segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Mudanças no horizonte.


Não se trata de mudanças abruptas, nem perempção das antigas num estalar de dedos, não; é um processo natural que vem ocorrendo desde pelo menos uma década e meia: a entrada de novas lideranças políticas no cenário itabaianense e o processo de desgaste e lento ocaso das existentes.
A família Teles de Mendonça é a primeira na história de Itabaiana em que o chefe da família faz sucessores, que vão além do seu desaparecimento. Francisco Teles de Mendonça, o Chico de Miguel, faleceu em 2007, e, desde então, sua filha Maria Vieira Mendonça foi eleita e reeleita deputada estadual, retornando à Assembleia Legislativa onde já estivera desde que o seu pai dali se desligou, em 1990. O mesmo parece estar sendo difícil ao ex-prefeito e atual deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa, Luciano Bispo de Lima que ontem viu seu irmão e braço direito, Roberto Bispo de Lima amargar a maior derrota proporcional de toda a história eleitoral de Itabaiana. Todavia, ambos têm algo em comum: suas prováveis sucessões.
Na primeira metade da década de 1980, a então diretora do Colégio Estadual Murilo Braga, Maria Vieira Mendonça não mediu esforços no sentido de estimular um garotão meio tímido, meio avançado, e muito esperto, filho de um eleitor tradicional à liderança estudantil dentro daquela instituição. Dali já surgira alguns líderes efêmeros, como foi o caso do jovem emedebista Pedro Germano de Oliveira, o popular Pedro Langanho, depois o professor João Alves dos Santos, o João Patola, e o aluno e também liderança popular, José Wilson da Cunha, o Gia. Valmir dos Santos Costa, o nome do garoto prodígio de Maria Mendonça, que se manteve amadurecendo dentro do Murilo Braga, mesmo bem depois da saída de Maria Mendonça em 1984, não fez feio: em 1988, na eleição em que seu grupo perdeu um controle político de 40 anos sobre o município, Valmir foi eleito com uma das melhores votações para a Câmara de Vereadores, tornando-se ali um dos mais jovens a chegar àquela casa. Em 1996, sacrificou a reeleição pro seu mandato líquido e certo ao formar com sua vice-prefeita eleita no último dois de outubro, Maria do Carmo Mendonça Andrade. Coincidentemente, os dois, com papeis invertidos, ela candidata a prefeita, ele a vice, tomaram a então maior goleada de votos numa eleição em Itabaiana, aplicada pelo candidato que então retornava, Luciano Bispo de Lima. Em 2000 Valmir retornou á Câmara de Vereadores; novamente em 2.004, 2.008 e, em 2.012, surpreendentemente, Valmir foi candidato e eleito prefeito de Itabaiana, rompendo uma tradição de que vereadores com mais de um mandato, jamais foram eleitos prefeitos, e até no tempo da Intendência, poucos foram os intendentes que à ela chegaram, contando com mais de uma legislatura na Câmara Municipal.
Há dez anos, numa virada histórica, a deputada Maria Vieira Mendonça venceu o pleito para a prefeitura municipal de Itabaiana, uma eleição histórica porque, além de quebrar a sucessão de vitórias obtidas pela ala de Luciano Bispo desde 1988, ela foi a primeira mulher a sentar na cadeira de João da Costa Feyo, o primeiro alcaide do então novíssimo município de Itabaiana, instalado três anos antes, mas que só teve seu administrador nomeado por Lisboa em 16 de junho de 1700. A eleição de Maria recuperou a autoestima dos chiquistas, em frangalhos desde 1988, e principalmente com as sucessivas derrotas impostas pela máquina lucianista da década de 90. No teatro político, muitos dos chiquistas históricos, por si, ou por seus filhos e até netos, mas também vieram personagens que não se apresentaram antes com tanta veemência, dois deles essenciais para a virada num momento completamente atípico, já que além da máquina lucianista continuar como dantes, o mesmo estava num segundo mandato de prefeito, de posse da máquina municipal, e aliadíssimo ao governador de Estado da época, o atual prefeito de Aracaju e não reeleito, nesse último dia dois, João Alves Filho, e que foi o período em que a arrogância do lucianismo chegou à estratosfera. Seus nomes? Edvan Amorim (à esq. e à dir., fotos centrais), ex-genro do mesmo João Alves Filho e já transformado em potência política no estado de Sergipe, e José Mota, o Nem de Tonho de Glória (à esq., e de camisa vermelha, foto maior).
Terminada a eleição de 2004, Nem foi deixado de lado e isso foi suficiente para se aproximar de Luciano Bispo, participando da virada de 2008, com o próprio Luciano Bispo de candidato cabeça. Mais desentendimentos, agora com Luciano Bispo, e Nem retorna ao centro chiquista, agora para a eleição contra a nova reeleição de Luciano (iria pro quinto mandato), na mesma formação de 2004, em 2012. Nova vitória. Valmir vitorioso (vide a foto maior, de ambos) e Nem emplacou seu primeiro membro da própria família na política: seu filho John David Torres Mota, eleito vereador, que, obviamente, já foi direto para a Mesa Diretora onde ainda se encontra até o próximo dia 31 de dezembro, quando se encerrará o seu mandato, e obviamente seu cargo de secretário da Mesa Diretora da 47ª mais antiga casa legislativa do país. 
A candidatura de David a vice prefeito na chapa de Roberto Bispo guarda dois aspectos importantes na política itabaianense. O primeiro é que seu pai, Nem, não entrou na política desde 2004 para brincar: a coisa é pra valer! O segundo é que seu posicionamento agora, não mais como vereador, mas como vice, traz uma sinalização mais que óbvia e comum a praticamente todos os candidatos a vice que é o fato de serem os financiadores-mores das campanhas. Em Itabaiana, desde que foi instituído o cargo de vice, nas eleições de 1966, e levando em conta somente os eleitos, houve os casos de Josias Nunes, João de Deus Souza (chapa puro sangue com João Germano da Trindade, de cabeça), Luiz Carlos Andrade, José Araújo Tavares e, eleita ontem, Carminha Mendonça só. Nestes casos, os candidatos a vice entraram apenas com o nome ou serviços pessoais, como o caso do militante João de Deus ou do médico Luiz Carlos. Todos os demais entraram com algo a mais.

Depois de 1º de janeiro de 2017

A cena da foto maior, provavelmente, jamais se repetirá.
Valmir dos Santos Costa, o Valmir de Francisquinho, com a esmagadora vitória de ontem, dia 02 deste outubro do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2016, consolida algo que estava preocupante: um sucessor de Chico de Miguel, em definitivo, que não somente se reafirma como o cimento entre os dois irmãos, José e Maria Mendonça, nenhum dos dois até agora assumindo essa importante função. Uma transição de poder mais que harmoniosa, ressalve-se, e, se for sábio, daqui a dois anos deixará a batuta para que Carminha Mendonça termine o mandato, elegendo-se folgadamente a deputado estadual. Para isso, claro, terá que haver grande negociação com a deputada Maria Mendonça e seu irmão, José Teles de Mendonça, este com três mandatos de estadual e três de federal, mas que poderá propugnar pelo retorno ao exercício de cargos eletivos. Também Valmir pode pensar no plano federal. De qualquer modo, a sobrevivência do esplendor eleitoral que se viu ontem, dois de outubro, depende desse xadrez; e a sobrevivência da liderança de Valmir, depende de seu desapego ao cargo de prefeito, visão que faltou a Luciano Bispo já em 2002, e seu ingresso em esfera maior de poder. Aqui também depende das arrumações dos irmãos Edvan e Eduardo Amorim, obviamente, que têm sido um esteio dessa retomada do velho udenismo-chiquismo.
Quanto ao José Mota, o Nem, sai dessa eleição também com liderança política consolidada, mesmo seu filho tendo perdido a chance de ser vice-prefeito. É o que se chama por aqui a “terceira força”, que de fato não existe. Aqui só existe lugar para o primeiro e o obrigatório segundo; logo a situação é mais complicada. Vai ter de lutar objetivando o primeiro pra no mínimo ficar em segundo, como tem sido na história política itabaianense. Uma espécie de penetra, que todos querem como apoio na eleição, mas dele têm medo no pós esta, dificilmente se ajeitará nas hostes lucianistas, cujo líder, Luciano Bispo, sai dessa eleição chamuscado, mas não torrado; imprestável. Além do cacife mínimo de uma oposição em Itabaiana, com um capital seguro de 35 por cento dos votos, pouco importando os nomes postos, conta com a máquina do Governo do Estado, emperrada, quase parando, mas... máquina.
O xadrez da política itabaianense, doravante, será jogado, máxime, pelos três personagens: Valmir, escudado por Maria Mendonça, José Teles(último foto à direita) e Edvan Amorim; Luciano Bispo, (última foto à esquerda) escudado pelo atual governador Jackson Barreto de Lima; e José Mota, o Nem de Tonho de Glória, que por hora é sozinho. 
A conferir, num futuro próximo, quando vierem as eleições gerais de 2018.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Hoje, 25 de agosto, é dia do feirante.







É uma data que não podia passar em branco em Itabaiana! De modo algum.
Infelizmente, acho que pouca gente se lembra. Além de ter sido escola de noventa por cento do nosso empresariado: do pequeno lojista aos maiores varejistas do país como os irmãos Mamede e Pedro Paes Mendonça, Gentil e Noel Barbosa. Foi na feira, pois, que nasceram três das maiores redes varejistas do país ao fim do século passado, com DNA itabaianense: Paes Mendonça e Bom Preço do povoado Serra do Machado, hoje no município filho de Ribeirópolis; e G. Barbosa da região de Candeias, hoje no município filho de Moita Bonita, pelas mãos destes. Mesmo tendo começado no balcão do tio, Antônio Dultra de Almeida, mas foi na feira que Oviedo Teixeira teve seu batismo de fogo. Foram as feiras espontâneas de a partir do fim do século XVIII, como a do sítio Laranjeiras, hoje já uma cidade histórica, que serviu de local de ganhar dinheiro para a montanha de agricultores pobres da então grande Itabaiana que englobava os outros 15 municípios dela gerados.
O comércio era uma atividade menosprezada, estigmatizada e até combatida, a depender da época, lugar e status social prévio de seu praticante. Era nobre e abençoado por Deus ter uma montanha de escravos animalizados e sob a chibata a produzir a riqueza para tão poucos; mas era feio, desprezível, asqueroso, criminoso até, se ganhar dinheiro honestamente numa intrincada negociação onde se tem de fazer das tripas coração para convencer o cliente a pagar pelo que pedimos. Uma arte em todo o seu esplendor. Assim nasceu o comércio de feira em Sergipe, como de resto em todo o Brasil. Com o tempo, nichos comerciais “com privilégios reais”, como o das carnes, farinha, tabaco e outras drogas, enfim, material de guerra ou de primeira necessidade passaram a ser tolerados; em que pese monitorados para que marginalizados como judeus, ciganos e povão em geral nele não tivessem acesso. Mas feirantes sempre foram marginalizados por estarem fora desses controles. Foi daí, contudo, que a economia se desenvolveu. No estado de Sergipe constam duas feiras criadas oficialmente, até a República: São Cristóvão, então capital, em 05 de julho de 1835; e Aracaju, vinte anos depois quando surgiu a nova capital. Em todas elas, incluindo as espontâneas estavam itabaianenses. Em algumas, suspeitosamente tendo sido seus criadores como apontam as evidências sobre o caso de Laranjeiras e Riachuelo.
Parabéns aos feirantes nas pessoas dos amigos comerciantes que nas feiras fizeram seus cursos... tiveram ali suas faculdades de economia.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Analogias.

Pasmo aqui com mais um ato de desmanche do país promovido pela sua “elite”, ora de muita visibilidade na justiça e na indústria de opinião, com a prisão de um ícone da Defesa Pátria, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, voltou-me à mente certos devaneios que nunca me deixam.
Fugindo dos temíveis assírios, os fenícios fundaram o império cartaginês; como a Fenícia, um estado fundeado na negociação, onde a guerra sempre foi o último recurso, até mesmo porque o nacionalismo cartaginês não passou de apegos individualistas de cada um a seus lucros.
Fugindo da traição dos gregos que lhes incendiaram a cidade, por onde extorquia todos que ali passassem, gregos inclusive, os deserdados de Troia construíram Roma. Que se tornou o mais longevo, o maior, o mais forte e poderoso Estado até existente. Os romanos inovaram, criando a inclusão social e a divisão de poder, cujos espasmos de tensão eram dissipados derramando sangue alheio em terras distantes, pela glória do Senatus Populus Que Romanus, que ainda hoje é o espírito de Roma, camuflado nos dois estados que por ali subsistem e coexistem.
E eis que chegou a hora da verdade: Roma e Cartago, como era de se esperar bateram de frente. E a Roma republicana, calcada na agricultura, comércio e guerra arrasou para sempre com a Cartago individualista, sem nacionalismo íntegro, calcada no comércio tendo a agricultura como mero suporte a este, e nada de guerra.
Pano rápido!
Fugindo da exponencial máquina de guerra de Castela, financiada com o dinheiro dos latrocínios a judeus, quase sempre queimados, os portugueses, que em 1249 chegaram ao máximo que queriam em termos de território, com a conquista do Algarve, ao também se verem ameaçados tal qual os reinos menores da península que Castela os engoliu, repetiram os fenícios e puseram o pé na estrada. Aliás, nas águas. Os fenícios haviam se notabilizado por serem marinheiros do mar azul, ou seja, alto mar, porém quase restrito ao Mediterrâneo; os portugueses levaram isso a capricho conquistando-os a todos. E, meio sem querer vieram aportar no Brasil. Como os fenícios trouxeram com eles os judeus de Salomão, dois mil anos depois. Aqui foi fundado um país que até hoje não tem certeza de sê-lo. A elite é de espírito puramente colonial, mais desobrigada com o país que aqueles egoístas comerciantes cartagineses, e o povo a inveja e sonha ser exatamente como ela. Neste meio, alguns Aníbal Barca da vida se levantam de vez em quando e, conquanto sequer ouse desafiar Roma, muito menos a afligir como o fez o grande geral de Cartago, leva o Império que, como todo Império é zeloso pelo seu poder a sempre estar de olho, e agir com todas as armas que possui contra “os perturbadores da ordem”.
Fugindo da extorsão de senhores feudais, aliado a cerceamento de liberdades, dentre as quais as religiosas, comunidades paupérrimas das ilhas britânicas atravessaram o Atlântico pra fundarem um país diferente; romper com o passado, tal qual aqueles troianos expulsos pelos gregos. E fundaram o maior império de todos os tempos, superando Roma em todos os quesitos, inclusive na matança de estrangeiros em terras estrangeiras, além do cultivo de certos esportes que diria, cruéis. Recriaram a inclusão conforme Roma: “cresça e apareça!”, recriaram a democracia, mais para os moldes gregos, com cidadãos plenos e escravos sem plenitude, e criaram uma máquina de guerra assustadora porque capaz de eliminar boa parte da vida na Terra. Sistema político tão instável quanto o romano, tem necessidade imperiosa de estar em guerra pra desviar os focos domésticos de tensão, e nos últimos cento e cinquenta anos, poucas vezes não esteve em Estado de Guerra.
E eis que me vi certa noite, uns cinco ou seis anos atrás tomado de súbito pavor. E se o país, a despeito de sua trevosa elite chegasse ao estágio de potência? Como se comportaria “Roma”? Queimaria Cartago novamente, salgando-lhe simbolicamente o solo? Deportaria-nos como escravos para longínquas províncias? A Índia, mais uma vez, não interessa à “Roma” dominá-la; pelo mesmo modo também a China, e a questão com a Rússia mais parece ser uma birra dos comerciantes judeus, máxime de certa tribo adotiva do que propriamente uma necessidade de “Roma” como um todo. Mas “Cartago” e sua elite hiperindividualista, em larga parte canalha, já tornada colônia há tempos, a essa é imperdoável qualquer naco de insurreição. Como se comportaria “Roma” ao saber-nos dotados de relativa e real capacidade de defesa? Como se sentiria vendo-nos encaminharmos para quinta, quarta, talvez até terceira potência mundial?
Minha solidariedade ao almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva por não ser mais um rato.
Eu não suporto ratos!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

E o Dragão do Mar reapareceu

Consegui! Terminei de ler mais um livro da pequena lista de 45, ou melhor de agora 44, de relativa obrigatoriedade de leitura que até aqui tenho. Ou porque, além do conteúdo, a mim doados por pessoas de minha profunda atenção, ou porque, mesmo não tendo essa origem, uma necessidade na minha busca por entender a vida, que somente se bem faz analisando a História em toda a sua grandeza. No caso em particular, tudo junto.
O livro em questão é TODO O LEME A BOMBORDO, com subtítulo MARINHEIROS E DITADURA CIVIL-MILITAR NO BRASIL. DA REBELIÃO DE 1964 À ANISTIA. Um grande trabalho em monografia do amigo e confrade, professor Anderson da Silva Almeida, transposto para um livro pelo projeto do Arquivo Nacional, intitulado Prêmio de Pesquisas Memórias Reveladas, um belo passeio por um tema geralmente tratado superficialmente dado a pouca importância do mesmo pelos que decidem a nação.
Uma descrição detalhada e centrada naqueles que chegam a ser acusados de provocadores do Golpe de 1964, conquanto não avance na temática da geopolítica, à qual o marcante acontecimento está ligado, traz, contudo nas entrelinhas ou explicitamente toda a dramaticidade de um momento que ficou para sempre na construção desta nossa nação. Um passeio na História. Desde a revelação de um Brizola como um líder revolucionário, a momentos cândidos de um pranto sincero de uma figura doce e tão gentil como a atriz Bete Mendes, então deputada federal, e uma das vítimas do Regime de 64, engajada na luta que se seguiu à Abertura por reparação às violências sofridas por um monte de injustiçados pela Anistia.  Também um belo momento, dignificante, quando ele traz o relato de gente como o grande Mario Lago se cotizando para levantar fundos no sentido de ajudar aos buscadores de justiça e lhes financiar custosas viagens.
O Brasil profundo aqui aparece com a revelação de homens submetidos aos ditames da caserna, às procelas da vida no mar e em terra, mesmo sendo inconscientes herdeiros das vicissitudes pelas quais passaram centenas de milhares deles que os antecederam, desde que a então poderosa frota portuguesa aportou por estas praias. O Anderson não vai até os dramáticos recrutamentos de portugueses pobres para Real Marinha, e, séculos depois, de índios e marginalizados em geral, aprisionados para o serviço nas galés; mas deixa bastante claro que a maioria daqueles que foram punidos em 1964 “por terem se deixado induzir numa manobra política” (minha visão pessoal) em participar, nos dramáticos acontecimentos daquele ano, de fato estavam fugindo da fome e da miséria; da falta de perspectivas. As evidências pra mim são claríssimas que a sobrevivência da nossa Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, máxime é devido à facilidade de engajamento numa das duas forças militares até meados do século passado, Marinha ou Exército (no mínimo Polícia) para os que detinham o conhecimento musical, como se observa no caso do grande Luiz Americano Rego, um ícone da Música Popular Brasileira. A Marinha, pois, era um modo de fugir de um mundo predestinado à miséria. A Marinha era, pois, uma forma de inclusão social. Apesar de ser altamente classicista, com uma divisão muito bem nítida entre nobres e plebeus, fato também explorado pelo historiador na obra em tela.
A leitura é riquíssima, especialmente, reforço, porque se trata de um tema bastante conhecido, mas nunca aprofundado conforme seus maiores interessados: os marinheiros vítimas de injustiça. Parabéns ao Anderson pela excelente pesquisa e brilhante explanação.
Encantado!

terça-feira, 19 de abril de 2016

Dez anos de histórias contadas

Completo hoje, um projeto imaginado há dez anos, com a publicação on line de toda a coleção de documentários sobre a História de minha cidade que produzi. Em cinco capítulos, com cinco temas diferenciados, porém entrelaçados, um modo de contar a bela história da minha terra, suponho eu, de forma menos cansativa.
O projeto nasceu logo depois das eleições de 2004, quando então fui candidato a vereador, única e exclusivamente com a intenção de espalhar o resumo de todas as pesquisas que até então fizera, para todas as pessoas em minha cidade, e não apenas aos doutos; geralmente limitados por conveniências mercadológicas e acadêmicas, e até preconceitos. Não fui eleito, obviamente, mas os frutos daquela estratégia ainda hoje estão sendo colhidos, e melhor: não somente por mim.
Originalmente, sem recursos pra contratar profissionais e material, vali-me de extratos de vídeos, fotografias, gráficos e desenhos, e, exceto aos vídeos, parte deles por mim próprio produzidos artesanalmente. Tudo aqui é artesanal; logo, não esperem, pois, muita qualidade artística e gráfica. Arriscaria a dizer, contudo, que a qualidade informativa foi a melhor que pude obter, e que tudo está lastreado em documentos, quase sempre fontes primárias.
Ao produzir o primeiro deles, intitulado HISTÓRIAS DOS TEMPOS DOS VAQUEIROS, minha intenção era publicar no nascente Youtube, o que foi feito, todavia me senti da obrigação de realizar uma cópia em disco, DVD, para o meu amigo e colaborador, professor José Taurino Duarte. Taurino me convenceu que poderíamos fazer uma excelente distribuição, inclusive cobrando pela cópia como forma de financiar todo o projeto. Inicialmente relutei, mas, como disse, convenci-me. Foram distribuídas por volta de 1.300 cópias. Se foram vistas, não sei; mas no meu controle, nestes dez anos, foi esse o número daquela primeira cópia. 
O projeto era publicar todos os cinco episódios em 2007, porém, só em 2008 é mais dois volumes: o segundo e o terceiro. E ai veio o problema de orçamento e de logística: pra fazer os dois últimos era imperativo que eu colhesse material bem além de Itabaiana, o que somente pude fazer em 2011, numa viagem que fiz até a Baixada Santista, circulando pelos caminhos trilhados pelo nosso povo, seja no êxodo para o sul do país; seja em suas viagens comerciais, a levar produtos locais e trazer outros de lá. Em 2013, finalmente saiu o quarto e, em fins de 2014, o quinto e último. Somente agora, contudo, é que consegui publicá-los como originalmente pensado, para que fique disponível a qualquer pessoa no mundo.
Há muitas pessoas a quem quero agradecer pela ajuda na execução desse projeto, contudo, vou me limitar aqui apenas a dois, que foram fundamentalíssimos: o sobre dito professor José Taurino Duarte, estimulador e distribuidor da reprodução em cópia física, e um cliente mui especial que, ao adquirir um exemplar do primeiro volume, e promover sessões de assistência em pleno Palácio do Governo, foi fundamental para que essa ideia ganhasse a devida credibilidade. Meu muitíssimo obrigado ao saudoso companheiro governador Marcelo Déda Chagas pela ajuda completamente desprovida de intenções prévias. Do melhor tipo que há. 
E é em sua memória que dedico aqui toda esta coleção, agora disponível para o mundo.

Itabaiana, 19 de abril de 2016.

José de Almeida Bispo
Publicitário, radialista, pesquisador, documentarista
Membro da Academia Itabaianense de Letras, cadeira 27, patronesse Maria Thétis Nunes.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Civilidade! Civilidade!

No último fim de semana o GoogleEarth atualizou a fotografia por satélite do sítio urbano de Itabaiana com a fotografia encomendada em abril pela Ethos Incorporadora. É assustador o crescimento; o espraiamento da cidade: quase vinte por cento, contando com os loteamentos semi ou totalmente construídos, em apenas dez anos. Outra constatação: a planta da cidade perdeu o formato triangular que perdurava desde a década de 50, quando iniciou-se sua fase de maciça expansão, depois de dois séculos e meio de estagnação.
A outra constatação é que... nossa laje de concreto continua a se expandir: as quadras da cidade de Itabaiana tem muito menos verde que as da capital do estado, Aracaju; ou de outros sítios urbanos sergipanos menores, como Estância e Lagarto. Como resultado? Calor abrasador. A cidade não dispõe - ao menos que seja do meu conhecimento - de um estudo sobre variação de temperatura; mas, com segurança, vem se tornando sufocantemente mais quente, com a crônica falta de verde no espaço público e o fim dos grandes quintais cheios de fruteiras de até vinte e cinco anos atrás. Pra piorar, todo mundo corre pro ar condicionado, que, resfria o ambiente imediato, mas sob o custo de gastos e custos estratosféricos de energia elétrica e adição de mais calor ao ar que circula pela cidade.

Aqui, o comparativo, entre 2006 e hoje, 03/02/2016.


E aqui, o comparativo entre quatro cidades: Itabaiana, Lagarto, que, apesar da cidade ter um um sítio urbano de metade de Itabaiana (o município inteiro é três vezes maior e pouco mais populoso), é a cidade do interior que mais se assemelha a Itabaiana; Aracaju, capital de Sergipe e São Paulo, a maior cidade da América do Sul e uma das maiores do mundo.
Os quadriláteros medem respectivamente mil por mil metros de sítio urbano e, por eles, se vê que São Paulo, A SELVA DE CONCRETO, tem muito mais verde do Aracaju, que tem mais do que Lagarto, que tem bem mais do que Itabaiana. Pior: como o sítio urbano de Lagarto tem metade do tamanho do de Itabaiana, as consequências da impermeabilização se faz faz sentir bem amena; ao nível do que era Itabaiana há justos 25 anos.
Imagens de Itabaiana gentilmente cedidas por Edson Passos, mediante Milton Sobral (2006) e Robério Santos (2015). De Lagarto, Aracaju e São Paulo, diretamente do GoogleEarth.



(Título retirado dos lamentos em pregação do pároco Domingos de Melo Rezende, que do púlpito da Matriz de Santo Antônio e Almas protestava, à sua maneira, em fins de 1888, contra a esperteza do deputado provincial Guilhermino Bezerra, de conseguir mudar o status da sede municipal, de Vila de Itabaiana para Cidade de Itabaiana, apenas no intuito de elevar os salários de seus dois parentes professores).

domingo, 20 de dezembro de 2015

21 de dezembro de 1821: Uma data esquecida.


No dia 21 de dezembro de 1821, reuniu-se o Câmara Municipal de Itabaiana, sob a presidência do Capitão de Infantaria das Ordenanças da Vila de Santo Antônio da Itabaiana, cavaleiro da Ordem de Cristo e senhor do Engenho Penha, José Matheus da Graça Leite Sampaio pra deliberar sobre carta do Senado da Câmara da Cidade da Bahia, ou Salvador, que intimava as câmaras da Cidade de São Cristóvão de Sergipe d’Elrei e às demais câmaras municipais dos outros cinco municípios então existentes em Sergipe, Itabaiana, Lagarto, Neópolis, Santa Luzia do Itanhy e Santo amaro das Brotas, a irem a Salvador para lá, oficialmente confirmarem um governador fantoche, indicado pela Bahia, enquanto os baianos manipulam a política para anular a Independência de Sergipe conseguida por decreto do Rei D. João VI, de 20 de julho do ano anterior, 1820. A rebelião da Câmara Municipal de Itabaiana foi comunicada oficialmente às demais em 27 de fevereiro de 1822. Talvez por já ter conhecimento da decisão do Príncipe Regente, tomada em 9 de janeiro, de desobedecer às cortes de Lisboa, à qual os baianos estavam ligados, as demais câmaras não se rebelaram oficialmente, mas também ninguém foi a Salvador eleger o governador fantoche.
O primeiro governador de Sergipe emancipado, Carlos César Burlamaqui, empossado em fevereiro de 1721, foi deposto com menos de um mês de governo pelos baianos, antes mesmo da partida do rei de volta para Portugal, em 25 de abril de 1821. O momento era de grande instabilidade política, criada a partir da cidade do Porto, em Portugal, e com seu mais forte eco no Brasil na sua cidade mais antiga, rica e tradicional, atapetada de comerciantes portugueses em constante trânsito entre metrópole e colônia, ou na Bahia representados por prepostos. E, a Câmara de Salvador, que desde 1º de janeiro de 1590, jamais considerou Sergipe além de parte do seu domínio com o nome de “o Sertão do Urubu de Baixo”, ou resumidamente de “Sertão de Baixo”, e que nunca dera trégua aos governos sergipanos, com a condescendência do governo colonial, ressalve-se, não estava conformada com o Decreto de D. João VI, que lhe tirou um terço das rendas gerais com impostos, como se vê no artigo 4º do documento dirigido por José Antônio Fernandes ao nomeado Carlos Cezar Burlamaqui: “4º - As finanças estão imediatamente debaixo da administração e fiscalização da junta da real fazenda da capitania da Bahia, e o ouvidor da comarca, que também é o juiz dos feitos em Sergipe, a seu cargo a pequena administração da fazenda e despesas extremamente precisas, que se fazem por mandatos seus, e é o rendimento anual das rendas reais, segundo também a estimativa que julgo mais verossímil pela informação que ali adquiri e de que não tenho lembrança, ali arrecadadas.” (Informações sobre a Província de Sergipe em 1821. Revista do IGHB, Tomo LV, Parte I p.258. Rio de Janeiro, 1892).
Sergipe começou no dia 1º de janeiro de 1590, depois de Cristóvão de Barros vencer os índios liderados pelo último grande cacique, Mbaepeba, na noite de 31 de dezembro de 1589 para o dito 1º de janeiro de 1590, no entorno da Serra do Pico, na Itabaiana. Nunca foi encontrado documento algum neste sentido, mas tudo leva a crer que por orientação secreta da Corte de Felipe II d’Espanha, então governando também Portugal e suas colônias, criou Cristóvão de Barros nas belas, ventiladas e bem visualizadas colinas entre a foz do Rio do Sal e o riacho Maracaju, as bases para uma futura cidade: a Cidade de Sergipe de El-rei, e consequente capitania, desmembrada da Bahia, portanto. A sede da cidade sofreu duas mudanças, estabelecendo-se, finalmente na difícil Barra do Rio Vaza-Barris, às margens de um braço de rio conhecido como Paramopama, e hoje é a bela e histórica São Cristóvão.
Sergipe só existe como produto de estratégia de Estado e seus acidentes. Tão logo invadida, a área foi repartida entre o monte de cristãos-novos que chegavam à Bahia aos borbotões, alguns "convertidos na mesma Bahia, conforme observa o francês Pyrard de Laval, em 1610, tocada pelo medo da Inquisição espanhola, cuja Espanha agora também dominava Portugal, bem como de descendentes dos anteriores que vieram com Tomé de Souza, onde o mais notável foi Garcia de Ávila, logo convertido numa espécie de príncipe, a administrar todas as terras desde Salvador até o Rio Real. Mas, desta forma, identidade sergipana teria sido solapada facilmente pela Bahia; porém, a invasão holandesa em Pernambuco, acidentalmente, acabou por consolidar a identidade sergipana. Mesmo tendo os holandeses, sob Maurício de Nassau, invadido Sergipe, em 1637, parcela considerável dos pernambucanos que atravessaram o Rio São Francisco logo se estabeleceram em definitivo na capitania, quebrando a hegemonia baiana, e preparando a sergipanidade. Por longos quinze anos as guerrilhas de Felipe Camarão, e principalmente a de Henrique Dias, fixaram-se em Sergipe como quartel general. E, quando retornaram a Pernambuco, Sergipe tinha perdido mais da metade de sua suposta identidade com a Bahia.
Depois da expulsão dos holandeses de Sergipe, em 1645, fato ocorrido também depois da Restauração do governo português, de dezembro de 1640, a Bahia voltou a mandar em Sergipe. A capitania fora criada pela Espanha. Estranhamente, porque, do ponto de vista da estratégia de governo colonial se não justificava tal status de governo para a área. De onde vem a suspeita de que a capitania foi criada, e sob notável sigilo, possivelmente prevendo a confirmação das tais minas de prata de Melchior Dias Moreia, que ficariam depois na lenda como estando em Itabaiana, mas também e suspeitosamente na Jacobina, onde de fato, um século depois foi encontrado e explorado ouro. Daí que todos os mapas do Brasil do século XVII traz Sergipe indo além da Jacobina, tendo o São Francisco como limite norte e oeste, e, ora o Rio Inhambupe, ora o Paraguaçu, e raramente o Real, ao sul. A partir de 1650, intensificam-se as intromissões da Câmara de Salvador na Câmara de São Cristóvão, que culminou em 1656 com a Rebelião dos Curraleiros, de epicentro na Itabaiana, que sequer povoação típica de vila tinha. Outra rebelião, abafada, em 1671, e de cuja poucos documentos existem, também teve o mesmo caráter.
As intervenções eram frequentes, e quase sempre desrespeitosas; acintosas até. O governo colonial, na Cidade da Bahia, ora arbitrava em favor dos sergipanos; mas à menor pressão baiana contornava sua própria decisão, às vezes passando por cima de ordens régias. Os capitães-mores eram manietados; os ouvidores viviam sob pressão da Câmara de Salvador e da Relação, quando esta passou a funcionar, também em Salvador. Na prática, Sergipe não existia como capitania. Como forma de contornar o problema legal da estranha condição de capitania sob outra capitania, criou-se as capitanias-mores municipais, caducadas depois de 1760, como forma de esvaziar as capitanias originais, onde, claro, somente a capitania da Bahia era a que tinha a ganhar. Em 1724, com a criação da comarca da Jacobina, diretamente pela capitania da Bahia, e não por Sergipe, como deveria ser, o próprio Sertão de Baixo, que corresponde ao estado atualmente, começou a ser convertido numa mera comarca, com a da Jacobina sendo usada para abraçar todo o atual sertão baiano à margem direita do São Francisco, incluindo o norte de Minas Gerais, até o Jequitinhonha. E, em 1760, Sergipe tinha se reconvertido num mero Sertão de Baixo.
Em 1801 o porto de Salvador acusou Sergipe como origem de um oitavo do seu movimento, e, já por volta de 1760, um terço dos tributos arrecadados pela Bahia eram provenientes de Sergipe; um terço do Recôncavo, exceto ao sul do Paraguaçu, incluindo a Cachoeira; e um terço das demais capitanias agregadas: Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo e Jacobina, além da própria Cachoeira. Mas Sergipe quase nada lucrou disso. Uma rápida visita às hoje cidades do Recôncavo baiano e se irá notar o zelo com suas vilas, não somente na farta documentação de correspondência com elas, como na própria feição da administração pública, praticamente todas com casas de câmara e cadeia, robustas igrejas e até outras estruturas, típicas do desenvolvimento daqueles tempos. Em Sergipe, nem mesmo a cidade de São Cristóvão foi agraciada a contento com esse tipo de edificação. Conforme o Informe supra citado de José Antônio Fernandes, nem casa para o governador e para o ouvidor existiam em São Cristóvão em 1821; muito menos em suas vilas de Itabaiana, Lagarto, Neópolis, Santa Luzia do Itanhy ou Santo Amaro. Nem mesmo a mais “baiana” de todas, Santa Luzia, cujo capitão em 1820 se insurgiu contra a Emancipação de Sergipe, por ter fartos interesses em manter a dependência da Bahia, conforme nos revela Maria Thétis Nunes, foi beneficiada com as estruturas vistas na Cachoeira, Santo Amaro, Jaquaripe ou Nazaré, e um pouco menos em Camamu, Boipeba e Cairu. As câmaras sergipanas viviam de pedir meios pra construírem o elementar numa sede municipal dos tempos coloniais, além da matriz: Casa de Câmara e Cadeia. Sem sucesso. Mesmo benefícios menos dispendiosos, como cursos de primeiras letras, além de São Cristóvão, insatisfatoriamente, teve a Santa Luzia, e somente ao fim do século XVIII. Vale ressaltar que a fidelidade de Santa Luzia à Bahia também custou o desenvolvimento da povoação desenvolvida a partir do acampamento guerrilheiro de Henrique Dias, contra os holandeses, nas décadas de 1630 e 1640, a Estância do Rio Real (também chamada de Estância do Piauitinga), que por volta de 1710 já era maior e mais desenvolvida que a estagnada vila da Santa Luzia, mas se manteve como seu distrito até 1832, quando se emancipou e substituiu a velha Santa Luzia como sede municipal.
Por volta de 1780, futuras poderosas famílias do estado começaram a se formar, algumas delas já perceptíveis desde o início do século, como os Pimentel, que através de Albano do Prado Pimentel se instalou na Itabaiana, no engenho Santa Rosa, que deu origem à cidade, mas que de fato sua história começa com a chegada de José de Barros Pimentel em Santo Amaro na década de 1720, quando “foi casar á Sergipe d'El-rei com D. Joanna Martins, filha do Sargento Manoel Martins Brandão, Cavalleiro da Ordem de Christo, senhor do engenho Sedro brasil, e de sua mulher D. Maria” (Nobiliarchia pernambucana, por Antônio José Victorino da Fonseca. IN Anais da Biblioteca Nacional, vol. 47, p.104). Do cruzamento da família Pimentel com a família João Gonçalves Franco, no início do século XIX viria a se formar uma das mais tradicionais e talvez a mais rica família sergipana de hoje, a Pimentel Franco. Também de João Gonçalves Franco, senhor do Serra Negra e que adquiriu o Engenho São José na Itabaiana em 1787, saíram os Maciel, da mesma forma, de grande poderio no estado. Mas, no meio dessas também apareceu o neopolitano José Matheus da Graça Sampaio, em cujo ramo também se encontram uma linha dos Machado, e que veio herdar os bens e obrigações, incluindo as religiosas de um seu tio, residente na Itabaiana, mais precisamente onde hoje é o município de Riachuelo. Não veio pra brincadeiras. Logo ao chegar, fez fortunas, amigos, poder e consequente inimigos. Um perfeito “coroné” de vertente moderna. Conta Sebrão, o Sobrinho, que tinha um filho nos sertões de Tacaratu, Pernambuco, de onde agendava rapidamente um exército de jagunços para sua defesa ou como força de dissuasão na complicada política coronelista de Sergipe, desde priscas eras. O fato é que granjeou multidões de bajuladores, dezenas, talvez centenas de admiradores, e muitos... muitos inimigos! Que não tinham a menor vergonha na cara de conspirarem contra a Independência de Sergipe abertamente. Foi da liderança da Câmara Municipal de Itabaiana que Leite Sampaio venceu todas as barreiras e, com o apoio na Câmara Municipal de São Cristóvão e na de Lagarto, o Lagarto que sempre presente, ombro a ombro com Itabaiana, nos grandes e engrandecedores momentos históricos de Sergipe, que conseguiu arrancar o Decreto de D. João VI, e em seguida, mesmo se preparando para o pior, rebelar-se em definitivo contra as imposições de Salvador em 21 de dezembro de 1821.
As peças se moveram no xadrez. Recapitulando, em janeiro de 1822 D. Pedro I fincou pé: “Fico”! Em setembro rompeu definitivamente com as cortes de Lisboa e os baianos nacionalistas tiveram que pegar em armas pra não continuarem como mero enclave colonial. Em 2 de julho de 1823, finalmente a Independência do Brasil se completou, e o primeiro Imperador do Brasil confirmou, a seguir, o Decreto do seu pai, de 20 de julho de 1820, tornando Sergipe, em definitivo e politicamente independente da Bahia. Como na política nada se revolve por quebra geral de acordos, mesmo que impositivos, somente na década de 1840 é que finalmente Sergipe pode completar sua Independência com a cobrança de impostos passando a ser feita toda na alfândega da então província.
A Câmara Municipal de Itabaiana, acredito, não tem hoje a menor noção de sua importância histórica na formação de nosso querido Sergipe.