segunda-feira, 20 de julho de 2026

AS CONDENADAS

 

Assoberba-se a solitária e altaneira árvore, sem a consciência de que está condenada à morte em breve. Do mesmo modo, a escola, ao fundo, depois de mais de meio século de alegrias e laboratório de sonhos. É o progresso.

A concorrência entre os políticos pode beneficiar largamente o norte do município de Itabaiana.

A antiquíssima estrada do Canindé, pela também velha Caenda, ao menos no que toca aos seis quilômetros, da cidade até o povoado Pé do Veado, está a ganhar asfalto, com aquele povoado, e entorno, finalmente tomando ares urbanos, sem perder a sua característica de centro agrícola.

O núcleo principal do povoado está uma gracinha.

Num claro ato de competição eleitoral, a oposição, perfilada ao Governo do Estado, ora usa a força deste para medir forças, e está em franco progresso o asfaltamento dos três quilômetros e meio, da ligação do sobredito povoado, à rodovia estadual, SE-170, pela antológica estrada dos tropeiros, conhecida como Estrada da Mariquinha.

Ao percorrer ambos os trechos, encontrei na Estrada da Mariquinha, já no povoado Terra Vermelha, algo que mexeu comigo: uma soberba e frondosa árvores “empatando” o progresso. E um laboratório de sonhos a caminho da ruína: a Escola Municipal Manoel Francisco da Costa.
O zelo, o caprichar nos desenhos, a esperança da continuidade, baldaram-se frente a realidade de um mundo celeremente em transformação. Que pena!
Em primeiro, a velha unidade escolar municipal do povoado Terra Vermelha, construída na administração Vicente Machado Menezes (1967-1970), desde fins do ano passado fechada, já com o mato bem alto: somente seis crianças se matricularam nela no início do período letivo de 2026. 
É a dura e triste realidade. Dá para marejar os olhos todo aquele denodo das últimas mestras, jogado fora, pela cruel realidade da revolução silenciosa da queda de natalidade, obviamente que combinada com migrações, problemas de seguranças e outros; mas o fato é que aquela gritaria infantil foi calando, calando, e agora só resta, por enquanto, o maquinário barulhento trabalhando a estrada.
Escola não é apenas um lugar de aprender a ler. Por isso dói a cada prédio escolar que vai abaixo. Quantos gritos de alegria! Quantos expectativas, sonhos, essas paredes devem ter testemunhado.
E estrada, insofismavelmente, já condenou a mais altaneira das árvores ao redor. A qualquer momento virá execução da condenada. “As chaminés do progresso não podem parar”, como dizem Roberto e Erasmo Carlos, na canção “O Progresso”. Tomara que não seja mais uma estrada inacabada como a decantada Itabaiana-Itaporanga d’Ajuda (de fato, São Cristóvão)

Ciclo esgotado

Há cerca de 25 anos que algo me preocupa, em Itabaiana; em Sergipe e em todo o Brasil: vai faltar gente jovem pra cuidar dos jovens de hoje... amanhã, quando forem velhos.
Em Itabaiana o número de nascimentos desabou de mais de três mil por ano, na década de 1980, quando a população era de 64 mil, para 1.315 em 2024. Relativamente, em torno de 20 por cento daquela natalidade, levando-se em conta que a população atual anda pelos 110 mil no município.
Unidade municipal criada em 20 de outubro de 1697, ou seja, emancipada, Itabaiana, como de resto, o Brasil, salvo raras exceções teve alfabetização zero até o século XIX, não havendo registros por nós conhecidos, antes da década de 1830, com Sergipe e o próprio Brasil independente.
Mas o Estado-Novo, que sob o ponto de vista político deixou más lembranças, foi fundamental para consolidar as intenções revolucionárias contra um Brasil ainda feudal.
E é aqui que aparecem figuras como Anísio Teixeira, Murilo Braga e outros, reprogramando o país. Um programa agressivo para romper com quatro séculos de atraso. O Nacional-Desenvolventismo começando do começo: a Educação.
O regime interventorial em Sergipe, finalmente conseguiu a primeira unidade educacional de Itabaiana, o Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, inaugurado, já em funcionamento, em 4 de abril de 1937. Mas, a torrente educacional viria a partir de 1957, com as primeiras mestras formadas a partir do Colégio Estadual Murilo Braga, então Escola Normal Rural (a cidade acabava na rótula da Avenida Airton Teles).
Na década de 1940, as escolas “de pé pau” (espaços domésticos, adaptados, salas apertadas, onde aprendiam no máximo 20 alunos) se multiplicaram. Mas na década de 1950 vieram as Escolas Rurais, subsidiadas pela União e dirigidas pelos Estados.
Entre 1940 e 1990 foi preciso muito investir em Educação. Em Itabaiana, especialmente.
Em 1940, num total de 30.176 habitantes (menos de quatro mil na cidade) somente 4.728 (15,7%) se declaravam alfabetizados, em geral, a maioria mal assinava o nome. Pra votar.  Naquele Censo, o IBGE encontrou em Itabaiana, 9.754 (32,3%), ou seja, aproximadamente um, em cada três habitantes, tinha menos de dez anos; 6.993 (23,8%) tinham entre 10 e menos de 20 anos. Presumivelmente a metade em idade escolar.
Em 1940, 84,3% eram analfabetos totais.
Um salto no tempo e, com a Constituição de 1988, e a municipalização do Ensino Fundamental, relativamente fartos recursos começaram a serem alocados aos municípios, multiplicando-se as unidades municipais.
Foram décadas de investimentos em educação. E de repente, descobrimos que temos que reprogramar tudo.
Há dez anos que a clientela não aumenta, e, com o aumento da melhoria econômica geral, pipocaram escolas privadas, as mais variadas, que levam preciosa quantidade de alunos. 
Desde 2015, não nascem mais de 1.350 bebês ao ano em Itabaiana.
Mas o drama é maior na zona rural.
Em 1940, de cada cem habitantes do município, 85 moravam na zona rural.
Em 2010, já eram menos de 20; e, mesmo ainda não dispondo dos números do IBGE-2022, esses valores não devem terem muito modificado. Outrossim, a permanência de em torno de 20 na chamada zona rural mais deve-se a aglomerados urbanos ali surgido, quais inexistem na zona norte do município.
Há certa apreensão na Secretaria Municipal de Educação de que no próximo período letivo, mais umas cinco unidades tenham que serem fechadas por falta de aluno.
Mais espaços lúdicos, vividos por gerações, portanto, correm o risco de desaparecer.
É o tempo e seus compassos.