“...com aquele sorriso, falso igual a beijo de rapariga”
(Jersier Quirino, O Barbeiro)
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Os líderes buscavam serem confiáveis. Darem segurança. Os pretensos de hoje... abrem os dentes. |
Desde 1978, que guardo na mente os versos do trabalho de Ednardo, em Receita da Felicidade, publicado no LP, O Azul e Encarnado, pela RCA Vitor, em 1977, logo após o estrondoso sucesso de Pavão Misterioso, esta, trilha da novela Saramandaia, da Rede Globo, proibida pela Censura da Ditadura, no Governo Geisel, única vez na vida que o governo brasileiro governou em plenitude, peitando inclusive a Rede Globo, poderoso instrumento de dominação “softpower” do Departamento de Estado americano, no Brasil, obviamente.
A música do Ednardo é uma crítica à manipulação publicitária, com o uso (abuso?) de crianças.
E, de falsidade em falsidade, chegamos aos candidatos do certame eleitoral atual. Os das últimas três décadas, especialmente. E seus sorrisos.
Ao se posicionar à frente de uma câmera para uma foto, quase sempre com o ponteiro do ‘vaidômetro’ batendo no limite, contudo, para uma campanha eleitoral o cidadão ou cidadã buscava passar a imagem de pessoa séria, compromissada, um ou uma líder de verdade. Depois que todos se convenceram que a política, o governo e até o Estado, são circos, todo mundo virou estrela de circo. No pior sentido, por favor. Seja o tradicional, seja o mais moderno, conhecido como influencer, influenciadores, na língua que ainda é a do Brasil.
Nada daquela seriedade, de quem, compenetrados, os candidatos entendiam a importância, o alcance e peso de carregar sobre as costas a responsabilidade de guiar os destinos do seu grupo, do seu município, estado ou federação deles.
Todo mundo tem de abrir os dentes, fechando corações e mentes, ao progresso da civilização.
O espetáculo deprimente que assistimos nesta semana entre dois palhaços, no pior sentido (um vindo do show de horrores dos programas policiais, o outro, um influenciador de internet), gerado por esse sistema perverso, espetáculo tido pela maioria como natural, é o coroar do fim da civilidade. Queira Deus que passageira.
Porém, a constatação é óbvia: o ‘deep power’* (poder profundo), desgraçou, matou a mística de todos os líderes políticos. E a nossa geração lhe seguiu, foi por ele conduzida, abrindo caminho aos tiranóides. Os minimamente controláveis, tipo Collor e Bolsonaro, que até presidentes já foram; e Pablo Marçal, que, temo, sê-lo-á, em breve.
E quase nada tem para se colocar no lugar.
*corruptela de 'softpower', anglicismo, hoje generalizado no jornalismo brasileiro, que nunca foi tão colonial quanto hoje.