quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Bons ventos sobre a Igreja Velha.

Por volta de 1620, curraleiros – criadores de gado arrendatários – construíram a Igreja Velha. Eram tempos complicados, aqueles. A Inquisição acabara de passar por Sergipe, e em particular por Itabaiana, levando muitos cristãos-novos que haviam fugido para cá, das fogueiras em Espanha e Portugal; e ainda mais, o arrogante Império Espanhol que havia engolido o império português, quarenta anos antes, nem estava aí pros destinos dos colonos aportados no Brasil, exceto os endinheirados e acusados de heresia, para os queimar, e, obviamente, tomar-lhes o que tinham. Para se construir e oficializar uma igreja, seja capela ou basílica, até o advento da República em 1889, era preciso o aval do Papa, através do Bispo; e do Rei através de seu preposto. Os curraleiros construíram a Igreja Velha e já foram trombando com o padre de São Cristóvão de Sergipe d’El-Rey, então único em todo o Sergipe. Péssimo sinal. Como resultado, a Igreja Velha nunca foi reconhecida pela Igreja Católica, em que pese ter sido usada por esta, até pelo menos a construção da atual matriz de Santo Antônio e Almas onde hoje se encontra, origem da cidade de Itabaiana. 
A Igreja Velha, registrada pelos holandeses que chegaram a Itabaiana em 1637, resistiu ao tempo e hoje o que resta são apenas ruínas de suas paredes. Mas existe. Único testemunho de uma era na colonização brasileira, o chamado Ciclo do Gado. Depois dela, o símbolo mais antigo dessa era, é o forte dos Ávila, no litoral norte baiano, este, porém, de depois de 1705, quase um século depois da Igreja Velha.
Hoje, 17 de outubro, pela noite, antes do início da solenidade de instalação da II Bienal do Livro 2013, nos corredores da Câmara Municipal de Itabaiana, onde ocorreu o evento, tive o prazer de conversar com o prefeito municipal, Sr. Valmir dos Santos Costa, que me notificou já haver indenizado o dono do terreno onde está assentada a Igreja Velha, sendo o terreno, desde já, e, portanto, as ruínas, propriedade do Município. Ao menos esta parte está pronta. Mas não pode parar por aí. É preciso que o processo de tombamento pelo Patrimônio Histórico da União, seja através do IPHAN, seja através de outra instituição, avance; e que as agências governamentais que trabalham neste sentido agilizem este processo para que efetivemos essa relíquia nacional, como tal. De qualquer forma, mais longe já estivemos. E vamos em frente!

sábado, 12 de outubro de 2013

Lembranças infantis

Criei-me, como quase todos os meus vizinhos presentes e adjacentes, como um menino pobre. Mas pobreza nunca foi sinônimo de tristeza e infelicidade. Ao contrário de miséria; desespero. E, diante de nosso mundo de crianças pobres, a escola e sua tabuada movida a palmatória, os rituais sociais das rezas, sejam de vida ou morte; do dia a dia nas malhadas, e, claro, da diversão, porque ninguém é de ferro. E a diversão dos meninos, disparadamente era a bola. O joguinho de futebol na clareira do pasto de alguém – de fato, espaços dentro das matas de cerrados, tão comuns em nossa região - na encruzilhada das estradas vicinais, no pátio da escola, e até nos campos de peladas dos adultos. E aqui que entra um fato que me marcou.
Idos de 1971, povoado Forno, município de Itabaiana, próximo à estrada real Simão Dias-Laranjeiras – de fato, um atalho desta, em invernos mais rigorosos – uma bodega, das tantas que houve até bem pouco tempo atrás. A mesma foi montada inicialmente por alguém de quem não me ficou o nome, e logo vendida ao ex-vereador Olímpio Arcanjo de Santana, que nela operou por uns cinco anos. Olímpio Arcanjo de Santana é o nome que denomina o Plenário da Câmara Municipal de Itabaiana. Até recente e reconhecidamente na documentação, o mais presente vereador da trissecular casa legislativa, com oito mandatos, só agora sendo igualado por outro de geração mais nova. Mas, na época desse episódio, a bodega já pertencia a Seu Angelino Salgueiro, que tinha esse nome de Salgueiro por vir daquelas bandas dos sertões pernambucanos. Um sábado à tarde, qualquer, estávamos em  doze ou quatorze molecotes, traçando uma bolinha mixuruca, no campinho feito na encruzilhada defronte da bodega, aí por volta das quatro da tarde. Como linhas? Os limites das estradas, feitos por valados. Como traves? As indefectíveis “japonesas”, sandálias de borracha, ainda recentemente por aqui aparecidas, cuja marca mais famosa ficou as “havaianas”. A todo o momento tínhamos que parar porque, estrada, movimentada, sempre havia alguém por ali passando, cortando nossos lances geniais. Era convencionado entre as partes: assim que aparecia alguém de passagem, jogava-se a bola para o lado; e a cobrança do lateral, óbvio, era de quem jogou, porque por um ato de grandeza. De repente, naquele dia irrompeu cruzando através da estrada secundária o João, nome não fictício, mas que não aditarei sobrenome, já que o mesmo ficou mal na história. Montado num burrico, coincidentemente, antes que o víssemos e naturalmente parássemos a bola, a mesma foi chutada, justo em sua direção. O animal se espantou, obviamente, e se esquivou da bola, causando um susto em seu montador; e em nós, que tínhamos a noção da responsabilidade num eventual dano. Mas foi só o esquivar. O João era dessas figuras pouco afeitas à nobreza de caráter. Do tipo que, como cães vira latas, correm ganindo à menor pisada mais firme do chão, mas que, quando vê pessoas supostamente fracas, desprotegidas, gosta de posar de valentão. Desceu do animal, pegou nossa bolinha mixuruca e com uma faca peixeira trazida com bainha, na própria cintura, cortou a bola em quatro ou seis pedaços proferindo meio mundo de imprecações contra o nosso grupo. Seu Angelino, baixinho, franzino, de vista já um pouco enfraquecida, sentado numa cadeira de balanço no telheiro da bodega, viu tudo. Levantou-se calmamente, caminhando lentamente, como era de seu feitio, veio ter com o João, que estava uma arara. Já havia cortado a bola e continuava uma arara.
- João, o que foi que houve? – perguntou ele.
De imediato o João parou com a brabeza, se recompôs e respondeu:
- Bem, Seu Angelino, é que esses moleques aqui – não mais chamou ninguém de safado como estava a fazer – quase me derrubaram jogando a bola propositalmente em cima do burro pra isso!
Seu Angelino só disse:
- João, eu estava sentado ali na frente e vi tudo. Pague a bola dos meninos e acabou! 
Disse isso, e deu meia volta, sequer respondendo a outras indagações do João. Este, meteu a mão no bolso, perguntou quanto era uma bola nova, e, claro, demos o preço de uma bem melhor; pagou o valor, montou em seu burrico e foi embora.
Seu Angelino faleceu oito anos depois, de leucemia, sem nunca ter dado um tiro ou um tapa em ninguém; nem também recebido. Também não me consta que tenha travado nenhuma discussão litigiosa com ninguém. E eu, que já tinha lições e mais lições do meu pai, da mesma estirpe de Seu Angelino, seu amigo, fiquei com a exata noção do que realmente é autoridade.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Em nome da Eunomia

Bem, hoje pela manhã, Antônio Francisco de Jesus, o nosso Saracura, me ligou, como previamente acertado, para que eu comparecesse à Secretaria de Cultura e seus anexos, para gravação de uma entrevista com vistas à produção do programa Terra Serigy, da TV Sergipe, canal 4, de Aracaju, sobre a II Bienal do livro, tão esperada para os próximos dias 17, 18 e 19 do corrente, aqui em Itabaiana. E lá me fui. Chegando ao térreo das novas instalações, os contatos como de praxe com os que lá já estavam, o Carlos Mendonça, o próprio Saracura, Pascoal, a secretária Rose Mary das Chagas Machado, a Maria Jose, Ludmilla, a talentosíssima museóloga, Jamisson Machado do Itnet, a equipe de reportagem, enfim, um monte de gente boa. E a professora Rose Mary, gentilmente me foi mostrar as novas instalações, onde está agora funcionando a própria Secretaria e seus anexos como a Biblioteca Florival Oliveira, o Museu e outros... gostei! Tudo muito bem arrumado; a localização, em que pese próximo a uma grande fonte de poeira, tem acesso muito bom e seu referencial, já que de frente pro canto sudeste do cemitério de Santo Antônio e Almas... não tem como errar.  Em suma: as instalações são boas. Todavia, a minha preocupação permanece porque, sem prédio próprio, tanto biblioteca, quanto museu, correm seríssimo risco nas respectivas conservações. Eu acho que está na hora de a sociedade itabaianense resolver de uma vez por todas que quer preservar sua cultura com seriedade. Tem de prover os espaços e recursos necessários para esta tão necessária atividade de manutenção da identidade. Na última reunião do grupo Itabaiana Grande, ainda com a participação do saudoso Luiz Antônio Barreto, foi levantada a questão de transformar o grande símbolo da Educação de Itabaiana, o prédio do Guilhermino Bezerra, numa casa de Cultura, abrigando ali, justo essas instituições que necessitam de solidez, perenidade, estabilidade, como museus e bibliotecas. A Secretaria de Cultura é apenas uma instituição administrativa que pode mudar de lugar a bel-prazer; mas o museu e a biblioteca, não! E tem de ser uma instituição centralizada na cidade, porque, quanto mais perto do povo, melhor. E o Centro da cidade, foi, é, e sempre será, o Centro. Para onde tudo converge. Por mais que se inventem modismos como shoppings, centros administrativos longínquos, etc., mas o Centro sempre será o Centro. Quando ele não mais existir, não será apenas ele que deixou de existir; mas a própria cidade, porque sua alma, o Centro, acabou. Pois bem, fica, portanto, o meu apelo às autoridades do Município e do Estado, para que resolvam esse problema, a meu ver, da melhor maneira possível: o Estado pondo o prédio do Guilhermino Bezerra à disposição da Secretaria Municipal de Cultura por tempo indeterminado, até que exista a necessidade de abrigar as instituições em questão; e esta, o aproveitando para ali alocar o museu e a biblioteca. Esperemos pelo milagre dos políticos abrindo mãos de suas vaidades e interesses pessoais em nome do bem maior. É difícil, mas não é impossível, certo, senhores  Jackson Barreto de Lima, Luciano Bispo de Lima, Valmir dos Santos Costa, José Teles de Mendonça, Maria Vieira Mendonça e Edvan Amorim?

sábado, 24 de agosto de 2013

Dedé de Pepeu.

Antes de ontem tomei um susto: no Facebook, uma amiga postou algo sugerindo algum problema com Ariano Suassuna. Aguçou minha curiosidade e, à minha pergunta sobre o que teria ocorrido, uma segunda amiga falou que ele tivera um infarto, mas que já estava tudo bem, fora de perigo, etc.. Aí, lembrei que na semana anterior o Carlos Mendonça havia me ligado alertando que o Suassuna estava no especial da TV Senado. Seria um pecado imperdoável perder. E lá fui eu me plantar diante da TV e nem vi o tempo passar, óbvio. Aí o Suassuna falou sobre as virtudes da mentira; a boa mentira, aquela que não faz mal a ninguém; apenas diverte e excita a fantasia porque, naturalmente, uma mentira fantástica. Lembrei de Seu Dedé de Pepeu, de quem nunca lhe soube o verdadeiro. 
Seu Dedé, que alcancei residindo no povoado Forno, próximo de onde morávamos, eu e minha família, tinha histórias do arco da velha. Era uma diversão, qualquer reunião social naquelas paragens e que tinha a sorte de contar com sua presença. Pantaleão, famoso personagem do inesquecível Chico Anizio perdia feio pra ele. Certa feita ele contou uma que, ao me recontarem, grudou-me na mente e nunca esqueci. Seu Dedé era sitiante e, como praticamente todo sitiante pobre da Itabaiana interior, também um mascate. Vendedor de seus produtos de feira em feira. Era tradicional uma linha que fazia, parece que imitando meu bisavô, sempre pela linha paterna, José Bomfim de Góis, que compreendia as feirinhas dos povoado Jenipapo e Urubutinga, e a própria feira do Lagarto, cidade em cujo município estão os dois povoados. Certa feita, numa sentinela, uma dessas mulheres curiosas começou a encher-lhe de perguntas sobre suas viagens e aí Seu Dedé saiu com a pérola a seguir. Certa vez vinha ele do Jenipapo, e, ao se aproximar do Rio Vaza-Barris lhe apareceu tanta mutuca, mas tanta mutuca que, segundo ele, ao matar a todas e guarda-las nos caçuás vazios, encheu todos os seis que trazia nas três burrinhas que também eram seu ganha pão. E o que fez das mutucas? Quis saber a curiosíssima senhora. Aí ele explicou que, depois de ter passado por tanto sufoco, não deixou por barato. Transportou-as até o sítio e aproveitou pra usá-las como fertilizante numa plantação de mandioca. Mas isso era pouco pra tanta curiosidade e, claro, a mulher queria mais. Ela quis saber se a mandioca fora produtiva. Aí o Seu Dedé resolveu finalizar com chave de ouro. Contou ele que um ano depois teve um dor de cabeça daquelas com um das burrinhas que desapareceu sem deixar rastro. Amarrada num bamburral na malhada e, simplesmente desapareceu. E aí, toca ele a procura-la e a procura-la; quando já se sentia desanimado ouviu um relincho e, claro, reconheceu de pronto: “minha burrinha!” Mas, onde? A busca agora se tornou frenética. Procurou por toda a pequena malhada e nada; aí, de repente a burrinha resolveu relinchar novamente. Mas... o relincho parecia vir de debaixo do chão? Como pode? Continuou sua busca servindo-se dos relinchos da burrinha até que descobriu o segredo: a coitadinha se soltara da corda a que estivera amarrada e foi em busca do mandiocal. Lá chegando encontrou uma raiz de mandioca e começou a comê-la; tanto comeu que se perdeu dentro da raiz e ficou sem saber dela sair... estava lá dentro a pobrezinha, já há dois dias. Claro, a mulher ficou um pouco duvidosa, mas, bom mentiroso não deixa dúvidas. Mesmo que sobrem algumas, vem logo algo como as respostas do Chicó, de Suassuna: “Não sei! Só sei que foi assim!”

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Por pessoa de satisfação na companhia da Itabaiana.

“Peço que tanto que Vossa Mercê receber esta me proponha na dita Companhia de Itabanhana pessoas que nella morem e dignas de se lhes mandar passar Patente, porque sou informado haver naquelle districto algumas de satisfação e desde logo hei por reformado o dito Luiz Pereira. Guarde Deus a Vossa Mercê. Bahia e julho, 22 de 1673. Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça.”ff 67. Carta que se escreveo ao Capitão mor de Sergipe del Rei, João Munhos para por pessoa de satisfação na Companhia da Itabanhana. De 22 de julho [1673]
Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, volume 05, p.17. Rio de Janeiro, 1878-1879.

Itabaiana é livre, porque livre é a alma de seu povo. Escrevi isso recentemente na Revista Perfil, deste agosto em curso, e replico aqui. Não é um lugar pra se deixar à toa. A mesma liberdade que produz progresso também produz excesso. Que não é saudável para nenhuma sociedade e deve ser tolhido, aparado, e conduzidas as suas energias unicamente para o progresso. A Justiça é o ponto chave de uma civilização. Foi isso que deu à República de Roma sua chance de se tornar imperial. O que infelizmente também a levou a corromper-se mortalmente, mas aí já é outra história. O fato é que a Segurança, por si só, pode represar os instintos selvagens de retorno ao primitivismo que cada um de nós carregamos; mas jamais produzirá efeitos duradouros porque não educante; não convencedor; não justo, como é o caso da Justiça. Juntos, porém, Justiça e Segurança levam inexoravelmente à Eunomia e à saúde do convívio social.
Ontem, dia 22, mais uma vez uma saraivada de prisões envolvendo graúdos de Itabaiana foi perpetrada. Excelente: a Polícia agiu. Cumpriu com sua parte no processo civilizatório. O problema é o porquê de ter chegado a este ponto; e não ser a primeira vez. Aliás, tem sido recorrente esses processos, em que pese insatisfatórios, porque é como se não estivessem recolocando as cousas em seus devidos lugares. Meras ações punitivas pontuais.
Em meados do século XVII, mais precisamente em 05 de novembro de 1656, uma rebelião contra a cobrança de impostos – extorsiva, diga-se - teve ligar em Sergipe com epicentro em Itabaiana. Somente quinze anos depois é foi completamente debelada; o que na prática destruiu o processo de colonização iniciado depois de primeiro de janeiro de 1590. Foi necessário um exército de paulistas, depois chamados pomposamente de bandeirantes, que pôs quase todo mundo à fuga, e a outros matou e espandongou. Num lugar de espírito tão liberal como o nosso, os cuidados devem ser redobrados. É como aquele garoto levado, hiperativo, inteligentíssimo que, sem bem guiado, será um grande cientista, um grande artista, ou mesmo empresário ou político, elementos tão carentes à sociedade humana; se mal conduzido, seja por repressão excessiva, seja por desleixo, se tornará um frustrado perigoso, no primeiro caso; ou um feroz criminoso, no segundo. Cronicamente temos tido o desleixo das autoridades policiais e judiciais. Vê-se isso no período colonial, no período monárquico, na anarquia da República Velha, e quase nada mudou desde então. Salvo lapsos momentâneos, sempre há carência de policiamento e, a Justiça, segue o padrão nacional. Num lugar onde energia e criatividade são o que não falta. Mesmo que não concorde com a verdadeira história de Rui Barbosa, mas o mesmo foi lancinante, perfeito, no seguinte pensamento “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra E A TER VERGONHA DE SER HONESTO.” É a que tem sido levado vários cidadãos itabaianenses que não mal usam a energia e a criatividade de que dispõem.
Passemos, pois, ao próximo Ato!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A luta entre o velho e novo.

Como dizem os mais velhos, pus a mão na boca quando um amigo em comum me veio dizer que a prefeita Maria Vieira Mendonça só saia da Prefeitura por volta das nove da noite e depois de examinar pessoalmente, tin-tin por tin-tin, em toda a administração, diariamente. “Vai dar tudo errado”, pensei. Era o terceiro ou quarto mês de sua administração, em 2005. Não deu tudo errado; mas o governo municipal não andou, não progrediu, não supriu as carências e principalmente as expectativas; e, no segundo ano de mandato seu irmão já perdeu uma eleição impensável de perder, a de deputado estadual. E mais dois anos depois, seu adversário, Luciano Bispo retornou, lhe retirando a reeleição. E nenhum político tem como bem administrar num ambiente negativo; onde tudo que faz é visto com outros olhos. E isso não é culpa do povo que, aliás, nunca tem culpa de nada: o político é que não teve a necessária sabedoria para agradá-lo.
Há um descompasso gigantesco entre o Brasil velho, todo ele entranhado na administração pública de alto a baixo; mas com mais persistência ao nível de Município, e o Brasil moderno da empresa ágil, do sistema bancário mais moderno do mundo - em que pese o mais caro - e do setor de serviços em geral, às vezes melhor que as mecas do capitalismo como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. É no Município onde as mazelas da nossa colonização, logo da fundação do Brasil, tanto persistem.
Tenho acompanhado a administração pública de meu município de Itabaiana a mais de três décadas, desde que me envolvi na política partidária e ao mesmo tempo nas comunicações, com inclusive a fundação de um efêmero jornal em março de 1982. Nunca gostei do que tenho visto. Na última administração de Luciano Bispo, se já andava descrente, a casa caiu quando no quarto mês da dita administração, uma estrela do grupo do Prefeito, ao comentar comigo sobre um assunto estratégico para a cidade, não somente desclassificou o objeto da minha preocupação – quase desdenhou – como em seguida me afirmou: “Não adianta lutar por isso; isso é assim mesmo e pronto!”
Um fato é relevante: boa parte da perda de controle das administrações tem sido por não saber administrar em tempos de inflação baixa. Luciano Bispo se elegeu a primeira vez quando a inflação chegava a até 1000 por cento ao ano; e Maria Mendonça e boa parte de seu staff, havia antes administrado o Município com inflação de até 300 por cento ao ano. Uma inflação dessas mói todos os salários, o que significa poder empregar mais gente com menos dinheiro. O atual prefeito é o primeiro relativamente descontaminado com isso; porém, ainda tem resquícios deste tempo consigo.
Mas o fato mais relevante nas administrações municipais que até aqui tivemos é sua total falta de profissionalismo e o total uso do improviso, onde os orçamentos são peças totalmente decorativas, pra fazerem frente às exigências de instâncias superiores, especialmente a União.
Não há propriamente uma burocracia de Estado no Município de Itabaiana. Por outro lado, tenho observado que a pretensa melhoria neste quesito tem se perdido na ineficiência de gestão, tornando o modelo antigo, do compadrio e apadrinhamento até mais eficiente. Fui testemunha de uma experiência pra lá de complicada. Uma pessoa de excelente nível técnico foi colocada pra gerenciar certo local.  Como disse, tecnicamente em sua área, irrepreensível, contudo, o que veio ganhar com a função era irrisório para dedicar-se exclusivamente, e por isso não abriu mão de outros vínculos empregatícios que tinha. Logo transformou sua vida e a vida de todos os seus subalternos num inferno. À não presença buscou compensar com o que há de pior na natureza humana: o puxa-saquismo. Contou-se em certo momento dez pessoas que “entregavam” umas às outras e a terceiros via celular... a administração on line; no pior sentido. O ambiente de trabalho virou um inferno e ela perdeu o controle muito mais rápido do que se possa imaginar. Como resultado, os novos contratados mediante concurso público logo estavam repletos de vícios e “de direitos”; os nomeados por partidarismo em luta constante entre si e o serviço a degringolar. Somente por sorte, pura sorte, o prefeito resolveu nomear uma pessoa a pedido de outra que conseguiu contornar a situação e por ordem na casa sem maiores danos. O medo de errar tolhe a ousadia e a iniciativa. E o medo de errar é justamente o produto do obsessivo controle e vigilância. Uma espécie de terrorismo auto-infligido.
Os nossos políticos e politiqueiros não demonstram saber trabalhar num Estado moderno; onde a política sirva pra resolver as pendências coletivas, e não apenas as vantagens estritamente pessoais de cada um. Não bem administram no sistema velho, porque agigantado e por isso viciado, carcomido de corrupção; e não sabem, ou nem querem saber um mínimo sobre como usar a técnica da boa administração para fortalecer a política, inclusive suas próprias permanências nela.
Outro dado é importante frisar. No caso específico do Município de Itabaiana, o mesmo há 30 anos era responsável por menos de 50 por cento da alfabetização e zero por cento nos graus mais adiantadas na Educação; no caso da Saúde, mal possuía um médico ocasional. Até o serviço de odontologia a escolares seguia o curso das verbas federais. O funcionalismo se restringia aos poucos da Educação, os poucos da área fazendária, da tímida assistência social, esta majoritariamente feita pelos politiqueiros, e à burocracia propriamente dita. A modernização a fórceps pós Constituição de 1988, a municipalização da Saúde e da Educação e outras áreas menos visíveis tornou obrigatória à administração pública municipal o ingresso na administração técnica. Que não tem ocorrido satisfatoriamente. E, quanto mais tempo isso demorar, mais problemas acarretarão a todos; inclusive aos que supõe tirar vantagens da bagunça.
Nenhum prefeito pode prescindir de um bom secretário; e para ser um bom secretário, na atual estrutura administrativa do Município de Itabaiana, este tem de assumir com no mínimo umas cinco pessoas de sua inteira confiança e capacidade, nas secretarias menores. No caso das áreas da Saúde e da Educação, esse leque de pessoal é muito mais amplo porque o Município conta com mais 30 postos de Saúde e mais de 40 unidades municipais de ensino em todo ele. Na Saúde ainda mais porque ainda existem pelo menos dez programas de Saúde específicos, que demandam corpo técnico qualificado, mas ao mesmo tempo não podem prescindir do sátrapa; do “olho do dono”, ou seja, gente que administre tecnicamente, mas sem perder o viés político. Já que não existe nem deve existir administração pública sem política; já que do povo, para o povo e pelo povo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Simplicidade dos pequenos gestos.

Chego na lanchonete para pedir o cafezinho. Antes mesmo que faça o pedido, o garçon, um garotão de menos de dezoito me traz a mercadoria. O estabelecimento é tocado pelo seu cunhado, que nele emprega pelo menos uns cinco da família. O atendimento é muito bom, por sinal, todos atenciosos. Mas o que me chamou a atenção segunda-feira última, 15, foi a recepção pelo próprio dono. Ele sempre me recebeu bem, mas segunda-feira foi especial. Havia um brilho diferente em seus olhos. Que logo descobri o porquê. Ao me aproximar do balcão de atendimento, enquanto o rapaz me servia o cafezinho ele, o dono, primeiro acenou, em seguida se aproximou e emendou:
- Oh, pensei que tivesse ficado de mal da casa!
Aí me caiu a ficha: há quase dois anos que aboli o cafezinho por conta de certa elevação na taxa de glicose sanguínea que, claro, ele não ficou sabendo. Ao me sentir afastar de seu estabelecimento onde era habitual, apesar de sempre me ver passando, logo começou a matutar que eu tivesse tido algum tipo de contrariedade. Que nunca teve oportunidade de me perguntar, nem eu, obviamente de explicar. Desfeito os seus temores com a minha explicação, ele abriu um sorrisão e lá se foi cuidar de seus afazeres, enquanto eu, me sentindo feliz pela segurança que tais atitudes de acolhimento nos produzem, tomei meu caminho e fui embora de goela e estômago reconfortados pelo saboroso cafezinho.
Coisas tão simples e que tanto valem.