terça-feira, 9 de setembro de 2025

E FOI-SE O TANQUE DA SERRA.

 

Foto 1, com esse reles escriba, mas fã de primeira grandeza, em 24 de agosto do ano passado, 2024;
Foto 2, em comemoração natalina, em 2022, com outro que partiu, o saudoso radialista Djalma Lobo;
À direita, em pose de herói que foi, do esporte, em início da década de 1970.

Eu vivia entalado. O Club Sportivo Sergipe, um timaço, ainda contava com a aristocracia sergipana, que não só financiava, como apoiava, inclusive com chicanas, pela imprensa, majoritariamente vermelhinha, e pela própria Federação Sergipana de Futebol, onde essa manobrava de todos os modos para o obrigatório sucesso do clube. E meu Tricolor – Associação Olímpica de Itabaiana - não saia da retaguarda. Um empatezinho aqui, outro ali, chorado, e tome-lhe vitória do Sergipe.

Garoto de 10 anos, saindo do fedor do mijo, ainda não tinha interesse mais afirmado pelo sexo oposto em si; mas tinha vários amigos, e várias amiguinhas, naturalmente. Num grupelho destes, quatro irmãs, ambas torcedoras do Sergipe, que me enfernizavam a vida quando o meu Itabaiana perdia para alguém, especialmente... para o Sergipe. Até aquele domingo, que perdi as referências de data precisa, mas o sabor da vitória, jamais me saiu da boca.

Logo no início da partida, salvo engano, Bené, abriu o marcador para o Tremendão da Serra. Logo depois, o Tanque da Serra, Horácio, numa cabeçada indefensável ampliou. E aí vieram, no mesmo script, o terceiro e o quarto.

Nunca mais me irritaram; mangaram de mim.

Em outra pose, em 1968, no velho estádio Etelvino Mendonça, hoje Ginásio Chico do Cantagalo;
Embaixo, o sorriso tímido, mas fácil e franco, recentemente;
Na foto colorida, em 1969, no velho Etelvino Mendonça, resguardado pelo também craque Augusto, em pose com a garotinha Gisselma Góis, filha do saudoso dirigente Pedro Góis.

Recebo com tristeza o aviso de um amigo: Horácio morreu.

Toda vida é finita. Verdade intrínseca e insofismável; mas a gente sempre cria perpetuações daqueles que nos são caros: parentes, amigos, mestres, protetores, heróis, enfim. E Horácio José de Oliveira, o eterno Tanque da Serra está inscrito na lista daqueles que tornaram Itabaiana grande, num crítico momento, o da orfandade pelos seus dois maiores líderes, apenas jogando uma bola, com alma e paixão. Nos deu alento. Esperança. Sentimento de vitória.

Vai com Deus, “amigão”.

De camisa azul claro, em 10 de abril de 2018, prestigiando o amigo e biógrafo voluntário (livro Associação Olímpica de Itabaiana - Da Gênese ao Penta), escritor professor Manoel Aelson Góis, em sua posse na Academia Itabaianense de Letras, realizado no Plenário da Câmara Municipal de Itabaiana.
Na fila de cima: Robério Barreto Santos; Aelson, Josevanda Mendonça Franco, Vladimir Souza Carvalho, Antônio Amorosa de Menezes; Horácio, e Anderson da Silva Almeida;
Na fila de baixo: Jorge Luís Pinheiro Souza; eu, José de Almeida Bispo; José Carlos de Mendonça; Tereza Cristina Pinheiro Souza; Rômulo de Oliveira Silva; Antônio Samarone de Santana; Luiz Carlos Andrade; José Augusto Machado (Baldok) e Antônio Francisco de Jesus (Saracura).
Todos... sem exceção, fãs, e agora enlutados pelo nosso grande craque.



domingo, 7 de setembro de 2025

CIDADE ESTRADEIRA.

 

Cidade de Itabaiana. Nascida num entroncamento.

Um fato curioso da cidade de Itabaiana, que completará 350 anos de fundada, junto com sua paróquia-mãe, em 30 de outubro próximo, é a sua origem, e depois permanência com um pé na estrada.

Na década de 1620, curraleiros, ou seja, vaqueiros arrendatários de terras para criar gado, construíram uma das primeiras capelas em “pedra e cal”, isso é, em alvenaria, de Sergipe. Mas distante da Estrada Colonial do Sertão, Salvador-Olinda. Também por esse motivo não pegou e hoje são as ruínas da Igreja Velha. Dali, 400 anos nos contempla.

Mas em 30 de outubro de 1675, há 350 anos, atendendo ao rei de Portugal, o Padre Sebastião Pedroso de Gois, rapidamente, comprou o sítio que pertencia aos herdeiros de Ayres da Rocha Peixoto; levantou uma igreja de taipa, e nela instalou a paróquia de Santo Antônio e Almas, da Itabaiana, já que a região, assim era conhecida pelos indígenas.

E onde?

No local do provável cruzamento das duas estradas, hoje tem assentada placa de identificação de melhorias pela Prefeitura.
Ao longo da grande Estrada das Entradas, hoje das Flechas, Caraíbas, etc., muitos escravos passaram, vindos do sertões de Jeremoabo; mas também do povoado Flechas, onde em 1874, o negro Quintino de Lacerda foi vendido para o hoje estado de São Paulo. E lá, foi liberto, ficou rico e virou prefeito de Santos.

Mais uma simples passagem da Estradas das Entradas, o hoje povoado Carrilho, tem leve lembrança na denominação, ao primeiro grande entradista, Fernão Carrilho; e lidera o domínio de Itabaiana no fornecimento de castanhas de caju torradas... nacionalmente.
Onde, desde 1590 funcionava a Estrada Salvador-Olinda, ou estrada das boiadas; no cruzamento com a então recentemente aberta, a Estrada das Entradas aos Sertões do Jeremoabo, pelo entradista Fernão Carrilho, em 1665.

A povoação não se desenvolveu. Mesmo depois de emancipada; também em outubro, só que vinte e dois anos depois, em 1697.

As estradas logo perderam importância; e, a de Salvador-Olinda, que foi inicialmente a mais importante, em 1800, segundo D. Marcos Antônio de Souza, funcionava precariamente por dentro de terrenos particulares. E a dos entradistas aos sertões, nunca chegou a um centésimo da importância que tem a sua versão mais recente, a BR-235, tecnicamente, a grande rota de Itabaiana.

Mas a cidade de Itabaiana sempre cresceu em busca de suas estradas.

Nos séculos XVII e XVIII, toda a importante movimentação de entrada e saída da pequenina cidade de Itabaiana era, ou para Laranjeiras, Maruim, Riachuelo, etc., pelo Beco Novo (Rua Coronel Sebrão), a que aparece acima, por trás da árvore e ao lado da matriz;
ou para São Cristóvão, depois para Itaporanga, pela Rua da Tenda, aqui, no foto acima, o atual trecho, em frente ao Nunes Peixoto, da depois Praça João Pessoa. Ou pelo Beco dos Alfaiates (Início da Rua Capitão José Ferreira).
A cidade fundada no cruzamento das suas duas principais estradas coloniais, assim se manteve até a década de 1950, quando veio a BR-235, em 1952. Rapidamente, ela correu pra lá, com a Avenida Otoniel Dórea; as ruas Antônio Dultra e Boanerges Pinheiro, Campo do Brito, Santa Cruz, José Ferreira Araújo, Monsenhor Eraldo Barbosa e 13 de Junho.
Avenida Otoniel Dórea (em amarelo) em pretensa ligação com a Praça Fausto Cardoso, primeiro espaço de alto padrão em moradias, ligava a BR-235 (e ainda liga) no seu primeiro trajeto, hoje avenidas Manoel Francisco Teles e Carlos Reis. Expansão organizada da cidade, em 1952.
Na primeira década deste século, contudo, o padrão mudou, e a cidade se expandiu para o norte e para sudeste, onde aparentemente não passa nenhuma estrada principal. 
Não? Não tem estrada principal?
Entrada atual da Estrada das Entradas aos Sertões (Estrada das Flechas), ao atravessar o riacho do Fuzil, e desaparecer pelo traçado urbano moderno do Santa Mônica, só reaparecendo integralmente no primeiro trecho da Rua Capitão José Ferreira, até a Pração João Pessoa.

A expansão a sudeste – complexo Chiara – busca a rota original da Estrada Colonial do Sertão, Salvador-Olinda, hoje identificável na estrada do Boimé, a caminho do povoado Serra.
E a expansão norte – complexo Santa Mônica – segue a trilha da velha Estrada dos Entradistas, popular e recentemente conhecida por estrada das Flechas. E até um condomínio, recentemente surgido ao fim do Bairro Bananeira, no antigamente conhecido como Bom Jardim, à margem direita do Açude da Macela (plantinha), está margeando o trajeto da mesma Salvador – Olinda, desde que a cidade foi fundada, há 350 anos.
Sempre com o pé na estrada.

Estrada do povoado Serra, aqui na foto, cortada em fente, pelo primeiro trajeto da Estrada Colonial do Sertão (ou estradas das boiadas, e também dos jesuítas), próximo ao povoado Boimé, ou popularmente Boimel, 2,6 km do limite urbano, depois do totem "EU AMO ITABAIANA".

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

BIENAL: ESQUENTA CULTURAL

 

Ontem, quarta-feira, 03, pela manhã a feira de Itabaiana foi invadida por grupos armados de muita alegria, música e cores.

Brincantes de reisado, da Secretaria Municipal de Ação Social; pequena, mas mui bem representativa delegação da tradicional Quadrilha Balança, Mas Não Cai; o neófito grupo dos boymés(*), organizado pelo mestre Tito, do grupo de capoeira, Maculelê; e afinadíssima Banda Francisco Paes da Costa, da Ação Social (com uma canjinha de componentes da SOFIVA), e sob a batuta do Professor Célio Melo fazendo a fanfarra. 

Captura de vídeo de Air Drone (Helinho), mostrando o plano urbanístico da década de 1950.

Foi uma pequena amostra da alegria que nos espera nos dias 23, 24, 25 e 26 de outubro próximo, quando a BIENAL 2025 estará abrindo a última semana das comemorações aos 350 anos de fundação de Itabaiana.

Cortejo passando ao lado da velha matriz de Santo Antônio e Almas, onde a cidade nasceu, em 30 de outubro 1675.


(*) Mais um resgate da história completamente esquecida de Itabaiana. Os boymés, só localizados, documentalmente, e já reduzidos à Missão do Carmo, hoje cidade de Japaratuba, deles há indícios fortes de que também habitaram dentro das serras, conforme lenda existente, os contrapondo aos mathiapoanes; e a presença, desde priscas eras, de um povoado “Boi Mel”, em torno do ramal primitivo – antes da fundação da cidade - daquela que foi a primeira grande estrada de Itabaiana, que a conectava a Salvador, e a Olinda: o Caminho do Sertão.


domingo, 3 de agosto de 2025

MILAGRE DE SANTA DULCE

 

Chegada da imagem de Santa Dulce dos Pobres, conduzida por milhares de peregrinos, à pequena ermida - à direita - sob a sombra dos paredões rochosos da velha serra de Itabaiana da lenda da prata, do carneiro de ouro, etc., etc..

Hoje, realizou-se a peregrinação local, rumo à ermida serrana da Santa, ereta ao sudoeste da serra, limites do Parque Nacional da Serra de Itabaiana, cuja vizinhança nobre é o franciscano Parque dos Falcões. Sucesso. Mais vez.

Logística impecável; ambiente humano dos melhores, mas o que mais chamou a atenção é que desde a quinta-feira à noite que São Pedro vem carregando na mão, e em todo o Sergipe, nas serras em particular, as chuvas se intensificaram, ao ponto de ameaçar a própria peregrinação, se não influindo pelo seu adiamento, mas pela sensível redução de público. Qual nada! Não apenas se manteve, como sofreu sensível aumento, em relação a do ano passado.


350 anos: Santo Antônio, o acompanhante ilustre.

Neste ano, Santo Antônio se fez presente. Ele, de quem Santa Dulce foi devota; que foi a primeira denominação da cidade; cuja paróquia, deu origem à mesma, há 350 anos.

Neste ano, a imagem da Santa ganhou, como acompanhante, Santo Antônio. Que foi da devoção da Irmã Dulce dos Pobres, desde que a jovem Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes se definiu em sua vocação religiosa.
Mas não é somente isso. Santo Antônio da Itabaiana é o nome original da cidade em que Santa Dulce fez o seu primeiro milagre, o que levou o Vaticano a proceder a sua canonização.
Santo Antônio de Itabaiana, antes mesmo de sua paróquia, foi o primeiro grande fornecedor de gado aos ancestrais da irmã Dulce; e, a cidade de Santo Antônio, está fazendo 350 anos – o Sétimo Jubileu de Ouro – de fundada, com a óbvia fundação da sua paróquia, no próximo dia 30 de outubro.
Nada mais natural que acompanhar Santa Dulce nesse belíssimo cortejo à pequena, humilde e graciosa ermida da serra. Feita, segundo o estilo Santa Dulce: simples, terna, ativa. Funcional.

Matando Saudades

Particularmente, estive tentado a me somar aos desistentes, caso São Pedro mantivesse suas copiosas nuvens a nos regar.
Para o meu bem – e do meu parceiro de aventura, Juarez Ferreira de Góis – o dia, com esparsas garoinhas, se mostrou muito mais que amigável que o esperado: belíssimo.
O sol veio na medida e constância, certas; as estradas, enlameadas, mas transitáveis; apesar do aguaceiro dos dias anteriores. E, voltar a sentir aquele cheiro de mata agreste – a Caa-ndu, que deu origem ao nome do povoado: Gandu – recentemente molhada... não tem preço.
Os pés de alecrim-de-serra, verdinhos, a cada toque ou sobraçada, liberando aquele cheiro inebriante... coisa para Chico de Assis nenhum botar defeito. Com direito a Irmão Vento, em modo brisa, a tudo a me trazer, de graça, os aromas com que vivi na infância.
Mesmo ainda em recuperação motora, por AVC sofrido há seis anos, ainda arrisquei os últimos dos 13 quilômetros, em acentuada subida, feitos a pés. Estimulado, claro, pela vigilante SMTT e Polícia Militar, a interditar trânsito de veículos nos últimos 1.500 metros. Risos. 
Que venha agosto de 2026.
Chegada. Cercada de verde vegetação agreste que me recorda a infância e seus aromas de mato.
De camisa listrada o óculos escuros, na foto, meu ex-chefe, amigo, e excelente fotógrafo, Juarez.


sexta-feira, 25 de julho de 2025

É PRECISO ASSUMIR O PRÓPRIO PASSADO.

 

O boi é sinônimo de bem, de riqueza, há tempos; especialmente no mundo de língua portuguesa, ele é a rês. A coisa. O bem, em bom latim falando.

Em 1534, Martim Afonso de Souza já introduzia alguns animais em São Vicente-SP, mas foi no Nordeste, especialmente no entorno do entreposto marítimo português, hoje denominado de Salvador, que a criação ganhou folego com o protegido de Tomé de Souza, Garcia d’Ávila, a partir de 1650.

A criação, sob risco de confisco estrangeiro, pirata ou corsário, à beira da praia, não muito evoluiu, até 1590.  Mas depois de 1590, os rebanhos encontraram as condições perfeitas para se reproduzirem, mesmo não estando tão distantes do mar: a serrania denominada Itabaiana.

O Lugar

A serrania, em redor de Itabaiana, a fez o primeiro grande centro pecuarista brasileiro, e irradiador para o resto do Brasil
 
Itabaiana é um conjunto de serras baixas, resultante de enorme vulcão do período Arqueano, cuja forma gera um curral natural, como sobredito, não tão distante do mar; mas o suficiente para se tornar o primeiro centro pecuarista, e logo a seguir, disseminador da pecuária pelo Brasil.
Qualquer gênero de aboio, nascido nos campos do norte da África e transportado para a velha Ibéria, teve sua reprodução e evolução aqui. Os primeiros curtumes; as iniciais vestes encouradas sertanejas, arreios, as apartações. Apartações que desportivamente deram origem às vaquejadas.

Assim começaram as vaquejadas.

Os criadores raramente eram também donos da terra. Em geral, eram arrendatários, pagando todos os anos, em parte do gado, as suas dívidas. Por isso eram chamados de curraleiros.
Também, todos os anos, fiscais provenientes de Salvador vinham cobrar as fintas, ou seja, impostos do gado. Mesmo que hipotética e legalmente São Cristóvão fosse a responsável por essa tarefa. 
Era hora de juntar o gado. Fazer a apartação. Ver quanto sobrava para quem efetivamente trabalhou. E começava os tropeis dentro do mato para juntar reses dispersas, e depois dividir.

Cultura vaqueira

Ao nascer da década de 1980, a cidade voltou a reviver a cultura vaqueira. Com o então desconhecimento histórico, uma mera festa, quando de fato representou muito mais. À direita, ruínas da Igreja Velha, o mais antigo símbolo do Ciclo do Gado no Brasil.

Mesmo tendo deixado de ser um centro pecuarista há mais de três séculos, a cultura vaqueira sobrevive por aqui, e basta que alguém se proponha a administrar um evento, ele logo toma fôlego, surpreendendo. 
Assim foi, quando em 1979, o saudoso radialista, Djalma Teixeira Lobo promoveu grande vaquejada, estimulando o surgimento de outras pelo estado. E desde então, tem alguém relembrando aquele sucesso.
De fato, já passou da hora de Itabaiana se assumir como terra mãe da pecuária brasileira, com centro permanente de comemorações e memória, da apaixonante arte de criar gado, e toda a mística cultural que isso envolve.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

ACADEMIA ITABAIANENSE DE LETRAS - SEDE EM ANDAMENTO

Logo da 7ª Bienal, à esquerda; e equipe visitante ao histórico prédio, que será reformado e cedido pelo Executivo Municipal por tempo ainda indeterminado, para sede da Academia Itabaianense de Letras. Da esquerda para direita; Marcos Lima; Tamires, da equipe da Comunicação; secretário de Cultura, Antônio Samarone; José Oliveira; José de Almeida Bispo; presidente da Academia, Vladimir Souza Carvalho; secretário de Comunicação, Edilson Carvalho Silva Júnior; jornalista Grazy Freitas; e arquiteto Gabriel Franco.

Hoje, 23 de julho de 2025, mais um capítulo na Cultura itabaianense, com a visita do arquiteto Gabriel Franco, responsável pelo projeto arquitetônico, que norteará a Prefeitura Municipal de Itabaiana na reforma do velho prédio, número 42, da Praça Fausto Cardoso, que já sediou a Filarmônica Nossa Senhora da Conceição; depois o Fórum Maurício Graccho Cardoso; e por fim algumas secretarias municipais. O prédio, reformado, servirá de sede à Academia Itabaianense de Letras.

O prédio verde e azul, já foi sede musical, fórum de justiça e secretaria. Nestes 350 anos de Itabaiana, ser reformado e transformado em sede acadêmica.

O prédio, ainda um sobrado, em 1930 e pertencendo a particulares. Há quase um século.


terça-feira, 8 de julho de 2025

O OITO DE JULHO

 

Quando a corte portuguesa se transferiu de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808, encontrou um Brasil de vícios arraigados, de violência silenciosa, no exercício da administração, e suas consequentes monumentais injustiças.

O então príncipe regente, D. João, futuro João VI, encontrou uma realidade onde, um terço de todos os impostos cobrados e recebidos por Salvador, era proveniente de Sergipe. Que nada recebia de volta, sob qualquer benefício. Isso continuou.

Quatro células básicas, três delas antagônicas entre si, deram origem ao Brasil: O Maranhão, pouco influente; Pernambuco, Bahia e São Paulo. Tudo o mais, em maior ou menor intensidade foi avassalado por essas. Especialmente Sergipe. Provincianismo na veia.

Por outro lado, a ordem de Felipe II, de criar Sergipe em 1590 – por isso o nome de Sergipe D’EL REY - além de nunca ser encontrada – suspeita-se que a Câmara de Salvador a descartou – beira a total falta de lógica. Por que criar mais uma onerosa unidade administrativa, se já existia outra, poderosa e bem próxima?

Como assuntos de riqueza mineral sempre foram tratados com muito cuidado e sigilo, somente os boatos de mina de prata, no território original da futura capitania, justificaria todo esse cuidado do então plenipotenciário monarca espanhol.

Felipe II faleceu em 1598, sem encontrar prata em Sergipe; até mesmo porque, já nadava na prata de Potosi, hoje Bolivia. Deixou o governo sob seu filho, Felipe III, e seu ministro, o Duque de Lerma (Francisco de Sandoval y Rojas), de quem o povo espanhol depois cantou: “Pra não morrer enforcado, o grande ladrão da Espanha se vestiu de encarnado”. Virou bispo do Igreja. Se livrou da forca.

Mas os nascentes baianos nunca engoliram uma capitania, tirada da “sua” capitania, que já consideravam um reino a parte.

Os impostos, religiosamente sempre foram cobrados, em Sergipe, pela Bahia, sem nada de benefícios.

As vilas, municípios interioranos criados por ordem de Portugal, que retomou o controle em 1640, e a própria cidade de São Cristóvão de Sergipe d’El Rei, eram de uma miséria só.

A matriz de Nossa Senhora da Vitória, um puxadinho da homônima, na capital baiana, só veio ser terminada, em “pedra e cal”, mais de um século depois; e a de São Gonçalo, construída antes de 1630, nunca foi aproveitada. Envelheceu e caiu de abandono em fins do século XIX.

Em 1650, a penúria de São Cristóvão e descrita em soneto do “Boca do Inferno”, Gregório de Matos. (Veja ao fim).

Percebe-se uma estratégia, supostamente pensada para Sergipe não dar certo. 

Estrategicamente, seguindo o corrente, à época, a capital deveria ter sido criada onde é hoje Santo Amaro das Brotas. Cristóvão de Barros preferiu Aracaju, que depois migrou duas vezes até parar em São Cristóvão. Pedra que muito se muda, não cria limo.

Estância, depois da expulsão holandesa de Sergipe, e esvaziamento do povoado, com a saída das forças de Henrique Dias, poderia substituir a então miserável São Cristóvão e seus casebres de palha. Não somente foi desencorajada a isso, como até a vila, meio século depois, foi para a matriz de Santa Luzia, essa, por sua vez um puxadinho de Santo Amaro da Ibipitanga, hoje em Lauro de Freitas, na Grande Salvador.

Santa Luzia do Itanhy, por sua vez, foi asfixiada por Salvador com o poderio do município de Abadia se estendendo até onde hoje estão os municípios de Cristinápolis, Indiaroba e Umbaúba.

Lagarto, e especialmente Itabaiana, além de serem interioranas, e sem rios navegáveis, sempre foram mantidas com discreta, mas firme vigilância. 

E São Cristóvão, proibida de cobrar impostos e de administrar, além da mera execução de ordens emanadas da Câmara Municipal de Salvador. E obviamente, das ordens da Corte e do governo colonial

Enfim, de 1590 a 1820, Sergipe alimentou a Bahia, “com que fornecem a esta cidade (Salvador e Recôncavo), que sem elas não pode subsistir”, com farinha de Santa Luzia, cereais de outros municípios e carne de Itabaiana, depois também Lagarto, Simão Dias e Tobias Barreto. E com os suculentos impostos, cobrados, mesmo enquanto Sergipe permaneceu “quase” uma capitania independente, até meados dos setecentos.

A vinda da Corte para o Rio de Janeiro mudou a história. A presença do rei fez com que a elite local tentasse uma aproximação direta, mormente na figura do historicamente injustiçado, José Mateus da Graça Leite Sampaio, que, tornando-se Cavaleiro de Cristo, chegou a antessala real, e mesmo perseguido pelos agentes de Salvador em Sergipe, logrou do rei a decisão de quebrar o poderio baiano, aliado dos inconfidentes do Porto, em Portugal, obviamente. E mesmo sob a pressão inglesa, exercida pelos bocós colonialistas do Porto, obviamente pelos ingleses manipulados; e retornando a Portugal, o seu decreto de 8 de julho de 1820, teria a confirmação por seu filho, feito imperador do Brasil, em 1822.

Extrato do mapa Carte du Bresil et d'une partie des pays adjacents, BRUE, Adrien Hubert (1826)

E Sergipe cresceria velozmente até 1900, quando novamente caiu sob outro provincianismo, desta feita o paulista e sua República, de onde até hoje é dependente. E, apesar dos laivos do pós-Estado Novo, nunca mais voltou a ter a grandeza que teve no Segundo Império.

Vida que segue.

Por enquanto, comemoremos nossa segunda maior data, já que a maior, o nascimento, nesta fase histórica, é o 1º de janeiro de 1590.

Foi fácil tomar quase todo o Sergipe: os senhores de engenho, em sua esmagadora maioria, só se interessavam pelo próprio umbigo.


São Cristóvão de Sergipe d'El-rei, por Gregório de Matos, 

meados do século XVII


Três dúzias de casebres remendados, 

Seis becos, de mentrastos entupidos, 

Quinze soldados, rotos e despidos, 

Doze porcos na praça bem criados. 

  

Dois conventos, seis frades, três letrados, 

Um juiz, com bigodes, sem ouvidos, 

Três presos de piolhos carcomidos, 

Por comer dois meirinhos esfaimados. 

  

As damas com sapatos de baeta, 

Palmilha de tamanca como frade, 

Saia de chita, cinta de raqueta. 

  

O feijão, que só faz ventosidade 

Farinha de pipoca, pão que greta, 

De Sergipe d'El-Rei esta é a cidade.