o “levar conhecimento ao povo”. Não muito pôde ir além. No dia 17 de abril de 2012, dez anos atrás, deixou-nos fazendo nascer uma lacuna.
A lacuna deixada pela ausência de Luiz Antônio Barreto não pode ser preenchida. Porem, já se encontrava envolvido com o próprio Luiz Antônio essa grande figura humana, dona de sete fôlegos, que a exemplo de outro cearense, Juarez do Nascimento Fernandes Távora na Revolução de 1930 consegue estar em três, quatro municípios durante o mesmo dia levando em frente a materialização daquilo que sonho Luiz Antônio em forma de academias, grêmios ou simples núcleos; desde municípios mais populosos e política e economicamente mais poderosos. Com seu fiel escudeiro Antônio Francisco de Jesus, o Saracura deram integral apoio a pelo menos 45 agremiações, além de suportarem outras iniciativas, sejam na capital, um num simples povoado como Rio das Pedras, com a Academia Serrana de Jovens Escritores, patrocinada pela educadora Rosa Maria, acima citada, e, puxando pela minha sardinha, na minha escola municipal, hoje Dom José Thomas, onde aprendi a gostar do meu estado, sua Geografia e sua História, mediante outro “cabeça-chata”, e que me conduziu a um terceiro - e, perdoe-me Pascoal e Araújo, o maior de todos - João Capistrano de Abreu.
O fato é que sem alguém como Pascoal de Melo para pegar o andor que estava sendo preparado pelo saudoso papa-jaca, o queridíssimo “Arara”, nada disso teria tido curso. Talvez tudo tivesse morrido na praia. E aí parafraseio Zé Dantas e Luiz Gonzaga: “E graças a esses feitos de homens que tem valor” chegamos ao atual estado de efervescência cultural.

Cearenses que me são caros.
Acrísio Torres Araújo
Amante do lugar em que nasci e vivo, mais tomei gosto pela minha terra quando no Segundo Ano Primário me defrontei com uma preciosidade: a Geografia e a História de Sergipe, feitas por um professor cearense que há pouco por cá chegara, e que, sentindo a completa ausência de conhecimentos sobre Sergipe na grade curricular da formação inicial dos sergipanos resolveu arregaçar as mangas e preencher essa lacuna. Passei horas, dias, semanas, maravilhado com os pequenos textos de Geografia de Sergipe em que o professor Acrísio Torres Araújo me premiava com informações de Lagarto, Itabaiana, Tobias Barreto, Capela... enfim, todo o Sergipe, e não somente a capital. Lembro que, inclusive, o mapa de Sergipe presente na capa trazia uma cidade que nunca ouvira falar: Curituba, desde então um povoado de Canindé do São Francisco, mas então já ex-sede municipal; porém que o mapa não trouxe atualizado. Também que a serra de Itabaiana, usando as informações equivocadas do IBGE tinha 860 metros de altura e era o ponto culminante de Sergipe. O fato é que os dois livrinhos me impactaram decidida e definitivamente.
A criação da Universidade Federal de Sergipe em 1968, exatamente no ano em que foram impressos meus livrinhos, e logo a seguir o nascimento de um núcleo mais dedicado à historiografia sergipana nos trouxe aos dias atuais de exuberante produção.

Domingos Pascoal de Melo
Seu ativismo recente, como dito acima, não somente confirmou o trabalho de Luiz Antônio Barreto como mais estimulou seu agigantamento.
Tudo começou com uma reunião no Templo Beneficente Rei Salomão, de administração das três lojas maçônicas de Itabaiana, em agosto de 2011, com repetição em 7 de setembro, a seguir, de onde, de concreto nasceu o grupo de Facebook “Itabaiana Grande”, ideia original de Robério Santos, prontamente apoiada por Luiz Antônio Barreto, pela ex-secretária municipal de Educação, professora Tereza Cristina Pinheiro Souza e pelos demais, eu, inclusive. De iniciativa particular, galvanizado pelo sucesso do ambiente cultural, na realidade, um clima de retroalimentação da Revista Perfil, o início de tudo, o Publisher da revista, Honorino Junior gestou e realizou a Bienal 2011, com estrondoso sucesso e, naturalmente a participação de Luiz Antônio Barreto a presidir os debates, cuja mesa composta, entre outros, por três dos 15 acadêmicos iniciais, fundadores da Academia Itabaianenses de Letras: Antônio Samarone, José de Almeida Bispo e Luciano Correia. Domingos Pascoal estava lá; de escudeiro-mor de Luiz Antônio.
Ao final de outubro, a Bienal 2011 foi o precipitar, pontapé inicial do processo cultural que hoje experimentamos em todo o estado de Sergipe. Luiz Antônio, infelizmente não viveria para presenciar o que ajudou a promover: “os saberes que já estavam por cá”. E aí, com sua morte em abril de 2012, em primeiro veio o espanto e a pergunta: “e agora?”.
Materializou-se então a ideia da criação da Academia Itabaianense de Letras. Dificuldades de articulação, no entanto, levaram a feliz instalação da ubérrima Academia Gloriense de Letras em 12 de dezembro de 2012, com a Academia Itabaianense de Letras somente sendo instalada em 1º de fevereiro do ano seguinte de 2013. Pascoal presente. E desde então, em todas as demais, geralmente com seu “Sancho Pança” Antônio Saracura a lhe apoiar.

Capistrano de Abreu
Apresentado por José de Alencar, foi aprovado para bibliotecário da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, nela tomando posse em 1879. Desde então empreendeu verdadeira cruzada santa na sistematização das fontes históricas daquela casa, já no primeiro volume dos Anais da Biblioteca Nacional em que participou ativamente - o volume 5, 1878/1879 - revelando de forma organizada praticamente toda a História colonial brasileira, contribuindo desta forma com o fim do achismo de excelentes cronistas, mas de péssima propensão à ignorar a exatidão das fontes documentais; ou às malditas interpretações onde cabe tudo.
Foi nele, na documentação por ele sistematizada, e digitalizada ao fim da década de 1990 – quase cem anos ou mais de sistematizado - publicado na rede mundial que fui buscar a maior parte das informações com que confirmei, ou dirimi e descartei outras recebidas ou que vim a receber.
É com Capistrano que nasce a ciência História.
Para completar meu fascínio pelo grande intelectual cearense, sondado na terceira ou quarta rodada para compor a Academia Brasileira de Letras, já e rapidamente transformada num pavonário de vaidades extremadas, refutou energicamente.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

TERRA DO CAMINHÃO... OU DA MOTO?

 58,5% dos veículos motorizados de Itabaiana andam sobre duas rodas.

 

Que combustíveis estão custando os olhos da cara, todo mundo sente; contudo, ir ao centro da cidade de Itabaiana nos horários de pico, ou seja, das seis da manhã às sete da noite, e encontrar um lugarzinho para estacionar continua difícil.
Boa parte da população acaba fazendo uso das motocicletas, motonetas e ciclomotores para trabalhar e resolver problemas cotidianos.
Mas não poderia ser diferente. A cidade que até 1990 não tinha mais que  três centenas de automóveis particulares, duas vezes isso entre caminhões e utilitários e menos de mil motocicletas (por aqui sempre foi avultado nesse quesito) viu o caldo engrossar a partir de 1994, tomar uma super injeção dez anos depois, não mais parando a corrida. No último mês de março deste corrente ano de 2022 cravou a cifra total de 66.287 unidades motorizadas, assim distribuídas: 23.247 motocicletas (acima de 100 cilindradas); 16.334 automóveis; 8.040 motonetas (abaixo de 100 cilindradas); 7.536 ciclomotores (popular Shineray); 3.586 caminhonetes; 3.555 caminhões (toco e trucado); 1.512 reboques; 629 caminhonetas; 571 semi-reboques; 423 caminhões-tratores (carretas); 365 utilitários; 226 ônibus; 143 micro-ônibus; 93 triciclos; 26 não classificados e 1 trator de rodas.
Óbvio, estes são números de registro no RENAVAM; mais ou menos unidades, talvez até 5 por cento a menos ou a mais, a depender do tipo de veículo, ainda devem ser consideradas como burocracia de registro pendente.
Itabaiana é a segunda frota municipal de Sergipe. Fica atrás apenas da capital. À frente da terceira colocada – Lagarto – e da quarta, Nossa Senhora do Socorro, sobre quem problemas de logística devem interferir na realidade dos números. Conurbado com a capital, certamente boa parte da frota de particulares do município tem em Aracaju a sua matrícula.

terça-feira, 10 de maio de 2022

BRASIL,1822 – 2022: COMO SEMPRE COLÔNIA DE BANQUEIROS.

Até 1800 fomos corpos portugueses com alma vendida à Espanha; em 1822 viramos capitania do banqueiro Nathan Rotschild, então um mimo da Coroa inglesa, obviamente, em agradecimento à vitória “de Wellington” sobre Napoleão; assim permanecendo até 1888 quando passamos a nos entregar aos Estados Unidos em troca das sacas de café.

Em 1500, acossado pela disparada de Castela a engolir toda a península ibérica, para formar a Espanha moderna, Portugal tomou posse do Brasil e empreendeu a viagem líquida e certa de Cabral às Índias, reabrindo o comércio europeu com aquele subcontinente desde o fim do Império Romano do Ocidente, voltando com riquezas suficientes para manter Madri sossegada em seu furor expansionista na península.
Porém, em 1578, acredito que numa casca de banana interposta pela própria Espanha o impetuoso e desastrado jovem rei D. Sebastião caiu na cilada de guerrear em Alcácer-Quibir, hoje Marrocos, imolando-se numa batalha e deixando órfão o reino e nascente império comercial português. Foi o bastante para desarrumar todo o xadrez no tabuleiro mundial. E internamente, bota confusão nisso.
Em 1580, Felipe II pressionou pelo legítimo direito ao trono português, já que não havia ninguém na linha de sucessão: finalmente a Espanha conseguiu ser toda a península.
Mas processos de absorção não ocorrem de imediato e completo sem que haja uma guerra com “limpeza étnica”; eliminação, total ou parcial do povo subjugado. E não foi o que ocorreu em Portugal.
Modernamente o poder vem primeiramente pelo dinheiro, em segundo, de fato quase sempre uma força auxiliar ao dinheiro, pelas armas; e em terceiro, mais estabilizado pelo domínio da opinião, que, na atualidade é dividido entre religião e mídia.
Em 1580 não era muito diferente. Com exceção de que o dinheiro era controlado pelo rei, e não pelos banqueiros; e a opinião se resumia à religião.
É justo por então deter enorme influência na Igreja Católica, ainda praticamente a religião no ocidente que a Espanha exerceu o soft power, especialmente mediante as ordens religiosas como a mais poderosa delas, a Companhia de Jesus ou dos jesuítas. Durante 250 anos o Brasil pensou, foi educado e obviamente governado pelos jesuítas. Portugal dava as ordens; mas só seriam acatadas se em consonância com as diretrizes jesuítas, que por sua vez devia obediência ao Papa e ao governo da Espanha. Eles ensinaram a ler, hospedaram, advogaram em benefício próprio a favor de índios, pretos e mestiços; mas também negociaram abertamente estes pobres infelizes escravizados. Agiotaram. Formaram a elite que temos hoje.
A primeira experiência capitalista brasileira ocorreu em torno do Recife e, óbvio, na capitania de Pernambuco, com os calvinistas holandeses, entre eles, judeus, emprestando até a 42% de juros ao ano aos senhores de engenho. Quando os holandeses se foram, justo pelos escorchantes juros, não demorou e os jesuítas assumiram o lugar. Em todo o Brasil.
Super rica e organizada, a ordem foi extinta no império português em 1759, e teve seus bens apropriados pelo Estado em leilões que acabaram por instalar a corrupção no governo em escala industrial. Em Sergipe, foi um escândalo atrás dos outro.
O império português se livrou da tutela direta da Espanha em 1640; mas a um custo enorme: renasceu em 1640, e desde então, mais ou menos acentuadamente tem sido colônia inglesa. As tentativas de D. Pedro II, o Pacífico, de lhe recuperar a independência de fato deu no fiasco das minas de prata de Itabaiana(SE) e Paranaguá(PR) na década de 1670. Quando motivado por estas buscas, correndo da forca por ter matado D. Rodrigo de Castelo Branco, o paulista Borba Gato achou a torrente de ouro de Minas Gerais; tornado isso oficial, a Inglaterra muito mais poderosa com brindes portugueses pela Restauração impôs o Tratado de Methuen a Portugal e aproveitou o ouro português do Brasil para realizar sua Revolução Industrial, trocando pano por ouro, claro e ainda levando os vinhos portugueses. Sem sequer mencionar Portugal nem Brasil. Nunca. Até hoje.
Depois de Methuen a asfixia permaneceu. A breve tentativa soerguimento do governo Pombal, no reinado de D. José I se desmilinguiu no reinado seguinte, onde não bastou a demissão de Pombal; ainda alcunharam a soberana D. Maria I de “a louca”, na verdade expulsando-a de Lisboa para o Rio de Janeiro, evitando assim uma mudança de tutoramento de Napoleão em substituição a Inglaterra de George III.
Mas é em 1822 que o Brasil ganha status de colônia moderna, ao ser constituído como nação independente para assim seu jovem Tesouro Nacional absorver parte do excesso de ouro juntado pelos banqueiros Rotschild, que sobrou da guerra contra Napoleão Bonaparte, sete anos antes. Que nunca saiu de Londres, ressalte-se.
Mas em 1880 o império dos Rotschild se já tinha ampliado imensamente e o império inglês, por outro lado já apresentava cansaço, de tão gigante que se tornara. Então, parte dos capatazes brasileiros passaram a lhes trair até que enxotaram o imperador D Pedro II, criaram o encilhamento, e reorientaram a colônia para a nova potência que surgia: Estados Unidos da América. Claro, na história das mudanças, como a República sempre têm os sonhadores, incautos, tolos e boas-fés, com o nosso professor Lima Jr., ou mesmo o involuntário proclamador da República, o marechal Deodoro da Fonseca, que acabou pondo a batata quente nas mãos das Forças Armadas e mergulhando no país na cultura do golpe militar.
A questão republicana tanto impactou o Brasil que chegamos a figurar em 68º lugar entre as nações do mundo, enquanto a Argentina era o segundo da América e 8º de mundo.
Em 1908 o insuspeito crítico sergipano, Silvio Romero escreveu: “É um facto positivo, claro, evidentíssimo por todos reconhecido e proclamado, que as três classes que têm mais de perto dirigido a vida mental e pública do povo brasileiro - os políticos, os jornalistas e os literatos, levaram a um tal gráo de confusão, pessimismo e desanimo, que nem elles mesmos tomam mais pé no meio dos desatinos que accumularam. Só se ouvem pragas e esconjuros; apontam-se panacéas capazes de curar as fundas chagas da nação; surgem de todos os lados prophetas e guias, com suas bandeirolas de improvisados estadistas e salvadores dos povos.”
Adiante, arremata: “(...) restauração da monarchia e até ditadura militar, reclamada em altas vozes das columnas de vários jornaes(...) Houve até político, litterato, jornalista, tido na conta de grande sabedor, que, com todo o desembaraço nos aconselhou a renúncia da independência e a submissão ao protectorado dos Estados Unidos... Tanto é profunda a incapacidade desses levianos directores da opinião brazileira!(...)”
Estamos fechando o bicentenário da Independência. Nos 132 anos de República, quase no mesmo estágio daquele 1908 de Romero.

(*) Título inspirado no livro Brasil, Colônia de Banqueiros, Editora Civilização Brasileira, 1935, por Gustavo Barroso.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

SANTO ANTÔNIO DE VOLTA À ESTRADA

 

Panfleto distribuído por ocasião das outras edições anteriores

Falta menos de um mês para o início do Trezenário de Santo Antônio. Depois do ano das confusões com o coronel Sebrão, em 1916, quando a festa foi suspensa, só há registro de ter sido novamente suspensa em 2020, justo no ano inicial da pandemia que graças a Deus, por sua ciência à humanidade que desenvolveu vacinas está indo embora.
Neste ano, certamente teremos a festa plena.
Também de volta à estrada para a TERCEIRA CAMINHADA DO SANTO ANTÔNIO FUJÃO.
Com data fixa no segundo domingo do mês de junho, que este ano cai no dia 12, a entidade promotora, Associação Sergipana de Peregrinos, e sob a coordenação de Anselmo Rocha se prepara para o retorno em grande estilo, já antevendo centenas, talvez na casa do milhar, a conduzir a imagem do santo, desde as Ruínas da Igreja Velha e a charmosa capelinha ali construída até a frente da matriz, local simbólico da quixabeira.
Caminhada gostosa, leve, em horário excelente, porque nas frescas primeiras horas da manhã de inverno, com a vista fantástica do circuito de serras, liderado pela maior, a de Itabaiana; e os verdes campos de pastagem e de plantio do perímetro irrigado do Projeto Jacaracica I.
São 11 quilômetros, com excelentes rotas de fuga ou chegada para aqueles que não se acharem preparados fisicamente para cobrir todo o trajeto.
Há sempre um transporte coletivo opcional.
Mais uma vez, dando vida à nossa lenda maior.
Está chegando.



terça-feira, 3 de maio de 2022

TEMPORADA DE CAÇA. SEM CAÇADORES.

 

 Há algumas décadas, o momento atual do outono seria de agitação na velha praça da matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. Bandos de moleques sempre famélicos como lhes próprios da faixa etária da puberdade – se lhes apresentassem paralelepípedo untado de açúcar, este correria sério risco – estariam competindo ferozmente atrás de cada frutinha de oiti que caísse ao chão, ou estivesse ao alcance das inevitáveis e indefectíveis pedradas. Mas na manhã da última segunda feira não mais as encontrei em profusão, a enlamear o solo graças ao zelo dos garis do Município, sempre diligentes a manter a ordem, ao menos no que torna ao asseio público: caiu um oiti, recolhe e joga no lixo.

A garotada atual não curte mais oitis, araçás, jatobás, ingás, muricis, jenipapos, mangas, cajus... mesmo as outrora tão cobiçadas goiabas, hoje, em geral são consumidas como sucos. Se muito.
E assim caminha a humanidade.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

MATRIZ DE SANTO ANTÔNIO E ALMAS - A MÃE DA CIDADE DE ITABAIANA

 

Recebi uma mensagem de uma amiga solicitando subsídios em forma de fotografias acerca da trissecular igreja matriz de Santo Antônio da Itabaiana. O que naturalmente me é um grande prazer colaborar, e não somente por ser católico; mas também por ser apaixonado pela história da nossa urbe e sua formação.
O trabalho, mais um a ser produzido pela excelente ilha de produção da TV ALESE, me adiantou ela será sobre o histórico da velha matriz; deduzo que para exibição durante a festa de Santo Antônio, daqui a um mês.
Aqui cabe um parêntesis para falar da excelente qualidade das TVs públicas sergipanas, e, justiça seja feita, na medida do possível até das TVs comerciais, limitadas, naturalmente pelas leis de mercado, além das regras das redes das quais fazem parte. Mas o pouco que tenho acompanhado da pioneira e cinquentona TV Sergipe também é bastante satisfatório, mormente na sua produção jornalística local.
Bem, mas voltando à nossa matriz principal, ela simboliza Itabaiana e toda a mesopotâmia, entre os rios Sergipe e Vaza-Barris. Jamais existiria hoje Itabaiana; talvez fosse mera lenda motivada pela lembrança, não fosse a presença da nossa matriz a congregar ceboleiros, da Cotinguiba ao Cansanção; do Sergipe ao Vaza-Barris.
Ponto de cuidados dos portugueses, desde que foi avistada por Américo Vespúcio por volta dos dias oito a dez de outubro de 1501, e por ele batizado de Santa Maria da Graça, as “Serras Moradas dos Homens de Onde os Rios Vêm”, ou resumido, Itabaiana, em tupi continuou no imaginário de reis, exércitos e piratas europeus até o século XVIII, primeiro como uma grande mina de prata; e logo a seguir, de ouro.
Mas foi caindo em desencanto à medida que os minerais não apareciam. Primeiro perdeu metade do gado com a invasão holandesa, de 1637; e a seguir com a Rebelião dos Curraleiros, de 1656. Depois, com a descoberta do ouro de Minas Gerais, as atenções mudaram todas para lá e todo o Sergipe aguardou a próxima onda de crescimento com a proliferação dos engenhos de meados do século XVIII em diante. Mas dessa fase, Itabaiana só lucrou com o nascimento de tímido comércio em outros centros surgidos, na área do Cotinguiba, onde o caso mais notável foi o de Laranjeiras.
Ironicamente foi a última expedição oficial, empreendida por D. Rodrigo de Castelo Branco que sepultou a ideia da prata em Itabaiana e provocou a descoberto do ouro em Minas Gerais por Manuel Borba Gato, que quebrou a resistência do Bispado da Bahia e a completa aversão do pároco de São Cristóvão, Sebastião Pedroso de Góis, em criar mais uma paróquia em Sergipe, além da Nossa Senhora da Vitória de São Cristóvão; a segunda, portanto de Sergipe.
Isso já havia sido tentando pela vaqueirama no início do século XVII. Antes mesmo de existir a Matriz de Nossa Senhora da Vitória, já existia a igreja de Santo Antônio, hoje ruínas da Igreja Velha. Mas nem a paróquia de São Cristóvão nem o bispado de Salvador deram prosseguimento; reconheceram-na. Porém, em 16 julho de 1674 D. Rodrigo aqui chegou com a ordem de fundar uma cidade fortificada, desde que encontrasse a prata. E isso tornou obrigatória a instalação de uma paróquia, que foi feito no ano seguinte, em 30 de outubro de 1975.
Nove anos antes, em 1665, diante do rescaldo da Rebelião dos Curraleiros, desta vez com epicentro no Distrito de Lagarto, o padre Sebastião Pedroso de Gois fundou em São Cristóvão a Irmandade das Santas Almas dos Fogo do Purgatório, uma meia sola para conformar os vaqueiros restantes de Itabaiana. Patrono? São Miguel Arcanjo; que ainda hoje está sua imagem à esquerda da de Santo Antônio no altar da matriz. Mas em 1674 o rei queria soluções firmes na questão da prata, e, além de obrigar a instalação da paróquia deve ter encorajado o padre a fazer as pazes com os vaqueiros. Assim, intui o historiador Wanderlei Menezes, com quem concordo integralmente, teria juntado o útil ao agradável e migrado a supra citada irmandade, não só fisicamente de São Cristóvão para o novo povoado, como nominalmente para SANTO ANTÔNIO E ALMAS.
E foi a IRMANDADE DAS ALMAS, provedora e administradora a grande responsável pela permanência da cidade. Durante dois longos séculos a Matriz de Santo Antônio foi o único traço de unidade, referencial de civilidade... único motivo de se vir à vila “nas sete festas do ano”, como diz o ditado. Em 1908, meio século depois de ter surgido a Feira, o outro traço de civilidade que por aqui surgiu, Miguel Teixeira da Cunha fotografou a cidade, usando para isso pouco mais de quatro tomadas: a cidade era minúscula. Mas a matriz, construída “em pedra e cal e óleo de baleia” lá estava imponente. Único edifício de presença na vila ainda paupérrima, apesar de um dos municípios mais ricos do estado.
Hoje, a matriz de Santo Antônio e Almas é irrelevante até para a maioria dos seus ainda pouco mais de dez mil paroquianos, restritos ao Centro da cidade e algumas franjas de bairros adjacentes; mas já foi referência única e imprescindível para uma área cuja população ascende a 250 mil habitantes, distribuídos por 17  municípios e mais de 25 paróquias filhas, a começar pela de Nossa Senhora da Boa Hora do Campo do Brito, de 1845 e a de São Paulo de Frei Paulo de quatro décadas depois.
Abro aqui outro parêntesis para saudar a excelente iniciativa do atual pároco, padre Marcos Rogério Vieira em comemorar a data em grande estilo: há dois anos, diante da comoção provocada pela primeiro ano da atual pandemia que se está indo, graças a Deus; também aproveitando uma data emblemática, 3-4-5, ou seja o tricentésimo quadragésimo quinto aniversário, o operoso pároco celebrou a data de forma especial.
Em 2025, daqui a três anos Itabaiana, sua paróquia e sua cidade completam três séculos e meio de efetivamente fundada. Faço votos que não somente a paróquia comemore como a própria municipalidade a nossa fundação oficial.
A matriz de Santo Antônio e Almas é o maior traço de itabaianidade que temos. E, diferente da serra, o único que de dela não nos deixaram deserdados: a serra hoje é quase que integralmente do município de Areia Branca, que é da grande Itabaiana; mas não mais dentro do município-base.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

II EXPO-INDÚSTRIA DE ITABAIANA: VOCAÇÃO INDUSTRIAL, DESDE 1600.

A terra de um dos quatro primeiros engenhos de Sergipe celebra a atividade industrial nesse fim de semana.

Extrato de mapa holandês, publicado em Amsterdã, em 1646 mostra o indicativo de "Engenho de Açúcar movido a bois, e sem capela".

Soa esquisito, estranho, fantasioso e até mentiroso quando se fala de Itabaiana como município produtor de açúcar e mais ainda como onde um engenho moeu cana e os tachos fizeram pães de açúcar, entre os quatro os primeiros de Sergipe, mas é a pura verdade, ao menos pelas informações dos invasores holandeses de 1637.
A II Expo-Indústria, tem lugar no Shopping Peixoto, deste 28 a 30 de abril e ocorre justo a 2,4 km a sudoeste, onde uma chaminé industrial soltou fumaça pela primeira vez em Itabaiana; repito uma das quatro primeiras do estado.
Nenhum outro registro ficou daquele primeiro século de vida colonial sergipana contudo, as cartas de sesmaria apontam para ser um investimento jesuíta, já que dentro de sua sesmaria, que não vingou depois dos holandeses.
(...)en el rio de San Francisco, no hay carga de consideracion, y en Sergjpe del Rei aunque haya asucares son poços, y tambien en estas dos partes no hay poerto de consideracion alguna.
Advertência que de necessidad (...) y desinfestacion de nuestros mares - Hechas por Luys Alvares Barriga Cavallero Portoguez. (Anais BN-Rio, vol. 69, p. 304. Rio, 1950).

Ao fim do século XVIII, era a poderosa Inglaterra que pressionava na Bahia pelo fim das rústicas manufaturas de tecidos, onde Itabaiana era o grande centro:
6124.  Documentos officiaes relativos ao Alvará de 5 de janeiro de 1785, que extinguiu no Brazil todas as fabricas e manufacturas do ouro, prata, sedas, algodão, linho, lan, &. V. Rev. do Inst. Hist, 2. ser., III (1848), pg. 213. (B. N.). (Anais BN-Rio, vol 9-T1, p. 525. Rio, 1881/1882).

Para mais ilustrar, a II Expo ocorre a 800 metros de outro tipo de indústria fortíssima no município há quase cem anos – do ramo cerâmico – e a 1,3 km do Distrito Industrial.