domingo, 6 de setembro de 2026

ESPERIDÃO NORONHA: DE HERÓIS MAIS OU MENOS ESQUECIDOS.

 

Prestes a completar um século de rodovias, em 2028, hoje se fala por aqui em caminhão e caminhoneiro, em geral, tendendo a esquecer os heróis do passado; das décadas de 1930 e 1940; os que desbravaram estradas horríveis; rios sem pontes, atoleiros intermináveis, juntas de bois pra puxar carro atolado. Mas em 1930, um jornal laranjeirense realçava a loucura do maestro, comerciante, político e promotor de festas, Esperidião Noronha, com mais dois companheiros, entre outras, a enfrentar a temível ladeira do Engenho São Paulo, muito mais perigosa que a do outro engenho, o Cafuz, ponteões de madeira, enfim coisa pra empreendodores-raiz. Chauffeurs malucos. Coisa pra gente de tutano.
Ponte de madeira sobre o rio das Traíras, rodagem velha para Campo do Brito. Comum na primeira rodovia em barro, aqui citada.

Em tempo: chauffeur, hoje aportuguesado para chofer. E Onnibus era carro de transporte coletivo. Como o tradicional pau-de-arara, ou caminhão de feira; independentemente do tipo de carroceria.

Segue transcrição do artigo.

Auto-Viação 
Eficientes Empresas particulares
(Vida Laranjeirense, Ano I, Número II, 11, 05, 1930, p.2. Laranjeiras-SE.)

Os nossos Omnibus Suburbanos e os seus relevantes serviço à causa pública - Homenagens de "Vida Laranjeirense" às empreendedoras figuras dos senhores Esperidião Noronha, Marinho de Oliveira e José Freire de Lima.
- "Não há regra sem exceção."
Certamente. Nós que não morremos de amores pela perigosíssima classe de chauffeurs não podemos nos esquivar do reconhecimento de tão irrefutável verdade.
- "Não há regra sem exceção."
Falemos dos nossos meios de transporte para o interior.
Os Omnibus de Itabaiana! 
Gente heroica! Gente digna!
Antigamente, que representava, uma viagem de Aracajú, daqui até Campo do Brito, Itabaiana, São Paulo?
Uma verdadeira, uma temerosíssima batalha. Dois, três, quatro dias de luta por caminhos ermos, ao sol abrasador de dezembro; ao frio regelante do inverno. Pernoites ao relento em meio à mataria inóspita; comendo-se mal, bebendo-se da pior água, retiradas de paludosos, improvisados açudes. enfim, uma maldita, homérica temeridade.
E veio o governo do Doutor Epitácio Pessoa, Com ele, a elaboração de abençoado projeto, projeto que se convertera empós na bem redigida e oportuna Lei das Obras Contra as Secas
Partem para o Ceará, para a Paraíba, para Pernambuco as maravilhosas comissões. Milhares de operária, centenas de caminhões, um exército de técnicos!
Para nosso Sergipe, coitado, 
Um único traçado! De Laranjeiras a São Paulo. Uma malandragem de traçado. Somente para que se viesse a dizer que o lillput da confederação ficara de todo esquecido.
E a miniatura veio á héj
Estudos, explorações, locações, início de construções.
Exercícios findos. Retorno dos senhores Engenheiros com auxiliares imediatos. Carroça, pás, estacamentos, ao abandono. Novas queixas, novas desesperanças, novas desilusões.
E o interland sempre na penúria. Apesar da sua nunca desmentida abnegação, da sua estoica resistência e da promissora eficiência de sua atividade pobre povo! Sempre o mesmo ducaso(descaso?), sempre a mesma injustificável pretensão!
Passaram-se dias, meses, anos, até quando nosso próprio Estado resolveu empreender a edificante conquista. E o que era sonho tornara se para logo realidade. Felizmente.
Hoje temos Estradas de Aracajú a Socorro; dali a esta cidade (ótima); desta cidade até Itabaiana, com florescente ramal para Campo do Brito. É graças aos Senhores Esperidião Noronha, José Freire de Lima, Marinho de Oliveira, etc, etc., o mais regularizado serviço de transportes intermunicipais.
Empreendimentos de alta utilidade e (diga-se a verdade) mais patrióticos que remuneradores.
São uns abnegados todos, repetimos. Laboriosos, incansáveis quando no intuito de bem desempenharam-se da árdua tarefa que, graciosamente, quase se propuseram concretizar.
Eis porque nós, que não morreremos de amores pela perigosíssima classe de chauffeurs, eis porque não nos podemos esquivar do reconhecimento de tão verdadeiro, de tão notável prolóquio.
Abramos, pois, tem parêntesis, e rendamos aos referidos empresários e motoreiros, o nosso justo pleito de merecida simpatia e confortadora aprovação.
"Não há regra sem exceção!"
Provável modelo usado por Esperidião Noronha para nos conectar além, preparando para o viria a ser a Capital Nacional do Caminhão.