sexta-feira, 31 de março de 2023

LIMPEZA DE OUVIDOS; ENLEVO DA ALMA.

 

Hoje é dia de enlevar o espírito com os sons harmoniosos da Orquestra Sinfônica de Itabaiana, a OSI, da Sociedade Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, em mais uma magistral condução do maestro Ângelo Rafael.

Será na sede da Câmara de Dirigentes Lojistas de Itabaiana, na Avenida Dr. Luiz Magalhães, Bairro Marianga, a poucos metros da principal entrada da cidade e vizinho à Câmara Municipal de Itabaiana, a partir das 19 horas.
Depois do cafezinho devo me dirigir para lá.

segunda-feira, 27 de março de 2023

DE VOLTA AO MISERÊ?

 

O modus operandi é clássico: sempre que uma gangue quer atacar um lugar, primeiro faz o estudo da área; onde está o que realmente importa roubar, tomando-o de assalto. Depois, divide o bando em três partes: a turma da baderna, que vai na frente, dando tiros a esmo e até acertando alguns azarados; em seguida a turma de apoio, contra qualquer reação e resistência, e em terceiro os “técnicos”, mapa à mão, e objetivo claro: ir onde está o tesouro. Enquanto os baderneiros, lá fora, gastam os últimos tiros e destroem coisa sem importância, para desviar a atenção dos horrorizados e impotentes cidadãos. Sucesso total.
Na última década foi isso aplicado, não a um vilarejo de quinhentas ou no máximo mil pessoas; mas à então sexta economia do mundo – Brasil – que então desabou de volta ao décimo quarto lugar mundial, enquanto os ricos ficaram podres de ricos, concentrando quase todo o pequeno crescimento pra si. “Eu sou menos miserável que você”, é a lógica.
Depois da quebra institucional de 2016 desembestou tudo. Sob as mais esdrúxulas – e até desonestas – justificativas. E a maquininha de marcar preços voltou aos tempos de triste memória da inflação dos anos 80.
Tudo é motivo para justificar aumento de preços: a China tá comendo carne; aumento da gasolina, a pandemia e agora a guerra na Ucrânia cobre toda e qualquer desonestidade.
Até a década de 60, havia famílias que de tão números de filhos e carente de recursos tinha que usar um ovo cozido, cortado em cruz, com cada quarto dado para um determinado filho.
Nos anos 70 melhorou; mas nem tanto: ainda era um para dois; nos 80 a ração continuou a crescer. Lentamente. Aí já era um por dia e por filho.
Resumindo, na década de 10, passada, quase todo mundo podia ostentar. Já não era privativo de ricos ter dois e até quatro ovos por pessoa em cada refeição.
O assédio do “carro do ovo”, todas as manhãs, com uma cartela de trinta ovos por dez reais virou meme. Menos de três reais e cinquenta centavos por dúzia.
Em 6 de outubro de 2016, o bolo de meu aniversário próximo foi preparado com cartelas de ovos de uma dúzia, proveniente de um supermercado aqui de Itabaiana... um desperdício: R$ 4,69. No carro do ovo sairia por R$ 3,33.
Atualmente, no “carro do ovo” – quando passa – são 18 reais; 80% de aumento. E nos supermercados, geralmente um pouquinho mais.
Se brincar, retornaremos aos tempos do ovo repartido em quatro pedaços com uma linha de cozer.
Vade retro! Cruz, credo.

Meme rolado nas redes sociais em 2016


segunda-feira, 20 de março de 2023

SÍMBOLO EM QUEDA

 

Arriscaria dizer que noventa e nove por cento das cidades e outras povoações brasileiras com mais de cinquenta anos se formaram em torno de uma igreja, seja ela uma capela tosca ou uma já bem apresentada matriz católica.
Com o povoado Mangabeira, sul do município de Itabaiana não foi diferente. Uma pequena quadra, de pouco mais de 1 hectare de tabuleiro, típico de cerrado, com algumas árvores retorcidas de sambaíba, ganhadores, e, principalmente mangabeiras, e que se destinava a ser a pequena malhada, gleba de terra, herança da minha tia Jorgina do Espírito Santo na parte que lhe coube pela morte de minha avó paterna, Maria Evangelista dos Santos, de um sítio que teve a metade dividida entre os então onze irmãos que compunham a família de José Frutuoso Bispo, Zé de Bomfim do Forno.
A capelinha teve o momento simbólico da sua cumeeira içada a 12 de julho de 1950 e já estava pronta para o novenário dedicado à Santa Ana, cujo Dia Santo (Holyday, como dizem os anglo-americanos), no dia 26 do mesmo mês. Fruto do esforço de toda a comunidade, coordenado por meu pai, Alexandre Frutuoso Bispo, Martinho Bispo dos Santos (Martim de Cuta), e Martins Pedro da Conceição (Martim do Forno).
Foi o produto inicial da primeira noite de rezas, que seria um mero pagamento de promessa da minha avó, então recém falecida, e que acabou num novenário a Santa Ana, sugerido por Josefa da Cruz Santos, Zefinha de Gerino, porque casada com Angelino Conceição Santos, rezada na residência do meu avô, hoje um sítio à direita de quem entra na povoação, depois de percorrer os 2,8 quilômetros de acesso a partir da BR-235. No ano seguinte, 1949, não houve; porém começaram as articulações, não apenas para um segundo novenário; mas para construir uma capela que abrigasse, doravante, toda a vida religiosa do povoado.
Foi erguida numa saliência de terra, à beira da estrada das boiadas do Lagarto à Laranjeiras. Pequenina; menos de seis metros de largura e quase nove de comprimento; duas portas laterais simples; uma frontal também, com a diferença do arco a encimando.
Dela preservo na memória os benditos cantados à capela, voz alta, sempre bem afinado pelas jovens e senhoras, a acompanhar os atos religiosos, quase sempre desprovido da presença do sacerdote, à época, o pároco de Nossa Senhora da Boa Hora, do Campo do Brito. A quem a capela pertenceu até meados dos anos 1960.


Mas, em 1970 houve mudança. A acanhada capelinha já não cabia todo mundo. Ali, sobre a liderança de um filho do pioneiro Martim do Forno, Angelino Conceição Santos (Gerino) foi começada a então nova capela que ficou pronta em 1973, possivelmente logo depois da Missão no povoado, conduzida pelo Frei Celestino e com a forte liderança de uma irmã portuguesa, recém chegada à Itabaiana, a Irmã Luciana Correia Quaresma e mais duas auxiliares da mesma congregação franciscana. Quanto à capelinha foi demolida em fins dos anos 80 por desuso; falta de recurso em a manter simbolicamente de pé; e principalmente pelas rachaduras que lhe ameaçavam e consequente perigo representado a transeuntes.
A nova capela, então estava em pleno vapor.
Dela saiu a maravilhosa ideia há mais de dez anos, de representação da Paixão de Cristo, na Sexta Santa, que tem reunido a comunidade em peso e circunvizinhos; além de turistas de todo o município e além, para deliciar-se com as cenas interpretadas por agricultores, pequenos comerciais e prestadores de serviço, estudantes e outros.
Dessa apresentação, a administração municipal de Itabaiana conseguiu captar recursos junto ao Governo Federal, mediante o Ministério do Turismo, e, em maio de 2010 deu início àquela que viria ser a maior transformação do povoado, desde a sua fundação, com capela, Escola Rural e praça/campo de futebol em 1950.
O povoado existe desde que pelo mangabeiral passou o exército de Nassau, comandado por Sigismund van Schoppe, em 1637, para pegar gado na Itabaiana e descobrir a prata no Gandu, ou talvez na Serra das Minas (Campo do Brito); contudo, sua forma urbanizada somente surgiu em 1950.
Mas a obra só ficaria pronta em 2014, dotando a Praça Alexandre Frutuoso Bispo de um anfiteatro à la grega e excelente quadra de areia.
Junto com os benefícios na Praça veio também a pavimentação das vias urbanizadas do até então tão esquecido povoado. E com ela, o reconhecimento, mediante leis municipais, de alguns dos principais construtores de tudo que no povoado se encontra: Lei 1781, Rua Antônio Martins Fonseca (Antônio da Mangabeira); Lei 1780, Rua Erivaldo Cruz (Edi de Zé Roque); Lei 1778, Rua Angelino Martins Santos (Gerino de Martim); Lei 1775, Rua Martinho Bispo dos Santos (Martim de Cuta), entre outros.

 

A capela, simples, mas, charmosa e acolhedora, na medida certa recebeu até apresentação da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, na noite de 22 de setembro de 2018, configurando como centro cultural e religioso do povoado.
Porém, na última terça-feira, 14 de março, recebi uma mensagem do amigo e professor Josivaldo Freire, residente no povoado que a capela veio abaixo, impulsionada pela retroescaveira. E a seguir, a amiga Marlene, filha do segundo construtor, Gerino, me enviou uma foto, já dos entulhos sobre o que foi seu piso. E por fim, meu primo carnal Gilson me enviou os vídeos da derrubada.
Confesso que doeu. Há uns dois meses eu passei rapidamente ao seu lado, e me parece tudo bem; mas foi alegado que a estrutura, a exemplo da capelinha construída por meu pai, estava agora comprometida por rachaduras. Que seja; mas, repito, que dói, dói ver palco de tantos sonhos e júbilos ir abaixo em minutos.
Neste ano, a base do grupo teatral amador para a Semana Santa está comprometida, em que pese toda a demais estrutura permaneça de pé, especialmente a tenacidade desse povo trabalhador que se vê com facilidade, ou na labuta diária, ou em fins de semana; nunca de porta em porta ou nos bares, em dia de trabalho.
Que se construa uma nova capela na Mangabeira – a terceira. E que a mesma, mesmo que não demorando como a de Santa Sofia, em Istambul, Turquia, e construída pelo Imperador Constantino, seja ao menos como a primeira em Itabaiana, de Santo Antônio (Igreja Velha); ou a segunda (a atual Matriz), com respectivos 400 e 259 anos.


No dia 22 de setembro de 2018 me foi dado o privilégio pelo Maestro Valtênio Souza e pelo confrade Rômulo Oliveira, então presidente, da vetusta Sociedade Filarmônica Nossa Senhora da Conceição de apresentar para a minha terra um concerto musical dentro da aconchegante capela. E, meu sonho, inconfesso até agora, de presenciar uma novena, ao velho e tradicional estilo, musicada e com coral de uma noite de reza à Senhora Santana, executado pelos próprios moradores ainda está de pé. Se foram competentes para uma maravilha como a da Paixão de Cristo, acredito que também seja possível um coral, e ao menos um quinteto de cordas a acompanhar.

Sonhar é preciso!

sábado, 18 de março de 2023

ITABAIANA... QUANDO FARÁ?

 

"É para corrigir os anacronismos e fazer jus à história tal qual ela foi, que propõe a Lei aqui exposta."


Antes tarde do que nunca.
O trecho em destaque faz parte da justificava da sociedade dorense, por seus representantes, em corrigir um erro grosseiro, mediante a Lei Municipal número 170, de 22 de outubro de 2010, na interpretação da história do velho povoado dos Enforcados, que tomou o nome de Nossa Senhora das Dores, desde que virou paróquia, em 1858.
A citada Lei 170 corrige uma grave distorção, comum em Sergipe, que é a de considerar como emancipação apenas a data de elevação ao status de cidade.

Correções justas.

Como o caso de Nossa Senhora das Dores – até 12 anos atrás – estão quase todas as outras 39 cidades que foram emancipadas como vilas. Desde as mais antigas, Itabaiana e Lagarto que como vila passaram 191 e 183 anos, respectivamente; às que passaram apenas poucos anos, logo recebendo o status de cidade, como o caso de Ribeirópolis, emancipado em 1933 e tornado cidade em 1938.
Ribeirópolis foi a última sede municipal de Sergipe a receber primeiro status de vila para depois o de cidade.
Canhoba, foi a primeira sede municipal a receber diretamente o status de cidade(*), depois de São Cristóvão, em 1º de janeiro de 1590 e Aracaju, em 17 de março de 1855.
Falta Itabaiana tornar grande sua data de nascimento: 30 de outubro.
Além de preservar a importância de 28 de agosto e também de sua verdadeira Emancipação, em 20 de outubro, quando se tornou município, com Casa de Câmara e Cadeia, em 1697.

(*)A partir do Decreto-Lei 311, 2 de março de 1938, toda e qualquer elevação a Município, obrigatoriamente tornou a sua sede em cidade; em não em vila, como foi usual até então.


sexta-feira, 17 de março de 2023

OS ESQUECIDOS

 

O primeiro, José Rollemberg Leite, da primeira vez como governador trouxe escolas rurais, estradas de rodagem, poços artesianos e... além de claramente desviar a BR-235 por Itabaiana, trouxe outro brinquedinho que ainda hoje ecoa progresso pessoal e coletivo na cidade: Colégio Estadual Murilo Braga.
Da segunda vez foi mais modesto: “só” trouxe a Estação Rodoviária, a telefonia moderna e asfaltou a ainda hoje majestosa avenida principal. Em prol de Itabaiana fez a ligação asfaltada com Moita Bonita e começou a abertura da rodovia que nos religou à Bahia, pelo sentido do antigo Caminho do Sertão do Meio, até Tobias Barreto. De certo modo ainda propiciou a instalação da primeira emissora de rádio da cidade – segunda no interior. E preparou o segundo benfeitor.
Que me recorde, não há uma arruela na cidade com o nome de José Rollemberg Leite, com essa folha de serviços a Itabaiana, e falecido 24 de outubro de 1996, há 26 anos.
No início da década passada cheguei a sugerir a um influente vereador de Itabaiana a correção de uma estranheza na Avenida principal da cidade – a mesma asfaltada por ele - homenageando o grande itabaianista, exalando cebola por todos os poros (porque nasceu em Riachuelo, ex-Itabaiana; e tetraneto de José Matheus da Graça Leite Sampaio). A dita Avenida, que hoje tem dois nomes, Ivo Carvalho e Luiz Magalhães, cabe um terceiro, segundo as normas da ABNT. Os dois trechos, antes e depois da Praça Lafaiete Noronha estão com a mesma denominação; o que não pode.
Do que veio a seguir, e cria política sua – João Alves Filho – ainda está recente a sua morte, ocorrida em 24 de novembro de 2020; todavia já se votou Lei na Câmara Municipal de Itabaiana, a homenagear defunto ainda quente, no caixão. E, cá entre nós, Itabaiana depois do Negão é outra coisa.

Itabaiana, em 1971.
Mas, o caso curioso é o de Sebrão, o Sobrinho. Sebrão, considero eu, dentro da historiografia sergipana empata com a outra titã, Maria Thétis Nunes, cada um no seu quintal, óbvio. E, não de Itabaiana.
Em abril de 1962 Francisco Antônio dos Santos, o Chico Risada, exercendo como prefeito, nivelou a área contigua à Associação dos Universitários de Itabaiana, à época, localização do Hospital Regional. Destinava-se o espaço a uma Praça, reconhecida pela Lei Municipal 236/62 – o penúltimo Código de Postura – como Praça Sebrão Sobrinho. Em mapa do Consema-SE, de 1971, sua quadra aparece isolada, separada do Hospital (atual AIU) pela natimorta Rua Paulo Cordeiro. Sem nunca ter sido oficialmente desapropriado e indenizado, o terreno começou a ser fatiado em lotes em fins dos 80. Desapareceu a Praça e a justa homenagem.
Escapa-me quando, mas entre fins da década de 80 e início da de 90 foi construído um grupo escolar no povoado Mundo Novo, batizado de Professor Sebrão Sobrinho. Foi uma das primeiras escolas rurais a cair por despovoamento local e consequente ausência de alunos. Sebrão desapareceu mais uma vez.
No oba-oba pré-eleitoral (que por aqui é, de fato, o tempo inteiro) de 2003, em 26 de agosto foi aprovada uma Lei, a de número 1076, promovendo a Praça da capela de São Luiz a Praça Sebrão Sobrinho.
Não mais existia a Praça, porque de fato nunca houve; e sim um terreno sobrando da construção da capela, e que em 1999 foi ampliada, e em 2003, construídas as naves laterais, estas engoliram o restante do terno. Sequer placas de Praça São Luiz foram colocadas.

Por fim, o empreendedorismo ideologizado de Edson Passos, fê-lo construir o Villa-Lobos, limites sudeste da Zona de Expansão, marcado e marcante pelo Totem “Eu Amo Itabaiana”, e ali, levou a nomeação das novas ruas e avenidas com nomes influentes da cultura itabaianense; alguns deles sumariamente esquecidos até então, como o maior benfazejo da história da cidade: seu pároco Francisco da Silva Lobo. Lobo chegou em Itabaiana em 1741 e saiu em 1768. Porém, em setembro 1764 inaugurou finalmente uma igreja de verdade, “de cal e pedra e óleo de baleia”, a que ainda hoje está de pé, com alguma “atualizações”. E, segundo Sebrão, foi o criador do coro sacro, origem da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, assim que chegou, em 1741.
Mas a Rua Sebrão Sobrinho já não é a original. Não só mudou de quadra e bloco como foi colocada... digamos, na cozinha do outro bloco. E ainda corre o risco de desaparecer. Mais uma vez. Que Santa Dulce ajude.
Ah, a “Sergipana do Século XX”, Thetis Nunes faleceu 25 de outubro de 2009. Há 12 anos.

sábado, 4 de março de 2023

CELEIRO EMPRESARIAL

 

Sebrão, o Sobrinho, historiador e exímio garimpador de documentos antigos tinha algumas afirmações que até podem soar pernósticas; megalomaníacas, quando não arrogantes; mas, quando examinadas com a devida exação, e cuidado... não é que o velho inspetor do Departamento Estadual de Educação tinha razão?
Repetia ele que Itabaiana era a Velha Loba, numa associação comparativa com Roma; a grande ideia civilizatória ocidental.
Como Roma, a cidade de Itabaiana foi, desde o início, uma cidade com o pé na estrada. Plantada num entroncamento, depois de frustrada a tentativa popular na hoje Igreja Velha. Está nas imediações da placa de inauguração da reforma da Praça João Pessoa, de 1990 o cruzamento de uma das mais importantes estradas brasileiras dos dois primeiros séculos da História do Brasil: a estrada colonial Salvador-Olinda, com a mais importante de Sergipe no século XVII, a estrada São Cristóvão-Sertões do Jeremoabo.
Itabaiana é, por natureza, comercial.
No Censo de 1940, mesmo sendo a sexta cidade do estado (apesar da terceira população municipal), mas Itabaiana já figurava com o maior número de estabelecimentos comerciais do interior, pouco menos da metade do existente na capital. E assim permaneceu, com pequenas variações.
Nunca é demais lembrar que três das dez maiores redes varejistas do Brasil (duas delas entre as cinco primeiras) na década de 80 se originaram nas feiras do município de Itabaiana.
Desde 2004, quando dependurei a chuteira de dar consultoria em marketing à CDL local que me desliguei da rotina empresarial do município.
Nestes dezoito anos muita água rolou por debaixo da ponte. Fortunas se fizeram e desfizeram; empresários de vários matizes subiram ou desceram; até de amigos falecidos já há um número considerável, incluindo aquele que fundou a sobredita CDL, meu saudoso amigo Josenildo Pereira de Souza.
Mas a fábrica de iniciativa permanece.

Tiago dos Santos Paulo, 30 anos, o autointitulado Rei do Alface começou assim: plantando – comercializando – hortifrutigranjeiros. Mas, na onda do ramo de óticas que ora existe em Itabaiana não hesitou em diversificar e empreendeu em mais uma loja. Como ele, está cheio de empresários do ramo de farmácia, cerâmicos, lotéricos e até do ramo de papelaria que também podem ser médios produtores de milho, de sorgo, afora a tradicional pecuária, de corte e ou leiteira.
Os atores variam: de vinte de idade a sessenta; muita gente que não conheço pessoalmente como o fazia em relação à velha guarda dos meus tempos de CDL.
Hoje não mais funciona a “universidade” da feira; como nos tempos de Oviedo Teixeira, Gentil Barbosa ou dos irmãos Paes Mendonça. Nem mesmo dos vendedores de água de moringa – distribuidores e fornecedores, como José Carlos Machado – ou a turma do carrego de feira – a Lei proíbe o trabalho a menores. Mas, a julgar pela safra de 20 e 30 anos recém chegados, e aqui uma referência e deferência especial às mulheres, hoje dominantes no ramo de beleza e acessórios além do vigoroso setor de serviços... continuamos com o nível de iniciativa lá em cima.
Se depender de iniciativa continuaremos imbatíveis.

sexta-feira, 3 de março de 2023

RELIGIÃO SEM MÍDIA; MILITAR SEM PARTIDO.

Padre Felismino e Antônio Conselheiro
 

O púlpito, nas igrejas foi outrora o único local permitido à demagogia, independente do seu uso: literal e original; ou no atual sentido baixo da palavra.
Único!
Em 22 de dezembro de 1768, foi preso um preto leigo no interior de Sergipe por estar fazendo pregações ao povo, ato em desuso à época pela Igreja Católica, salvo em Missões, e por um padre; não um leigo(*).
Casos se multiplicam pela História, mas dentre nós o mais notório e dramático foi o de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro.
Como outro revolucionário religioso redentorista, do outro lado mundo – na China – de 20 anos antes, Hong Xiuquan, mesmo sem o apelativo do chinês, morto de exaustão e doenças pelo cerco, Conselheiro também morreu em idênticas condições, antes da derrocada final do Arraial de Canudos; e o arrasamento do mesmo pelas descomunais forças do Exército brasileiro, arrancando de Euclides da Cunha, testemunha ocular, a observação que:

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.” (CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Capítulo VI – O fim)

Os dois, acima, por pregar ao relento, sem controle do clero, não licenciados para tal; porém, mesmo padre, e usando o púlpito, o Padre Felismino da Costa Fontes, nascido em Itabaiana, em 1848, e denominando uma rua tradicional da cidade. Por exorbitar de suas funções, ou seja, seu discurso, mesmo do púlpito ultrapassar o razoável para a superioridade hierárquica, acabou afastado e internado, em realidade como louco em Salvador, no hospício Asilo São João de Deus onde veio a falecer em 1892, aos 44 anos. Com suspeitas de intrigas e tudo o mais que para elas concorrem, claro(**).
E por que esse controle?
Porque a palavra é muito perigosa, especialmente quando ardilosamente bem dirigida a mentes receptivas. Nem os reis - ou seus correspondentes - devem ter acesso direto às multidões, por ela, em tempo integral.
Um pastor, um padre ou qualquer outro condutor religioso tem sob sua influência uma legião, que vai de uma ou duas dezenas de pessoas, até dezenas de milhares. Com um microfone e uma emissora, isso pode chegar a dezenas de milhões; e, depois da conquista do celular e da internet, às centenas de milhões. É onipotência explícita para quem é movido por neurônios que podem entrar em curto-circuito a qualquer momento.
Um líder militar, segue o mesmo caminho do religioso, com um agravante: a capacidade de comando de uma tropa, por natureza disciplinada e com poder imediato de morte sobre os possíveis contrários. E esse líder pode não necessariamente ser o comandante natural de um regimento ou algo que o valha; como ora vemos no caso do Brasil: um baixa patente, indisciplinado e por isso rebaixado, suspeito de estar metido até o pescoço em situações morais e legalmente trevosas, politiqueiro padrão, de repente virou o comandante de generais que tudo fazem para o manter no topo. Parece surreal; mas pior - até agora - já existiu em Roma pós-Augusto. Logo...
Tudo isso resultante dos milhares de emissoras de rádio e TV distribuídos à religião; e agora com o total descontrole da mensagem propiciando pela internet, onde de repente a politicagem invadiu também os quartéis.
As campanhas políticas mais assertivas, eleitorais diretas ou não, não mais estão sendo feitas pelos políticos, em sua maioria, ou mesmo partidos, independentemente de suas atividades principais - comerciantes, sindicalistas, industriais, fazendeiros... - mas por padres, pastores, líderes religiosos em geral e policiais, militares inclusive. “Time montado”, no jargão dos peladeiros de várzea.
O político tradicional, salvo raríssimas exceções é paciente, cuidadoso, negociador em extremo... a ponto de viver na linha tênue que separa o legal do ilegal, ou moral do imoral; já aventureiros recentes, em geral são "resolvedores", decididos, ousados e ilimitados. Usam o sistema de retentores sociais, como a Lei, a Justiça e os bons costumes, mais como gambiarras para rapidamente galgar os postos mais altos; contudo, suportados por considerável força coesa, seja de fiéis ou companheiros de farda, forçam a barra o tempo inteiro para fazer tudo aquilo que condenam. Com mais gana do que os "corruptos" e "pecadores" do restante da sociedade.
Quem assim não o faz por dolo, faz por culpa. Por ser inocente ou "vaca fardada" - no dizer de notório e histórico general de 1964 - servindo de escada; levando a culpa, enquanto os espertos levam a grana.
Há ainda esperança de que não ocorra ao Brasil e ao Ocidente, em geral, a repetição do que houve em Roma, com consequente fim de um virtuoso ciclo de progresso da civilização no século IV.

(*) CARTA do Arcebispo eleito D. Manuel de Santa Ignez para Francisco X. de Mendonça relativo á prisão de um preto leigo, que com grande successo, andava pregando na Comarca de Sergipe d'Elrei. Bahia, 22 de dezembro de 1768. 7693 (Anais BN-Rio, vol. 32, p.206, Rio de Janeiro, 1910)

(**) Almeida, J. H. de. (2013). UM PADRE À MARGEM DA HISTÓRIA: A TRAJETÓRIA DO PADRE FELISMINO DA COSTA FONTES. Revista Fórum Identidades. Recuperado de:
https://seer.ufs.br/index.php/forumidentidades/article/view/1737