segunda-feira, 17 de julho de 2023

17 DE JULHO: O DIA EM QUE OS HOLANDESES CONQUISTARAM ITABAIANA

 

Mapa holandês de todo o Nordeste dominado pelo Conde Maurício de Nassau, em destaque.
 

A Conquista holandesa de Pernambuco não foi fácil. Por sete anos tiveram avanços e retrocessos.
A população estava dividida desde quando os espanhóis, aproveitando uma inconsequência do jovem rei, D. Sebastião tinha tomado a coroa portuguesa para si. Com população majoritariamente cristã-nova existia um ódio e temor latente entra a maioria da população europeia em relação à Espanha e sua Inquisição particularmente implacável contra os judeus, cristãos-novos ou não.
No entanto, somente pouco antes da chegada de Mauricio de Nassau no governo holandês é que os domínios holandeses chegaram em satisfatório nível de estabilidade, grande parte disso graças a Domingos Fernandes Calabar.
Sergipe, e Itabaiana, em particular, havia abastecido Pernambuco de gado por mais de trinta anos. Mas quando houve a invasão holandesa esse comércio cessou, deixando os carros de bois sem bois; as moendas de cana dos engenhos sem tração animal; e as mesas sem carne. Além dos inúmeros artefatos de couro, tão usados na época.
Assim que assumiu o governo em Recife, Nassau, com força revigorada, com a soldadesca trazida da Holanda um mês depois já estava a caminho de Sergipe, e focado em Itabaiana, onde, além de gado poderia encontrar a prata negada ao Governador-Geral, D. Luís de Souza, 18 anos antes na serra de Itabaiana.

Quadro feito por Frans Post, reprodução mais sofisticada de desenho antes feito, ilustrando a fuga de Bagnuolo pelo rio São Francisco, a pés, já que nessa época do ano o rio costumava estar com cota mínima. Ao fundo, Penedo. Na única pintura sobre Sergipe, único registro, portanto, e uma das centenas de obras que produziu, cada uma mais bela que a outra.
Na parte inferior, extrato do mapa Sergipe com Itabaiana, de Georg Marcgraf e Conrad Golliat.

Oh caganeira malvada!

Mas Nassau não passou de Porto Calvo, hoje nordeste de Alagoas. Contrariado com a execução de Calabar, ali feita por Matias de Albuquerque, em fuga, assim como o Conde Bagnuolo, Nassau foi acometido de uma perigosa diarreia, retornando ao Recife e entregando o comando da invasão a Sigismund van Sckoppe, que atravessou rio São Francisco em Penedo, penetrou em Sergipe, indo até São Cristóvão e, ao não constatar nenhuma resistência veio direto à Itabaiana, pegar gado e tomar mais notícias sobre a prata.
A não vinda de Nassau, em pessoa, possivelmente nos privou de uma bela tela de Frans Post sobre Itabaiana, já que retornou de onde veio a ser Neópolis.
Por sete anos os engenheiros de Nassau fuçaram toda a Itabaiana procurando pela mina sem encontrar.
Uma herança daqueles longínquos tempos é representada por uma mineradora no município, extraindo granito justo onde foi tentado a prata por eles.
Há 386 anos. Hoje.

domingo, 16 de julho de 2023

QUANDO ITABAIANA FOI CENTRO DA COBIÇA MUNDIAL


Foto das colinas do Gandu, local da visita da maior autoridade colonial brasileira em 1619, sobreposta por extrato da carta do Governador ao Rei, dois meses após. Foto: Juarez Góis.

“...e me parti no dia 15 de julho com grande invernada e infinitas descomodidades, e me vendo no Rio Real com Belchior Dias passei dali a Sergipe, dando com seu aviso na conformidade de que tratáramos, fui à serra de Itabaiana, dez léguas aos sertões da cidade, chegamos ali levou o dia seguinte a meia ladeira de um oiteiro...” 

(Carta de D. Luiz de Souza a S. M. D. Felipe III, em 15 de setembro de 1619. NUNES, Maria Thetis. Sergipe Colonial I, p. 67.).

Hoje faz 404 anos que um incidente histórico nas proximidades do atual Parque dos Falcões levou aquela área pela primeira vez a chamar a atenção das potências europeias da época, a maioria delas ainda hoje em destaque, em que pese o peso de novas nações a surgirem desde então.
No dia 16 de julho de 1619 chegou a essas colinas de pedras brancas, no vertente sudoeste da serra de Itabaiana, no povoado conhecido como Gandu – mata rala, em tupi – a maior autoridade colonial do Brasil de então, o Governador-Geral, D. Luís de Souza, Segundo Conde do Prado, e soldadesca, em companhia de Melchior Dias Moreia. Veio ele com a promessa de Melchior de entregar-lhe e ao governo espanhol, então comandando o Brasil, uma mina de prata que estaria aqui.
Mas a prata não estava aqui. E Melchior morreu três anos depois sem dizer o local.

O relevo especial do Domo de Itabaiana chamou a atenção dos primeiros colonizadores que nele viu a possibilidade de existência de metais preciosos; e ao mesmo tempo um curral natural, levando o lugar a ser o início da pecuária extensiva brasileira. Os gigantescos rebanhos do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, do Mato Grosso ou Goiás... todos eles têm seu DNA a partir daqui. Começou aqui. Foto (extrato) de Satélite. Relevo. INPE, 2003.

O local, todavia, passou a ser cobiçado por todo o tipo de aventureiro, até mesmo depois da dispendiosa e tecnicamente superior expedição de D. Rodrigo de Castelo Branco, entre 1674 e 1679 ter palmilhado cada metro de chão sem nada encontrar.
Com o tempo, e principalmente com o encontro da torrente de ouro em Minas Gerais, finalmente a prata de Itabaiana foi esquecida.

Em 1612, “os campos da Tabanha de infinitos gados” já eram o fornecedor maior do império português, abastecendo Bahia e Pernambuco, além das milhares de caravelas na extensa rede mundial do comércio português. Mapa de Albernaz II, do “Livro que dá razão ao Brasil”, do sargento-mor Diogo Campos Moreno, 1612.

Todavia a suposta prata – além da geografia especial, com sua natural cerca de serras – foi o fator primordial para o estabelecimento de Itabaiana como o primeiro grande curral de gado no Brasil. Quiçá nas Américas.
Parafraseando Tim Maia: “Anda meio esquecido, mas é dia da festa”, não de Santos Reis; mas da presumida prata de Itabaiana.

Aproximadamente aqui, hoje com presença da imagem de Santa Dulce, junto ao atual Parque dos Falcões, no povoado Gandu, chegou o Governador-Geral, D. Luís de Souza, no dia 16 de julho de 1619, depois de um pernoite em São Cristóvão e extenuante viagem acompanhando Melchior Dias Moreia.
(Foto: Anselmo Rocha, presente, junto a estátua de Santa Dulce.
Anselmo é presidente da Associação Sergipana de Peregrinos e recentemente inaugurou o Caminho de Santa Dulce, de Itabaiana a Salvador, juntamente com um grupo original, do qual participou o engenheiro itabaianense, Vicente Bispo)


sábado, 15 de julho de 2023

EPPUR SE MUOVE, COMO DISSE GALILEU(*).

 

Nasci, cresci e fiquei adulto sem ouvir sequer a citação nome Zé Bezerra. De fato, vim ouvir o seu nome já pelos quarenta de idade, rapidamente, mais menos por volta de 2000, quando escrevia para a Revista Perfil. Era-me um completo desconhecido.
Só em 1975 é que comecei a me integrar à vida urbana, a começar do seu segundo maior centro de integração social, à época, o Colégio Estadual Murilo Braga. O primeiro era a velha Matriz de Santo Antônio, que estava, assim como a cidade que ela mesma gerou, completando 300 anos.
Entre 1969 e o mesmo 1975 houve regularidade na cobertura jornalística local de Itabaiana e sua sociedade, através de O Serrano; contudo, Zé Bezerra, nunca bem aceito pela sociedade itabaianense, salvo por uns poucos, já havia falecido, em 18 de novembro de 1967, sem nenhuma comoção na sociedade, conservadoríssima e ainda chocada com outro assassinato, então recente, o do ex-prefeito e ex-deputado e chefe pessidista, Manoel Francisco Teles, em 31 de agosto, dois meses e meio antes.
Em 2 de fevereiro de 2013, houve a assembleia de fundação da Academia Itabaianense de Letras, e a multiartista – inclusive cronista – Antônia Amorosa de Menezes tomou posse como ocupante da Cadeira 18 daquela Arcádia, tendo como patrono o grande ator e dramaturgo itabaianense José Bezerra. Fora ele escolhido entre vários nomes pela comissão criadora da Academia, que a ele não se referiu na primeira reunião pro-fundação, de julho de 2012; contudo, o incluindo em reuniões posteriores. Estava finalmente revivida a memória de um desbravador; até 1967, ano da sua morte, Único nome de reconhecimento popular nacional, assumidamente de Itabaiana.
Em maio de 2014 teve lugar a segunda solenidade, a recepção, de Amorosa na Cadeira 18, e, a seguir, certo dia ao passar pelo estacionamento do Estádio Etelvino Mendonça, veio-me a ideia: “E se o Governo do Estado construísse ali um teatro, com estrutura para um estacionamento, de uso duplo – do Estádio, quando em jogo; do teatro, ou para renda de manutenção do mesmo?”
Ao retornar para casa, fiz o tosco desenho que acompanha esse artigo. E o esqueci depois.


Fui surpreendido, entre esperançoso e pés fincados no chão, pela revelação, não de iniciativa do Governo do Estado, como anteriormente pensei; mas do Secretário Municipal de Cultura, meu também confrade na Academia Itabaianense de Letras, Antônio Samarone de Santana, que em artigo publicou que, não somente é intenção do Prefeito Municipal, Adailton Souza, como já há projeto arquitetônico em andamento, para a construção de um teatro em Itabaiana.
Se o teatro, caso seja construído, terá o nome sugerido de Zé Bezerra, como há oito anos por mim sugerido, não sei; mas que é firme a intenção de construí-lo, isso é.
Torçamos.
Torçamos, inclusive, para não vir futuramente a ter o mesmo destino do outro, que nem registro ficou, além dos indícios captados por Robério Santos e, objetivamente a prova cabal pela pena do historiador lagartense, Laudelino Freire, que em 1902 registrou a presença de um teatro na cidade (**). A pequenina Itabaiana, então de menos de dois mil habitantes, metade deles que só vinham à cidade no sábado. Para a feira; e retornando aos seus sítios, bem mais confortáveis, aos domingos, depois da missa na Matriz de Santo Antônio, então, único prédio realmente decente na cidade.
 

 

(*) Expressão que denota teimosia; persistência. De alguém que, mesmo obrigado pelas circunstâncias nega uma ideia ou dela desiste, mas sempre parcialmente. Proferida por Galileu Galilei quando condenado por prepotentes burocratas empoderados da Igreja, durante seu julgamento pela Inquisição. Ao fim Galileu abjura da certeza de que o sol é o centro do sistema, mas termina com essa frase, não perguntada: “No entanto se move!” Ou seja, no entanto acaba funcionando; acontecendo.


(*) FREIRE, Laudelino. Quadro Chorographico de Sergipe, p.114. H. Garnier, livreiro-editor. Rua do Ouvidor, 71, Rio de Janeiro - Rua des Saints-Pères, 6, Paris. 1902.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

FAIXAS ETÁRIAS.

 

Na última segunda-feira, 10, necessitei resolver um assunto, de forma tradicional, “falando com gente”, na única agência bancária em que forçosamente eu tenho conta.
Depois de quarenta e um anos de trabalho “fichado”, e mais quatro de aposentado, e ainda vivendo num país e época em que até para se espirrar se torna necessário a presença de um banco, não há alternativa, além de “ter um sinal da besta” (Apo, 13, 16). Lá me fui.
Ao chegar à agência bancária, de atendimento popular, dei de cara com sua indefectível fila quilométrica.
Em geral, as filas que pego têm no máximo quatro pessoas, já que filas de caixa eletrônico; mas, como dito, dessa vez foi um serviço cara-a-cara; e tive que pegar senha para o atendimento.
A fila normal para a senha, como sobredito, quilométrica; porém, com mais de 60 anos, eu já entrei na fase de outra fila, que espero, meu “atendimento” só ocorra em mais quarenta anos para a frente. Tomara! Tomei a fila dos idosos, bem mais civilizada e menos humilhante.
Detesto filas. Quando no emprego, tanto nos quatro anos em que passei no Correios, quanto nos outros, na extinta Fundação SESP, uma das funções era atender gente. E sempre ficava nervoso quando se acumulavam pessoas, por cinco e até quinze minutos na espera.
De certo modo sou como um conhecido homem público itabaianense que, ao retornar formado, de faculdade, em Salvador, foi inquirido pelo também amigo, o advogado João de Oliveira, popular João de Benício, do porquê de ter retornado, quando o mercado de trabalho por lá era bem mais atrativo que em Sergipe; ao que ele respondeu que detestava fila de banco. Na Bahia ele seria apenas mais um engenheiro.
Bem, fui à fila e logo fui atendido.
Mas ficou uma constatação e uma pulga atrás da orelha.
Como banqueiro detesta pagar alguma coisa, por quanto tempo a agiotagem vai permitir que saudáveis senhores da “terceira idade” continuem com esses privilégios?
Em 1980, antes da cidadania plena brasileira, pela Constituição Federal de 1988, Itabaiana tinha 2.111 pessoas de 60-69 anos (4,0%); 1.126 de 70-79 (2,1%) e 385 de mais de 80 (0,7%), numa população total de 52.601 habitantes. Em 2010, para uma população total de 86.967, eram 4.400 de 60-69(5,06 %); 2.358 de 70-79 (2,71 %) e 1.272 de mais 80 (1,41 %). Para a população encontrada em 2022, ainda sem os números finais, porém a projeção é de 6.845 pessoas entre de 60-69 anos de idade (6,62 %); 3.764 de 70-79 (3,64 %); e 1.644 de mais de 80 (1,59 %) nos já consolidados 103.439 habitantes do Censo de 2022. Aumentos, respectivamente de 2,62, 1,63 e 0,9, totalizando 5,15%, sobre o apurado em 1980.
A população, portanto, continuará a envelhecer cada vez mais.
Como jamais banqueiro vai melhorar atendimento a idosos, disponibilizando mais pessoal - uma heresia, no credo da agiotagem - a tendência é de que as filas aumentem. Ou que pelo menos aumentem a idade mínima para ser considerado “idoso”.
Aposto que a agiotagem de gravata propugnará o meio termo: aumento das filas, depois de aprovarem leis aumentando o status de idoso para mais de 70.






sábado, 8 de julho de 2023

SOCIEDADE ANÔNIMA E A INDEPENDÊNCIA QUE CAIU DO CÉU.

 

Motor básico do capitalismo, na sua vertente produtiva e esplendidamente bem sucedida no processo civilizatório, e criada pelos holandeses ao fim do século XVII, a empresa de sócios anônimos possibilitou o enriquecimento de um volume muito maior de indivíduos. Trazendo muito mais gente para a roda da fortuna. É imbativelmente o melhor a que se poderia chegar no quesito distribuição de lucros.
Mas o anonimato com que me bato aqui tem outro sentido; muito mais inglório que uma especulativa empresa, que, apesar da natureza mais socializada, ainda é para poucos. É o anonimato que ceifa nomes, realizações, sacrifícios pessoais, ideais, enfim. O anonimato que faz desanimado o lutador, o idealista, aquele que sempre enxerga além do próprio umbigo. Coisa comum nestes nossos tempos de heróis de fumaça, construídos pelo que seu dinheiro pode pagar; e apagados, às vezes em velocidade maior; desde que o dinheiro pare de jorrar para puxa sacos de luxo na imprensa. Ou mesmo quando se torna enjoado, cansado, envelhecido por absoluta falta de substância e excesso de exposição.
Em geral, há um peso descomunal em reconhecer o trabalho alheio. E, como ninguém reconhece o trabalho do outro, todos se transformam numa espécie de zumbis; de olho apenas no próprio umbigo.
A História de Sergipe é repleta desses espertos que, ao desmereceram o próximo, sepultam-se a si mesmo; no máximo obtendo a glória efêmera dos otários.
Recebi hoje um vídeo interessante, patrocinado pelo governo de Sergipe, sobre a respectiva data, 8 de julho, a Emancipação de Sergipe em relação à capitania da Bahia. Muito bem produzido; fiel à História, no conteúdo abordado, mas... carente de informações preciosas.
Fala no vídeo que houve muita carta, muita negociação com D. João VI, mas... quem fez? Quem se expôs, numa sociedade que ainda hoje, parte dela não se acha sergipana; preferindo ser de algo “maior”, ao invés de construir a própria maioridade?
Caiu do céu, essa independência? Quem ao menos mandou as cartas, pediu as audiências com o rei, enfim, quem liderou o processo?
Ou o rei, num porre, e talvez recebendo informações erradas de que uma mera Comarca de Sergipe, tinha se levantado em benefício dele e declarado guerra à rebelada capitania de Pernambuco, resolveu passar o trator por cima do fortíssimo governo baiano, e declarando Sergipe separado da então mais rica e poderosa capitania brasileira.
Sem heróis não há história crível. A história humana é feita por humanos, coordenados por alguém, em qualquer sentido.
Assim, sem personagens sólidos, definidos, fica difícil de se acreditar que realmente a independência se efetivou.

A nenhuma vontade de reconhecimento do trabalho alheio leva a sociedade sergipana a não ter raízes de vera; sem heróis; sem exemplo. Um monte de zumbi, de olho apenas no próprio umbigo (hoje na tela do celular, em 'autoglorificações')



terça-feira, 4 de julho de 2023

RUAS DE MÃO ÚNICA: PROCESSO NATURAL E IRREVERSÍVEL.

 

Estudo de alternativas viárias que, modéstia à parte, fizemos quando em 2002, quando a cidade era a metade do que é agora; e tinha menos dez por cento (1.631) dos atuais 16.828 automóveis, e pouco mais de 16,5% vezes do total da atual frota de veículos.

A Prefeitura Municipal de Itabaiana, através de sua Superintendência Municipal de Trânsito – SMTT, mais uma vez atrás de deixar a cidade, digamos, mais transitável.
Dessa vez fará a inevitável reorientação em duas ruas vitais para o trânsito urbano itabaianense, no sentido leste-oeste: as ruas Boanerges Pinheiro e Percílio Andrade.
No momento, a pista de “ida”, sentido oeste-leste, pela Boanerges Pinheiro e somente nesta; porém, futuramente vai ser obrigatório a mesma medida desde a BR-235, pela Florival Oliveira, obviamente, que muda de nome para Boanerges Pinheiro quando cruza com Carlos Reis.
A Rua Percílio Andrade, desde seu início na Rua Francisco Bragança, até o semáforo próximo ao Campus de Universidade Federal de Sergipe terá somente o sentido de “volta”, ou seja, de leste a oeste. E aqui, como é hoje, a sequência pela Olímpio Grande já cai diretamente dentro da BR-235.

Rua Barão do Rio Branco, setembro do ano passado, um dos quase dez estacionamentos exclusivos para motos: uma alternativa à falta de espaço no centro, e problema já presente, mais afastado dele.

A carência de espaço para estacionamento, é outro complicador. Centro regional, Itabaiana tem uma frota flutuante na cidade, entre a segunda e a sexta-feira que em muito eleva o número de veículos da frota doméstica, a segunda municipal no estado, com 70.270 veículos em abril próximo passado, com 16.828 automóveis; 3.738 caminhonetes, 3.595 caminhões, 440 carretas, 713 camionetas. 8.399 ciclomotores (Shinerais), 24.565 motos; 8.802 50cc (Bizz); 145 micro-ônibus, 236 ônibus e outros. Uma proporção maior que da capital, com seus 337 mil, porém com seis vezes e meia a população de Itabaiana.
Ainda por cima outro aspecto: exceto na nova Zona de Expansão, praticamente toda a cidade é também área comercial. Demandando espaço para carga e descarga, além de estacionamento rotativo para a clientela.
Outro agravante na cidade é que, como não o transporte coletivo tradicional, por bonde ou ônibus, a cidade acaba atulhada de veículos particulares, seja de consumidores, de empresários ou funcionários. Domesticamente se ajeita os problemas de espaço com o uso dos biciclos, especialmente motos; porém, mesmo assim o espaço é pouco.
Enfim, com a um traçado urbano feito para meados do século passado, de ruas estreitas e com a explosão no número de veículos das últimas duas décadas, resta ir adaptando até quando possível.

Em vinte anos a frota de automóveis decuplicou na cidade; a de caminhonetes explodiu, assim como a de caminhões, motos, 50 cc... quase 16,5 vezes o total. E as ruas continuaram estreitas como há 50 anos atrás.



sexta-feira, 30 de junho de 2023

JOÃO MARCELO E A FESTA DO MASTRO.

 

João Marcelo, fora do carro, com Luiz Gonzaga, o Rei do Baião; Dominguinhos, ao volante; e Anastácia, junto com outro artista no banco traseiro. À direita, santinho pós-morte.

“Eu fiquei tão triste, eu fiquei tão triste naquele São João; porque você não veio, você não veio alegrar meu coração” (Antônio Barros e Cecéu, Brincadeira na Fogueira)

 

Neste São João, mais uma vez tivemos menos festa; ao menos a do Mastro. Com registro fotográfico por Miguel Teixeira da Cunha em 23 de junho de 1908, mas que de origem desconhecida. Talvez de desde os tempos do Segundo Reinado; talvez até herdada do Tabuleiro do Caboclos, muito depois de provável aldeia boimé, e muito antes do depois, Bairro São Cristóvão.
Já a continuidade da festa, mesmo frente às modernidades das décadas de 1950, 60, e 70, só foi possível graças a têmpera 'moitchapan' de João Oliveira, popular João da Macela ou João Marcelo(*), que a segurou
, liderando por pelo menos quatro década seguidas, com ou sem ajuda da administração municipal.
Em recente crônica, meu confrade na Academia Itabaianense de Letras, o médico Dr. Luiz Carlos Andrade traduziu com perfeição o que significou aquela festa popular, profana, numa cidade até então só dedicada ao trabalho e as atividades sacras da matriz de Santo Antônio e Almas. Não só no imaginário infanto-adolescente como no adulto; repito, numa cidadezinha em que não acontecia quase nada.
João Marcelo nasceu no dia 12 de maio de 1912, e provavelmente não esteja entre os garotos, alguns trajando o odiado mandrião das fotos de Seu Teixeirinha. É que segundo o fotógrafo e pesquisador – além de outro monte de coisas – meu também confrade na supradita Academia, Robério Santos, a última foto de Seu Teixeirinha foi o desgostoso e revoltado registro do pomposo Mercado Municipal “Cabaú”, derrubado em janeiro de 1919, logo após a morte de Manuel Batista Itajaí, a mando do Coronel Sebrão (José Sebrão de Carvalho, tio). João Marcelo aí tinha somente seis anos de idade, e provavelmente ainda não tinha essa liberdade de entrar em festa alguma.

Festa do Mastro, entre 1900 e 1908, na Rua das Flores (atual Mal. Floriano Peixoto), tomada a partir da início da Rua do Sol (atual General Valadão). Observar o garoto, à esquerda, trajando mandrião branco.

Desconhecemos qualquer registro sobre a continuidade da festa nas décadas de 1920 e 30; mas, no início dos anos 1940, ela passa a ser registrada normal e seguidamente.
Em 1970, com a mudança de fonte do mastro, símbolo da Festa, das matas da Fazenda Grande para as matas do Poço das Moças, hoje Parque Nacional da Serra de Itabaiana, eu, garoto de dez anos vi com meus dois olhos e me encantei com a passagem de volta do cortejo, movido a som de pífanos, caixa e zabumba no Rio das Pedras, onde hoje se localiza os triplos quebra-molas.
Porém, em fins dos anos 70 a festa começou a minguar, à medida que também entravam os modismos da TV, e o velho 'moitchapan' mais envelhecia. Até que na segunda metade da década de 1980 ficou semi-mobilizado.

João Marcelo, sentado, ao centro, atrás do pandeiro, 23 de junho de 1944.
A família e amigos ainda tentaram dar uma energiazinha; mas insuficiente diante da avalanche de festas e outros entretenimentos. Ao menos neste século atual, não me consta que tenha sido de novo tentada. Desde 1999.
João Marcelo de Oliveira faleceu em 09 de julho de 1991, depois de uma vida exemplarmente profícua, e descansa, sepultado no Cemitério de Santo Antônio e Almas de Itabaiana.
Coincidentemente, a Câmara Municipal de Itabaiana o homenageou com o nome de uma praça, próxima à primeira fonte de seus mastros, no Conjunto José Luiz Conceição, do mesmo Bairro São Cristóvão onde provavelmente nasceu a Festa do Mastro.
 
À direita, em 1988, já alquebrado pelos anos assiste os heroicos brados de resistência de amigos e familiares, que cessariam em 1999. Na foto preto e branco, um dos primeiros taxistas de Itabaiana, no início de década de 1940.


(*) Macela, nome de planta – e não Marcela, nome feminino italiano – é o riacho desaparecido sob a atual cidade, e cuja parte visível, em verdade hoje é o açude. O Marcelo, de João é a conversão do seu apelido toponímico “Macela”.