terça-feira, 15 de outubro de 2024

PRAGMATISMO E PERSONALISMO

No próximo domingo, dia 20 de outubro, os quatro municípios sergipanos mais antigos do interior – Itabaiana, Lagarto, Santa Luzia do Itanhi e Santo Amaro das Brotas - completarão 327 anos. 

Há exceções, óbvio; mas a História sergipana tem sido tratada como uma diversão de intelectuais a digladiarem-se sobre quem fez mais e melhor, sem duas qualidades fundamentais acerca do bom sucesso de uma ideia: a valorização do árduo trabalho dos predecessores; e a difusão, quanto mais massiva, melhor, dos conteúdos. Sua democratização.

Especificamente, sobre Itabaiana, não se foge à regra estadual. Com o agravante que a História, tida como coisa do passado, inútil, portanto, e num lugar de alfabetização tardia, e muito suor para sobreviver, como o pragmatismo está intrinsecamente associado ao personalismo, esses “detalhes”, quando muito é considerada detalhe; e ínfimo.

Eppur se mouve, como diria Galileu Galilei. Paradoxalmente, é justo de Itabaiana, especialmente na árvore dos Carvalho a inconformidade com esse estado de desprezo pelo passado. A começar por Lima Jr.; bastão mantido em movimento por Sebrão, o sobrinho; e finalmente passado a Vladimir Souza Carvalho.

Contudo, se hoje é desanimador, sem uma política pública de ensino de História local no Fundamental, no passado recente foi bem pior, em todo o Sergipe. Como exemplo, se deve a um cearense – não um sergipano – Acrísio Torres Araújo, a popularização da História de Sergipe, mediante o ensino fundamental. Por sorte, logo a seguir veio a Universidade Federal de Sergipe e consequente florescer inclusivo da intelectualidade e das ciências sociais, dentre as quais, a História.

E eis que uma itabaianense, Maria Thetis Nunes, de espírito pragmático, como comum nos da terra, porém de personalismo atenuado, a partir da recém-nascida UFS, liderou o processo que, ainda em andamento, busca escrever a história de Sergipe como ela é. Feita de pequenos capítulos, parágrafos, incisos e alíneas. Tudo o que compõe o todo; que conecta, vai além do provincianismo de vila contra vila, capital contra interior.

Singelo monumento, de significado quase desconhecido pela esmagadora maioria, inaugurado com solenidade simples demais para o que representa para a identidade itabaianense e até sergipana.

Data desperdiçada

O ano de 1997 transcorria como qualquer um, pós, e pré-eleitoral em Itabaiana. Primeiro ano da segunda administração de Luciano Bispo de Lima, e, à medida que se aproximava o fim do ano, a reexcitação eleitoral para 1998.

Um despretensioso encontro entre aluno – José Taurino Duarte – e sua mestra, a professora Maria Thetis Nunes, em pleno Calçadão da João Pessoa, na capital, daria origem a mais um evento, no sentido de dotar Itabaiana de uma História, com h maiúsculo, conhecida, popular. Realmente engrandecedora e digna de orgulho dos seus filhos.

Como dito, estávamos em 1997. E lembra o professor Taurino, que Thetis o parabenizou pelos 300 anos, três séculos de Emancipação Política de Itabaiana, com a instalação da sua Câmara Municipal; e sugerindo as necessárias medidas para o enaltecimento da data; sua comemoração.

E, no dia 20 de outubro de 1997, uma Câmara de Vereadores, um pouco envergonhada, acompanhada de uma alcaidaria (prefeitura) completamente descompromissada, meramente protocolar, com algumas palavras da boca para fora, inaugurou o monumento simples, engendrado às pressas pelo artista plástico José Valde dos Santos, Val decorador, que felizmente continua no local.

Por não se tratar de uma data faturável politicamente, só não foi completamente ignorada, como o 30 de outubro de 1975, por ter a feliz conjunção de Maria Thetis Nunes com todo peso da sua autoridade acadêmica, a estimular; o encrenqueiro professor Taurino; e na Presidência da Câmara Municipal de Itabaiana, o professor, feito vereador, João Alves dos Santos, popularmente conhecido como João Patola.

A pequeniníssima popularidade ficou como uma excrescência; “coisa de João Patola”. Sequer da Câmara Municipal, segundo seus vereadores, e textualmente citada no texto do decreto, recuperado por Thetis Nunes; muito menos da Prefeitura. Supostamente “nada a ver com isso; só fui pra fazer o favor a João Patola.”

Pessoalmente, “comi capim” nesse assunto por muitos anos, até ser despertado pelo citado acontecimento, via Taurino Duarte, tangido por Thetis Nunes.

No próximo domingo, dia 20 de outubro, os quatro municípios sergipanos mais antigos do interior – Itabaiana, Lagarto, Santa Luzia do Itanhi e Santo Amaro das Brotas - completarão 327 anos. Parece-me que só Santo Amaro das Brotas relembra tal data.

A segunda quinzena de outubro, portanto, tem as duas mais importantes datas na história de Itabaiana: dia 20, sua emancipação de São Cristóvão; e dia 30, data de fundação da cidade, que, realizado com sua paróquia original, 22 anos antes, em 1675, fará 350 anos no próximo, em 2025.

Antecipo, pois, os meus parabéns aos quatro municípios, pais de todos os demais que vieram a seguir, ampliando a grande árvore iniciada por São Cristóvão de Sergipe d’El-Rei.


sábado, 12 de outubro de 2024

ENQUANTO O TRENZINHO NÃO VEM.

 

Caraibeiras floridas, bordam a paisagem de verde e amarelo nacional. ao oitão norte da matriz católica de Nossa Senhora da Conceição, na renovada (reconstruída distante do Velho Chico), velha Canindé do São Francisco.

Comida é pasto. Bebida é água. (Antunes, Fromer e Brito... Titãs)

 

Todo o dia é dia de ser feliz. Mas a vida é constituída de uma fantástica sucessão de pulsos, até o derradeiro, em geral, depois de cumprida a missão de viver.

É necessário bem além de comer, beber, dormir, e os rituais de acasalar. 

É preciso alegrar o coração. E isso se faz produzindo ações, a que chamamos de festa, não importa a natureza, ou o tamanho.

Na última quarta-feira, em viagem ao sertão, até Canindé do São Francisco, fui colhendo as impressões que as viagens sem compromisso extremado nos trazem.

Em primeiro, o espetáculo da primavera sertaneja, com centenas de caraibeiras floridas, num rico ostentoso amarelo-ouro, contrastando, ora com o verde que ainda resta; ora com o ocre da vegetação já seca, de qualquer modo, enchendo os olhos de beleza, e transbordando paz e harmonia no coração.

Campos de milho seco, esperando a colheita, a perder de vistas; tratores gradeadores e colheitadeiras nas estradas atualmente substituem a multidão dos outrora catadores nos campos de algodão, que repovoaram os sertões secos.

Mas também os aspectos puramente humanos.

Cidades e povoações, outrora acanhadas e sem futuro, hoje com conexão a centros maiores, com todos os serviços básicos, e sem ainda os incômodos das cidades grandes. Uma vivacidade contagiante.

Ao passar pela dinâmica "Capital do Leite", Nossa Senhora da Glória, dei de cara com um "trenzinho" sob rodas, naturalmente, transportando festivos escolares, numa antecipação ao dia de hoje, 12, Dia das Crianças.

Ontem, e aqui em Itabaiana, a "Capital Nacional do Caminhão", "Capital Sergipana do Futebol", entre outros rótulos, tão comuns e necessários aos povos de todo lugar, de minha casa, ouvi mais trenzinhos, como aquele da quarta-feira, em Nossa Senhora da Glória.

Lá se vão cerca de três décadas que essa modalidade de comemoração apareceu por aqui. 

E, pensando sempre num futuro mais auspicioso, mais uma vez eu sonho com o dia que também teremos um roteiro turístico, realmente interessante. E um trenzinho, com visão obviamente panorâmica, a transportar nossos visitantes, a mostrar nossos pontos históricos, pitorescos e outras atratividades.

Mais longe já teve.

Barco pra frente!

domingo, 6 de outubro de 2024

NADA DE NOVO SOB O SOL: VALMIR CONFIRMA FAVORITISMO.

 

Às 19h05min, há pouco, a Justiça Eleitoral bateu o martelo: apurada a votação para prefeito e vereadores de Itabaiana nestas eleições de 2024; a liderança de Valmir dos Santos Costa, mais uma vez se confirma, com a excelente votação de 35.897 votos, 58,61% dos mais de 65 mil votos sufragados nas urnas neste domingo, 6 de outubro de 2024. Não chegou aos 66% da sua reeleição, de 2016; mas com folga de quase isso, numa campanha, que, sejamos sinceros, nem foi tão quente quanto aquela. 

Somados aos oito anos de sua própria administração – 2013-2020 – e mais os quatro da atual administração do seu fiel escudeiro, Adailton Rezende Souza, perfará 16 anos, em 2028. Quase uma geração.


Renovação de quase metade da Câmara.

Atualmente a bancada da tricentenária Câmara Municipal de Itabaiana é composta por 14 vereadores. Destes, 9 vereadores foram reeleitos: Alex Henrique (3.375 votos); Joãozinho do Lagamar (3.107); Breno Gois (de Vardo da Loteca) (2.572); Waguinha de Leitoa (2.207); Vaguinho de Vado (1.920); Moisés de Aciole (1.724); Ivony Andrade (1.573); Anderson de Tonho de Capitulino (1.537); Roosevelt Santana (993). 

Os cinco não reeleitos ficam na suplência: a vereadora Paulinha da Saúde, muito bem votada (1.714 votos), mas desfavorecida pelo quociente eleitoral; o vereador Sinvaldo Cabeça de Porco, na mesma situação (1.233); o vereador David de Nem de Tonho de Glória (1.205); o vereador João Cândido (934); e vereador Zomas (928), atuais ocupantes.  Destes cinco, os três primeiros têm forte chances de assumir, a depender do jogo político. Porém, depende muito dos novos: Cristina Santos (esposa do veterano João Patola) (1.648); Amâncio do Hospital (1.543); Jabá da União (1.532); Katiane de Verso (1.393); Edivaldo da Big Estampa (1.338); Rodrigues do Bairro da Torre (983) e Douglas de Heleno de Aciole (786). 

Continuando a fila dos suplentes, o atual vereador Paulo Messias, o Escovinha (612), dificilmente assumirá; como também o suplente atual, Claudenilson Souza (794). Ainda consta dela os ex-vereadores Fabinho do Abrigo (706), Zé Roberto Imperador (435); Josivaldo Reis (eventos) (420); e Paulo de Mendonça (335). Além de extenso rosário de outros concorrentes.

O ex-secretário municipal, Erotildes de Jesus (1.223), a depender dos acordos pré e pós eleições, tem chances de vir a emplacar uma suplência.

A próxima Legislatura municipal, que hoje se compões de 14 vereadores, atingirá as 17 vagas que existiam antes de começar a judicialização da política e consequentes desastres institucionais.


sexta-feira, 27 de setembro de 2024

DE RITUAIS

 

Bem, às 9h44min, da manhã do último domingo, o sol cruzou a linha do Equador em direção ao sul. Pelos próximos 182 dias e algumas horas, ele estará nos trazendo mais luz a calor, até cruzar o mesmo equador, de volta pro norte, como tem feito, todos os anos, há alguns bilhões deles.

Bem, mas nesse sábado, 28, e neste ano, marca também o início da reta final nas corridas eleitorais municipais em todo o Brasil.

É bem verdade que nalguns, com o instituto do segundo turno, esse período, para o eleitor, e para uns poucos candidatos se prolongará um pouco mais; porém, via de regra, é outro certame; e este termina no primeiro domingo de outubro, dia seis.

Pela experiência acumulada por vinte anos, em viver eleições – e acho que a essência em nada mudou – essa é a semana mais nervosa da corrida eleitoral.

E é quando o eleitor pidão mais explora o seu candidato, ou seus candidatos; é quando as traições começam a se materializarem; quando as promessas saem do nível do ridículo, para o modo estapafúrdio; compras de votos, ou rumores delas, crescem exponencialmente a cada dia; acusações, embasadas ou forjadas, puro aleive... enfim: o civilizado se desnuda, assumindo a fera que jaz dormindo dentro de si na maior parte do tempo.

É quando começa a ficar patente para a grande maioria que não vai dar; a corrida está perdida.

Inicialmente, um calafrio; dado à reação dos eleitores a erros, muitas vezes tolos, e as más notícias; depois a constatação que os demais competidores, cada vez mais abrem vantagem sobre nós.

Em geral, toda campanha política tem aquele momento assenta a poeira; um hiato. Quando as forças postas em ação no início parecem arrefecerem diante do cansaço natural. E, em geral, com maior ou menor intensidade isso ocorre na passagem para a quinzena, e especialmente a semana final.

A política é o funil do comportamento da sociedade. Uma radiografia precisa de como ela é.

E essa semana, a partir desse sábado, é o funil; quando tudo se concentra, com descarte daqueles candidatos que ficarão para trás, em benefícios dos que serão aprovados.

Particularmente, desejo boa sorte a todos.

E aguardemos mais uma festa democrática no dia seis de outubro.

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

O PREÇO DE UMA ELEIÇÃO.

“Se você é um candidato, não deve proporcionar refeições às pessoas para incentivá-las a votar em você. E, se o oferecer por outros motivos, elas não devem passar de nove pessoas.”

(Posturas eleitorais romanas, nos milhares de municípios do Império, por nos séculos I a III da Era Cristã)

Herdeira do maior e mais bem sucedido império que a humanidade já vira, Roma também a era, do duro aprendizado da sociedade humana, desde os sumérios e egípcios, de quatro mil anos antes, aos persas, gregos, fenícios, judeus e cartagineses, contemporâneos, ou por Roma absorvidos.

E, como não era um governo absolutista, Roma se baseou na lei para todos. E, óbvio, para segurar os avançadinhos nas disputas eleitorais.

Ora estamos em mais um certame eleitoral, que deverá, para pior ou para a melhor, escolher aqueles que nos regerão pelos próximos quatro anos. Desde o alcaide, sucessores do primeiro, João da Costa Feyo, e modernamente chamado prefeito; aos velhos componentes dos conselhos municipais, na Grécia antiga, ou sofisticado por Roma - os vereadores - de quem nunca soubemos os nomes dos primeiros de Itabaiana, em 1697.

Nestes tempos de internete, com tudo acelerado e facilitado, desapareceram as bandinhas de música, usadas massivamente, e pela última vez, por José Queiroz da Costa, quando candidato a prefeito em 1992, hoje substituídas integralmente por espalhafatos e abusivos paredões, levemente contidos pelo Judiciário e suas ameaças pecuniárias de até dezenas de milhares de Reais. E só assim funciona. Mexendo no bolso.

Outro recurso propagandístico, a distribuição de “santinhos”, anda bem tímida; e me parece que desestimulada.

Neste ano eu resolvi, à medida do possível, colecionar “santinhos”.

De uma ala, até o momento só consegui dezenove exemplares; da outra, nem isso. Aliás, muito menos que isso. Ou é marcação com o bairro em que resido, ou é modicidade mesmo; uma vez que a onda agora são as redes sociais; que, como ondas de rádio, postou, logo acabou. Todavia, como agora tudo é super rápido, são as elas os espaços da vez.

Outra coisa que me chama a atenção é o clima de descompromisso dos distribuidores de tais materiais.

Em eleição dá de tudo.

Alguém me soprou ao ouvido, alguns anos atrás, que um conhecido político tinha muitos filhos, frutos de campanha. E não é que o danado me confessou, pessoalmente, que, incialmente foi uma estratégia para ganhar votos? 

Foi numa época em que ainda imperava os controles familiares (todos votavam em quem o cabeça mandava), e as famílias costumavam serem imensas, e ainda por cima a votação que elegeria um vereador ficava na casa das duas centenas de votos para menos. O controle de quatro famílias, mediante entrada, mesmo que discutível, nelas, já garantia metade da votação.

Hoje, com famílias atomizadas, reduzidas e incontroláveis, os meios são outros.

Mas a contratação de uma multidão para trabalhar na campanha, ainda supostamente renderá alguns votos. Além, claro, de mostrar força e viabilidade do candidato. 

Talvez. A julgar pela empolgação dos distribuidores de “santinhos”.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

A ERA DA FALSIDADE

 “...com aquele sorriso, falso igual a beijo de rapariga”

(Jersier Quirino, O Barbeiro)

Os líderes buscavam serem confiáveis. Darem segurança. Os pretensos de hoje... abrem os dentes.
Desde 1978, que guardo na mente os versos do trabalho de Ednardo, em Receita da Felicidade, publicado no LP, O Azul e Encarnado, pela RCA Vitor, em 1977, logo após o estrondoso sucesso de Pavão Misterioso, esta, trilha da novela Saramandaia, da Rede Globo, proibida pela Censura da Ditadura, no Governo Geisel, única vez na vida que o governo brasileiro governou em plenitude, peitando inclusive a Rede Globo, poderoso instrumento de dominação “softpower” do Departamento de Estado americano, no Brasil, obviamente.
A música do Ednardo é uma crítica à manipulação publicitária, com o uso (abuso?) de crianças.
E, de falsidade em falsidade, chegamos aos candidatos do certame eleitoral atual. Os das últimas três décadas, especialmente. E seus sorrisos.
Ao se posicionar à frente de uma câmera para uma foto, quase sempre com o ponteiro do ‘vaidômetro’ batendo no limite, contudo, para uma campanha eleitoral o cidadão ou cidadã buscava passar a imagem de pessoa séria, compromissada, um ou uma líder de verdade. Depois que todos se convenceram que a política, o governo e até o Estado, são circos, todo mundo virou estrela de circo. No pior sentido, por favor. Seja o tradicional, seja o mais moderno, conhecido como influencer, influenciadores, na língua que ainda é a do Brasil.
Nada daquela seriedade, de quem, compenetrados, os candidatos entendiam a importância, o alcance e peso de carregar sobre as costas a responsabilidade de guiar os destinos do seu grupo, do seu município, estado ou federação deles. 
Todo mundo tem de abrir os dentes, fechando corações e mentes, ao progresso da civilização. 
O espetáculo deprimente que assistimos nesta semana entre dois palhaços, no pior sentido (um vindo do show de horrores dos programas policiais, o outro, um influenciador de internet), gerado por esse sistema perverso, espetáculo tido pela maioria como natural, é o coroar do fim da civilidade. Queira Deus que passageira.
Porém, a constatação é óbvia: o ‘deep power’* (poder profundo), desgraçou, matou a mística de todos os líderes políticos. E a nossa geração lhe seguiu, foi por ele conduzida, abrindo caminho aos tiranóides. Os minimamente controláveis, tipo Collor e Bolsonaro, que até presidentes já foram; e Pablo Marçal, que, temo, sê-lo-á, em breve.
E quase nada tem para se colocar no lugar.

*corruptela de 'softpower', anglicismo, hoje generalizado no jornalismo brasileiro, que nunca foi tão colonial quanto hoje.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

FETICHES

 

Dr. Gileno já chegou?

Essa era a pergunta de aflitos ou bem informados, antenados cidadãos itabaianenses, na década de ouro de Itabaiana, a de 1950, quando a cidade, adormecida desde 1675, acordou para um novo tempo, em cujo estamos. A pergunta era pertinente às sessões de cinema no Cine Popular, e especialmente no aguardo dos glamourosos bailes da Associação Atlética de Itabaiana, que pra variar, foi ideia de Dr. Gileno Almeida Costa, e cuja sede por mais de vinte anos funcionou em seu próprio prédio, por ele construído, com essa finalidade, no canto esquerdo da Praça Fausto Cardoso, antiga saída da minúscula cidade (quando ainda com o título de vila), no seu lado oeste.

Só começavam quando Dr. Gileno chegasse.

Transformava-se num fetiche, pois, as reclamações supostamente preocupadas com os atrasos do ilustre doutor, de fato eram uma mera forma de parecer ter com ele alguma intimidade. Algo com que se identificar. 

Corte rápido, leio um artigo escrito por um colonial, sobre a eleição presidencial na metrópole, e as costumeiras preocupações, se quem vai ganhar é democrata ou republicano. De lá. Meio Mestre Orpílio*, dele tomo emprestado a acidez e vou logo declarando, apesar de não ser alfaiate, como o saudoso delegado, comerciante e político que o foi: “Do Rio das Pedras pra lá nunca virá ninguém cá me encomendar um terno”. Afirmava ele, assim que algum deslumbrado com o estrangeiro lhe vinha contar alguma vantagem de fora, e especialmente quando lhe vieram dizer da declaração de guerra, de 1939.

Pois bem. Mas observa-se na crônica, dita nacional, uma preocupação intestina com o que ocorre na política estadounidense. 

A imprensa, dita nacional – a grande; e a pequena de reboque – parece até panfleto imperial. 

E os debates políticos na TV americana, entre candidatos, virou um fetiche, entre os coloniais desta Terra de Santa Cruz, a quem chamam Brasil.

A influência de debates em si, que numa eleição não chega aos cinco por cento, se grande a indecisão, passou a ter uma grande dimensão, apregoada pelas próprias grandes empresas de mídia que os realiza, garantindo casa cheia na audiência. Porém para o eleitorado mesmo, quem já está, fica; e quem nunca esteve, vai continuar onde está.

Porém o poder da imprensa - de lá, e copiada pela de cá -  criou esse fetiche, maximizado e alimentado por ela própria, ao ponto de pessoas simples, e envolvidas na paixão eleitoral, creditarem a tais debates uma possível vitória ou derrota. Quase milagre.

Lembro-me de um episódio com o grande craque tricolor Amaúte, em 1992. 

Vivíamos a campanha eleitoral para os cargos municipais de 1992, com uma estreante na refrega direta, Maria Vieira de Mendonça; um já escolado José Queiroz da Costa; o novato João Cândido Sobrinho e o também neófito João Alves dos Santos, o João de Zé de Dona.

Maria de Mendonça, herdeira de um formidável capital eleitoral, subscrito pelo seu saudoso pai, Francisco Teles de Mendonça, o Chico de Miguel, tinha tudo para emplacar e retornar o seu grupo ao comando da Prefeitura.

José Queiroz da Costa, com o saudoso Djalma Lobo de vice, sua chapa era tida como imbatível. No entanto era duvidoso por parte gente mais abalizada.

João Cândido, pelo PT não tinha chance alguma. E João de Zé de Dona, inicialmente uma aposta dos lucianistas contra José Queiroz, e obviamente contra Maria Mendonça, a princípio era uma incógnita; e se segurava apenas na rejeição dos lucianistas conta Queiroz. Mas isso foi por breves tempos. Antes mesmo da convenção, Luciano Bispo de Lima, então prefeito, já tinha fechado com João de Zé de Dona.

E aí vem o lenga-lenga de toda eleição: ameaça de impugnação, mentiras, aleives... até denúncia séria. E a história dos debates.

O município contava então com três emissoras de rádio, em véspera da quarta.

Queiroz, além da Rádio Princesa da Serra ser dele, é conhecido por todos pela excelente oratória, loquacidade exemplar, raciocínio rápido, humor, apego moderado, logo suficiente, à numeralha; aos dados. Imbatível numa discussão.

Maria de Mendonça, fatalmente, num primeiro momento se juntaria a Queiroz para fustigar João de Zé de Dona, este representando o prefeito; logo com passivo a ser explorado, e sem a menor experiência em receber pressão política.

João Cândido, professor, politicamente ainda inexperiente, tenderia a participar protocolarmente.

Como responsável pelo marketing da campanha, fui radicalmente contra o tal debate proposto. 

A indecisão do eleitorado, pró-João de Zé de Dona, vinha decrescendo a olhos vistos. Um escorregão desnecessário, estagnaria o candidato, com isso beneficiando diretamente Maria, ainda com formidável e fidelíssimo eleitorado.

Minha opinião foi levada em conta, e no dia do debate, o assunto maior foi o candidato ausente. Que mais ganhou com isso: João Alves dos Santos, o de Zé de Dona.

Embalado pela torcida pessoal por Queiroz; uma questão de gratidão, ressalte-se uma nobreza de caráter; e pelo fetiche que representa para muitos a palavra debate, o ex-craque e meu amigo Amaúte profetizou: João de Zé de Dona já era. Perdeu o “combate”.  

De tão entusiasmado, errou a palavra; falou combate, ao invés de debate, o que arrancou risos gerais dos colegas e amigos. Que foi ganho justo por quem não compareceu.

João Alves dos Santos, João de Zé de Dona, foi empossado na vetusta alcaidaria municipal - prefeitura desde 1935 - em 1º de janeiro de 1993, deixando o cargo em 31 de dezembro de 1996.