terça-feira, 31 de dezembro de 2024

HÁ 435 ANOS, O TRÁGICO NASCIMENTO DE SERGIPE.

 

No dia 23 de dezembro de 1589, duas colunas penetraram no atual território sergipano. Uma por terra; outra por mar.

A que veio por terra, pela trilha que depois ficou conhecida como trecho da estrada Salvador-Olinda. Supostamente a trilha tomada pelos jesuítas, duas décadas antes, na tentativa de converter tupinambás e cariris. E a que veio por mar, comandada pelo próprio Cristóvão de Barros, rompendo as frágeis defesas de Surubim, na ribeira do Potypeba, hoje Rio Vaza-Barris, região onde atualmente se assenta Itaporanga d’Ajuda.

Os relatos são confusos porque com base em relatos orais da época. Porém, a seguir, devidamente anotados pelo Frei Vicente do Salvador, que os publicou 37 anos depois.

Em 31 de dezembro, a força, agora reunida com as duas colunas cercou a serra dos matapoans, também aí rebatizada de Os Três Picos, e hoje reduzida apenas a serra do Pico, ponto de fronteira entre os atuais municípios de Frei Paulo, Itabaiana e Macambira. 

Por volta da meia noite de 31 de dezembro a cerca principal foi vencida; e os portugueses triunfaram sobre os desgraçados indígenas, que, perdedores numa "guerra justa", foram em massa escravizados. Quatro mil, segundo Frei Vicente,

O objetivo ficou explícito no pedido de sesmaria de Brás de Abreu, em carta de 15 de maio de 1623, 33 anos depois, mesmo sob certas observações, incluindo falhas de história oral: bater o último reduto indígena; e recuperar cerca 150 arcabuzes tomado por Baepeba na Missão de São Tomé, hoje povoado Campo do Criolo (na confluência dos rios Jacaré e Piauí)(*), município de Lagarto, em 1575, 15 anos antes, o que determinou o fim da tentativa de colonização pacífica do então Sertão do Arabó (urubu, na grafia atual), conforme carta jesuítica.

Baepeba foi um dos caciques confrontados pelo invasor.

A serra dos matapoans ressurge na carta do Padre Francisco da Silva Lobo, de 1757, a confirmar as informações constantes no mapa holandês de 1646, que identifica o pequeno e íngreme pico de Poteapua.

Segundo o Frei Vicente do Salvador, depois de vencida a batalha, Cristóvão de Barros se encaminhou ao litoral para instalar a cidadela de Sergipe d’El-rei, depois São Cristóvão, desmembrando Sergipe da Bahia. Que o fez primeira e provavelmente onde futuramente se desenvolveu a Aldeia do Aracaju, conforme mapa de Albernaz, que ilustra o livro manuscrito do sargento Diogo Campos Moreno, de 1612. Depois, tentada nas colinas ao sul do Poxim(**); e finalmente, a partir de 1606, junto ao rio Paramopama, onde até hoje se encontra.

Dia 1º de Janeiro: Sergipe d’El-rei – cidade e estado - 435 anos de existência.

(*) Cartas Jesuíticas. Cartas, Fragmentos Históricos, Informações, do Padre José de Anchieta, 1154-1594. Civilização Brasileira, Rio, 1933.

Obs. Desconhecemos qualquer histórico de tomada de armamentos pelos indígenas, além, antes ou depois, do ataque à Missão de São Tomé, do Padre Gaspar Lourenço.

(**) Os historiadores sergipanos são cuidadosos em falar sobre essa segunda tentativa do estabelecimento do forte de Sergipe d’El-rei, citando apenas morros ao sul do rio Poxim. Acertadamente: documentos, não os há. Contudo, uma robusta construção, em local inusitado chama a atenção: a igreja de São Gonçalo, ao nordeste da cidade de São Cristóvão, encontrada pelos holandeses ao invadir Sergipe, em 1637, e que só definhou completamente na segunda metade do século XIX.

São Gonçalo do Amarante é santo, máxime venerado pela ordem dominicana, que até fins do século XVII foi muito presente no Brasil, quase desaparecendo, a seguir, e retornando no século XIX.

Sobre as fundações da igreja de São Gonçalo no ponto mais alto do município de São Cristóvão acha-se construído atualmente a estátua do Cristo Redentor. Ao sul do Poxim-Açu.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

O PREÇO DA FAMA

 

Se mais curiosos, os romancistas sergipanos já teriam produzido alguma peça de ficção abordando a fixação da pirataria sobre a Boca do Rio Real, e suas praias paradisíacas do Mangue Seco, cenário de telenovela global, do lado baiano, até a Cachoeira de Abadia; e a Praia do Saco, até a mesma cachoeira; e nos meandros formados pelo Piauitinga, até Terra Caída, o Crasto, e além.

Até agora a região foi pouco explorada, e mesmo assim com temática contemporânea, como a Tieta do Agreste, do gigante Jorge Amado.

O fato é, que, toda vez que um amigo vai para aquelas bandas - o último foi Antônio Samarone - sempre eu tiro brincadeira com ele. Alguns devem me achar delirante.

Serra do Pico (Três Picos ou do Matapoan), tríplice fronteira, no pico mais alto entre Frei Paulo, Itabaiana e Macambira. Cenário da última batalha na noite de 31 de dezembro de 1589, na Conquista de Sergipe por Cristóvão de Barros. (Foto: Juarez)

Um dos motivos da invasão do Sertão do Urubu, depois Sergipe, terminada na noite de 31 de dezembro de 1589 – amanhã, 31, fará 435 anos – foi a ousadia do cacique Baepeba, mancomunado com os caciques do litoral, de, em conluio com os piratas franceses no Rio Real, assim que o Brasil começou a ser colonizado por Portugal, ter tomado as armas dos soldados portugueses, obviamente, depois de os matar.

Dessas escaramuças, entre franceses, assessorados pelos indígenas, e portugueses, nasceria aquele que é o primeiro sergipano e itabaianense, de sangue europeu, e indígena, obviamente: Simão Dias, o mameluco, apelidado de o francês. Ferido, seu pai, um corsário (pirata do rei) teria sido trazido para dentro das serras e cuidado com esmero... um pouco maior, por uma cunhã, nascendo depois o fundador da cidade que leva seu nome.

E por que a fixação dos franceses pelo Rio Real?

Porque a fama de algo tão valioso?

Em 20 de outubro de 1501, Américo Vespúcio – o que denomina hoje o continente, AMÉRICA – chegou à Boca do então Itanhü (mais ou menos itanhi, com “i” fechado), e, como era aniversário do seu contratante, o rei D. Manuel I, o Venturoso, em sua homenagem colocou-lhe o nome de Rio Real. Não podia ser um lugar qualquer

Depois, na Europa, cartógrafos deram mais uma puxadinha, sugerindo uma baía, que foi diminuído para enseada até chegar no que é hoje. Entretanto, por quase trezentos anos deu muito trabalho à marinha portuguesa. Mesmo depois de conhecido que era apenas o alargamento pela maré, do curso do rio que, cem quilômetros acima já é seco na maior parte do ano.

Os meandros do Real era lugar ideal para o esconderijo de forças estratégicas; nem sempre bem intencionadas.

Nunca vimos estudo nenhum sobre a ocorrência de piratas ali; contudo, referências documentais na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro têm razoáveis conteúdos sobre a atividade na área. Como sobre a nau inglesa, aprisionada pelo povo da Vila de Abadia (hoje um povoado de Jandaíra-BA), em fevereiro de 1767.

Daí porque eu acredito que temos nossos Jack Sparrow, Barba Negra e Hector Barbossa, com seus Pérola Negra, Holandês Voador, etc., etc.. É só botar a imaginação para funcionar.


sábado, 28 de dezembro de 2024

E TERMINA A ADMINISTRAÇÃO ADAILTON DE JOÃO DE DEUS.

 

"Quem estará nas trincheiras ao teu lado?"

(Ernest Hemingway)

Ninguém vai a lugar nenhum sozinho. O maior dos generais de todos os tempos, Alexandre da Macedônia, só foi Alexandre Magno, ou o Grande, porque, junto com ele, seu pai pagou ao grande Aristóteles para também educar o gigante Ptolomeu. O detalhe é que Ptolomeu foi o provador de comida de Alexandre, numa época em que se matava envenenado por brincadeira, ou seja, provavelmente, sem Ptolomeu, Alexandre só teria umas poucas batalhas. Ptolomeu, entre outras coisas fundou o primeiro farol e a primeira biblioteca da História, a grandiosa Biblioteca de Alexandria, lastro de toda a ciência e tecnologia ocidental atual. Começou lá. Foi organizada lá. 

Ptolomeu perpetuou o nome de Alexandre e universalizou a cultura grega, base de toda a nossa civilização ocidental.

Aterrissando em Itabaiana, dois mil e duzentos anos depois, o impetuoso comerciante Euclides Paes Mendonça foi buscar o funcionário público e ex-prefeito de Ribeirópolis, Serapião Antônio de Gois, para o auxiliar em seu armazém, ficando sob esse quase toda a responsabilidade do estabelecimento comercial, quando Euclides foi eleito prefeito para o período 1951-1954. Em 1954, Euclides o lançou prefeito de Itabaiana, onde concluiu primorosa administração, criando o Campo de Pouso, depois origem do Bairro Miguel Teles; e a cultura caminhoneira, com a Festa dos Motoristas, em 1958, e a criação do primeiro Bairro da cidade – o Bairro São Cristóvão - justo para fixar e festa caminhoneira. Entre outros. Serapião foi o administrador que elevou a liderança de Euclides Paes Mendonça aos patamares consolidados pela História.

O relacionamento de Adailton Resende Souza com Valmir dos Santos Costa, guarda certas semelhanças com a dupla Euclides-Serapião.

Parte considerável do sucesso administrativo obtido por Valmir em suas duas administrações passadas pode ser creditada à feliz escolha de Adailton Souza para lidar com o ponto nevrálgico de qualquer administração: o dinheiro. Experiente operador bancário, foi fundamental para que Valmir não se perdesse nos meandros da numeralha financeira e os grandes riscos que eles trazem. E continuasse a fazer muito bem o que sempre fez, desde o Grêmio Estudantil do Murilo Braga: po-lí-ti-ca!

De fato, a administração de Adailton foi a continuidade das duas de Valmir.

Filho do mais fiel dos auxiliares políticos da história recente de Itabaiana, o saudoso vereador e prefeito João de Deus Souza; e casado com a Sra. Érica Pinheiro, bisneta de Boanerges Pinheiro e com ligação com um monte de gente que está na história serrana, Adailton “puxou ao pai”, como se diz no popular.

Sobre João de Deus, foi ele ingresso na arena política via o comércio dos irmãos Paes Mendonça (Euclides e Mamede), primeiro experimentando Salvador, depois se fixando de retorno a Itabaiana. Chegou envergando uma cara e sofisticada máquina fotográfica Holleiflex, infelizmente parte de um triste episódio. Foi ela a máquina com a qual Antônio de Oliveira Mendonça, então deputado estadual, confrontou a passeata de estudantes, transformada em ardil para liquidar a grande liderança interiorana, seu pai, Euclides Paes Mendonça. A máquina era de João de Deus Souza.

Para qualquer um com mais esperteza, pouco juízo e ganância pelo poder, João poderia ter ali entrado no difícil jogo da sucessão do grande líder. Porém, permaneceu como fiel auxiliar, estando em todos os momentos difíceis pelos quais passou o sucessor de Euclides Paes Mendonça, Francisco Teles de Mendonça, Chico de Miguel.

Adailton Souza, com o histórico que têm poderia ser tentado a ser ele, o grande líder, independente das reais chances de sê-lo. Contudo, vai terminar sua administração, perceptivelmente como começou. Como disse São Paulo: tendo lutado o bom combate.

Não repetirá Serapião Góis, e passará o resto dos seus dias assinando papéis num cartório; os cartórios hoje são por concurso público. Porém, com certeza não se afastará da vida pública, o que seria um grande desperdício.

Resta saber qual papel terá no futuro de Valmir Costa, já que certamente se manterá fiel à bandeira partidária, e, como dito acima, é material bom demais para ficar mofando num armário qualquer.

O futuro a Deus pertence.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

A IMPLACÁVEL FLECHA DO TEMPO.

 

A mim, que muito me interessa a história para tentar conhecer o presente, porém de vez enquanto aflora a pergunta: onde estarei eu; estarás tu, estarão os que ora estão à minha vista?

Observando a composição fotográfica, me vem a pergunta: onde estará, agora, aquele monte de jovens que com eles tive contato há cinco anos, como os três, ao centro, a garota Larissa Pavani, Jovem Embaixadora; e os garotos, Julian Silva, então uma grande promessa como ator; e o representante sergipano no projeto Jovem Parlamento Brasileiro, Adson Brito Pereira?

Todo o grupo, que apareceu na minha tela, assim, do jeito que ‘printei’, e que me levou a versar sobre o assunto, incluindo os dois mestres – José Taurino Duarte e Jussane Teles – e o irrequieto escritor, Antônio Francisco de Jesus, nosso querido Saracura, participou das atividades comemorativas dos 70 anos do velho Murilo Braga, em 2019.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

GOVERNADOR? “VAI NÃO! ELE NÃO VAI NÃO”(*).

 

Ao menos essa é a opinião da alta classe política do estado em relação a qualquer político de Itabaiana ou Lagarto. Classe essa, sempre exitosa, eficiente em barrar qualquer aventureiro que venha criar insegurança no seu mundo miudinho, com ideias mais avançadas do que que tinham o Coronel José Nabuco de Araújo e do capitão José de Barros Pimentel no início do século XIX. Das quais ainda partilham.

Entre 1820 e 1890, a dita classe ficou de molho. Especialmente a partir de Segundo Reinado, quando houve certa estabilidade no estado com o sistema imperial, que, a despeito de fazer concessões aos coronéis do açúcar, manteve o controle central, fazendo com que Sergipe, cronicamente sem um grande porto, logo sem transportes eficientes, numa época que todo a riqueza circulava por água, figurasse entre as dez mais ricas províncias das então dezoito do Brasil. Mesmo tendo enfrentado a terrível epidemia de cólera em 1855.

Mas a República Velha foi o pasto ideal para os urubus. Em trinta anos, Pebas e Cabaús derrubaram a pujança do estado, que restou, em 1930, no penúltimo da nação. E não se levantou mais. Foi a volta por cima da turma de Nabuco de Araújo e de Barros Pimentel. E fragorosa derrota do chefe político de Itabaiana, José Mateus da Graça Leite Sampaio e seu parceiro na Independência de Sergipe, Joaquim Martins Fontes, do Lagarto. O único sopro na República Velha foi de Graccho Cardoso. Que por isso quase perde o cargo. E depois só com a redemocratização pós-Estado Novo. Com um tetraneto de José Matheus da Graça Leite Sampaio: o então jovem engenheiro José Rollemberg Leite.

Valmir dos Santos Costa continuará caçado.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

ENXERGANDO MUITO ALÉM DO HORIZONTE

 

Até hoje parece que a chegada do curso Científico, no Colégio Estadual Murilo Braga, em 1969, foi um acontecimento excelente para os estudantes Itabaianenses.

Mas não foi só isso.

Talvez nem mesmo o autor dessa façanha, parafraseando o Belchior, apenas um rapaz latino-americano sem lá muito dinheiro, sem parentes importantes na capital, e vindo do interior, um lutador serrano de nome José Augusto Machado, tenha tido depois a exata noção da grandeza do seu feito; muito além das salas do velho colégio.

Em 1972, quando passava no concorridíssimo vestibular, da então nova Universidade Federal de Sergipe, a primeira cacada de ceboleiros concludentes do Ensino Médio no Murilo Braga, também começavam as primeiras obras d'artes para o asfaltamento da BR-235, que se completaria até 1974.

Como parte do apoio social à obra, contou-me Hênio Araújo, candidato a prefeito em 1966, e um dos entusiastas iniciais do supracitado Científico, que, uma equipe do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, o DNER esteve em palestra no então recente Rotary Club de Itabaiana, para alertar que o asfalto, traria óbvia melhoria no trânsito, mormente para a capital; mas que isso poderia significar, a médio prazo, uma maior fuga de habitantes serranos para a mesma, se não fossem tomadas medidas de atração para Itabaiana.

Naquele momento ninguém pensou que um poderoso argumento de atração da cidade já estava em marcha: um Ensino Médio, existente em Itabaiana, que a partir de 1972 passou a despejar cada vez mais vestibulandos nas variadas faculdades que foram surgindo na supracitada Universidade.

Dessa forma, não só as chances da estudantada pobre mudaram; mas o próprio destino da cidade que passou a atrair cada vez mais os estudantes pobres e remediados das outras cidades. E suas famílias.

Com a completude do Científico no Murilo Braga, Itabaiana voltou a ser um polo de atração regional. Depois veio rádio, irrigação, multiplicaram-se as agências de serviço como clínicas e outros, e hoje a cidade é uma espécie de capital regional.

Um pouco pela teimosia e ousadia, de José Augusto Machado, que será homenageado nesta sexta-feira, 20 de dezembro, em Sessão Solene da Academia Itabaianense de Letras, aberta ao público, como de praxe, a realizar-se no plenário da tricentária Câmara Municipal de Itabaiana, a partir das dezenove e trinta.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

E LÁ SE VAI UM “PISTOLEIRO”.

 

O professor Tuíca, o "pistoleiro" (que nunca matou nem uma mosca) em dois momentos:
Adolescente no baile de debutante de Helenilde dos Santos (filha de Heleno da Padaria), expressando a sua timidez;
E há uns três anos, recebendo a visita de um tiete, o ex-aluno, amigo e médico, o Dr. Rômulo Oliveira.

Foi sepultado hoje, 16 de dezembro, o meu professor de Química, do Ensino Médio do Colégio Estadual Murilo Braga, em 1980, Antônio da Costa Lima, o Tuíca. Professor meu, e de centenas, talvez na casa do milhar, do aguerrido Curso Científico do grande templo de ensino e transformações itabaianense.

Tuíca lecionou no Colégio, justo no seu tempo mais glorioso, das décadas de 1970 e 1980, quando chegou a ser mais populoso que um terço dos municípios de Sergipe, da mesma época.

Mas a história que conto aqui, e que envolve o meu agora saudoso e icônico professor, em verdade, repasso, porque me foi contada, ainda fresquinha, por Benjamin José de Oliveira, o saudoso Beijo de Bibi, logo depois de deixar o setor municipal de transportes, na metade do primeiro mandato de prefeito de Luciano Bispo, em 1990.

Antes, algumas informações adicionais.

Em 1983, depois de perder a primeira eleição para João Germano da Trindade, o saudoso boiadeiro João da Véia, em 1982, o hoje deputado estadual Luciano Bispo caiu em campo, estimulado pelo clima político da época.

Em 1984, o grupo liderado por Francisco Teles de Mendonça sofria cada vez mais empecilhos junto ao Governo João Alves, de quem fora a espoleta da sua eleição em 1982, o que o tornava mais pressionado, porque se achando, de certa forma traído.(*)

A reportagem da Revista Veja, de número 870, de 8 de maio de 1985, intitulada “Parceria Roubada” (p.108), (1) acusando o governo de João Alves Filho de desvios foi a gota d’água nessa cada vez mais conflituosa relação: Chico de Miguel (Francisco Teles de Mendonça) faltou a paciência e rompeu com João Alves Filho. De fato, oficializou. E aí, a oposição no município começou a nadar de braçada, rumo à vitória em 15 de novembro de 1988.

Toda a máquina do Estado, e em todos os setores, antes divididos com o grupo de Francisco Teles de Mendonça, passou integralmente ao comando da oposição.

E aumentaram as provocações. E aqui voltamos ao principal da história.

Em 1986, de posse de uma máquina patroladeira, o então candidato Luciano Bispo resolveu consertar uma estrada vicinal no povoado Pé do Veado. Domínio exclusivo do Executivo Municipal. Ao começar a máquina a trabalhar, os olhos e ouvidos de Chico o informaram, e este foi tirar a história a limpo.

Beijo, estava de motorista oficial de Luciano Bispo, estacionado logo atrás do “canteiro de obras”, com Luciano Bispo no banco do carona.

No banco de trás, usando óculos escuros, compondo com o bigodaço que sempre ostentou, o professor Antônio da Costa Lima, Tuíca. À época, ar-condicionado automotivo era uma raridade e todas as janelas do Corcel II estavam abertas.

De repente, o carro com Chico de Miguel para atrás do carro de Luciano Bispo. Lentamente Chico desce e segue em direção a Luciano, baixando levemente a cabeça para olhar nos olhos do “infrator”. Em seguida, a ordem: “Olhe, moço: se o senhor quiser mandar no município, primeiro ganhe a eleição, porque, enquanto eu mandar, quem faz ou deixa de fazer obras sou eu”. E emendou: “O meu prefeito”.

Os três super apreensivos.

Tinha gente branco, sem uma gota de sangue; ele, Beijo, moreno, disse que ficou cinza... e aí, descobriram, melhor redescobriram Tuíca, sentado no banco traseiro, imóvel. Petrificado.

Ao perceber-lhe, e sem o reconhecer, Chico assim se dirigiu ao professor: “E você, seu pistoleirozinho de merda, esse bigode eu arranco de facão”.

Segundo Beijo, ninguém sabe se houve maiores consequências com Tuíca.

Provocação consumada, trator e gestor deixaram a estrada revirada e se mandaram.

Minha singela homenagem ao grande professor de muitos, emblemático do Velho Murilo Braga, de quem sempre lembrarei recoradando momentos hilários, ou alegres, como esse.

Descanse em paz!


(*) De fato, em 1982, Francisco Teles de Mendonça impôs o nome do engenheiro João Alves Filho ao então governador e presidente nacional do partido, Augusto do Prado Franco, para o suceder.


(1) Esclarecendo que a reportagem tratava de problemas no Governo do Estado, em relação à distribuição de trigo doado pelo Canadá. Nada a ver com Chico ou com Itabaiana.

domingo, 15 de dezembro de 2024

POBREZA ARTÍSTICA E REAÇÃO.


A canção foi lançada em 1975, há quase cinquenta anos. E a galera que há pouco a entoava em coro, aqui na vizinhança, acompanhando-a na gravação com o próprio artista, Fernando Mendes, nenhum dos presentes tem mais de 23 anos.

Outro dia prestava atenção em outro grupo, enquanto o cantor tocava ao violão, o público ao redor, não etilizado, mas bastante empolgado, o seguia em coro, cada verso de A Banda, do Chico Buarque, gravada e sucesso radiofônico em 1966. Há 58 anos. Detalhe: o nosso jovem cantor, com menos de 30; uns três do grupo, na faixa do 50; e a massa a cantarolar, tudo de menos 30 de idade.

Aí, eu me pergunto, como satiricamente fez a saudosa Rita Lee, em Arrombou a festa, música de 1977: “Ai, meu Deus! O que foi que aconteceu com a música popular brasileira?”

É que ninguém cantarola ou assovia nada com menos de 25 anos de lançado. Já velhos sucessos, mesmo as gerações mais novas, que vive imersa num mundo binário do tum-tum-tum das malditas e má tocadas baterias eletrônicas, quando cantarolam algo, o faz de velhos sucessos de seus pais, e até avós.

A canção do Fernando Mendes a que me referi é Cadeira de Rodas.

A fotomontagem (fundo, órgão de igreja europeia):

Em Itabaiana, Chico Alves, voz, violão (alto, dir.) popularizou a bateria eletrônica em sua memoráveis serestas, na Atlética, a partir de 1983. Mas o estilo inaugurado com a eletrônica não foi logo seguido por Nado e grupo (e outros), que manteve o estilo d'Os Nômades, de 1966. A seguir veio os teclados multi-instrumentaise o empobrecimento melódico geral já estava chegando até às gravadoras. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

SEXTA, 13 DE DEZEMBRO, DIA DE SORTE.

 

13, sexta-feira, também é dia de Festival

Cem anos depois, o teatro volta a fazer parte das nossas expectativas. 

Calma! Por enquanto é só projeto, do arquiteto Gabriel Mendonça Franco, porém será lançada, na sexta-feira, 13, Dia de Santa Luzia e nascimento de Luiz Gonzaga, pelo prefeito municipal de Itabaiana, Adaiton Souza, a pedra fundamental, e a apresentação da maquete, concebida pelo citado arquiteto, do Teatro Zé Bezerra (veja também aqui), a ser brevemente construído.

Pobre, mas ousadíssima, a cidade de Itabaiana foi a primeira do estado a ter um fotógrafo, em 1871: Miguel Teixeira da Cunha, da cepa dos Lobos. Embalado pelas boas novas da então nova cultura, do algodão, e das feiras que arrancaram elogios de presidente de Provincia, Alexandre Rodrigues da Silva Chaves, Seu Teixeirinha foi – e voltou - em lombo de burro buscar seu daguerreotipo em Salvador. Seu Teixeirinha - e sua fotografia - se arrastou como pôde até nos deixar primorosas imagens de uma vilazinha, bucolicamente seca e estagnada, das primeiras décadas da República, nos legando a cultura do registro histórico, mediante a fotografia. 

Em 1875, conforme o historiador Wanderlei Menezes, foi a vez do professor Manoel Damásio Pereira Leite fundar o segundo Gabinete de Leitura do estado (o primeiro foi em Aracaju, em 1860). Que sobreviveu por menos de um ano. Faltou lentes, peças, e recursos, com o próprio professor logo se transferindo para a capital.

Do teatro, só o registro de Laudeino Freire;(*) mas ficava ele na atual esquina das ruas Tobias Barreto com General Siqueira, e onde também se primeiro tentou um cinema, em 1913, endereço recentemente conhecido como a casa do saudoso Chico de Miguel.

Desta vez, mais de um século depois, pode vir a ser a casa de espetáculos clássicos de que tanto se necessita. 

Bem-vindo o Zé Bezerra.

Para a esmagadora maioria dos itabaianenses que não conhece (a crônica falta de imprensa foi fulminante na perda de memória da cidade), José Amâncio Bezerra é o nome do nosso maior dramaturgo.


E o 13, sexta-feira, continua

Às dezenove horas e trinta minutos tem lugar, na Praça do Chiara, a final e premiação do IV FIC. O Festival Itabaianense da Canção é uma medida de resistência contra a claríssima perda de qualidade da nossa música popular, motivada pela falta de financiamento, ocorrida com o fim da indústria fonográfica; e um estímulo para novos e velhos ritmos, no sentido dessa requalificação. Já está na sua quarta edição, e, como sempre recheada de belas criações de compositores itabaianenses, e de Sergipe.

Sexta-feira, como dito, a final ocorrerá as partir das dezenove e trinta. Imperdível!


13: aniversário de Luiz Gonzaga e a inauguração da Escola de Sanfona.

Por fim, na sexta teremos às vinte e uma horas, na Praça Luiz Gonzaga do loteamento de mesmo nome, entre a antiquíssima estrada real para Salvador, e a noviça SE-170 - que também dá acesso à antiga capital do Brasil - a inauguração do Centro Cultural Luiz Gonzaga, da Sociedade Filarmônica Vinte e Oito de Agosto – SOFIVA, e sua Escola de Sanfona. É a maior homenagem que Itabaiana pode prestar ao reinventor do Nordeste; aquele que, despretensiosamente, legou um Brasil mais brasileiro através da sua alma: a cultura musical. Especialmente ao resgatar e formatar a resistência cultural em uma nova era, volátil e internacionalizante, qual seja, a do rádio, seguido da TV.

Itabaiana, entranhada com a Música Popular Brasileira, desde seus primeiros registros, através de monstros sagrados como Luiz Americano; Adileia da Silva Rocha, a Dolores Duran, filha da itabaianense D. Josefa da Silva Rocha; e da senhora Noel Rosa, Lindaura Martins; logra, na atualidade, ter entre seus filhos o exímio músico, com expertise na sanfona, o Erivaldo Junior Alves de Oliveira, o Mestrinho, recente prêmio Grammy Latino 2024, e que, na minha modesta opinião, encerra em si os gênios de Dominguinhos e Sivuca num só. Com uma lambujazinha a mais.

A Escola de Sanfona vem coroar a sina musical de Itabaiana.

À esquerda, acima, o casal Noel Rosa e sua esposa,a itabaianense, Lindaura Martins; embaixo, a itabaianense Josefa da Silva Rocha e sua famosíssima filha, Dolores Duran. No centro um dos inventores do chorinho, o itabaianense, (apesar de nascido em maternidade de Aracaju), Luiz Americano; e à direita, o fenômeno atual, Mestrinho, ganhador de Grammy Latino deste ano.


(*) FREIRE, Laudelino. Quadro Chorographico de Sergipe, p.114..H. Garnier, livreiro-editor. Rua do Ouvidor, 71, Rio de Janeiro - Rua des Saints-Pères, 6, Paris. 1902.



sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

PREGUIÇA E PREPOTÊNCIA: INGREDIENTES EXPLOSIVOS.

 

A falta de interesse político; e a falta de documentos que definisse precisamente seus limites, tornaram o estado de Sergipe aproximadamente num quinto do território supostamente original.

Meu primeiro emprego formal, aos treze anos de idade, foi de professor (formalmente, monitor) do MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização.

O foi pelo Município de Areia Branca, num povoado que era - e ainda é - do município de Itaporanga d'Ajuda, desde que os barões do açúcar deserdaram o Município de Itabaiana daquele suculento pedaço de terra, ao também deserdarem sua segunda freguesia católica, do então povoado Campo do Brito, até onde hoje corre esse município, por volta de 1860.

E porque ainda hoje a Caroba - e seu vizinho, o Cajueiro - dentro de Itaporanga, são administrados por Areia Branca, desde 1963?

Por preguiça, prepotência e total descuido de deputados e governos, da época, e seguintes. Ao invés de traçar os limites pelos inúmeros rios e córregos que existem na região, nascentes do rio Poxim-Açu, tomaram uma linha imaginária, a partir do pico da serra da Cajaíba (ou Cajueiro, tanto faz) até a nascente do Poxim-mirim, ao sul, e próximo ao povoado Pedrinhas.

Esse limite já estava em vigor em 1875, data do último recenseamento eleitoral da Monarquia.

Mas, Itaporanga ganhou, porém nunca administrou. E Areia Branca, desde 1963, adotou aquelas populações abandonadas, o que gerou meu primeiro emprego.

Por esse critério, desde o início da República os povoados de Serra Comprida, Junco, Boqueirão, hoje, todos dentro do município de Areia Branca passaram a ser de Laranjeiras. Porém, com os dois primeiros citados seus moradores se mantiveram ligados, inclusive eleitoralmente à Itabaiana, até 1963, ano da criação do município de Areia Branca. 

Por falta de bom senso, na melhor das hipóteses, em quem criou os limites.


O caso Sergipano

Os arroubos ‘patriotistas’ sergipanos, como diria o personagem de O Bem Amado, Odorico Paraguaçu, junto com singelas intenções de consertar erros seculares levou deputados, governadores e, claro, ingênuos e sonhadores estudiosos a pleitear no início da República Velha a revisão dos limites sergipanos com a Bahia.

Porém, baseados em que, esses pleitos?

Pessoalmente, desconheço qualquer documento definidor dos limites da capitania de Sergipe. Nenhuma linha sobre a ordem de Felipe II da Espanha, então em domínio do Império Português, mandando Cristóvão de Barros invadir os Sertões do Urubu e fundar a cidade de São Cristóvão de Sergipe d’El-rei, e delimitar a circunscrição de sua capitania.

No mapa “baiano” da capitania de Sergipe, ilustrativo ao relatório de Moreno, em 1612, nem mesmo o vale sanfranciscano entra.

No mapa holandês, de 1646, uma inversão: Sergipe “pernambucano”, começa no Vaza-Barris e vai até o rio São Francisco. 

Estamos falando de limites norte-sul. Para o então insondável oeste, nada. Mesmo já percorrido, seguramente, por Melchior Dias Moreia, à procura de prata.

Desconheço o estudo que delimitou as nascentes do rio Real, que acabou sendo tomado como limite sul. Já li que nasce, seco, nas proximidades de Banzaê-BA; ou como se convencionou, a leste de Poço Verde, neste caso, mais conveniente ao vizinho estado da Bahia, por encerrar qualquer polêmica. 

O fato é que política e culturalmente, está decidido que o rio Real nasce em Poço Verde, e aí cai por terra até aquela reivindicação de que o limite oeste seria uma linha entre a nascente, em Banzaê, e a Cachoeira de Paulo Afonso. Os “interpretadores” de leis e outros escritos, baianos foram vitoriosos e ninguém mais fala nisso. Até mesmo porque, convencer a jeremoabanos, pauloafonsenses, paripiranguenses e outros, a fazerem parte de um estado onde metade ainda tem dúvida se deve existir... não é fácil.

E tudo começou com uma indefinição de limites.


A briga de Sergipe d’El-rei: o Forte Velho e a Cidade.

A capital dançou de posição quatro vezes. Da última aportando quase no mesmo local da primeira tentativa, no "Forte Velho".

Aracaju foi criada por um capricho dos senhores de engenho de Cotinguiba, contrapondo-se ao grupo de Estância. Itabaiana, Lagarto e Neópolis de espectadores.

Neópolis (Vila Nova) já enfraquecido há meio século, com o avanço de Propriá; Lagarto em processo de retomada do desenvolvimento, que a recolocaria no primeiro time, ainda no início do século XX; e Itabaiana, estagnada, sem lideranças fortes, e que só a partir de 1950, ressurgiu no cenário estadual, deixando de ser uma lenda do passado, já bastante esquecida, até pelos próprios munícipes, para ser o que é no presente.

Em 1855, quem mandava eram os senhores de engenho (E ainda hoje, apesar de longe dos engenhos). E o principal deles, o Barão de Maruim estava além disso.

E mudaram a velha capital, terceirizando a responsabilidade ao brilhante funcionário de carreira, Inácio Barbosa, então na Presidência da Província, por mérito funcional, nomeado pelo Imperador D. Pedro II, como também por recomendações do supracitado Barão.

Quanto aos limites traçados para o município, desconheço a origem; porém, com o retorno de Nossa Senhora do Socorro a vila emancipada, em 1868, conforme o Álbum de Sergipe, de 1920, Aracaju retornou ao limite original ao sul, no rio Poxim. 

Desconhecedor da história territorial da capital, a fundo, logo sem autoridade para opinar. O fato é que no primeiro mapa sergipano, onde aparecem as delimitações municipais, de 1938, o antigo Forte Velho ou Santo Antônio da Aldeia do Aracaju, revigorado como cidade do Aracaju, já tem a área municipal atual, com o município da velha cidade de Sergipe d’El-rei avançando pela península, cortando-a pela metade, até o posto extremo sul, a beira da velha enseada de Vaza-Barris, cemitério de naus, desde Américo Vespúcio, à carregadíssima de ouro nau Almiranta, dois séculos depois. 

A velha mania de empurrar os problemas com a barriga, portanto, acaba gerando confusões, mesmo quando o lugar, a princípio, é ermo. Mas que um dia pode se tornar especial, como o sul da península formada pelos meandros do Vaza-Barris, e o oceano, hoje disputadíssimo pela especulação imobiliária.

Mapa da ditadura do Estado-Novo, com definição municipal. De 1938. A linha tracejado é exatamente a mesma até hoje.

O caso de Itabaiana

O Município de Itabaiana tem metade da sua atual limitação de forma natural: por rios ou serras. Porém, seus limites com Areia Branca, por exemplo, não estão bem definidos. Grande parte poderia ser pelo riacho do Cachorro, descendo da Cajaíba, entre os povoados Mangueira (Itabaiana) e Boqueirão (Areia Branca); e o rio das Pedras, esse nascendo a cem metros do marco no topo da Serra de Itabaiana. A preguiça e descaso, contudo, separou sítios ao meio; povoados e até casas, ao determinar uma linha direta da serra de Cajaíba à serra de Itabaiana.

Também criaram uma excrescência, ao tomarem uma linha direta entre a confluência dos rios das Pedras e Traíras, hoje submersa na Barragem do Projeto Ribeira, a um ponto aleatório ao sul do povoado Ribeira, cortando o mesmo, na parte sul, dividindo-o com Campo do Brito, e retirando as famosas Pias do município de Itabaiana.

Bastaria consultar um geógrafo, antes de fazerem tais definições.

Problemas para o futuro. Do tipo a arrancar protestos indignados de gente como meu confrade e amigo, o jornalista Luciano Correia, morador do Mosqueiro (que julgava estar em Aracaju) em artigo recente. Fator que me trouxe ao tema. (Leia também: https://www.sosergipe.com.br/somos-todos-aracaju/

Et coetera.


domingo, 24 de novembro de 2024

A FORÇA DA FÉ.

 

Juntos ao pedestal, abraçados a cruz, fiés a rezar. em rogo ou agradecimento, olhos e corações dirigidos à Santa que fez do acolhimento sua profissão de fé.

Ontem, sábado, 23 deste novembro do ano de 2024, do Nosso Senhor Jesus Cristo, ocorreu aqui, em Itabaiana, mais uma Tertúlia da Sociedade Médica Sergipana, a SOMESE, com uma bem simbólica programação.

A Tertúlia, sempre realizada pela SOMESE, e já feita em outras plagas interioranas, veio fazer justiça aos muitos heróis de verdade, que ajudaram a salvar vidas, desde o nascimento, entre nós. Gente emblematicamente ainda presente em nossa memória, como o grande realizador, o saudoso riachense Dr. Gileno de Almeida Costa, que adotou Itabaiana, em 1935; e por ela foi adotado. O laranjeirense, também saudoso, Dr. Pedro Garcia Moreno Filho, e para não incorrer em justiças, resumindo aqui, entre os vivos, mais um grande símbolo das transformações por que passamos, o soteropolitano Dr. Raulino Galrão Lima, presente em pessoa, ao evento.

Durante a manhã, houve a apresentação da vetusta, porém renovada sede da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição. Renovada, porque a graciosa sede foi reconstruída em 1999, há um quarto de século, dos dois e meio que tem a instituição. Depois, a equipe de médicos se dirigiu ao Instituto João de Matos, anexo do Colégio Estadual Murilo Braga, este, templo máximo do saber em Itabaiana, mesmo hoje, que pululam universidades e faculdades solo, em nosso solo.

Abertura da solenidade propriamente dita, da SOMESE, no auditório do SESC Maria José Tavares dos Santos Machado, em Itabaiana.

E eu, como membro da Academia Itabaianense de Letras no meio deles. 

No Instituto de Música Maestro João de Matos, fomos premiados com um ensaio da orquestra e coral, em preparo para uma apresentação solene, na matriz de Nossa Senhora do Carmo, no próximo dia 30, no histórico Bairro São Cristóvão, na zona Leste da cidade.

Em seguida, nos encaminhamos à Casa de Santa Dulce, presenciar o magnífico trabalho que ora ali se desenvolve, no atendimento aos doentes, especialmente com distúrbios mentais variados. Abandonados, em geral.

A Casa é exemplar. Numa parte alta do Bairro São Cristóvão – o antigo Tabuleiro dos Caboclos, supostamente origem dos boimés(*) - bem ventilada, mesmo cercada de habitações, instalações modernas, enfim: excelente.

Veio a breve apresentação pelo Sr. Marcos Lima, com breve histórico, funcionalidade, enfim.

Mas, de tudo o que mais me chamou a atenção foi, ao sair brevemente da recepção da Casa de Santa Dulce, uma senhora no alto, no mirante anexo, aos pés da imagem ali construída da Santa, em ato de contrição a fazer preces, não sei se de rogo, ou agradecimento. 

A fé resiste.

Apesar de toda a riqueza material e toda a tecnologia atual, “continuamos a precisar de alguém mais alto a nos guiar”, parafraseando o verso da canção popular, Quem me levará sou eu, do Seu José Domingos de Morais, o saudoso Dominguinhos.

Sempre haverá aquele momento de insegurança, de carência, e até de agradecimento especial, não a um programa de computador, uma máquina, uma técnica ou mesmo um operador, um líder humano; em carne e osso. Mas a algo transcendente. Além da nossa compreensão. Fé.

O risco, é alto e sempre iminente de acabarmos sendo manipulados por falsos profetas. Mas desde que o animal homo se tornou sapiens, esse é um risco que sempre corremos e correremos. Porém que dele não podemos escapar, porque inerente à natureza criativa, portanto inquieta, duvidosa, incomensurável e incerta da plenitude, que é a imaginação humana.

Aliás, foi num momento limítrofe, entre a vida e a morte, que Irmã Dulce virou santa. E habitou entre nós, itabaianenses, numa bela história envolvendo medicina e fé.

Que a fé seja infinita, como diz aquele outro compositor popular, o Ivan Lins, em sua canção, A Bandeira do Divino. Sem nos cegar pelos falsos profetas, obviamente.


(*) Não está bem claro a origem mda tribo boimé, em Sergipe. 
Foi ela documentada, já na Missão do Carmo, hoje Carmópolis; contudo, existe indícios de que ela foi trasnportada da Itabaiana pecurista, e reduzida à dita Missão. 
São fatos que apontam nessa direção:
1- A capela do hoje Bairro São Cristávão, apesar de tida como construida pelo Padre Valentim da Cunha, em 1900, de fato é muito anterior, e sua origem é numa missão, dado o símbolo em alto relevo, acima da porta principal;
2 - há um povoado, popularmente chamado "Boimel", contíguo ao mesmo antigo tabuleiro dos caboclos, hoje Bairro São Cristóvão;
3 - Há uma lenda sobre os matapoanes, em contraposição aos boimés;
4 - Foi comun nos séculos XVII e XVIII a movimentação de grandes contingentes indígenas para tirar-lhes do alcance direto dos colonos, sedendos de terra e de braços escravos para seus lucros. E as ordens religiosas, eram os operadores dessas transferências, em nome da religião e do rei de Portugal. O contrário, seria o extermínio puro e simples, como ocorre, ainda hoje na Amazônia.

sábado, 23 de novembro de 2024

INTENCIONALIDADES?

 

A cidade de Divina Pastora se estende ao longo das primeiras "BRs" brasileiras, a cortar Sergipe, aqui fundidas numa só: a Salvador-Olinda, ou Estrada da Boiadas.
A estátua de Nossa Senhora Divina Pastora, bem no meio dela

Da última vez que andei pela minúscula, bela e aconchegante, cidade de Divina Pastora, minha mente de curioso pela História, mais uma vez viajou.

Antes de lá chegar, passei pelo emblemático povoado do Bomfim. Cada dia maior. Se brincar, vai passar em tamanho a sede do município: a própria Divina Pastora.

Fundada sobre uma colina, conforme o padrão das cidades ou cidadelas de até o advento dos aviões de guerra, a cidade de Divina Pastora, hoje, não tem para onde crescer. Já seu povoado Bomfim, numa pequena planície, tem área para se espraiar. E sua maior proximidade da Grande Aracaju está lhe ajudando nisso.

O que me faz viajar na memória, sobre Divina Pastora, é o fato do traçado da sua principal rua ser justo o curso da quatrocentona estrada real Salvador-Olinda, certamente num dos trechos mais movimentados, já que fusão entre as duas: a do sertão, ou Caminho do Sertão, por Itabaiana e Lagarto; e a do mar, ou Caminho do Mar, por São Cristóvão e Santa Luzia do Itanhi.

As duas estradas se fundiam justo no povoado Bomfim, identificado no mapa holandês, de 1646 como um curral (fazenda); se dissociando na hoje cidade de Japoatã. Uma retornando ao curso do sertão; outra, voltando ao litoral.

Cada vez que pela cidade eu passo, eu dispo-me da visão de casas, ruas e até da magnífica igreja matriz, para ver, mentalmente, as incessantes boiadas que foram enviadas por quase um século para Pernambuco, e que, mesmo depois do fim desse mercado, começou a fazer outro trajeto, com leves alterações, para o então nascente mercado de Propriá.

Felisbelo Freire foi tácito: “Antes de ser lavrador, Sergipe foi pastor”. Indiscutível.

E como essa foi a primeira estrada – em fusão das duas – a transportar as boiadas, que segundo Moreno, em 1612, abasteciam os engenhos de Pernambuco e a cidade da Bahia, Salvador, cabe se perguntar se a denominação “Nossa Senhora Divina Pastora”, foi intencional, ou não?

E a aposição de sua estátua, justo nesse local, há poucos anos, também estaria ligada a essa profunda simbologia?

O povoado Bomfim, local de fusão das duas estradas: a do sertão, por Lagarto e Itabaiana; e a do litoral, por São Cristóvão e Santa Luzia do Itanhi. Futuramente foi fundada a divina Pastora, sobree as colinas, mais abaixo, no mapa. (Praefectura de Ciriji, vel Seregippe del Rey cum Itapuama)




sexta-feira, 1 de novembro de 2024

INOVAÇÕES.

Câmara e Biblioteca, na cidade de Areia Branca, tendo do lado direito a rua, ex-estrada real Simão Dias-Laranjeiras, origem da povoação, na primeira metade do século XIX.

Até o fim da monarquia, em 1889, sempre que era criado um novo município, sua sede e povoado emancipado era a vila, que obrigatoriamente tinha que ter, cartórios de 1º e 2 º ofícios; paróquia (ao menos uma) e Casa de Câmara e Cadeia.

Os vereadores, invariavelmente eram também chamados de juízes, e, como as câmaras fossem uma imitação do senado romano, por vezes elas também foram chamadas “senado da câmara”. Até porque, eram as instâncias municipais de maior poder. Inclusive o de prender e soltar. Daí o porquê de a necessidade de sempre ter no térreo a cadeia, também usada pela polícia, quando indispunha de quartel.

Esse formato, como já dito, veio da República Romana. Antes dos imperadores. E atravessou os milênios com algumas modificações.

"...que os moradores desta Capitania queiram fazer as casas de Câmara e Cadeia à sua custa".

Há tempos que eu só passava por Areia Branca, pela BR-235. Não entrava na cidade, que vi crescer, e a tive como segunda povoação de que mais gostava na adolescência. Nela estreei o meu lado comercial, aos nove anos, vendendo cestinhas de verduras aos feirantes, concorrendo com as bancas... e não fui muito adiante. Em seu município tive minha primeira ocupação formal, qual seja a de professor de MOBRAL... aos 13 anos. Tão pequeno que ao receber a primeira supervisão, a diretora de Educação, minha saudosa amiga D. Josefa, diante da dificuldade do motorista do Município em saber quem era o professor, brincou: "sobe no banco aí, Zé, pra Louro te ver!" 

A cidade, postada no curso da estrada real Simão Dias-Laranjeiras, originada na passagem das inúmeras boiadas, e outra mercadorias, entre ambas as potências econômicas da época, século XIX e início do XX, muito pouco cresceu no início, mesmo depois de virar sede municipal, em 1963. Explodiu seu crescimento depois de 1980.

Hoje, fotografando a cidade para dois projetos, um deles, municiar-me de material sobre o município original de Itabaiana e sua paróquia – a segunda na história sergipana – que entrou ontem em seu Ano Jubilar de 350 anos de fundação, consequentemente também fundação da cidade, dei com uma feliz associação, não de Câmara e Cadeia; mas de Câmara e Biblioteca.

A biblioteca, essa magnífica invenção de Ptolomeu, há mais de dois milênios salvou, não somente a cultura grega, mas de todo o Ocidente, depois das loucuras das matanças feitas por Alexandre Magno, chefe de Ptolomeu, que o sucedeu no velho Egito, uma das conquistas do grande general, horrivel administrador. Os esforços de Aristóteles, pois, foram recompensados.

Chamou-me a atenção.

Um fórum democrático por natureza, onde se prática a arte escura da política; com o outro lado, diametralmente oposto, de um templo do saber, da polidez, refinamento e clareza nas ações humanas.

Minha pequenina Areia Branca, há muito deixou de existir.

Mas continua graciosa.

Antes de ser professor, por Areia Branca, nela fui vendedor mirim na feira, que em 1969, funcionava na metade da pequena Praça, com o "Mercado da Farinha" à direita, e o Talho de Carne no prédio cuja parede aparece à direita.


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

VIAJANDO.

 

Lavandeira, à vontade me premiando com a sua simplicidade. Ao fundo, por trás do tronco, quatro séculos de história, no povoado Bomfim, município de Divina Pastora-SE

Nascido numa terra de povo inquieto, povo viajor por natureza, à minha maneira não fujo à regra.

Tenho por hábito pouco sair das minhas serras, fisicamente falando; mas, quando o faço, não somente o corpo físico se desloca, como a mente se projeta no tempo. Não consigo ver uma estrada, com histórico antigo, sem acabar por nela me ver, por um ou quatro séculos atrás.

Numa perseguição ao passado, hoje, 31 de outubro, fui até passagem de São Gonçalo, que também já foi chamado de Rio de Sergipe, de Os Pintos; enfim, Riachuelo. A denominação atual é uma homenagem à batalha travada no Rio Paraná, na Província de Corrientes, Argentina, em 11 de junho de 1865, início da ofensiva brasileira na guerra contra o Paraguai, a Batalha de Riachuelo. 

Como Passagem de São Gonçalo, ficou desde a criação dessa paróquia, em 1700, ficando assim conhecida até fins do século XVIII, quando já perdera grande parte da importância para um novo ramal, mais à leste, por Pedra Branca, da estrada Salvador-Olinda, ou Caminho do Mar.

Inicialmente a estrada atravessava o rio Sergipe em Riachuelo devido ao local ser cabeça de maré. O máximo aonde a maré chega, ao subir rio acima em cada enchente, duas vezes ao dia.

Hoje, com o avanço da tecnologia, e o advento de pontes monumentais, essas particularidades são desprezíveis; mas já contou muito nas jornadas semanais a pé.

Antes de chegar a Riachuelo, porém, passei por outro lugar emblemático: o entroncamento – e fusão temporária – das duas estradas reais abertas, tão logo veio a Conquista de Sergipe, com desfecho na Serra do Pico, hoje limite entre os municípios de Frei Paulo, Itabaiana e Macambira, por volta da meia noite de 31 de dezembro de 1589, segundo o Frei Vicente do Salvador. O Caminho do Sertão, e o Caminho do Mar. A fusão ia até Japoatã.

Excerto de mapa holandês, nassoviano.

E o citado entroncamento?

Ele aparece no mapa holandês de 1646, como tal, e um curral – fazenda – fornecedor de gado para o Pernambuco ocupado pelos holandeses.

Durante os sete anos da administração Maurício de Nassau, especialmente após o mês julho, com o rio São Francisco seco, o grosso do gado juntado dentro da Itabaiana descia as colinas da Santa Rosa de Lima, encontrava a outra parte que vinha da área mais litorânea, justo aqui; e rumava para Pernambuco.

Hoje, nessa espécie de esquina do mundo antigo sergipano, uma graciosa unidade de ensino em que, provavelmente por desconhecimento da História de Sergipe, uma praga geral no estado onde tanto se fala em sergipanidade, não tem a mínima noção da importância histórica desse lugar, qual a inocente lavandeira que em meu limpador, veio graciosamente pousar.

Sobre a paróquia de São Gonçalo, D. Marcos Antônio de Souza – que dela foi pároco antes de ser bispo do Maranhão - nos diz que foi fundado na passagem que depois levou o nome por um bom tempo; migrou por breves tempos para as colinas onde hoje se assenta Divina Pastora; e acabou indo servir de suporte à aldeia indígena, estilo missão, do Pé do Banco, onde hoje está, com o nome Jesus, Maria Jose, tendo perdido o São Gonçalo. E Pé do Banco virou Siriri, nome do afluente do rio Japaratuba que lhe passa próximo.

A passagem de São Gonçalo.


domingo, 27 de outubro de 2024

FAVAS CONTADAS. O POVO DE ARACAJU DIZ NÃO AO SISTEMÃO.

 

Os 494.229 votos (38%, 1º lugar)... do 1º turno de 2022 ainda permanecerão entalados nas gargantas; mas, pelo menos uma lufada de ar fresco na vontade popular, contra as diabruras da trevosa aristocracia peba e cabaú de Sergipe que insiste em ser anacrônica, prepotente, arrogante, antipovo.

A resposta popular contra a máquina viciada e viciosa da politiquinha sergipana foi avassaladora: no passarón. Não, se depender da fonte legítima de qualquer poder: o voto do povo.

Povo que sempre é enganado; mas sempre resistirá. Sempre.

E... quando na História de Sergipe, de alguma forma, Itabaiana e Lagarto se uniram houve sensíveis mudanças para melhor, nesse pequenino estado, tão castigado de políticos super espertos. E ruins. Reles egoístas.

Assim foi na primeira tentativa de efetiva independência - na Rebelião dos Curraleiros; assim foi em 1820-1823 – decreto régio e confirmação. E em todas as demais oportunidades, desde então.

Parabéns à prefeita eleita de Aracaju, a lagartense Emília Correia.

Que tenha sabedoria para navegar nas águas super turbulentas da política sergipana, a partir de 1º de janeiro próximo.

A FORÇA DE UMA IMAGEM.

 

Foto: Joselito Miranda. Editora ArtNer

Desde que Daguerre fixou em papel, uma via parisiense, com um solitário engraxate ganhando o pão exercendo o seu ofício junto a um único cliente, que nunca mais o mundo foi o mesmo. Tal a revolução provocada por Joannes Gutemberg e sua prensa, a imageria se precipitou. Nasceu a fotografia com que, cinco décadas depois Seu Teixeirinha registrava a primeira imagem de Itabaiana, e dos seus primeiros habitantes, não mais pela gravura manual – desenho ou pintura – mas mecânica; rápida, com cópia reprodutível, exatamente igual á original.

É quase impossível se viver atualmente sem a fotografia. 

E, de posse do celular, que concentra tudo, câmeras, inclusive, tornou-se algo tão banal que às vezes até chateia.

Outras vezes produzem as sensações – que pelo menos eu tive – ao se ver registrados singelos, porém tão significativos momentos como esse, da 3ª FLITA – Feira Literária de Itabaiana, congelado, eternizado numa imagem.

E, repito aqui as palavras do autor delas - a quem agradecemos a gentileza da cessão - o editor/escritor Joselito Miranda, da editora ArtNer: 

“A Feira do Livro de Itabaiana consolida-se como um dos melhores eventos literários de Sergipe. Agrega dezenas de escritores e editores, levando o público a ter contato com a literatura sergipana. 

Parabéns aos organizadores e aguardem, que em 2025 teremos a próxima Bienal do Livro com mais novidades.”

Foto: Joselito Miranda. Editora ArtNer


quarta-feira, 23 de outubro de 2024

PÉ NA ESTRADA

 

Começa nessa sexta, 25, às 10 de manhã, a 3ª FLITA, Feira do Livro de Itabaiana, uma iniciativa do mais que inquieto Tonho Saracura (ele também atende por Antônio Francisco de Jesus), meu confrade na Academia Itabaianense de Letras e acadêmico da Academia Sergipana de Letras, enfim um menino que não queria ser ‘pade’; preferiu ‘pade’ ser.

A 3ª FLITA, mais uma vez terá o apoio do Shopping Peixoto, para sua realização e está mobilizando os escribas sergipanos – e até doutras plagas - prometendo movimentar, senão qual a Bienal, porém um senhor esquenta para essa que é o maior evento literário de Sergipe.

Mais uma vez nada tenho para apresentar. De novo. Porém, estarei presente com a coleção de banners sobre a História de Itabaiana; marcarei presença também como membro temporário de Secretaria Municipal de Cultura de Itabaiana; e, óbvio, aproveitando para rever amigos e amigas; confrades e confreiras, e dar um abraço em todo o mundo que por lá estiver.

Há três anos sem reapresentação, volto a expor os sobreditos painéis - ou banners - para deleite de quem gosta da nossa história, num ambiente leve, alegre, e carregado de simbolismo cultural. Até mesmo porque a FLITA ocorre na semana em que nos preparamos para abrir o ano do 7º Jubileu da criação da Paróquia de Santo Antônio e Almas, e fundação da cidade de Itabaiana. A abertura do Ano Jubilar será na próxima quarta-feira, 30 de outubro.

Que a 3ª FLITA seja do tamanho da hospitalidade serrana, onde de costume, portas, janelas, porteiras, portões, cancelas, passadiços, colchetes... e claro braços e corações estão sempre abertos.

Bem-vindos!

sábado, 19 de outubro de 2024

A MARCA ITABAIANA, NOS 350 ANOS DE FUNDAÇÃO DA CIDADE.

 

O inquieto itabaianense, sempre se sentiu seguro na proteção da sua muralha de serras, ao tempo em que sempre buscou vencê-las. E conquistar o horizonte além.

Recentemente, e se preparando para o Ano Jubilar, da paróquia e cidade(*), que se iniciará no próximo dia 30 de outubro, o médico, atual secretário Municipal de Cultura de Itabaiana, Antônio Samarone de Santana, vem desenvolvendo uma série de crônicas sobre a cidade, sua história e personagens importantes.

Samarone tem partido de sua cultura de menino beco-novista – Rua Coronel Sebrão, tradicionalmente, Beco Novo - a segunda mais antiga rua de Itabaiana e parte intrínseca da sua tradicionalidade. Porém com alcance sobre toda a história serrana.

Em tempo: Ita, de Itabaiana, significa lugar ou serra.

O mesmo, que viveu a infância na década de ouro da arrancada para a atual cidade, tem bastante autoridade sobre esse período mágico, ao qual só vim ter contato aos 15 de idade, em 1975, já que oriundo da zona rural.

Mas há 15 dias comecei um périplo pelas cidades sergipanas, no sentido de captar imagens próprias e recentes das mesmas, uma vez que fiz isso em 2011, e de forma limitada. Não cobri todas as 75. 

Já visitei 12 das 74, além, obviamente, da que moro: Itabaiana. Em seis, encontrei a marca Itabaiana. Seja em lojas de comércio, de serviços, e até em indústrias.

Porém isso não é de hoje. Nem se resume a Sergipe.

Manoel Felix de Oliveira partiu de Itabaiana ao fim do século XIX, rumo a Propriá, pela velha estrada real pelas vilas de Nossa Senhora das Dores (velho povoado dos Enforcados,) pela Vila da Capela, e pela do Aquidabã (ex-Cemitério), e finalmente a velha Santo Antônio do Urubu de Baixo da Barra da Parãpiá, já com o status de cidade e denominação moderna de Propriá.

Certamente já comerciava em Propriá; porém, ali acabou não se demorando, vindo a se aventurar rio acima; primeiro por Piranhas, depois a Jatobá de João Pernambuco (hoje Petrolândia), o Juazeiro de João Gilberto e Ivete Sangalo, Barra da Rio Grande do Sul (hoje oeste baiano, além São Francisco) Santo Antônio do Urubu de Cima (Hoje Paramirim), e finalmente chegando à progressista Januária, onde se fixou. Ali, aproveitou a licenciosidade legal da época, acrescentando o sobrenome Itabayana, nome que até hoje ressoa na alta elite da justiça brasileira.

Em Januária, Minas Gerais, existe o bairro Alto do Itabayana, em sua homenagem.

Gravura maior: print da matéria do Itnet em 2005. Detalhe à direita: recorte do jornal carioca A Noite, de 21 de março de 1938, com o nome na lista: d'Oliveira Itabayana, descendente do nosso Manoel Félix de Oliveira.

Hermelino Contreiras, empresário, construtor do Tanque do Povo, em 1864, ainda jovem foi envolvido nas brigas políticas provincianas, ganhou mundo e se transformou no agente da borracha, transportando em seus navios-gaiola uma multidão de cearenses, maranhenses, potiguares, paraibanos, pernambucanos, alagoanos, e naturalmente sergipanos, como os itabaianenses José Joaquim Nunes(**), pai da historiadora Maria Thetis Nunes, e Pedro Teixeira Lobo, filho do fotógrafo da mais icônica foto da matriz de Santo Antônio, Miguel Teixeira da Cunha.

Não nos foi possível comprovar documentalmente, mas existe um antigo seringal, à margem esquerda do médio Madeira com o nome Itabaiana. E uma numerosa alcateia por aquelas bandas.

O gaiola de Hermelino Contreiras tinha ponto final em Cruzeiro do Sul, no Acre.

Matriz de Santo Antônio e Almas: a origem da cidade de Itabaiana. Fotografia de Miguel Teixeira da Cunha.

Em Sergipe, numa biografia da Irmã Luciana Correia Quaresma, escrita em Ilhéus, em 2003, na interminável lista de suas realizações, até ali, figura a construção da capela de Nossa Senhora da Conceição (e escola), no Alto do Itabaiana. Perde-se na noite da memória de onde vem essa denominação do hoje bairro de São Cristóvão de Sergipe d’El-rei.

Por fim, também aqui em Sergipe, a estrada real para o porto do Espírito Santo, hoje a gostosíssima Indiaroba, num dos acampamentos dos tropeiros de Itabaiana e Lagarto (só existiam os dois municípios na área), na parte sudeste deste município, juntou tanto itabaianense, e não somente de passagem, que desenvolveu o povoado de Itabaianinha, citado em documentos nos Anais de Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e até pelo primeiro historiador sergipano, D. Marcos Antônio de Souza, em suas memórias da Capitania de Sergipe, de 1808.

Desde cedo um buscador de melhorias de vida, o itabaianense tem ajudado a desbravar, a desenvolver esse grande país. E isso o tem feito desde que o primeiro sergipano de sangue europeu, Simão Dias mameluco ou o Francês, movido, certamente pelas querelas pós-holandeses se exilou nas matas do Caiçá, dando origem a bela cidade de Simão Dias.

Simão Dias: o primeiro itabaianense; e também o primeiro migrante itabaianense. A levar a marca Itabaiana além.


(*) A primeira denominação da cidade de Itabaiana foi Santo Antônio de Itabaiana, e o povoado nasceu com a criação e instalação de sua paróquia em 30 de outubro de 1675, a segunda na História de Sergipe. (Veja também, de 8 anos atrás ou seja, 2016: A Cidade da Prata completa 341 anos)

(**) Corrigido. Erradamente eu havia grafado Josias Nunes de Souza.