segunda-feira, 30 de outubro de 2017

QUANDO BATE O DESESPERO: ALBANO PRA GOVERNADOR! URGENTE!

Os números do Anuário Brasileiro da Segurança Pública são desalentadores: meu pequenino Sergipe, aparentemente o melhor estado para se governar, com seus menos de 22 mil quilômetros quadrados e pouco mais de dois milhões de habitantes, com um terço disso na Grande Aracaju... está um caos em matéria de segurança. A capital, Aracaju, 66,7 assassinatos por cada 100 mil habitantes, é a capital mais violenta do país, e o estado corrobora estes números sendo o mais violento também do país com 64. Completa falência do Estado. Quando o Estado, que é o mantenedor da ordem é confrontado por Estados paralelos que demandam tal nível de desordem é porque o Estado deixou de existir. Nada justifica uma violência dessa, exceto a completa falência do Estado; de sua capacidade de comandar, de impor a ordem e a justiça. As justiças se não fazem, como alertava à rainha, D. Maria I de Portugal, o ouvidor-mor, Magalhães Paços no distante ano de 1799.
Quando se analisa os números coletados desde 1979, o primeiro ano do governador Augusto do Prado Pimentel Franco e também o primeiro da Anistia Política “Geral e Irrestrita”, ainda dentro do Regime dito Militar, e o que se descortina sobre 2016, muitas leituras se pode fazer, mas a principal dela é que o Estado vive sem o devido comando já há algumas décadas.
O gráfico aqui presente foi pacientemente construído com dados do Datasus, conforme as taxas de homicídios verificadas em cada domicílio, município a município, ano a ano e o que se depreende é que, uma vez terminada a Ditadura, o afrouxamento da segurança cada vez maior nos trouxe a este estado.
Os números da violência em Sergipe explodem, pela primeira vez no primeiro ano do segundo governo de João Alves Filho, um governo fraco, marcado pelo Acordão. Foi o tempo do “A Missão”, grupo de extermínio criado dentro da Polícia Militar para simplesmente matar supostos ladrões de gado. Um escândalo que abalou o estado internacionalmente trazendo a Anistia Internacional pra cá, o que significou fechamento da torneira do dólar das agências mundiais de fomento. E, com o país em descenso pelas agruras do governo Collor, governo federal também enfraquecido, 1991 cravou um crescimento de homicídios no estado, de estratosféricos 151 no ano anterior, para 317. Aumento de quase 110 por cento. Mas o pior estava por vir: 461 assassinatos em 1992, aumento em relação a 1990 de 205 por cento. Em 1993 manteve-se altíssimo, mesmo com queda pra 312 casos, voltando a subir em 1994.
O escândalo do A Missão, todavia, ao fechar a torneira do dólar do fomento mundial acabou por criar o milagre da recivilização forçada e, ao tomar posse em 1995, o novo governador, Albano do Prado Pimentel Franco levou consigo o advogado e membro da Anistia Internacional Wellington Mangueira. Mangueira instituiu um programa de redução de violência que, se em 1995 baixou apenas para 255 casos, em 1998, seu último ano como secretário de Estado da Segurança chegou aos 175 assassinatos ao ano, ainda bem acima dos 151 do último do último ano do governo Valadares, em 1990, e o dobro dos cinco por cento preconizados como aceitáveis pela OMS, mas quase um terço do festival de assassinatos do governo anterior.
Mas o que é bom dura pouco; e, ao não retorno de Wellington no segundo governo de Albano, o clima de inferninho, de cafua em que o estado foi transformado com as chamadas privatizações e suas compras de votos, e também a insegurança política e econômica do país, mais uma vez a violência explodiu e nunca mais parou de subir. Porém, a coisa ficou completamente descontrolada com os fracos governos Deda/Jackson Barreto. Do segundo governo Albano até a primeira metade do primeiro governo Deda, os números se mantiveram na estratosfera; com o esfacelamento político do governo Deda, a partir de seu terceiro ano de mandato em 2009 a espiral se descontrolou completamente, atingindo o primeiro ano do governo reeleito de Jackson Barreto, 2015, a soma de 1302 assassinatos no estado. E, segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública, 1.449 no ano passado. De dez assassinatos por cem mil habitantes em 1998 para 64 por cem mil no ano próximo passado. É guerra pra ninguém botar defeito.
E os números podem ser piores; haja vista que, o que o sistema de saúde colheu como 1302 casos em 2015, o Anuário Brasileiro da Segurança Pública deu como 1.286.
Obviamente que essa matança toda o é pelo livre trânsito das gangues. Não se trata de briga de bêbados, de esquentados torcedores de futebol ou brigões no trânsito, muito menos de maridos encornados; são acertos de contas de quem não tem como ir à justiça cobrar uma aposta de jogo do bicho não paga, ou um papelote de cocaína ou mesmo pedras de crack não devidamente ressarcidas. Crime! Crimes que desaguam noutros crimes, que realimentam outros e que corrompe a sociedade.
E não adianta se entocar em shoppings, condomínios, praias privês... uma hora tem que botar a cabeça fora. E na hora que botar, bala não reconhece status social.
Bem, pela experiência pregressa, só voltando Albano Franco junto com Wellington Mangueira pra ver se se bota alguma ordem nessa zorra.


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

JARDIM AMEAÇADO


Aulas suspensas e frequentes mutirões de limpeza começam a ser rotina numa bela obra, que é bem maior pelo que se propõe: a ONG Oficina Mãos Amigas Nossa Senhora de Nazaré pede socorro! A lixeira municipal que lhe é vizinha, e que não para de crescer ameaça fazer naufragar um projeto de inclusão e promoção social criado e mantido com tanto sacrifício e tanto amor.
A Prefeitura retira constantemente resto de carniças, móveis, velhos, comida estragada em geral e detritos de construção; o problema é que assim que limpa o local já tem mais uma carroça ou caçamba a atirar animais mortos e outros detritos no local.

Está difícil conviver com ratos, baratas, urubus, e o terrível mau cheiro que exala do local, que, estranhamente passou a ter forte utilização depois da construção da sede da ONG.
Ou a Prefeitura proíbe terminantemente esse tipo de atividade ali, ou a ONG poderá sofrer solução de continuidade, com enorme prejuízo à coletividade local.


A NOSSA MÁ EDUCAÇÃO DE CADA DIA


Em fins dos anos 70, depois de dois choques do petróleo e sua natural repercussão na economia do país, e em seus cofres públicos, nas três esferas - União, Estados e Municípios - o de Itabaiana, cronicamente de relativas poucas rendas estava na lona. A iluminação pública era de péssima qualidade; a rápida expansão urbana sem consequente acompanhamento da administração tinha transformado a cidade num poeiral ou lamaçal, já que dois em cada três logradouros sem pavimentação, e pelo menos um terço sem sequer meio fio; e esgoto era uma miragem, com umas raras canaletas antigas em poucas ruas ou praças. Na Praça João Pessoa era comum o retorno de estudantes do Murilo Braga tapando os narizes pelo mau cheiro do esgoto a céu aberto, mesmo sobre o calçamento.
Mas a coleta de lixo funcionava! Um dos carros chegou a opera durante bom tempo com a cabine remendada de papelão... mas funcionava. Anualmente, em fins de novembro, Francisco Tavares da Costa, o Fefi, imprimia em sua gráfica uns cartõeszinhos que eram distribuídos pelos garis, para arrecadação de fundos para O NATAL DOS GARIS. E a arrecadação não era decepcionante: as pessoas tinham relativo respeito pelo trabalho da turma da limpeza porque ela era o que de melhor funcionava na administração municipal.
Mas não faltava gente imunda a jogar lixo em qualquer terreno baldio ou mesmo praça não urbanizada, como muito ocorreu na Praça João Pereira, na parte da Praça de Eventos, atualmente em reforma no ponto dos ônibus e micro-ônibus, e na ex-futura praça Sebrão Sobrinho, hoje totalmente tomadas de casas, entre a Associação dos Estudantes Universitários e o Colégio Estadual Murilo Braga. Foi preciso a intervenção forte da justiça, que forçou a Prefeitura a tomar medidas enérgicas, com multas pesadas em cima dos imundos.
A COLETA DE LIXO EM ITABAIANA SEMPRE FUNCIONOU BEM! Desde que implantada, ainda na gestão de Manoel Francisco Teles e depois modernizada na administração de Euclides Paes Mendonça. Mas a falta de educação, aliada à arrogância e a prepotência é terrível! Tem gente que pega sua Hillux, Amarok, Ranger... e vai pra Frei Paulo, Ribeirópolis... apenas tomar uma cerveja; mas quando lhe morre um gato, cachorro, ou mesmo quando descobre um frango estragado na geladeira joga no primeiro terreno baldio que encontra. Coisa de gente que acha que dinheiro serve de escada pra pisar nos outros. Imundo!
Logo, não adianta a Prefeitura apenas limpar; é preciso agir energicamente contra os sujismundos. E eles só entendem uma linguagem: A QUE LHES TIRA DINHEIRO DO BOLSO.




terça-feira, 17 de outubro de 2017

ITABAIANA: 320 ANOS DE EMANCIPAÇÃO.


Recebi o honroso convite do presidente da Câmara Municipal de Itabaiana, vereador José Teles de Mendonça, para me fazer presente na solenidade de comemoração aos 320 anos de instalação da CÂMARA MUNICIPAL DE ITABAIANA, a ser comemorado nesta sexta-feira, 20 de outubro, com missa e sessão solene, entre outros.
20 de outubro, de fato é a data símbolo da Emancipação, da criação do Município de Itabaiana; a mais próxima que temos desse definitivo acontecimento em nossa cidade porque se trata da data da carta do governador-geral Dom João de Lencastro ao ouvidor-mor instalado no ano anterior, 1696, em Sergipe, Diogo Pacheco de Carvalho, a quem foi incumbido organizar a situação fundiária de Sergipe, já com escandalosos problemas de concentração de terras, por ordem na justiça, e em outubro, de fundar dois novos municípios, talvez mais um. Os dois municípios de formação obrigatória foram Itabaiana e Lagarto; todavia, ao fim, antes de 1700 já haviam sido instalados também as câmaras municipais de Santa Luzia do Itanhy e de Santo Amaro das Brotas. Disso adveio problemas à administração colonial: é que a Vila Nova do capitão Sebastião de Brito e Castro, por este, vinha pleiteando a sua emancipação de São Cristóvão desde 1663, quando o mesmo ganhou licenças reais para assim proceder por sua própria conta, desde que tivesse ao menos 50 vizinhos, e por sua própria conta construísse a Casa de Câmara e Cadeia, símbolo máximo do poder municipal até mesmo depois do Brasil independente, e até a Proclamação da República.
Em 1695, chegaram a Portugal as notícias de encontro de ouro em Itabaiana e nos sertões de São Paulo. Mais cuidadoso em relação a Itabaiana desde o fiasco da prata em 1674, e mais ciente do perigo que significaria uma mina de ouro próximo do mar, o governo português concentrou suas atenções nos chamados sertões paulistas; de fato, regiões das capitanias do Espírito Santo e Rio de Janeiro, que depois seriam desmembradas com o nome de Minas Gerais. A ordem de Lisboa foi proibir qualquer mineração até segunda ordem. Não mais se voltou a oficialmente buscar metais preciosos nas serras da Itabaiana, mas, como forma de garantia da ordem, por carta de 5 de setembro de 1696, o monarca mandou que D. João de Lencastro criasse os dois municípios nos locais mais povoados na região das serras e próxima delas, pontos de apoio às raras caravanas terrestres entre Salvador e Olinda, na sua versão mais interiorana, e locais onde imperasse a lei e as determinações do rei.
Naquele tempo havia dois caminhos entres as duas principais sedes coloniais, Olinda e Salvador: o Caminho do Mar, grosso modo comparando, a hoje Estrada do Coco/Linha Verde; e o Caminho do Sertão do Meio, vindo pelas Alagoinhas, Inhambupe, Itapicuru, Tobias Barreto, Lagarto e Itabaiana. Depois de Itabaiana as duas estradas se fundiam do atual povoado Bonfim, município de Divina Pastora até Japoatã, ali se separando novamente em duas rotas: a do mar, por Brejo Grande, Piaçabuçu... e, por Santana do São Francisco Penedo, a estrada que os holandeses conheciam como Caminho do Camarão, aproximadamente a BR-101, no trecho Alagoas/Pernambuco até Olinda. Como se vê (mapa presente), Itabaiana estava praticamente no meio desse percurso.
Em 20 de outubro de 1697, depois de cobranças de Lisboa o governador Lencastro enviou carta determinando ao ouvidor-mor que “tanto que V. Mcê, receber esta, vá ao lugar de Itabaiana e Lagarto formar vilas...”.

Uma quase cidade.

Em 1672 foi concedida patente de “Patente de superintendente do descobrimento das Minas do Rio de São Francisco, emquanto as dilifências dellas”, provido na pessoa do capitão Bento Surrel (BN-Rio, Docs. Hist. 12, p.208). Bento Surrel Camiglio foi quem levou as amostras de prata a Portugal que motivou a dispendiosa viagem de D. Rodrigo de Castelo Branco, nomeado Provedor e Administrados das Minas da Itabaiana em provisão de 28 de junho de 1673. (BN-Rio, Docs. Hist. 25, p.260).
Em 11 de julho de 1674 chegou à Itabaiana D. Rodrigo de Castelo Branco, à frente de um pequeno exército de 30 oficiais, brancos e mestiços, e mais de 200 índios, todos comandados pelo general Jorge Macedo Soares. Vinha com a firme determinação de definitivamente encontrar a mina de prata, e, em caso de confirmação da mesma, erigir um forte; UMA CIDADE, como todas as cidades importantes daqueles tempos, com seus muros altos e torres de vigilância. Sem prata, sem cidade. A paróquia, todavia, foi instalada no ano seguinte, em 30 de outubro de 1675, quando Dom Rodrigo praticamente já desistira de Itabaiana, dando origem ao núcleo onde hoje se situa a cidade. Vinte e dois anos depois veio a criação do município, não com sede fortificada, uma cidade; mas uma vila, a unidade administrativa municipal portuguesa comum, até os dias de hoje.
Há 320 anos.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

MORTOS-VIVOS

Chego ao trabalho e uma colega, enquanto aguarda os primeiros clientes adentrarem ao recinto assiste a um vídeo que viralizou nos últimos dias, de um policial federal a fazer ameaças de participação do corpo a que pertence em apoio a supostas manifestações classistas que porventura possam ocorrer em Brasília. O tal vídeo já me foi enviado por pelo menos dez amigos através das redes sociais.
Ao sair de casa, agora pela manhã, coincidentemente fui à busca de alguns papeis e dei com um recibo de indenização trabalhista que recebi há exatos quatro anos atrás. Foi meu último contato com o meu sindicato, para o qual contribuo religiosamente todos os meses por mais de 15 anos. E nunca mais. Mesmo assim, esse contato se deu de modo quase que acidental porque o dinheiro estava me esperando na Caixa Econômica Federal havia três anos e eu, sem orientação nenhum DO SINDICATO ou dos advogados por ele contratado não o havia procurado. Talvez por desengano porque a causa foi ganha em 1993, alguns colegas já o receberam em 1998 e o meu... puseram a pedra em cima. Bem, repetindo, foi meu último contato com meu sindicato ao qual contribuo mensalmente e que sequer um e-mail de parabéns pelo aniversário me envia. Como disse, acidental, porque foi um colega de uma direção anterior quem soube que o dinheiro estava na conta e me acionou, mas, leal à instituição, também comentou com alguém por lá. Aí apareceu um “resolvedor”, desses completamente dispensáveis porque só trabalha estritamente em benefício próprio, e quando não mais há necessidade de sua presença. Os coronéis da direção do meu sindicato - que é regra geral - em nada se diferenciam dos velhos coronéis da política interiorana onde para que o correligionário seja notado tem de lhes puxar o saco e estar lá na sede do sindicato todos os dias como se vagabundos fossem. Como levantar um proletariado e classes sociais em geral com dirigentes desse nível?
Em todas as pessoas que vi assistindo o tal vídeo, senti a presença de recente afirmação do neurolinguista Noam Chomsky de que pelo fato de não reclamar, não significa que o povo brasileiro não perceba o que está acontecendo. O problema é que ele continua sem reagir à espera de um milagreiro que resolva, e, neste caso, até o desabafo de um policial federal sem efetivo poder algum soa como se uma esperança das coisas se ajeitarem.
Toca pra frente que atrás vem gente!
Em tempo: como disse o poeta, TODO ARTISTA TEM DE IR AONDE O POVO ESTÁ.

terça-feira, 11 de julho de 2017

São Luiz - A minha rua.

A fotografia foi uma invenção fantástica. Se os espelhos de Versailles conduziram a uma viagem ao eu de quem os visitou e teve capacidade de ver além da imagem, a fotografia, de mais de um século depois, desnudou por completo nossos demônios interiores, nosso medos, angústias e toda a sorte de bons e maus sentimentos. Pior: nos mostrou cruamente o que a vida de fato é. Uma passagem por este vale de lágrimas que cabe a nós transformá-lo em vale de risos. Muitos preferem apostar no pior.
Uma pequena viagem no breve tempo da rua em que hoje moro é como se me conduzisse à imagem em minha mente feita por extratos de eventos identificados pela ciência, ou meramente aventados a partir desses mesmos conhecimentos. Em resumo, uma viagem.



A minha rua, como via de trânsito é tão antiga quanto o estabelecimento da sede municipal de Itabaiana onde aqui hoje estamos. Trata-se, de fato, da Estrada Real para a cidade da Bahia, hoje Salvador, criada com a invasão luso-espanhola de Sergipe de 1590, mas que neste ponto só veio ocorrer, por desvio do trajeto original nesta parte, com o estabelecimento da vila, sede do município, em 1697. Pode-se se dizer, portanto, que a exemplo da Rua de Maraba - sua sequência - e das ruas Alemar Batista Andrade e Itaporanga, estas a antiga estrada para São Cristóvão, a minha rua é tão antiga quanto a cidade, que começou na Rua do Sol, hoje General Valadão, fundos da Matriz de Santo Antônio e Almas.
Em fins do século XVIII - 1780 a 1800 - ela deixou de ser a estrada para a cidade da Bahia resumindo-se apenas a ser a estrada pro Campo do Brito, situação com que foi conhecida até 30 anos atrás, quando sua sequência depois do cemitério do Campo Grande morreu por completo; e dentro da cidade manteve sua conversão em ruas como já vinha com a Rua Campo do Brito, e a seguir, Rua São Luiz.

Não tenho fotografias anteriores; mas, do fantástico acervo de fotografias de Walmir Almeida, no que foi conseguido por Robério Barreto Santos me vem uma imagem aérea que nos dá uma ideia do que era em 1986. E a partir de 1995 eu assumo, fotografando-a periodicamente, e vendo a fantástica transformação, não somente física, mas também sócio-econômica, percebida na mesma em vários aspectos.
Nas fotografias de 1995, chão batido, esgotos a céu aberto, iluminação precária, nenhum automóvel na mesma. Em 1997 repete-se o quadro que assim se apresenta até 2002. Em 2017, contudo, além de quase total ocupação predial, mesmo numa tarde cedo de domingo, com metade da população local nas praias ou balneários, públicos ou particulares, a presença de alta densidade de automóveis na rua, sem obviamente se contar os guardados nas garagens demonstra claramente o progresso material presente.

Em 10 anos uma virada total nos costumes. E tudo isso agora sob grande risco das decisões mais que temerárias de Brasília.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

AS RÁDIOS DOS POLÍTICOS E O FORRÓ

Em 1964, o Regime cassou políticos, funcionários públicos civis e militares, direitos de expressão via rádio ou impressos, projetos antigos de logística como a ferrovia Piranhas-Petrolândia nos sertões de Alagoas e Pernambuco... mas não ficou só aí. O desmonte promovido na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, por exemplo, como o COMUNICADO 6, de 13 de abril de 1964 atingiu em cheio a cultura nacional de cunho mais regionalizado que ficou sem espaço, primeiro na mesma Rádio Nacional; e, em seguida, nas outras emissoras que seguiam as ondas por essa criadas, como a promoção do chamado forró. O mundo dos forrozeiros caiu. Por sorte, o Nordeste havia melhorado economicamente um nadica de nada e seu mercado tíbio para os produtos culturais de massa, como o disco, também. E então a dupla Clemilda e Gerson Filho se plantaram em Aracaju, e outros pelo Nordeste afora também. Aracaju chegou a sediar mais gente, como a dupla Dominguinhos e Anastácia, que no início dos 70 produziriam o clássico TENHO SEDE, direto de uma residência qualquer na capital sergipana.
De suas casamatas de resistência, o forró logrou sair inteiro e até rejuvenescido quando artistas mais universalizados como Gilberto Gil vieram em busca de sua originalidade. Mas isso só foi possível em Aracaju graças ao itabaianense, ceboleiro da gema, infelizmente udenista, mas um líder típico nordestino, Albino Silva, que abriu as portas da Rádio Liberdade de Sergipe para Clemilda e Gerson Filho. Foi mais de uma década de sucesso total entre nós, os matutos, do programa FORRÓ NO ASFALTO, naquele prefixo radiofônico. Como a Liberdade AM, uma trincheira política coronelista, outras emissoras pelo Nordeste afora deram guarida aos grandes artistas que retornavam do sul como o próprio Rei do Baião, Luiz Gonzaga, e seu canto-lamento A HORA DO ADEUS, uma visão poética para aquele aflitivo momento, dos grandes Onildo Almeida e Luis Queiroga, publicada em 1967.
A torrente de queixumes, MAIS QUE JUSTOS, de vários artistas nordestinos como Santana, Alcymar Monteiro, Elba Ramalho e a nossa guerreira Amorosa, frente à ocupação total do espaço forrozeiro nordestino pelo breganejo goiano-paulista, mormente neste São João de 2017 serve como um alerta e ao mesmo tempo uma constatação: mais uma vez o sul busca matar o Nordeste na sua alma, que é a sua música de raiz. Senhores do mundo, concentrando quase cem por cento do poder de fogo das comunicações no país em São Paulo capital, o eixo Goiânia-São Paulo está matando pela raiz toda e qualquer tentativa de reavivamento da cultura nordestina com hiperpromoção do breganejo e completo esquecimento do resto. E, claro, quando não sai na mídia grande, hoje toda paulista (Globo, inclusive), só “os guerrilheiros” e o extrato desligado da mídia grande continua fiel ao que realmente gosta e é tradicional.
O sistema é cruel. Vacilou, não escreveu pelas linhas que ele, o sistema indica, tá fora! Ganha a ostraka, condição que gerou a tradicional palavra ostracismo. E o sistema tem altos interesses, nem sempre os melhores. Vai desde a dominação político ideológica a esquemas de lavagem de dinheiro mediante superfaturamento de eventos, dificílimos de ser punidos porque preços sem a menor estabilidade; diferente de obras públicas, por exemplo. E o que ora se passa no país vai bem além de uma desgraça só: são várias. O federalismo está aos cacos; apenas os efeitos da irresponsabilidade última feita ainda não apareceram por completo.
Mas, aos amigos, artistas ou admiradores deles, como eu, não vos preocupeis: o coronelismo nordestino vos/nos salvarão como já o fez nos idos dos 60 com os Albino Silva da vida. Não conheço macho pra demover um Zé Queiroz, proprietário da Rádio Princesa da Serra AM, por exemplo, de ser quem é: o grande turrão que é o meu amigo Zé Queiroz. Não se dobra. E, como Zé Queiroz outros por aí existem onde nossos artistas poderão se abrigar enquanto passa mais essa temporada infame que ora se abate sobre o país; e sobre nós nordestinos em particular. Ao fim de tudo, serão os políticos, nossos políticos quem salvarão o que de mais precioso há em nós: nossa identidade.
No pasaron!

sábado, 27 de maio de 2017

A ESTRADA DE SERGIPE


Antes de ontem, quinta-feira, 25 deste maio de 2017, tive o privilégio de representar a Academia Itabaianense de Letras numa sessão da Câmara Municipal de Itabaiana - o segundo mais antigo parlamento sergipano e quadragésimo sétimo brasileiro – evento em homenagem ao jornalista Luiz Eduardo Costa. Costa, meu confrade em outra academia, escreveu e publicou um artigo “A Itabaianização de Sergipe”, em que enumera as várias qualidades de empreendedor do povo itabaianense, sugerindo que todo o estado siga esse exemplo, daí surgindo essa iniciativa de fazer-lhe a homenagem. Merecidíssima homenagem. Como instituição representante da sociedade itabaianense a Academia Itabaianense de Letras foi uma das que se fizeram presentes, comigo, e com os confrades, a educadora e poetisa Tereza Cristina Pinheiro Souza, o médico e escritor Antônio Samarone Santana e o jornalista, também escritor, Luciano Correia.
Um dos entusiastas de Itabaiana e da homenagem ali concedida ao Luiz Eduardo Costa foi o ex-deputado federal e estadual, ex-vice-governador do estado e ex-vice-prefeito da capital, o empresário itabaianense José Carlos Machado, que, no seu discurso de saudação à Mesa Diretora da Câmara e ao agraciado fez questão de lembrar que a BR-235 está a um passo, a apenas 40 quilômetros, de nos levar por leito completamente asfaltado até Juazeiro, na Bahia, terra, entre outros dos cantores Ivete Sangalo e João Gilberto, entroncamento natural que nos ligará com grande facilidade a Fortaleza, Terezinha, Belém do Pará, e todo Nordeste septentrional. De fato, a rodovia será para Sergipe o que foi para somente Itabaiana, na segunda metade da década de 1950, e somente até a cidade fronteiriça de Jeremoabo: uma traqueostomia. Forçar o abrir de respiração para quem não consegue respirar. A imponente comercialização hortifrutigranjeiros em atacado pelo empresariado itabaianense, que além de enriquecimento de seus protagonistas, também deixa muitas divisas em nossa cidade tem hoje nos projetos de irrigação ao longo deste caminho seu principal abastecimento. A ligação definitiva de Juazeiro a Aracaju – com passagem por Itabaiana – também e certamente fará por aqui passar grande parte da produção do agronegócio da região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia) com destino ao Porto de Sergipe.


A duplicação


Na fala em que fez como convidado da Mesa da Câmara Municipal, José Carlos Machado, além de notificar os presentes sobre a situação do asfaltamento da BR-235, foi veemente em defender a duplicação da mesma rodovia, desde o entroncamento com o braço estadual da Rota do Sertão, a estadual SE-175, que passa por Ribeirópolis, Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora da Glória. O dito entroncamento se encontra quase na fronteira tríplice dos municípios de Itabaiana, Frei Paulo e Ribeirópolis, na localidade do povoado Terra Dura.
Decerto, a opinião pela visão atilada de Machado sobre a necessidade da duplicação é mais que correta, todavia, observo que esta pode não ser a real solução, a menos que venha acompanhada de uma outra medida: sem movê-la de lugar, tirar a estrada das zonas de ocupação urbanas.
Um rápido estudo sobre as características de ocupação humana de 22 dos seus 56 quilômetros (40%) ao longo do leito da estrada, no trecho Terra Dura - BR-101, nos mostra que o problema de mobilidade nele é bem mais complexo (Vide Fig. 2). De nada adiantará a duplicação da pista se continuarmos com ‘trocentos’ quebra-molas e outros redutores de velocidade ao longo dela. Também não adianta mudar-lhe o trajeto – como foi feito em Itabaiana, Frei Paulo e Carira, ao asfaltar-lhe, entre 1972 e 1976 – porque as cidades sempre irão atrás dela. Daí que acho que a solução é adaptar-lhes as pistas à passagem pelos sítios urbanizados ou em vias de urbanização. Elevação ou rebaixamento da mesma, com fortes elementos dissuasivos de invasão de seu leito são imprescindíveis. E, por ser uma estrada quase toda em terreno medianamente acidentado, é possível fazer isso de modo bem mais barato do que trocar-lhe a situação, mudando-a de lugar, fato que se mostrará inútil tempos depois.  
De qualquer modo se faz urgente uma solução. Não dá pra se pegar um fundo de carroceria no Bairro Miguel Teles, saída sul de Itabaiana, e só e efetivamente ter chances de uma ultrapassagem na duplicação da ladeira do Pati, quase três quilômetros depois do Cafuz, que é o que realmente ocorre em momentos de grande fluxo nos dois sentidos. Além da perda de tempo, o fator de risco de ultrapassagens irresponsáveis aumenta exponencialmente.

A estrada que faltou à Capitania de Sergipe


A BR-235, inicialmente um projeto de logística, em apoio à Hidrelétrica de Paulo Afonso, tem seu curso traçado até a Serra do Cachimbo no sul do estado do Pará. Inicia em Aracaju, na Rua da Frente (Avenida Ivo do Prado) em duas vias, quais sejam, as ruas Laranjeiras e São Cristóvão, que sob denominações outras quase se encontram no início da Avenida Mariano Salmeron, aqui já a BR propriamente dita. Funde-se com a 101, num pequeno trecho entre dois viadutos, um dos quais a redireciona ao seu longo curso, sofrendo nova reunião em Juazeiro, na Bahia, quando junto com a 407 atravessam as cidades de Juazeiro no lado baiano e Petrolina, no lado pernambucano, e respectivamente o Rio São Francisco na ponte cantada magistralmente por composição de canção popular, eternizada sob a voz do Trio Nordestino e várias outras vozes a seguir. Dali parte ainda pelo norte da Bahia até entrar no Piauí, depois a na ponta sul do Maranhão, cortar o estado do Tocantins até a cidade de Araguacemas, e daí mergulhar no vastíssimo sul do Pará até a já dita Serra do Cachimbo, fazendo entroncamento com a difícil BR-163.
Em princípio, a BR-235 é a estrada colonial de longa distância que faltou a Sergipe para administrar seu governo sobre o território que lhe foi destinado pelo governo colonial, mas nunca respeitado pela vizinha Capitania da Bahia, a abusar de posição privilegiada de ser a segunda mais rica da colônia, e também o centro do governo da mesma, em quase todo o período do mesmo governo. Se tivesse havido uma estrada para o “Registo do Joazeiro” – ou seu ramal para a Jacobina - a partir de São Cristóvão, se a mesma não tivesse parado apenas em Jeremoabo, a sesmaria doada pelo capitão-mor de Sergipe, João Ribeiro Villa Franca, ao padre Antônio Pereira, em 6 de março de 1656(1), às margens do Rio Salitre (região onde hoje se encontram os municípios de Juazeiro e Campo Formoso) teria consolidado a sergipanidade por aquelas bandas, e o mapa de Sergipe teria, ao menos a forma do mapa feito por Brue (Carte du Bresil et d'une partie des pays adjacentes, pour Adrien Hubert Brue, 1826, Fig. 1), ou talvez chegasse à represa de Sobradinho, como sugerido nos mapas do século XVII como o de Blaeu (Brasil - Nova e acuratta brasiliae totius tabula, Ioanne Blaeu), de 1669 (Fig 3). 

O isolamento da paupérrima capital São Cristóvão de sua extensa capitania facilitou a retomada pela Bahia que, somente não absorveu Sergipe por inteiro graças à tenacidade dos vaqueiros de Itabaiana. Estariam dentro de Sergipe, da Jacobina ao Juazeiro; de Inhambupe a Paulo Afonso, de Xique-Xique a Jeremoabo e Paripiranga. A falta de geração de identidade com Sergipe, por parte desses sertões, contudo, levou-os pra sempre para fora de nosso estado que tão pequeno se tornou. Como consolo, pra nós itabaianenses, o centro geográfico máximo do estado acabou em nosso município, a menos de 500 metros do povoado Bom Jardim e quase à beira do Rio Jacaracica. Na formação inicial da capitania, esse mesmo centro estaria aí por Uauá ou vizinhanças.
A BR-235, pois, não traz de volta a Sergipe o seu território sugerido pela sua criação sob ordens de Felipe II, rei d’Espanha e então também de Portugal e do Brasil. Isso demanda cultura e identidade, e dez em cada dez baianos do norte estão satisfeitíssimos em serem baianos; mas é uma excelente oportunidade de itabaianização de Sergipe porque essa verdadeira aorta não irrigará apenas o empreendedorismo dos itrabaianenses; mas é oportunidade ímpar a todos os sergipanos. Ganha a Bahia; ganhamos nós.

(1) Carta de sua majestade sobre o padre Antônio Pereira a pedir a confirmação de certas terras.[06/03/1656] Docs. Históricos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, volume 66, página 118)

Figuras:
1) Mapa (e detalhe de Sergipe), BRUE, Adrien Hubert. Carte du Bresil et d'une partie des pays adjacents, 1826.
2) Extrato de foto de satélite do GoogleEarth. Atual.
3) Mapa (e detalhe de Sergipe), BLAEU, Ioanne. Nova e acuratta brasiliae totius tabula,1669.