sexta-feira, 2 de agosto de 2024

A SEGUNDA PEREGRINAÇÃO DE SANTA DULCE

Há dez anos, modestamente eu andava como siri na lata. 

Como itabaianense, a beatificação da Irmã Dulce pelo Vaticano, em 2011; e conhecendo, mesmo que perifericamente, a grandeza do seu trabalho, e respectiva resposta de seus assistidos e de admiradores, tinha como certo que o processo de canonização, era questão de tempo.

E a mente não parava.

Nos idos de 2015, em privado e nas várias conversas que tínhamos, particularmente eu e Juarez Ferreira de Gois, com quem sempre dividi sonhos impossíveis para Itabaiana, sempre lamentávamos a nenhuma disposição da turma local do poder – financeiro, e, ou político – em se interessar pelo assunto, toda vez que sorrateiramente, com medo de ser internado como louco, a alguns deles abordávamos.

Itabaiana deveria ser grata à mulher santa, que aqui se manifestou milagrosamente pela primeira vez. Também pensar em receber visitas. Não mais compradores de ouro de fins da década de 1970; mas peregrinos, ávidos por conhecer nossa cidade, locação do milagre, enfim.

Trazer gente para cá. Nenhum lugar vai a frente sem receber visitas.

No dia 10 de maio de 2015, numa conversa que tive com Juarez, falei da minha visão sobre Anselmo Rocha, filho de Frei Paulo, mas itabaianense e itabaianista de coração, orador do ginasial do Colégio Estadual Murilo Braga, turma de 1966, engenheiro e soteropolitano por adoção. Experiente nas velhas estradas do Império Romano, e que há quase um milênio conduzem peregrinos a Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha, seria a pessoa certa para dar um toque; um pontapé, que talvez viesse acordar os dorminhocos.

Dito e feito.

Turma pioneira, saindo de Salvador e em direção a Itabaiana.
Embaixo: Cartão de Visitas no totem da cidade

A partir de 2017, num trabalho de formiguinha, muita prudência, recuos estratégicos e avanços colossais e foi estabelecido pelo Anselmo o Caminho de Santa Dulce, hoje parte do sistema mundial. 

Óbvio: ninguém contava com uma pandemia que deixou o mundo todo ajoelhado e com medo do pior. Mas enfim, passados os tempos sombrios, chegaram a Itabaiana os alegres pioneiros no ano passado. Momento histórico, para sempre guardado.

E, incontinenti, rapidamente formou-se aqui a peregrinação local que levou milhares às colinas onde primeiro Sergipe recebeu um governador-geral do Brasil, 1619, D. Luís de Souza, e agora, com a imagem de Santa Dulce recebeu festivos peregrinos.

Domingo próximo, dia 4, será, portanto, a segunda edição. E eu, e já me garantiu Juarez, estaremos presentes. Vamos nos somar aos alegres caminhantes.

Que Santa Dulce nos proteja, dê vida e saúde.



segunda-feira, 29 de julho de 2024

O PANORAMA

 

Ontem, 28 de julho, definiram-se as candidaturas ao cargo que começou exercido desde 16 de junho de 1700 por João da Costa Feyo, digo, por Manuel da Costa Morgado, que o efetivou, quase dois anos depois, uma vez que Feyo declinou por algo mais interessante para ele: o cargo de prefeito de Itabaiana. Assim chamado desde as reformas revolucionárias de 1930.

A título de informação, os cargos máximos de administração municipal tiveram o nome de alcaide até as reformas pombalinas de meados do século XVII, depois presidente do conselho municipal, intendente durante a República Velha, e por último, prefeito.

Ontem, 28 de julho ficou definido, pelejarão eleitoralmente, o ex-prefeito Valmir dos Santos Costa, o Valmir de Francisquinho, e o arquiteto e empresário Edson Passos, candidato pela segunda vez.

Nenhuma surpresa. A política itabaianense segue entre o chefe maior, e a oposição. Como tem sido desde Batista Itajaí, até recentemente, no apogeu de Luciano Bispo, na primeira década desse século.

Nunca existiu “a terceira força”, e continua sem existir. O eleitorado é conservadoríssimo.

O eleitorado itabaianense penaliza, sobremaneira, a aqueles que não entraram com cara de vencer; com cara de vencedor. 

Agora a fase de vencedor é esta pela qual passa Valmir Costa. Mesmo que a segunda força, historicamente tenha sido sempre forte, quase ameaçadora, em geral levando cravados em torno de quarenta por cento do eleitorado, ela somente foi exitosa em virar em 1988, justo com o supracitado Luciano Bispo, alicerçado nas esmagadoras popularidade de Djalma Teixeira Lobo e José Queiroz da Costa, e no manejar com maestria da máquina pública pelo então secretário de governo, José Carlos Machado; além, é claro, do trabalho do próprio candidato vitorioso de 1988.

Também, nos 120 anos de eleição para prefeito, antes denominado de intendente, somente em duas oportunidades – exatamente de Luciano Bispo contra Valmir Costa, depois de Valmir Costa contra Luciano Bispo – houve goleada de votos. Luciano Bispo ganhou em 1996, da chapa Maria do Carmo de Mendonça – Valmir Costa, por mais de 66 por cento; e Valmir Costa, vinte anos depois, em 2016, agora como cabeça da chapa devolveu a Luciano Bispo e seu candidato e irmão, Roberto Bispo, na mesma medida. Fora disso, tem havido dois ou no máximo oito pontos de diferença entre o mais votado e menos votado.

Luciano Bispo, incontestavelmente é o líder isolado da oposição; porém aparenta somente ter força para mais uma eleição de deputado estadual daqui há dois anos. Se o for, será o líder mais longevo entre todos os políticos, nos 350 da História política itabaianense, título, com o atual mandato, já dividido entre ele e o Coronel Sebrão, da República Velha: terminando o mandato Luciano, cravará 44 anos de liderança. 

Seu natural candidato, Edson Passos, pessoa benquista na sociedade itabaianense, contudo, não lidera, uma vez que Luciano Bispo, como Sebrão, jamais admitiu sombra; e continuará isolado na liderança, que morrerá com ele, simbólica ou literalmente.

Itabaiana só vota no líder. Ou em quem o líder máximo mandar.

Por outro lado, a composição de chapa da situação, na convenção do PL, no último domingo deixa clara que Valmir Costa continua com o firme propósito de assumir o governo do Estado, numa nova eleição, obviamente, já que na passada deram-lhe uma breve carteirada. Se o deixarão dessa vez, só os astros podem prever; contudo, ao escolher a dedo um partidário de sua inteira confiança para a vice-prefeitura, sinaliza ele que, pode ser, sim, candidato ao governo do Estado em 2026. Fica faltando apenas imitar Napoleão Bonaparte e desposar uma nobre de família em dificuldades. Concretamente, depende, pois, do furor judicialista, inaugurado há uma década com o lavajatismo. Muito mais do que do eleitorado, francamente simpático à sua liderança, num estado de robôs teleguiados, mediante planilhas e personagens ocultos ou nem tanto de olho no Tesouro estadual.

A escolha, portanto, de José Paes dos Santos, o Zequinha da Cenoura, é providencial para Valmir Costa. A estabilidade política e administrativa porque ora passa Itabaiana, deixa claro, que a pergunta de Hemingway, “Quem na trincheira estará ao teu lado?”, importa muito. O atual prefeito, e sua mão direita em ambas as administrações, Adailton Souza, confirma isso.


terça-feira, 16 de julho de 2024

MINHA VITORIOSA CAMPANHA A VEREADOR.

 

Há exatos vinte anos - duas décadas - uma decisão, de certa forma, mudou a minha vida: me candidatei ao cargo de vereador, perdi a eleição, e quando vi, tinha virado historiador.

Em 2004 eu vinha de uma média militância política, do então lado hegemônico, de 20 anos, depois de um curto estágio no PT local, onde o subscrevi como fundador e primeiro presidente do diretório municipal, eleito em 16 de agosto de 1981.

Como todos os jovens idealistas itabaianenses de então – muito poucos – eu queria transformações rápidas; e, tão logo se consolidou um grupo viável de oposição, em 1984 deixei as querelas teóricas de esquerda de lado e mergulhei na mudança que haveria de haver. Eram tempos de fim de ditadura e da carga ideológica que isso traduzia.

Duas décadas depois, em 2004, cansado, decepcionado, amadurecido, resolvi romper literalmente com o passado e nele mergulhar, agora muito mais longe como pesquisador e não mais como torcedor desse ou daquele cordão.

No desânimo com a política partidária – a ala a quem me achava pertencente – cinco anos atrás, havia descoberto o mundo mágico da internet, e por ela, algo de que ressentia muito em não ter acesso: as bibliotecas.

Especialmente a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde, acessando-a por conexão discada (sempre depois da meia-noite, com impulso único de DDD), entre 1999 e 2002, vasculhei tudo que podia, maravilhando-me a cada vez que aparecia o verbete Itabaiana. Praticamente tudo desconhecido para mim, e talvez para a maioria dos profissionais. Depois constatado que muita informação foi minimizada e desprezada.

Em 26 de março de 2001, com ajuda do meu garoto primogênito, pus o primeiro sitio (site) de Itabaiana no ar, já enriquecido com muita informação, então inédita sobre o passado pouquíssimo conhecido de Itabaiana, até então, mas que jazia nos escaninhos dos vários fundos documentais.

Mas, em agosto de 2004, o site Itabaiana.inf.br havia se tornado pesado demais para eu gerir. E, parado, sem dinamismo, eu não queria com ele permanecer. Tirei-o do ar.

O Itabaiana.inf.br fazia duas provocações: uma era o aumento exponencial de conhecimentos sobre a cidade, para o mundo; e a outra, uma forma de estimular a geração de um provedor local. Isso numa época de conexão discada fazia toda a diferença, pela eliminação do chamado DDD, Discagem Direta à Distância, pelo qual se pagava horrores a cada minuto conectado.

E aí veio o Itnet. Menos de seis meses depois - já que ninguém quis trazer antes - o novo provedor, genuinamente itabaianense estava no ar. 

Achei-me meio derrotado por desativar meu modestamente rico conteúdo; mas a internet menos cara estava garantida. E eu fiquei com uma enormidade de dados à mão sem ter como compartilhar com ninguém.

Então veio a campanha vitoriosa de vereador.

Rompido com meu grupo político, a quem, em verdade nunca pertenci, e sentindo certas estranhezas no ambiente de trabalho forcei a barra numa candidatura que, já antevia, paupérrima em grana e votos. Dos mais um mil amigos “de carterinha”, apenas 81 sufragaram meu nome, nas urnas, em 3 de outubro de 2004. Não me decepcionou. Porque o meu principal objetivo, o de levar, de forma tópica, o mais resumida possível, a História de Itabaiana a cerca de 17 dos então 20 mil lares, foi exitoso.

A História de Itabaiana entrou definitivamente na academia e até na curiosidade popular.

E não mais voltei a me candidatar. É que um raio, dizem, não cai duas vezes num mesmo lugar.

Eppur se mouve


segunda-feira, 8 de julho de 2024

ENTRE SER JIPE E SER TRI-TREM


Era pra tudo se resolver nos velhos e viciadíssimos conchavos; mas, na iminência da Abertura Política de 1979, em 1975, o engenheiro José Rolemberg Leite, tetraneto de Jose Matheus da Graça Leite Sampaio, ao assumir o Governo do Estado, como era previsto à época, nomeou um novo prefeito para a capital; e, ao fazê-lo, não escolheu entre as velhas raposas viciadas, supostamente enobrecidas, cheias de penduricalhos de compromissos familiares e de grupetes; verdadeiras máfias que sempre travaram Sergipe: escolheu o jovem engenheiro e empresário João Alves Filho. João deixou a Prefeitura de Aracaju imbatível para o governo do Estado, o primeiro desde Seixas Dória a ser pelo voto. E o Negão do Povo ganhou de goleada. 

Em Itabaiana, que nunca chega próxima a unanimidade eleitoralmente em cada eleição, somente em duas o grupo vencedor o foi com mais dois terços do eleitorado, e numa, a de governador em 15 de novembro de 1982, com mais de três quartos, mais precisamente 82 por cento.

Mas no governo, foi diferente. A quase unanimidade baixou a níveis críticos e, doravante, o que era para ser um novo tempo em Sergipe, nalguns aspectos retornou ao clima de cizânia que sempre imperou no estado, desde que Salvador deixou de manipular os coronéis locais do açúcar.

De fato, Sergipe nunca decidiu se quer ser jipe ou tri-trem, para usar uma linguagem tipicamente itabaianense. Seus altos e médios sinecuras, amparados no estamento, praticamente todo viciado desde 1650, quando o governo, de fato se efetivou por aqui, é quase todo de famílias nobres ou seus apaniguados, e travam qualquer um que ouse um pouquinho mais.

Emblematicamente, a fase de maior crescimento sergipano foi a do Segundo Reinado que começou com a coroação de D. Pedro II, em 18 de julho de 1841, ao infame golpe de 15 de novembro de 1889. Neste período, uma sábia manipulação dos poderes locais pela Coroa, levou o estado aos patamares invejáveis de desenvolvimento, só torpedeado seriamente pela primeira epidemia de cólera, em 1855, e com novo abalo na segunda, em 1863, e a grande seca de 1869-1878. Contudo, a população que em 1855 caiu cerca de 40%, em 1890 havia sido recuperada integralmente, e o estado estava entre os 15 mais populosos da suposta federação... do café-com-leite.

O “liberou geral” da República, com o renascimento do poderio total do caciquismo local, focado somente nos próprios umbigos, atrasou o estado; que só tardiamente veio reagir, depois de perder completamente o ritmo. E sem mais a centralidade sábia do Segundo Reinado, mesmo sob as duas ditaduras pelas quais passou, ficou sujeito as intempéries da política paroquiana, anacrônica e letal ao desenvolvimento. 

Progresso possível, somente sob martírio dos seus operadores, todos pagando grande tributo à ignorância, à preguiça, à inveja, arrogância, à má vontade, como José Matheus da Graça Leite Sampaio; Manuel Ribeiro Lisboa; Maurício Graccho Cardoso; José Rollemberg Leite, (três mandatos); João Alves Filho (quatro mandatos); e a última grande vítima: Marcelo Deda Chagas.

O único a se safar da sina de pagar caro por querer um estado grande foi João Gomes de Melo, o Barão de Maruim. Que fez tudo certinho. Primeiro, ganhando musculatura financeira, para então entrar no vespeiro. Vinha ele com a sorte de contar com o controle central do Segundo Reinado, logo sem a mesquinharia típica dos senhores de engenhos empoderados a perturbar. Entretanto, teve que se abster de mais avançar pelo colossal azar: o aparecimento de uma epidemia, justo no momento máximo de suas transformações impostas a Sergipe com a mudança da capital, qual, sabiamente não quis assumir, creditando tudo ao simples ordenança, de nome Inácio Barbosa.

Assim, desde Manuel Pestana de Brito, Sergipe tem se mantido entre ser jipe e ser tri-trem, com sua elite se cotizando nas raspas dentro do butim, de vez em quando por elas se comendo; mas sempre alerta contra qualquer “aventureiro” ou mesmo descompromissado com o status quo, apesar de branco, olho azul, nobre, de genealogia gorda.

E, como na Magna Grécia, só um macedônio para levar o estado à merecida grandeza.

Salve os 204 anos! Que não são muito diferentes dos 434 totais.


quinta-feira, 4 de julho de 2024

DIA DE SANTA IZABEL: E TERMINA O CICLO JUNINO TRADICIONAL.

Curiosamente, passei mais de quatro décadas sem ver o ciclo completo de fogueiras comemorativas que alcancei, ainda menino, na zona rural.

O ciclo de fogueiras começava com São José, no dia 19 de março; tendo sequência nos 12 e 13 de junho, alusivas a Santo Antônio; o clímax do 23 e 24; a repetição pelo são Pedro e São Paulo, respectivamente em 28 e 29; e, finalmente, o dia 4 de julho, Dia de Santa Isabel de Portugal, já bem menos febril, com minoria lembrando da data.

Há pouco uma vizinha, de família tradicional, como tem feito todos os anos desde que próxima de mim chegou, acendeu a última do ciclo, ao que ela é bastante fiel. Isso lembrou-me que, especialmente quando residi no pé da serra grande, do quanto ficava fascinado com a enorme quantidade de fogueiras avistadas, desde o telheiro de nossa casa, nas datas referidas, logo depois do anoitecer, num tempo em que na zona rural do município de Itabaiana, só havia energia elétrica no povoado Ribeira.

Fogueiras são recursos de aquecimento, iluminação e segurança humana desde que o ser humano desenvolveu a técnica de lidar com o fogo.

Fogueiras comemorativas também se perdem no tempo suas concepções, sendo comum a todas as culturas.

Conta Sebrão o Sobrinho que na reunião dos Boimés, à beira do riacho da Canabrava, em que amaldiçoaram os mathiapoanes, houve enormes fogueiras para que Tupã tivesse maior percepção do evento. Cordatos, os boimés foram expulsos e reduzidos; bravos, os mathiapoanes lutaram até o último homem, e suas filhas espalharam genes por toda a nova geração dos invasores portugueses.

A lenda do índios boimés: a fogueira presente.

Porém, voltando às fogueiras do ciclo junino, organizada e cristãmente, elas entraram na cultura brasileira pelo Nordeste, e, segundo Frei Vicente do Salvador, em publicação de 1627, foi um ardil tomado pelos padres, especialmente da Companhia de Jesus – os jesuítas – para atrair os relapsos indígenas aos cultos, que tiveram de serem adaptados para algo menos triste, pesado, de expiação de culpas, para uma coisinha mais alegre. Estavam aí criadas as bases das festas juninas. Que a cultura lusitana fez uma gracinha com os seus santos, iniciando com Santo Antônio e terminando com Santa Izabel. Não a mãe de São João Batista; mas a de Portugal, das primeiras rainhas do recém criado reino português.

Tenho o privilégio de saborear essa tradição quatrocentona, portanto, cujo ciclo termina hoje, para esse ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e vinte e quatro.


quinta-feira, 27 de junho de 2024

ITABAIANA RUMO AOS 350 DE FUNDAÇÃO-ECOS DO PASSADO II


 As perdas de São Miguel
2ª parte

Do próprio bolso, mesmo a maioria tendo que pagar aluguel das terras, os curraleiros (criadores arrendatários de terras para criar) levantaram a primeira ermida dentro das serras; e, fiéis à lusitanidade, a dedicaram ao santo português de maior prestígio: Santo Antônio. 

Santo Antônio foi franciscano de primeira hora, tendo convivido com São Francisco de Assis; e a primeira ordem religiosa e entrar no Brasil foi a dos franciscanos.

Quando as tropas de Maurício de Nassau invadiram Itabaiana, em julho de 1637, atrás de gado e prata, já encontraram uma capela construída nos padrões da então progressista Itamaracá, hoje em Pernambuco.

A Igreja Velha, da década de 1620, foi a primeira tentativa de fundação da cidade.

Nassau, não veio. Talvez pela contrariedade de perder Domingos Fernandes Calabar, na mesma semana, garroteado por traição por Matias de Albuquerque em Porto Calvo, mal chegou a Penedo, sofrendo terrível diarréia, delegou a invasão de Sergipe, rumo à Itabaiana a Sigismund van Schkoppe, que aqui chegou com sua soldadesca, em 17 de julho de 1637.

Com o retorno de Nassau, antes de chegar a Sergipe, demos o azar de não ter Frans Post por aqui para registrar numa magnífica tela a Itabaiana-açu ou simplesmente serra de Itabaiana, atualmente

Fazia sete anos que uma única cabeça de gado não atravessava o rio São Francisco, deixando os engenhos pernambucanos sem bois pra puxar as cargas nem girar as bolandeiras, muito menos matar a fome de carne.

Os holandeses ficaram por aqui durante todo o governo de Nassau, que terminou em 1645, quando contrariado com a agiotagem holandesa extremada, entregou a cargo, retornando com sua comitiva de técnicos de governo, artistas e cientistas para sua casa na Renânia, parte da hoje Alemanha.

Entre 1645 e 1651, já sob governo português reinou certas expectativas e apreensões. E a matriz de Santo Antônio nada de se consolidar. Sequer receber a licença episcopal para receber padres a rezar missa. E naturalmente crescer o embrião de um novo município: a cidade.

Não era interesse de Salvador, que manteve Sergipe como quintal, mero fornecedor de bois; muito menos de São Cristóvão, lutando pela própria sobrevivência, sem rendas no que veio a se tornar o próprio município, e dependendo prioristicamente do gado de Itabaiana para se manter e da pequena criação de equinos e produção de fumo de Lagarto.

Em 1656 o próprio governador da capitania, Manuel Pestana de Brito ganhava mais criando seus bois em Itabaiana do que o salário de governador, e morando numa cidade que de povoação só tinha o nome. E aí o caldo entornou na primeira derrama da História do Brasil – a do gado – quando Salvador decidiu enviar um plenipotenciário para cobrar os atrasados, supostos ou reais.

Num ato de desespero a massa dos curraleiros de Itabaiana e alguns de Lagarto invadiram São Cristóvão em 5 de novembro prendendo o padre Sebastião Pedroso de Gois, única autoridade presente e leal a Salvador, além de óbice na luta pela criação da paróquia de Santo Antônio de Itabaiana. A Rebelião dos Curraleiros terminou com uma devassa na nascente sociedade de proprietários sergipanos, com acusações forjadas, condenações sem provas, inclusive do próprio governador, apontado como líder da rebelião. Observando que até aí, todos os governadores de Sergipe tinham sido indicados pela Câmara de Vereadores de Salvador; Pestana de Brito, foi pela própria corte restaurada portuguesa. Independente. Coisa que Salvador não permitiria.

Os processos se prolongaram até 1662. Quando foi em 1663, com Itabaiana esvaziada, foi a vez de Lagarto se impacientar.

Dessa vez foi contratada uma força especial, conhecida com os paulistas, porque a maioria oriunda da vila, hoje mega cidade de São Paulo, e que depois os próprios paulistas romantizaram-na de bandeirantes. Veio ela para reprimir com todo o rigor, e mesma não tendo motivos, porque a rebelião não prosperou. Mesmo assim ainda andou cometendo barbaridades.

E aí, numa clara tentativa de controle, e aparente boa vontade, o sobredito Padre Sebastião Pedroso de Gois criou naquele 1665 a Irmandade das Santas Almas do Fogo do Purgatório, de orientação beneditina – e não a franciscana de Santo Antônio – tendo São Miguel Arcanjo como patrono, e futuro padroeiro de uma longínqua paróquia em Itabaiana.

Em 1672 a paz voltou à capitania de Sergipe. O medo da prepotência das autoridades colonias reduziu intrépidos homens a destroçados, e a vida seguiu.

A Restauração do governo português, em 1640, custou e ainda custa caro ao mundo lusitano, quase quatro séculos depois. Foi de fato uma guerra de um império reagente - Portugal, totalmente à custa de outro ascendente – a Inglaterra, contra um super império decadente, o espanhol. E os ingleses se aproveitaram para ali começar um império mundial, hoje delegado às suas principais colônias, os Estados Unidos da América. Comendo o império português por dentro.

Em 1670 o então príncipe regente, D. Pedro (o II de Portugal), andava pressionado com as ações cada vez mais ousadas dos ingleses e cresceu os olhos com uma caixa especial, de pedras, levada por Bento Surrel, oficial em Pernambuco, com o indicativo de ser proveniente de Itabaiana: as pedras continham prata. Seria a chance de se libertar do assédio inglês, sem correr o risco de ser reconquistado pela Espanha.

Entre 1671 e 1673 preparou sigilosamente uma expedição para finalmente encontrar a prata de Itabaiana, já tentada pelos espanhóis em 1619, e pelos holandeses em 1637.

Em 11 de julho de 1674 D. Rodrigo de Castelo Branco, o chefe da missão entrou com seus oficiais de alta patente e soldadesca dentro das serras para procurar a dita prata.

Como Itabaiana está próximo do mar, a uma média de cinquenta quilômetros de distância, trazia ele ordens expressas para fundar, não uma vila, um mero município naquela época, administrativo; mas uma cidade típica, um forte com torres, fosso, muros, ponte e muitos canhões e força militar permanente. Se encontrasse a prata.

Ora, qualquer povoação sempre tem um templo religioso; e naquela época era obrigatória a matriz, a casa de câmara e cadeia; os cartórios e o juizado que também recolheria o quinto para o rei.

Pelo sim, pelo não, por pressão de D. Rodrigo o Padre Sebastião Pedroso de Gois fundou o núcleo original da hoje cidade de Itabaiana em 30 de outubro de 1675, ao erigir a Paróquia de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. E porque Santo Antônio e Almas, e não somente Santo Antônio, ou São Miguel, protetor das almas?

A urgência e seriedade do momento, e a pressão do rei aplainou quaisquer discórdias e brigas de egos local. Essa é a visão, entre outros do historiador Wanderlei Menezes, com quem integralmente concordo.

Mas São Miguel Arcanjo, não foi totalmente derrotado. Além de preservar no nome da paróquia as suas Almas, ainda ganhou um lugar de destaque no altar-mor da tricentenária matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana.


terça-feira, 25 de junho de 2024

O SÍTIO ENCOLHIDO DE D. CAÇULA TEIXEIRA.

 

Em 1970, quando o Estádio Mendonção foi iniciado, era terra a perder de vista. E olha que, com a passagem da BR-235, hoje avenida Manoel Francisco Teles, tinha repartido a nesga de terra na qual hoje se assenta a capela de São Luiz.

Quando o Estádio foi inaugurado, sobrou um vazio imenso, justo a parte onde um dia ficou a vivenda de João Teixeira e família.

No início dos anos 1980 ainda cabiam na futura praça, dois campos oficiais de futebol de pelada, e mais uns três ou quatro que depois, mais sofisticados, vieram a ser conhecidos como de futebol-society.

Enfim, em 1994, o espaço foi urbanizado; ganhou um charmosíssimo palco, no estilo Parque do Ibirapuera, de São Paulo, capital; e cabia muita gente.

Por outro lado, em 2002, Itabaiana tinha 3.036 de veículos de quatro ou mais rodas, 11,5% dos atuais 26.411. Obviamente sem contar motos, motonetas, quadriciclos, etc., que geram uma cifra astronômica de 73.038 veículos, em números de 31 de dezembro do ano findo de 2023; menos de dois habitantes por veículo.

Ou seja, multiplicou-se por dez o número de veículos, ocupantes de grande espaço; e a cidade, mesmo com a colossal expansão urbana, apenas duplicou. E o Centro, obviamente, permaneceu do mesmo tamanho.

Acima, vista aérea da Praça João Pessoa, em 1986, em dia feira, vendo-se de seis veículos estacionados e um em movimento. e embaixo, a realidade em 12 de abril de 2006. Hoje simplesmente é mais fácil ganhar na mega-sena que encontrar uma vaga.

Também aumentou, exponencialmente, a massa humana que acorre aos espaços festivos.

É bem verdade que a Praça de Eventos Etelvino Mendonça não foi criada para enormes e barulhentos eventos; mas nisso se tornou, logo perdendo suas quadras, e volvendo unicamente para o show-business. Que estancou. O advento dos tapumes, que, desde 2009, restringiu-os apenas ao entorno de quadra principal da Praça, neste ano ultrapassou parte da pista de rolamento e engolfou até a área onde se situam, a Estação Rodoviária e estacionamento do Estádio, adjacente. 

Neste 2024, a mudança da Feira do Caminhão para o estacionamento do Shopping Peixoto, é de certa forma, um grito de alerta de quem não tem mais espaço para nada. 

Vai ter que ser repensado outro local para mega eventos.

Os tempos da “superagitação” de Rolopeu e seus vinte, no máximo trinta caminhões, acabaram. Lembrando que, até 1992, nenhum show, ou exposição, existia na cidade.

E o velho sítio Santa Cruz de D. Caçula Teixeira não aguenta mais festas desse porte.

Mas, não só a Praça de Eventos Etelvino Mendonça – área do citado sítio - está saturada. Todo o Centro da cidade hoje é território saturado, que nem o criativo recurso das motocicletas (quase 40 mil unidades em duas rodas) está resolvendo o problema de espaço para estacionar. A cidade hoje tem um veículo de quatro ou mais rodas (desde automóveis a tri-trens) para quatro habitantes. Haja espaço.

Estacionamento do Rua Barão do Rio Branco: já começa a faltar espaço até para as motocicletas.
O sítio de D. Caçula até que comportaria. Desde que só fossem os 10 a 30 mil pessoas presentes nos shows. Sem seus carros a entupir as vias circunvizinhas, a até um quilômetro de distância, como na última Festa do Caminhoneiro. Que, repetindo, já foi repartida em duas, com a Feira ocorrendo no Shopping Peixoto.
A inevitável invasão dos espertos: 12 de junho e os flanelinhas assegurando estacionamento para futuros clientes do show logo mais