quarta-feira, 19 de agosto de 2026

UMA HOMENAGEM À NEGRITUDE ITABAIANENSE.

Já houve tempo, não faz muito tempo, que a tradição oral da cidade de Itabaiana era a de que, em Itabaiana nunca houve pretos nem indígenas. 

Mas, lentamente se vai consertando os equívocos.

A solenidade na noite desta quarta-feira, 19, na Câmara Municipal de Itabaiana - 47ª mais antiga casa legislativa brasileira e 2ª sergipana – que concedeu título de cidadania ao poeta, ator e ativista causa negra, Severo José dos Santos, o Severo de Acelino, foi mais um capítulo na imersão em um tema que foi ignorado e esquecido por muito tempo na sociedade itabaianense.

O referido título foi uma proposta do edil João Cândido Sobrinho.

Mesmo que no primeiro Censo feito pelo IBGE, em 1940, a proporção de brancos no município sem mais as áreas ricas em engenhos, tenha se revelado alta, todavia, nos recenseamentos provinciais, anteriores, não era o que ocorria. O último Censo de 2022, guarda-lhe certa semelhança, no que se refere aos pardos.
Documentação ultimamente levantada nos arquivos, contudo, desdiz essa cultura de branquitude quase total. O que é natural, sendo Itabaiana a região mais antiga de Sergipe, ao lado de São Cristóvão e Lagarto; primeira produção pecuária para exportação de carne e couro do Brasil; e também contendo o segundo mais antigo povoado do estado, depois da cidade de São Cristóvão, por, em cujo povoado se abrigar a segunda paróquia na história do mesmo estado.
O desconhecimento, contudo, da incipiente classe alfabetizada, em relação a história do município, até a primeira escola de verdade, o Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, levou muita gente boa a duvidar da “Velha Loba”, como a ela frequentemente se referia o historiador Sebrão Sobrinho.
Os documentos, ora vindos à tona, nestes tempos de informação total – apesar de igual desinformação – tem nos munido de instrumentos para avaliação mais precisa da nossa história.

A cidade de Itabaiana foi fundada na rota dos entradistas, aos sertões de Jeremoabo, em resumo, os populares e odiados capitães do mato, onde o mais notório dele foi Fernão Carrilho. Logo, está ligada ao drama da escravidão desde o seu nascimento. Fugas, quilombos, capturas.

A rotina do capturado era terrivelmente desumana.

O original município de Itabaiana, do rio Cotinguiba ao riacho Cansanção, entre os rios Sergipe e Vaza-Barris, foi, em si, local de vários esconderijos de escravos fugitivos.

Caenda, hoje nos municípios de São Miguel do Aleixo e Ribeirópolis; Ribeira, em Itabaiana; mais tardiamente, Mocambo, em Frei Paulo, são registros precisos de atividade quilombola, contudo, várias localidades dentro da atual do município de Itabaiana, como os povoados Barro Preto, Taboca, e especialmente no Tabuleiro dos Caboclos, este, de possível associação de pretos e índios (caboclo é o termo popular para os miscigenados das duas raças), foram notoriamente ambientes de pequenas concentrações de pretos. De fato, Mocambos. Já que marginalizados, mas forros.

Porém a Itabaiana, além da cidade, originalmente se iniciava no rio Cotinguiba, e numa linha deste ao rio Sergipe, e ao Vaza-Barris, e chegou a ter a maior população escrava, nas décadas de 1860 e 1870. 95% de serras abaixo, nos atuais municípios de Malhador, Santa Rosa de Lima, Riachuelo, Areia Branca, Itaporanga d’Ajuda (margem esquerda do Vaza-Barris) e Campo do Brito.

Extrato do mapa Carta Corográfica de Sergipe, por João Bloem, 1844, quando a fronteira açucareira estava começando a se ampliar na Cotinguiba itabaianense.
E é esse território que gera João Mulungu, herói sergipano da causa negra.
Dentro das serras, nasceu e cresceu outro, que se tornou expoente, nacionalmente, Quintino de Lacerda, major, primeiro vereador negro da História do Brasil, chegando a presidente da Câmara Municipal de Santos-SP, sendo, primeiro protetor de seus irmãos de cor, no quilombo do Jabaquara, em sua propriedade; e também artífice político do fim da escravidão no Brasil.
E a essa presença, é que resume essa homenagem, de fato, a solenidade desta quarta-feira, dia 19, Dia do Historiador, a um expoente da luta, em busca de igualdade daqueles que um dia foi lhes negada até a presença de alma, o Sr. Severo José dos Santos.
Em 1877, já em franca venda de braços itabaianenses para os cafezais paulistas (Quintino de Lacerda foi vendido em 1875), mesmo assim Itabaiana ainda tinha a maior população escrava de Sergipe.

Boas vindas ao novo itabaianense!