sábado, 24 de janeiro de 2026

DE SUCESSÕES.

 

A República Velha, e seus terríveis vícios, voltou com força. Sem nunca ter saído de fato. Da primeira vez ela derrubou o Sergipe ao penúltimo lugar dos estados brasileiros...

Um lugar vai bem quando tem sucessões equilibradas no seu governo.

Nada mais nefasto do que a estabilidade total; nada mais aterrador que a instabilidade total.

A primeira, leva inexoravelmente aos vícios; donde o menos danoso é a preguiça. No segundo caso - da instabilidade - só a bandidagem prospera num clima de comoção total.

Entramos em mais um ano nervoso, com todo mundo de olho nos cofres da viúva, nos níveis, estaduais e federal.

Domesticamente, a nós, itabaianenses, interessam a Presidência da República e o Governo do Estado. Quem manejará as verbas, os investimentos. E, obviamente, conduzirá a máquina pelos próximos quatro anos, após janeiro vindouro. Seja em Aracaju; seja em Brasília. 

Em Brasília, permanece a incerteza, com um presidente enfraquecido, porém o único político que restou de pé, a dar algum sentido a uma nação dividida ao meio; e uma oposição supostamente caótica, porém coordenada pelo Departamento de Estado americano e seus soldados da Faria Lima e tentáculos na mídia grande e estamento, em geral. (Será que um dia esse país ainda será independente???)

Em Aracaju, caminhamos para mais um pleito estressante, onde o estado profundo - o que realmente manda, apesar de caótico, "Mateus, primeiro os teus" - ditará mais uma vitória do candidato "confiável", o atual governador, reconduzindo-o ao cargo, com o natural comprometimento total, engessado pelos retrógrados, que deixa morrendo de inveja os então presidentes do Estado, na República Velha, que em duas décadas derrubaram Sergipe do nono estado mais rico para vigésimo segundo no Brasil.

A torcida é por milagres.

Muito mais em Sergipe que no país.

Valmir Costa, em Sergipe, foi o único político com musculatura suficiente que sobrou nesse moinho de moer lideranças políticas. Mas Sergipe profundo o obsta, trava, a qualquer custo. Os motivos? Ora, inventa-se! Como certa vez afirmou o saudoso Raymundo Faoro: “(...) até pelo prazer de confirmar a profecia”.(*)

A prefeita da Capital, segundo maior poder no estado, não vai. E o governador está livre para viver alegremente sua prisão, num estado que moeu gente do naipe de José Rollemberg Leite, João Alves Filho, triturou ao pó, Marcelo Déda, e até Augusto Franco e seu filho, Albano, penaram nas mãos da velha máquina sergipana de destruir futuros.

Mas... política é como nuvem: a cada segundo, um formato diferente.

Barco pra frente.



(*) Em dezembro de 1992, depois de cabeçadas, mas principalmente ter desagradado Roberto Marinho, dono da Globo, Fernando Collor estava para ser empichado num Congresso, de anjos, comparado ao atual. O grande jurista Raymundo Faoro, na  IstoÉ, 1212, de 23 de dezembro, página 21, no artigo A semana final, ao analisar a tragédia humana por suas formas de governo em especial o regime republicano, termina com o seguinte período: 

“Uma eleição congressual significa constituir um poder por força de uma representação constitucionalmente viciada. De qualquer modo, já que a previsão existe, em abstrato, fatalmente ocupará as fantasias dos conspiradores de sempre. Sobretudo se o governo falhar; se não falhar procurar-se-á fazer-lhe com que falhe, até pelo prazer de confirmar a profecia”.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A MORTE DO ORELHÃO.

 

Cena da excelente publicidade da agência DPZ, São Paulo, de 1980. Intitulada A MORTE DO ORELHÃO, alertava para a necessidade de conservar o patrimônio público. Não depredar. 

O anúncio, pela Antel, na última terça-feira, de retirada total dos outrora tão úteis telefones públicos, os orelhões – onde ainda existem - desperta memórias nas gerações mais antigas, e marca mais um corte temporal, na era do uso da tecnologia em solo nacional; e, no caso do orelhão da tecnologia nacional mesmo. O nosso jeitinho brasileiro, surpreendentemente barato, útil, e de certa forma, acolhedor. Cálido.

"Apenas 3 minutos". E a ficha (a local) caía e a ligação ia pro espaço, sem nem mesmo pedir a música; ou dar outro recado.

E a música popular, do radialista paulista dos anos 1970-80, Barros de Alencar, Apenas Três Minutos, ficará completamente sem sentido para as futuras gerações.

O telefone público foi inventado nos grandes centros tecnológicos, e no Brasil, demorou muito a se popularizar.

Em Itabaiana, o telefone de fato, só passou a ser rotina em 1978. Apesar de inaugurado em 29 de janeiro de 1930. Em 1933 já há reclamações de não funcionamento. O que se manteve por mais 45 anos, arrancando ácidas críticas do jornal O Serrano, a partir de sua criação, em 1968.

E, coincidentemente é em 1978 que também surgem os primeiros orelhões, o que contribuiu para a primeira febre de trotes, já que por ligação automática, sem intermediários; como também para turbinar as participações populares pelo então 422-1746, na então novíssima Rádio Princesa da Serra.

Desde então, o orelhão passou a ser parte do nosso cotidiano.

Chu Ming da Silveira, a arquiteta inventora de algo revolucionário, que aguentou por 60 anos, fazendo parte da rotina brasileira. À direita, um dos últimos na cidade de Itabaiana, em 2002, em frente à Escola Benedito Figueiredo, Conjunto José Luiz Conceição. A comodidade do celular liquidou tudo.

Escapa-me, contudo, quando o último por aqui deixou de existir. Destes, vi um em frente à Escola Municipal Benedito Figueiredo, em 25 de dezembro de 2002. Desde lá, à medida que se popularizaram os celulares, desapareceram por completo.

Em 1970, Itabaiana tinha telefone desde 1930. Mas não funcionava. Todos particulares, exceto um de uso público, abrigado numa casa. Até 1978. (Pontos no mapa).

Atualmente, segundo a Anatel, somente um município dentro das serras, na grande Itabaiana, possui um único aparelho em funcionamento: Macambira. No próprio município de Itabaiana, nada. E dos municípios sergipanos, somente entre os mais extensos, no Agreste, e principalmente no Sertão, é possível ainda se encontrar algum. Típico de local com cobertura ruim ou zero, da telefonia celular.

E a morte definitiva do velho orelhão, de tantas chamadas aflitas, apaixonadas, e até pra encher saco, de vez em quando, foi decretada.

E lá se vai mais um símbolo da nação real; que tanto imperou na segunda metade do século próximo passado.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

TIRO DE GUERRA 142. DE VOLTA.

 

Entre 1971 e 1976, rumores de retorno se resumiram a rumores. 

E eis que recebo um convite através do amigo, protético de profissão, ex-colega de ECT, ex-vereador, e entusiasta do serviço militar Pedro Edson de Campos, para a inauguração de mais uma etapa do Tiro de Guerra a se instalar em Itabaiana. A solenidade acontecerá hoje, 15 deste janeiro, quinta-feira, logo mais às 11 da manhã.  Será na Praça da Juventude Romeu Alves dos Santos, vizinho ao Ginásio Chico Cantagalo, no Bairro São Cristóvão.

É luta antiga. Antes da década de 1960, foi por uma possível carreira militar, vista como alternativa de emprego. Que passou, desde então, a ser uma questão de honra. E isso tem sido uma preocupação do entusiasta Pedro Edson, que, antes mesmo de ser eleito vereador nas eleições de 1988, já lutava pelo retorno do Tiro de Guerra. Mas sempre dependendo de aportes municipais.

Agora conseguiu.

Apesar da posição estratégica de Itabaiana, um cercado de serras, forte natural, no centro do pequeno Sergipe, forças de segurança nunca foram levadas a sério por aqui. Nem mesmo em se tratando da Segurança Pública. Em 1986 tínhamos menos policiais que em 1858. Hoje, esse contingente me escapa.

As Ordenanças do período colonial, não eram propriamente escolas ou formações militares; mas seus membros referenciados como potenciais defensores, em caso de ameaça de outras nações.

Ordenanças, século XVII. Exceto o comando maior não vencia soldo e eram convocadas quando de uma ameaça maior.

O Exército, que brasileiramente nasceu de pretos, índios e mestiços, na Estância de Henrique Dias do Rio Real em 1640, nunca teve com Sergipe grandes afinidades. Daí a ousadia do Capitão Harro Schacht, em escolher a costa sergipana para afundar nossos navios, naquele infeliz 1942. Não tínhamos absolutamente nenhuma condição de reagir, sem exército, ou mesmo marinha. Apenas tênues representações. 

E, tiro de guerra, há indícios de ter havido aqui em Itabaiana, ainda na época da Guarda Nacional; depois, no curto período da administração euclidiana, e pronto.

As ameaças de revitalização do Tiro de Guerra dos anos 1970, ficaram somente como lembrança nas páginas de O Serrano, e raros discursos na Câmara Municipal. Particularmente, ficaram nas minhas correrias junto aos médicos, em busca de um atestado, no caso Dr. Ormeil Câmara de Oliveira, para me livrar de perder o primeiro emprego ao ficar impedido por seis meses, enquanto durasse o serviço. Nem precisou. Fui “Dispensado por excesso de contingente, e ser portador de polidactilia na mão direita”.

Oxalá o Tiro de Guerra agora dure bem mais que das tentativas anteriores.

Defesa sempre foi o bem maior de qualquer grupo humano. Sem ela, não há segurança; porque tudo que se produzir está sob sério risco. Não há progresso.


Com Sergipe engolido pela Bahia, eis a situação de defesa do muncípio de Itabaiana, em 1787.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

RESGATE HISTÓRICO

 

Já se encontra disponível, na Biblioteca Municipal Dr. Florival Oliveira, Rua Álvaro Fonseca Oliveira, 466, esquina com a Manoel Domingos Pereira, a coleção de 294 volumes do antológico jornal O Serrano, para consulta digital e cópia.

O Serrano, publicação de maior longevidade na história itabaianense, cobre, especialmente, os anos de 1968 a 1977, particularmente os cinco primeiros anos com pouquíssimas falhas, semana a semana. E tentativa de retomada, entre 1983 e 1988, com apenas 29 números no período.

É, portanto, um retrato documental da nossa sociedade, seus dramas, tragédias, infortúnios, sucessos, vitórias, glórias, delas estrondosas, como a primeira conquista de um campeonato estadual de futebol, em 28 de agosto de 1969. Está lá. Eternizado em letras para sempre. Muito além das memórias de muitos torcedores tricolores, que, infelizmente, já se foram.

O drama e consequentes dores de cabeça de Adelardo José de Oliveira, em administrar a magra e incerta renda, para a reforma da matriz de Santo Antônio e Almas; os números, cada vez mais crescentes de ceboleiros vitoriosos nos vestibulares; formaturas, desde o Normal do Colégio Estadual Murilo Braga, às colações de graus, pela UFS, em Aracaju; a luta titânica de José Augusto Machado, para que viesse o curso científico para Itabaiana, concursos, listas de personagens à disposição do júri da Comarca, ou das mesas eleitorais; indenizados pela passagem do asfalto... enfim, um mundo mágico que ocorreu há quase 60 anos, e se mantém ecoando em nossos dias.

Vale à pena uma viagem no tempo.

Na publicação da revista Omnia, dezembro de 2012, Robério Santos, diretor da citada revista e do grupo no Facebook, Itabaiana Grande, sobraçando os 265 volumes encadernados e carinhosamente guardados pelo seu ex-diretor, Abrahão Crispim de Souza, à esquerda; comigo que acabara de o entrevistar à direita. Os demais 29 volumes, foram adquiridos por intermédio de garimpagem de José Queiroz da Costa Filho, Zezinho, junto ao APES, e gentilmente a nós repassados.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

E TERMINA MAIS UM NATAL SERRANO TRADICIONAL.

 

Fui informado que a priori, amanhã, estará se desfazendo mais um clima de fim de ano, popular e resumidamente chamado por aqui de Natal.

Outrora era mais simples. 

Não me recordo de iluminação especial pública, até os anos 1980. Salvo engano, a ornamentação só começou pra valer, mesmo que timidamente, a partir da chegada do Clube de Diretores Lojistas, hoje Câmara, CDL, em 1989, e suas campanhas. Apesar de algumas lojas e residências já a fazer desde uma ou duas décadas antes.

Mas a Feirinha é nossa companheira desde 1924, pelo menos. (Foto acima, colorizada via IA, via o Diego Procópio)

Antes reduzida a uns poucos brinquedos, como o carrossel, já apelidado de Tivoli(*) – trivoli no popular - eternizado por Percílio Andrade, depois ganhou o concurso de balanço, barcas, ondas, roda gigante, chapéu mexicano, montanha russa etc., etc.

Na atualidade, com enriquecimento geral, redução de preços dos insumos, e, claro, vontade política, a festa vem se sofisticando. 

Neste ano desapareceu o monte de barracas de jogos, e ganhamos um castelo que, ao substituir a casa de D. Caçula Teixeira, numa das principais entradas da Praça de Eventos, Etelvino Mendonça, mais embelezou o espaço do antigo sítio Santa Cruz, do casal João Teixeira e da já citada Caçula – a dita praça - permeando de sonhos a garotada, e trazendo certa dose de nostalgia nas gerações de maior quilometragem.

“Agora só no ano que vem”, sempre se disse antes; se diz agora; e, tomara, sempre se dirá.

De fato, não será ano que vem; mas ao final desse que ora começa.

Que venha o próximo Natal!

Montagem, vendo-se a casa dos Teixeira, nos anos 1930, em festa junina. No mesmo local, a administração municipal contruiu nesse ano um castelo, como portal ao parquinho ou feirinha; que, abaixo, em montagem sobre foto do início da Praça, esteve repeleto de pessoas pelos quase últimos 30 dias. No final do ano tem mais.


domingo, 4 de janeiro de 2026

CARAMELO

 “Sabe essas noites que cê sai caminhando sozinho, de madrugada, com a mão no bolso”

(Você Não Soube Me Amar, Evandro Mesquita e outros)


Noite do dia 03 de janeiro, de repente me sinto saturado de festas (e como tem festas na atualidade), declarações de Feliz Ano Novo (a grande maioria, fria; mecânica; e até mais falsa que beijo de rapariga), depois de leve papo com presentemente reduzida família, quero procurar algo que me ocupe o tempo até o sono chegar. E, obviamente esquecer violentos assaltantes. Os comuns; e os oficiais, como o governo da maior empresa banqueira da história – os Estados Unidos da América – como o último assalto, roubo ou garfada (você é livre pra decidir), em cima da Venezuela, um país tampa de um imenso barril de petróleo... e sem uma bombinha atômica sequer. Só bravatas.

Bem, quero relaxar. Esquecer as mazelas do mundo.

A TV aberta, acabou. E continuo a resistir em assinar, pagar para ver uma TV-propaganda

Vou para a velha locação de filme. Não a da loja de até vinte anos atrás; mas a virtual. Americana, obviamente. Via internet. No sistema “corrente”, chamada pelos tabaréus colonizados de “streaming”. Pars servitus, como se diria num fórum romano, vinte séculos atrás. Ou seja, parte, sinal, da nossa servidão ao supracitado império banqueiro, que também planta, cria e fabrica. E faz guerras. Muitas guerras. Um assalto atrás de outro.

Às vezes, passo preciosos minutos, correndo com o controle remoto as intermináveis listas de filmes. Quase tudo lixo. Tudo produto da “caixinha”: sexo, violência, terror, desespero... pronto para preencher o tempo dos zumbis, viciados em cenas tétricas.

Modéstia à parte, acho-me demodê; careta. Não gosto de filmes violentos ou dramáticos, tensos... quando me sento em frente à uma tela é para relaxar; rir, sonhar e até me enternecer. Pra pensar, leio. Pra induzir ao pré-pensamento, vejo documentários. Não os espetaculosos; eivados de breves, ou às vezes grandes mentiras como se fossem verdades. Também a mentira, tem que ser como o dos caubóis: clara e insofismável. Adoro a série Trinity por isso: “Mentiras sinceras me interessam”, já dizia o Cazuza.

Bem, sem mais trololó, ontem encontrei Caramelo. O cachorro mais safado do mundo. Um vira-lata de verdade, magnificamente historiado, numa história simplória, como convém a pessoas comuns, interagindo comumente com um vira-lata comum, que só faltou ter nome de peixe, como disse o grande Luiz Gonzaga, e também grafou o grande Graciliano, entre outros.

Assisti até a última raspa.

Caninamente humano.


Uma grande produção nacional, dessas que despretensiosamente saem da “caixinha” do intelectualismo tóxico, nos aproximando daquilo que continuamos e continuaremos a ser: humanos.

Palmas para os excelentes atores e toda a equipe envolvida, porque sozinho não se faz nada.

E para o Amendoim, o nosso Caramelo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

MUSIQUINHA DE VÍDEO GAME.

Pois, que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? (16 Mt, 26)

Fotograma da cena de O Último Grande Discurso, de O Grande Ditador, em montagem com o mundo dos games, a princípio um inocente passatempo; mas que, parece, com consequências profundas.

"Meu moleque, é inteligente!" Dizia-me um velho amigo em fins dos 90, sobre um filho, então fera no vídeo game.

Ora, “não sois máquinas; homens é que sois”, dizia o Adenoid Hynkel, personagem de Charles Spencer Chaplin, o eterno Carlitos, no Grande Discurso do filme o Grande Ditador, 1940. 

E, a máquina, por mais sofisticada que um dia venha a ser, jamais atingirá a capacidade humana. 

Exceto, se num processo de inversão, ela tornar toda a humanidade limitada como ela. Emburrecida.

A Feirinha de Natal, há um século realizada. Inicialmente com efêmeras apresentações das nossas bandas, incorporaria a presença de som eletrônico a partir de 1954, e ainda hoje indissociado em cada edição anual.
Acima, em foto de Percílio Andrade, a realização na Praça Fausto Cardoso;
Embaixo, repetição da cena, cem anos depois, no último fim de semana.

De casa, 300 metros em linha reta para a Praça Etelvino Mendonça, onde está a Feirinha de Natal, desde 1970, ouço musiquinhas lá tocadas, todas fanks ou fankeadas, cariocas, obviamente; umas “criações” originais; outras, “estupradas”, como a tristíssima cópia da lindíssima “Sálvame” do grupo mexicano RBD.
Aí não tem jeito de não partir para o comparativo; para o saudosismo; de quando eram lançados os ricamente arranjados e produzidos discos de Roberto Carlos e a reca de excelentes artistas que o seguia nos lançamentos de fim de ano, na Feirinha, entre “um alguém de camisa listrada, para outro alguém, morena, trajando macacão jeans, a música que segue”. É! Eram assim os “presentes musicais”; os oferecimentos aos candidatos ou candidatas à paquera. E a feirinha de Natal era campo de caça ao sexo oposto.
A dita música, literalmente uma espécie de "samba de uma nota só", repete ad nauseam, palavras e curtíssimas expressões, quase sempre chulas, no mínimo vazias, torpes, paupérrima. Dignas de cérebros de minhocas.
Nada de produções, como a original da citada “Sálvame”, ou da repetitividade criativa do Bolero, de Ravel; de fato, é daquelas musiquinhas irritantes de vídeos games mesmo, de desde os anos 1980. Só para manter o foco num parâmetro único. Atrofia intelectual. Emburrecimento, ao contrário do que apregoava aquele meu amigo, embevecido com a “inteligência” do filho em ganhar todas, contra uma máquina, muito mais elementar que as de hoje. Abuso da Programação Neurolinguista(PNL). Infelizmente, nas últimas quatro décadas, as massas foram programadas neurologicamente com os repetitivos toques dos joquinhos.
E no último sábado, além da sofrível trilha futurista, seguindo a linha, mais um show ao vivo até as cinco da manhã. Palavrões, revoltas sem revolta, escandalizações gourmet, insinuações sexistas, e a mesma pegada na batida eletrônica do “samba de uma nota só”. Mais vídeo game.
Em resumo, concluo que a musicalidade atual é fruto da quebra do sistema de produção e distribuição de música, ajudada pela padronização neuropsicológica do massivo uso do vídeo game (desde os poderosos, conectados às TVs, aos portáteis, pequenos) e suas malditas musiquinhas de uma nota só. Todo mundo desaprendeu a ouvir sons mais complexos, ricos e harmoniosos.
Estamos nos rebaixando às máquinas.
Praça Etelvino Mendonça, início dos 90, pouco antes da pavimentação. O serviço de som sempre presente, na Feirinha, repetindo o modelo dos programas de rádio da época, trazia sucessos e "flashbacks", que eram oferecidos, em geral e anonimamente pelos(as) paqueradores(as) aos paquerados(as), também anônimos. As músicas, claro, eram as melhores, harmoniosas, letras tocantes, bem tocadas, bem cantadas e bem gravados. Vez em quando, raramente, podia sair um gracejo. Mas só como um tempero e sob risco de censura da galera.