sexta-feira, 25 de abril de 2014

Pequena lauda sobre Sebrão Sobrinho

A solenidade de recepção ao acadêmico Vladimir Souza Carvalho, em sessão solene da Academia Itabaianense de Letras, ocorrida no plenário da Câmara Municipal de Itabaiana, hoje à noite foi, pra muito não me alongar, excelente. O saudou o acadêmico Luiz Carlos Andrade, um contador de causos e criador ímpar de armações, tão bom quanto o exercitar de seu ofício de grande médico que é. Pelo próprio Luiz Carlos Andrade fiquei sabendo que um furdunço que percorreu a vida intelectual e informativa de Sergipe há duas semanas passadas, sobre ter o saudoso José Wilker residido em Itabaiana, foi armação de Luiz Carlos. Brincalhão por natureza, num determinado ponto da capital o Luiz resolveu, junto com o próprio Vladimir, fingirem-se de extremamente enlutados pela morte daquele que dia teria trabalhado no serviço de alto-falante de Zeca Mesquita, no início dos anos 60; estudado na famosa escola particular de Maria de Branquinha (que de fato só recebia crianças), e, claro, teriam ajudado o ilustre morador a carregar o caminhão de mudanças, quando este partiu de Itabaiana para a glória nos teatros e telões do país, e para a Rede Globo de Televisão. Tudo invenção; que alguém jogou para um jornalista da capital, que, sem conferir, criou a maior polêmica. É Luiz Carlos, o cara que resolveu desmoralizar a burocracia pesada e burra do INSS (então INPS) com um tal de laudo à perícia do instituto, que falava até numa tal de “caixa da parafuseta”. Foi a maior galhofa no estado, na época. Mais ou menos na linha da história do Julinho da Adelaide do também presepeiro Chico Buarque de Holanda. 
Bem, mas, voltando à sessão solene desta noite, me deliciei ouvindo Vladimir descrever-me ao falar sobre si próprio e sua busca frenética em cada frase ou texto de cada livro; mais ainda quando seu bairrismo transpareceu ao narrar a descoberta de um livro sobre Itabaiana, e escrito por um itabaianense, que em seguida acabou descobrindo que era seu tio, conhecido apenas pela alcunha de família. À medida que discorreu sobre a personalidade de José Sebrão de Carvalho, o Sebrão Sobrinho, aí, eu próprio fiz uma viagem interior sobre o passado recente. Fui acondicionado a ver em Sebrão um personagem folclórico, senão exagerado, e até supostamente fantasioso. Ocorre que na intensa e extensa pesquisa que fiz, de cujo produto já saíram quatro vídeos e estou em véspera do quinto e último da série, e o meu livro recentemente publicado, é impressionante o tirocínio do velho brigão; fantástica a coleção de dados históricos por ele elencada. Sebrão viveu longe e até em conflito permanente com a cátedra; mas seu trabalho de esgaravatador em tudo quanto foi bibocas em busca de papeis velhos lhe deu uma visão sobre a historiografia sergipana que ninguém teve até hoje. Comportamento que foi o estopim para a brigalhada que sustentou por décadas com os catedráticos, já que, além de dispor de material pra ligar todos os pontos, o encrenqueiro itabaianense, quase ranzinza, não media as palavras quando era pra defender seu ponto de vista. O mesmo deslumbre que Vladimir teve ao conhecer de perto a Sebrão Sobrinho, tive eu de confirmar ponto por ponto suas afirmativas, muitas delas até hoje tidas como estapafúrdias, pela intelectualidade sergipana. 
Eu gosto de quem faz. E Sebrão, fez. E fez bem feito. Só isso já o coloca no meu panteão particular de heróis locais.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Agradecer: uma questão de justiça!

No último sábado, a Prefeitura Municipal de Itabaiana, por seu titular, Valmir dos Santos Costa e equipe inauguraram as obras de ruas adjacentes e da Praça da Mangabeira, povoado onde nasci, e cuja feição urbana foi criada pelo meu saudoso pai, Alexandre Frutuoso Bispo. As obras se arrastaram por quase cinco anos, já que iniciadas na gestão passada, a do ex-prefeito Luciano Bispo de Lima, mas foi nesta gestão atual que tomou impulso, chegando ao estado de realizada.
O povoado Mangabeira se estabeleceu em tempo idos do século XVII, como local de passagem da estrada real de Itabaiana para São Cristóvão, a primeira capital de Sergipe. Levantamentos do Professor Lima Jr., trazem que o local foi doado à capela do Sr Bom Jesus do Matosinhos em 1744, pelo alferes Antônio Machado de Mendonça e sua esposa D. Francisca Gomes de Oliveira. Todavia, nenhuma igreja foi construída no local, e nem ficaram registros da dita capela na Matriz de Santo Antônio e Almas da Itabaiana, a cuja freguesia, até pouco tempo atrás pertenceu. O incremento populacional na região, verificado no início do século XX, dotou-a de vários pequenos sítios, propriedades típicas do agreste itabaianense. O meu bisavô, sempre pela linhagem paterna, chegou à região ao fim do século XIX, possivelmente vindo do município de Lagarto, já aqui tendo nascido meu avô em 1884. Fincou raízes na parte norte do povoado, dividido ao meio pelo Riacho do Meio, na época conhecida como Mangabeira de Cima, e também atravessada pela velha estrada real. Foi neste local que lhe nasceram os onze filhos, dos quais se criaram nove, sendo meu pai o terceiro, antecedido pela minha tia Joana e pelo meu tio Vitorino, ou Vito.
Em 1945 havia uma magia no ar. O Nacional-Desenvolvimentismo dava seus primeiros passos mais visíveis na forma de estradas, poços artesianos, escolas, melhor estrutura de arrecadação e distribuição de recursos, progresso, enfim. O futebol se firmava como paixão nacional, e logo meu pai conseguiu criar um time de futebol, e aproveitou o descampado típico de cerrado, cheio de mangabeiras, ganhadores, cajueiros bravos e alecrins, conhecido como tabuleiro dos mosquitos, dentro do então imenso sítio de seu pai, e ali criou um campo de futebol. O meu pai, apenas alfabetizado, era um devoto fervoroso do progresso. Também católico fervoroso, logo, catequizado pela ideologia hiper conservadora da Igreja, não podia ouvir falar em Reforma Agrária e outras bandeiras socialistas que lá estava ele de ouvido colado no rádio ou na conversa afim, torcendo pelo bom sucesso da ideia. Mas, ninguém falasse na palavra "maldita" perto dele: comunismo. Lembro-me de uma reunião havida no povoado Lagoa do Forno, nos idos de 1966, onde eu, pequenino, fui com ele lá participar, mesmo que todo mundo ficasse apreensivo, pois se tratava de uma reunião que daria na fundação do atual sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itabaiana, e, naquele momento, com o recém instalado regime golpista de 1964, todo mundo vivia amedrontado com qualquer coisa do gênero. De fato não havia perigo algum porque o sindicato nasceu pelego e nunca foi diferente disso – nem poderia, já que mais uma central assistencialista. Ainda sobre alfabetização, além de ter aprendido contra a vontade de meu avô, por interferências de terceiros passou a ensinar sob seu consentimento aos irmãos – as irmãs não podiam: “pra não aprenderem a mandar cartas pros namorados”; coisas dos tempos do carrancismo. A minha avó paterna era tão católica fervorosa quanto meu pai, e faleceu em 1946, deixando uma dívida pra ele: providenciar o pagamento de uma promessa feita a Nossa Senhora Santana, de uma noite de rezas, com fogos de artifícios, etc., e etc.. Muito querida na vizinhança, o anúncio de meu pai de que iria pagar a promessa feita pela minha avó, movimentou a comunidade e, dois vizinhos em especial, resolveram estimular o meu pai a construir uma capela para realizar tal ato, foram eles: Martim Pedro da Conceição (Martim do Forno) e José Martins dos Santos (Martim de Cuta). O primeiro entrou com recursos e propaganda; o segundo com a organização da arrecadação junto à comunidade, inclusive ele. Uma semana antes do novenário da santa, cuja dia de consagração é dia 26 de julho, e a cumeeira subiu, ficando pronta na véspera da primeira das noves noites de reza – e não apenas uma, devida pela promessa. Desde então, o lugar foi consagrado à santa como padroeira, e todos os anos é realizado o novenário. Ainda em 1947, meu pai pleiteou e conseguiu junto ao prefeito de Itabaiana, Manoel Francisco Teles, a construção da estrada de rodagem entre o povoado e a estrada estadual, entre Itabaiana e Laranjeiras, que, coincidiu ser o local de entroncamento também com a nova estrada, a federal BR-235, aberta em 1952, para dar apoio logístico à Hidrelétrica de Paulo Afonso na Bahia, e que inicialmente ligou Aracaju a Jeremoabo, passando por Itabaiana. Em 1949, travou uma batalha campal contra o prefeito Jason Correia que queria levar uma escola rural para outra localidade, então quase desabitada, onde residiam parentes seus. Foi de importância ímpar a participação firme do jovem ex-deputado Dr. Aírton Mendonça Teles, filho de Manoel Teles que interveio junto a seu pai para que fosse definida a Mangabeira como o local da escola, que ainda hoje ali está. Mesmo já residindo fora do povoado, mas recordo nos idos de 1967 ou 1968, sua dor de cotovelo por serem os povoados Ribeira e Cajaíba servidos por energia elétrica, e a Mangabeira, não. Dor de cotovelo que aumentou ainda mais, quando em 1971, a rede começou a ser colocada no povoado Serra. Quanto a este item, faleceu em 14 de junho de 1988 satisfeito: a energia elétrica havia chegado à Mangabeira dois anos antes.
A Mangabeira é um povoado existente na região sul do município de Itabaiana, Sergipe, tipicamente agrícola, servido pela irrigação do Projeto Ribeira, situado entre o Rio das Pedras, ao norte e oeste, e os riachos do Tronco e Francisco José, ao sul, sendo dividido do povoado Serra Comprida, este já no vizinho município de Areia Branca, pela linha traçada entre os pontos mais altos das serras de Cajaíba e de Itabaiana. Possui água encanada, energia, telefone, porém seu acesso ainda é por estrada de terra. População aproximada de 500 habitantes, servida por duas escolas de primeiro grau, não completo, sendo uma estadual, a Escola Rural da Mangabeira, fundada em 1949, e uma municipal bem mais recente. Tem associação de moradores, que são majoritariamente católicos, e já há mais de dez anos realizam uma muito bem planejada e executada peça teatral encenando a Paixão de Cristo, mesmo em se tratando de pessoas simples, sem ensinamentos sobre encenação, praticamente todas elas agricultores.
A inauguração realizada no último sábado, 12, deste corrente abril de 2014, além de corrigir um problema, o do desprezo a que esteve relegado o povoado durante anos, eleva a autoestima de todos que ali vivem ou que dali vieram, como eu, fazendo justiça àquela comunidade que tem no trabalho uma devoção; algo sagrado, como pregou Hesíodo.
Em nome de meu pai, que se vivo estivesse o faria, quero agradecer aos mangabeirenses que criaram o grupo teatral da Paixão de Cristo, vitrine primordial para que viesse o projeto e obras que agora se realizam; quero agradecer ao meu amigo, ex-vereador João Alves dos Santos, o querido João Patola, pela força que deu aquele grupo ao propagar-lhe o trabalho, há dez anos, quando ainda nascente, no seio da sociedade urbana de Itabaiana; quero agradecer a administração municipal anterior por ter desenvolvido este projeto, em que pese tê-lo congelado por mais de dois anos; quero agradecer ao prefeito Valmir dos Santos Costa por ter arregaçado as mangas e concluído o projeto, transformando a velha praça empoeirada num belo jardim e seus equipamentos.
Em meu nome, quero agradecer aos mangabeirenses de hoje que não se descuidaram da memória dos de ontem, inclusive a do meu pai, colocando-o em evidência, para que tivesse a Praça, por ele criada em 1947, o seu nome; quero agradecer ao seu afilhado José Valdécio da Paixão, ou Valdécio de Davino, o empenho pessoal em catalisar este sentimento dos mangabeirenses, levando-o à Câmara Municipal de Itabaiana, e ao prefeito Valmir dos Santos Costa, e denominar a mesma praça com o nome de Alexandre Frutuoso Bispo; agradecer ao vereador João Cândido Sobrinho, propositor na segunda mais antiga Casa Legislativa do estado, e quadragésima sétima mais antiga do país, de tal honraria; agradecer a todos os vereadores votantes ou não, presentes ou ausentes, em uma ou nas duas sessões necessárias à aprovação da matéria; enfim, mais uma vez agradecer ao prefeito Valmir dos Santos Costa pela sanção da lei que denomina doravante a Praça Alexandre Frutuoso Bispo do povoado Mangabeira.
Muito obrigado!

José de Almeida Bispo
Radialista, publicitário, pesquisador, documentarista e historiador.
Membro da Academia Itabaianense de Letras, cadeira 26 (patronesse, Maria Thétis Nunes)

sábado, 29 de março de 2014

Tonho Oliveira, o comunista romântico.

Hoje pela noite, tivemos a recepção ao acadêmico José Luciano Góes Oliveira na Academia Itabaianense de Letras. Discursos afinados, tanto o do apresentador, Vladimir Souza Carvalho, quanto o do próprio. Este discorreu sobre toda a História recente de Itabaiana, vivida por ele, numa forma brilhante de contextualizar o mundo herdado dos tempos do patrono de sua cadeira, Jose Ademar de Carvalho. Nestas idas e vindas, com perfeita maestria, o confrade tocou numa figura mais que grata de Itabaiana, a qual eu tive o prazer de conhecer: Tonho de Doce, ou, Tonho Oliveira, filho de Zezé da Requinta e D. Doce, que tem ainda o Paulinho de quem também tenho a satisfação de compartilhar sua simpatia e grande amizade.
Terça-feira, e não na segunda, dia 31, como tem insistido os envolvidos “culpados” da ditadura que por 21 anos envergonhou o país (os demais, os que lucraram alto, simplesmente buscam sonegar que participaram), completa meio século de um triste capítulo de nossa história. Não tolerando mais perder eleições por absoluta incompetência eleitoral, a direita - os que perdiam desde 1932 - trabalhou e conseguiu impor ao país a sua democracia sem povo. Um dos motes preferidos foi o fantasma do comunismo. Quando se analisa à luz da razão, senão estúpidos, foram de uma maldade ímpar, os que usaram desse artifício pra mergulhar o país num regime onde não tardou partir pra torturar e matar indiscriminadamente. 
Em mais um brilhante artigo, o médico José Marcondes teceu ontem no grupo Itabaiana Grande do Facebook (aqui, para quem tem Facebook) sobre suas viagens ao mundo dos selos e estampas outras, inclusive dos países da Cortina de Ferro, o que deu em dores de cabeça para Seu Afonso, pai do então garoto Cleidnadjo Araújo, nosso Dadá, e um dos seus vários colegas nas aventuras filateliais. De fato, eram assim, em sua esmagadora maioria, os comunistas, não somente de Itabaiana, mas de Sergipe, e do Brasil. Ao falar hoje à noite sobre a militância comunista de Tonho de Doce, Luciano Oliveira não esquece que Tonho era admirador, acima de tudo, da civilidade que o socialismo transparecia. Culto, estudioso e inteligente fazia questão de sair do trivial e ir buscar na literatura socialista as respostas pra muita coisa. Todavia, era comerciante, católico fervoroso, razoavelmente conservador no que toca à família, à propriedade e ao Estado, e, mesmo depois de preso arbitrariamente como o foi em 1964, em seguida à sua liberação mudou-se para Aracaju onde, além de se manter no comércio, “se envolveu com a nobreza”: sua loja de bicicletas ali fundada tinha o nome de fantasia de “O Rei das bicicletas”. Este é o verdadeiro perfil, em geral, do temível revolucionário comunista alardeado pelos perdedores de eleições pra tomarem o poder no tapetão.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A incansável luta do ser

Na última quarta-feira, 29, participei de uma reunião aqui em minha cidade, com pessoas conhecidas, figuras carimbadas, como se usa no jargão popular, na arte de ter esperanças e correr atrás da consecução de seus sonhos. Estes, na maioria, tem de serem abandonados, devido aos muros intransponíveis, que costumam erguerem-se diante das ideias humanas; mas, de vez em quando, dão certos; e, a cada tentativa com solução vitoriosa, esta compensa todos os esforços baldados em lutas outras. A reunião em pauta foi sobre o estabelecimento de uma recém-criada ong, a MÃOS AMIGAS DE NOSSA SENHORA DE NAZARÉ, uma ideia da Irmã Luciana Correa Quaresma; mais uma dela, entre nós. Trata-se de uma instituição com vistas a promover a pessoa humana, através de estímulos variados, especialmente a educação profissional, ressocialização, enfim, inclusão.
A Irmã Luciana Quaresma está com quase 77 de idade. Com vinte a menos, a maioria das pessoas sonha apenas com uma só coisa: aposentar-se; e viver aquilo que acha ser vida de rico, ou seja: nada fazer. Apenas curtir. Pelo currículo dela, bem que poderia se dar ao luxo de aderir a esse tipo de vida, sem prejuízo algum à sua biografia. Começou a trabalhar aos nove de idade em sua cidade natal, Arouca, região do Porto, norte de Portugal, e nunca mais parou. Entrou numa congregação de irmãs franciscanas pra fazer o que todas costumam fazer; mas nunca se contentou em apenas administrar, muito menos em viver uma vida religiosa comum. Seu currículo é fantástico. Seu grande último investimento foi numa comunidade, à época paupérrima, numa espécie de invasão, hoje o populoso bairro de Teotônio Vilela, nos Ilhéus de São Jorge, sul da Bahia, onde fez aquilo que poderia ser sua despedida para a aposentadoria. Quase foi, porque, com um espírito que faz inveja a muitos jovens, cá está ela, mais uma vez, dedicada a criar mais uma instituição, para com ela operar mais trabalhos de formiguinha, na busca de levantar caídos, habituais ou não, por este nosso velho vale de lágrimas. Repito: poderia muito bem se dar por satisfeita; mas o espírito de luta, de trabalho, não cessa. Há hoje na cidade, e em quase todo o país, uma plêiade de instituições e pessoas a prestar assistência, numa rede de seguridade que faz inveja a muitos países ricos. São pessoas, que, de alguma forma, dedicam-se no servir. Mas são diferentes no modo de agir como age Irmã Luciana. É louvável o trabalho de asilos a deficientes, idosos, a assistência em geral, sem esquecer os bem vindos programas assistenciais do Governo. Mas, em geral, todos administram recursos líquidos e certos. Asilos, em geral, trabalham com aposentadorias ou pensões dos seus internos ou mesmo externos, pagas pela Previdência Social. Não se trata de um paraíso; mas, ao menos no quesito finanças, não tem do que reclamar. O trabalho da Irmã Luciana é diferente. É promoção humana na sua forma mais elementar possível. Pegar o caído, o desesperado, o indiferente, porque miserável crônico, o que absolutamente nada tem, e buscar, através de atos simples, como aprender um ofício, um caminho de soerguimento na luta pela vida. Despertar. Induzir a dar o primeiro passo. Óbvio que neste caminho ela abraça todos os recursos, pedagógicos ou financeiros, desde dar alimento a quem tem fome a encaminhar até a aposentadoria ou outro modo de recepção de benefícios por parte do poder público; desde a doação em forma de serviços prestados por um humilde servente de pedreiro, à verba que o parlamentar venha alocar em nome de sua instituição; mas, a única condicionante que realmente tem importado no seu trabalho é a existência da matéria prima: o necessitado de ajuda. Os meios? Corre-se atrás. Daí em diante, vem as demais condicionantes no executar desse árduo trabalho, como a exigência firme do beneficiado não desistir; a firme vigilância para não deixar-lhe desviar do caminho; e, claro, certo nível de exigência por resultados.
A ong está fundada e já em atividade. E sua inspiradora impaciente porque ainda não abriu nenhum curso profissionalizante; ainda não conseguiu se organizar pra ajudar alguém a ter seu cantinho, sua casa, trabalho que atualmente está mais facilitado pelas políticas públicas existentes, mas, que, se não houver quem bem conduza, não acontece. Enfim, depois de quase 50 anos de experiência em promover vidas, e o natural reconhecimento sobre tempo de plantio e maturação de ideias, percebe-se nela, aquele vigor adolescente de quem quer tudo e agora. Aos 77.  Recentemente ganhou um terreno da Prefeitura para construir sua sede; mas não tem um centavo em caixa pra isso. De fato, a reunião da última quarta foi para que a arquiteta, que está a desenvolver o projeto da construção, o apresentasse. Mas, em se tratando da Irmã Luciana, é natural que dela se espere atropelar alguns processos para logo meter a mão na massa. Ir ao foco da necessidade. Nasceu pra isso. Ser assim. E que ninguém a tente segurar; convencê-la de que já fez o suficiente; de que agora isso ou aquilo. É da natureza dela. E onde houver gente necessitando, pedindo ou não, ela irá intervir.
Que Deus a ajude em mais essa jornada!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Bateu saudades!


Pra mim, garotão de meus oito anos, vir à cidade aos sábados, dia de feira livre, era um momento mágico. Em cima dos paus-de-arara, já que marinete naqueles tempos, em que já chamavam de ônibus, eram raras, caras; coisa de rico. Não importava se o pau-de-arara era o do vizinho Wilson de Feliciano, ou de Dúi, Zé Palá, Mané da Onça, Toínho sete dedos, ou mesmo Bandeirola. Tempos depois alguns destes foram substituídos por Neemias, irmão de Wilson, e por Jadiel, este, ainda mais vizinho.
A cidade encantava. Logo à chegada, o pomposo Colégio Estadual Murilo Braga, onde eu suspirava de vontade de nele estudar. Não via a hora de terminar o Primário pra realizar este sonho. Em seguida, o Hospital Regional Dr. Rodrigues Dória, bem de frente à Praça da Bandeira, e ali pertinho, o badalado posto de saúde do SESP. À medida que o caminhão mais adentrava o Centro, iam se sucedendo: o Grupo Escolar Guilhermino Bezerra; a Praça João Pessoa, e, nela, o Cine Santo Antônio. Daí, então, era descer do caminhão ali mesmo, na Praça, andar uns cem metros e entrar na feira com suas tradicionais barracas a vender de um tudo; seus cantadores, emboladores, vendedores de livretos de cordel que, claro, tinha que anunciá-los, recitando alguns versos de forma típica, trovadores com suas violas, vendedores de garrafadas, pílulas e pomadas que curavam tudo, até "aquela doença" (a expressão era seguida de benzimentos e se referia ao câncer); pedintes criativos, muitos deles malandros profissionais; bandinhas de forró, microcircos de rumbeiras, obviamente escondidos do público, em geral por providencial empanada; um mundo lúdico, em que pese carregado da realidade daqueles tempos.
Eu sempre vinha com a minha mãe. Que sempre dava um jeitinho de arranjar um tempo para ir até a Matriz de Santo Antônio; no mínimo, fazer uma oração. No trajeto, entre a feira e a Matriz, pela Rua da Vitória, há tempos rebatizada de General Siqueira, porém, ainda reconhecida pelo antigo nome, também passávamos pela Rua 13 de Maio, logo, em frente ao Cine Teny, que já fora Popular, e tempos depois retornaria a esta denominação, assim permanecendo até sua morte derradeira. Aí vinha a Prefeitura, a majestosa Praça Fausto Cardoso, que sempre resistiu, gloriosamente, às tentativas de deixá-la feia, e por fim a Matriz. A tudo meus olhos de moleque curioso se fixavam. E, claro, não poderia deixar de notar as várias tabuletas colocadas em várias esquinas movimentadas, anunciando o filme da noite, em geral, no Cine Santo Antônio. Ah, que vontade eu tinha de ver aquilo! O pessoal que chegava de São Paulo e de Salvador sempre falava na televisão, uma espécie de rádio onde as pessoas apareciam como se numa fotografia, em movimento, claro. Minha mãe sempre me falava de uns pouquíssimos filmes que tinha assistido no cinema, tentando me passar a ideia de como era. Reclamava apenas dos olhos ardendo, coisa que somente anos depois vim saber-lhe os motivos: a readaptação do olho à visão do movimento virtual das imagens; aos vinte e cinco quadros por segundo, que nos dá a sensação de movimento real, mas que de certa forma o olho não treinado sente. Observando fotografias de minha cidade daquela época, nas quais, aspectos, como as tabuletas aparecem, este filme percorre a mente, enchendo-me de saudade daqueles tempos, hoje tão simples.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Bons ventos sobre a Igreja Velha.

Por volta de 1620, curraleiros – criadores de gado arrendatários – construíram a Igreja Velha. Eram tempos complicados, aqueles. A Inquisição acabara de passar por Sergipe, e em particular por Itabaiana, levando muitos cristãos-novos que haviam fugido para cá, das fogueiras em Espanha e Portugal; e ainda mais, o arrogante Império Espanhol que havia engolido o império português, quarenta anos antes, nem estava aí pros destinos dos colonos aportados no Brasil, exceto os endinheirados e acusados de heresia, para os queimar, e, obviamente, tomar-lhes o que tinham. Para se construir e oficializar uma igreja, seja capela ou basílica, até o advento da República em 1889, era preciso o aval do Papa, através do Bispo; e do Rei através de seu preposto. Os curraleiros construíram a Igreja Velha e já foram trombando com o padre de São Cristóvão de Sergipe d’El-Rey, então único em todo o Sergipe. Péssimo sinal. Como resultado, a Igreja Velha nunca foi reconhecida pela Igreja Católica, em que pese ter sido usada por esta, até pelo menos a construção da atual matriz de Santo Antônio e Almas onde hoje se encontra, origem da cidade de Itabaiana. 
A Igreja Velha, registrada pelos holandeses que chegaram a Itabaiana em 1637, resistiu ao tempo e hoje o que resta são apenas ruínas de suas paredes. Mas existe. Único testemunho de uma era na colonização brasileira, o chamado Ciclo do Gado. Depois dela, o símbolo mais antigo dessa era, é o forte dos Ávila, no litoral norte baiano, este, porém, de depois de 1705, quase um século depois da Igreja Velha.
Hoje, 17 de outubro, pela noite, antes do início da solenidade de instalação da II Bienal do Livro 2013, nos corredores da Câmara Municipal de Itabaiana, onde ocorreu o evento, tive o prazer de conversar com o prefeito municipal, Sr. Valmir dos Santos Costa, que me notificou já haver indenizado o dono do terreno onde está assentada a Igreja Velha, sendo o terreno, desde já, e, portanto, as ruínas, propriedade do Município. Ao menos esta parte está pronta. Mas não pode parar por aí. É preciso que o processo de tombamento pelo Patrimônio Histórico da União, seja através do IPHAN, seja através de outra instituição, avance; e que as agências governamentais que trabalham neste sentido agilizem este processo para que efetivemos essa relíquia nacional, como tal. De qualquer forma, mais longe já estivemos. E vamos em frente!

sábado, 12 de outubro de 2013

Lembranças infantis

Criei-me, como quase todos os meus vizinhos presentes e adjacentes, como um menino pobre. Mas pobreza nunca foi sinônimo de tristeza e infelicidade. Ao contrário de miséria; desespero. E, diante de nosso mundo de crianças pobres, a escola e sua tabuada movida a palmatória, os rituais sociais das rezas, sejam de vida ou morte; do dia a dia nas malhadas, e, claro, da diversão, porque ninguém é de ferro. E a diversão dos meninos, disparadamente era a bola. O joguinho de futebol na clareira do pasto de alguém – de fato, espaços dentro das matas de cerrados, tão comuns em nossa região - na encruzilhada das estradas vicinais, no pátio da escola, e até nos campos de peladas dos adultos. E aqui que entra um fato que me marcou.
Idos de 1971, povoado Forno, município de Itabaiana, próximo à estrada real Simão Dias-Laranjeiras – de fato, um atalho desta, em invernos mais rigorosos – uma bodega, das tantas que houve até bem pouco tempo atrás. A mesma foi montada inicialmente por alguém de quem não me ficou o nome, e logo vendida ao ex-vereador Olímpio Arcanjo de Santana, que nela operou por uns cinco anos. Olímpio Arcanjo de Santana é o nome que denomina o Plenário da Câmara Municipal de Itabaiana. Até recente e reconhecidamente na documentação, o mais presente vereador da trissecular casa legislativa, com oito mandatos, só agora sendo igualado por outro de geração mais nova. Mas, na época desse episódio, a bodega já pertencia a Seu Angelino Salgueiro, que tinha esse nome de Salgueiro por vir daquelas bandas dos sertões pernambucanos. Um sábado à tarde, qualquer, estávamos em  doze ou quatorze molecotes, traçando uma bolinha mixuruca, no campinho feito na encruzilhada defronte da bodega, aí por volta das quatro da tarde. Como linhas? Os limites das estradas, feitos por valados. Como traves? As indefectíveis “japonesas”, sandálias de borracha, ainda recentemente por aqui aparecidas, cuja marca mais famosa ficou as “havaianas”. A todo o momento tínhamos que parar porque, estrada, movimentada, sempre havia alguém por ali passando, cortando nossos lances geniais. Era convencionado entre as partes: assim que aparecia alguém de passagem, jogava-se a bola para o lado; e a cobrança do lateral, óbvio, era de quem jogou, porque por um ato de grandeza. De repente, naquele dia irrompeu cruzando através da estrada secundária o João, nome não fictício, mas que não aditarei sobrenome, já que o mesmo ficou mal na história. Montado num burrico, coincidentemente, antes que o víssemos e naturalmente parássemos a bola, a mesma foi chutada, justo em sua direção. O animal se espantou, obviamente, e se esquivou da bola, causando um susto em seu montador; e em nós, que tínhamos a noção da responsabilidade num eventual dano. Mas foi só o esquivar. O João era dessas figuras pouco afeitas à nobreza de caráter. Do tipo que, como cães vira latas, correm ganindo à menor pisada mais firme do chão, mas que, quando vê pessoas supostamente fracas, desprotegidas, gosta de posar de valentão. Desceu do animal, pegou nossa bolinha mixuruca e com uma faca peixeira trazida com bainha, na própria cintura, cortou a bola em quatro ou seis pedaços proferindo meio mundo de imprecações contra o nosso grupo. Seu Angelino, baixinho, franzino, de vista já um pouco enfraquecida, sentado numa cadeira de balanço no telheiro da bodega, viu tudo. Levantou-se calmamente, caminhando lentamente, como era de seu feitio, veio ter com o João, que estava uma arara. Já havia cortado a bola e continuava uma arara.
- João, o que foi que houve? – perguntou ele.
De imediato o João parou com a brabeza, se recompôs e respondeu:
- Bem, Seu Angelino, é que esses moleques aqui – não mais chamou ninguém de safado como estava a fazer – quase me derrubaram jogando a bola propositalmente em cima do burro pra isso!
Seu Angelino só disse:
- João, eu estava sentado ali na frente e vi tudo. Pague a bola dos meninos e acabou! 
Disse isso, e deu meia volta, sequer respondendo a outras indagações do João. Este, meteu a mão no bolso, perguntou quanto era uma bola nova, e, claro, demos o preço de uma bem melhor; pagou o valor, montou em seu burrico e foi embora.
Seu Angelino faleceu oito anos depois, de leucemia, sem nunca ter dado um tiro ou um tapa em ninguém; nem também recebido. Também não me consta que tenha travado nenhuma discussão litigiosa com ninguém. E eu, que já tinha lições e mais lições do meu pai, da mesma estirpe de Seu Angelino, seu amigo, fiquei com a exata noção do que realmente é autoridade.